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A menina Lisa

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A menina Lisa

Capítulo 3 · A menina Lisa

Na botica

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Quando a menina Adriana entra enfim na botica, que é quase à esquina da rua Meslée e da rua do Templo, havia lá tanta gente, que os praticantes não sabiam a quem haviam de atender primeiro. Demais de isso, é muito raro achar uma botica deserta; a concorrência abunda em estes laboratórios, onde todos esperamos encontrar remédio ou pelo menos alívio para os nossos sofrimentos ou para os das pessoas que nos são caras. Se isto prova que a profissão é boa, prova também que o nosso físico tem amiudadas vezes necessidade de reparo, e que estamos longe de ser perfeitos; é, pelo menos, aquilo de que estamos convencidos há muito tempo.

Entre os fregueses da botica torna-se saliente uma mulher gorda, que segura pela mão uma criança de quatro a cinco anos, que está de tal modo embrulhada em casacos, aventais e chales, que é difícil adivinhar se é rapaz ou rapariga; a mãe dirige-se a um dos praticantes:

—Olhe, senhor, o meu pequeno anda há três dias com uma tosse, que me parte o coração ouvi-lo tossir: são uns ataques como tinha o pai, que padecia de um catarro que o não deixava pregar olho toda a noite, e que o levou à cova o ano passado, com uma indigestão que apanhou em consequência de um banho de vapor, porque...

—Mas, minha senhora, agora não se trata de seu marido, visto que morreu; trata-se do seu pequeno, que está constipado; creio que é por causa de ele que a senhora cá vem?

—De certo; olhe, aqui o tem, é uma joia.

—É o seu menino?

—Sim, senhor.

—Parecia uma menina.

—Por causa do seu ar malicioso? ah! sim, que ele é muito malicioso; mas veja como está vermelho.

—Não admira! a senhora trá-lo tão embrulhado, que o pequeno deve por força sentir muito calor.

—Mas, como ele anda com tosse...

—Não é uma razão para o sufocar.

—O que é então preciso fazer-lhe tomar?

—Uma tisana de flor de malva com mel, e pode também dar-lhe um pouco de leite.

—De vaca?

—Já se vê.

—Tinham-me dito que lhe fizesse tomar leite de burra.

—Não é preciso, o menino é ainda muito novo, e não tem cara de quem padece do peito.

—Veja se tem febre.

O praticante quer pegar na mão do pequeno, mas este foge com ela rompendo em altos gritos.

—Então, Dodoro! porque é que não queres que este senhor te pegue na mão? dá-lhe já a mão depressa, patife.

—Não quero! não quero!

—É travesso como um macaco. Faze lá uma careta a este senhor.

—Não quero!

—Então, é ou não velhaco?

—Não lhe tem respeito nenhum.

—Ele é ainda tão pequeno, e depois aprendeu a responder assim com o pai. Isto faz-me lembrar tanto o meu homem! Faça favor de me dar a flor de malva e o mel.

—Sim, senhora, vou aviá-la imediatamente.

—E não lhe parece que seria melhor dar-lhe leite de burra?

—Não, senhora; torno-lhe a dizer que o seu menino não precisa de isso. Mas enfim, se a senhora quer dar-lho por força, mal não lhe pode ele fazer.

—Não acha? O senhor não tem cá uma burra?

—Oh! não, senhora, nós não temos leite de burra!

—Que pena! pois ao pé de mim mora uma vizinha que tem uma cabra; o senhor não acha que o leite de cabra lhe faria o mesmo efeito?

—Todos os leites que quiser; o leite não faz nunca mal. Aqui tem a flor de malva e o mel.

—Muito agradecida; isto é para beber quente?

—Tanto quanto seja possível; sempre é melhor tomá-lo quente do que frio...

—Dodoro, atira lá um beijo a este senhor...

Em vez de atirar um beijo, e rapazinho faz uma careta, deitando a língua de fora, e resmunga:

—Não quero! não quero!

A mãe pega em lé e retira-se, exclamando:

—Ah! é exatamente como o pai!...

Uma senhora, de meia idade, com certa garridice no trajo e nas maneiras, dirige-se a outro praticante, requebrando-se toda e fazendo boquinha de sorriso, para deixar ver uma dentadura completamente postiça, mas que ela supõe que imita a natural de modo a iludir os mais espertos, e diz-lhe:

—Acontece-me um desastre bem desagradável, e venho pedir-lhe que me tire isto quanto antes...

—O que é que precisa tirar, minha senhora? Se é algum dente, nós não somos dentistas...

—Não, senhor, não se trata de dentes; por esse lado não preciso nada, graças a Deus! e o senhor bem o deve ver... mas olhe aqui para cima da minha boca; o que é que vê?

—Vejo o seu nariz, minha senhora, e de ordinário é em esse sítio que ele se encontra.

—Sim, senhor, está o meu nariz, que tem uma forma bastante engraçada, posso dizê-lo sem desvanecimento; mas sobre o nariz... aqui... à esquerda, não vê nada?

—Ah! sim, vejo uma borbulha... já bastante pronunciada e que está mesmo muito vermelha.

—Está vermelha e pronunciada!... ah! senhor! o que quer isso dizer!...

—Quer dizer que ainda não está madura.

—Madura! como madura? o senhor acha que isto deve amadurecer?

—Naturalmente, minha senhora: não é mais que uma borbulhita, por enquanto, mas assim mesmo tem de seguir o seu curso... amadurecer, criar cabeça, rebentar e sarar...

—Amadurecer, criar cabeça!.. pois eu havia de ter uma borbulha com cabeça no nariz! ah! que horror!... não quero tal coisa!... eu, que nunca tive a mais pequena beliscadura em parte alguma... entende, senhor? em parte alguma... porque me viria nascer uma borbulha no nariz?... qual pode ser a causa de isto?

—Ignoro totalmente, minha senhora; mas uma borbulha nasce sem se saber porquê; isso pode acontecer a toda a gente!...

—Oh! não, senhor, quando se é de um asseio minucioso, isto não deve acontecer... Eu não fui meter o nariz em sítios insalubres, pode acreditar-me!

—Estou persuadido de isso, minha senhora!

—Lavo-me vinte vezes por dia! esfrego-me com cold-cream, com vinagre de Bully, com água de Portugal, com essência de jasmim...

—São coisas de mais, minha senhora, é preciso não abusar dos cosméticos, isso produz às vezes um efeito muito diverso de aquele que se espera...

—Enfim, o senhor vai-me dar alguma coisa para fazer desaparecer isto que me nasceu aqui, logo no nariz... é preciso que se não veja nem o sinal...

—Minha senhora, isso há de ser muito difícil... seria mesmo perigoso; com o nariz não se deve brincar... Já consultou o seu médico?

—Um médico para uma borbulhita... ora essa. Em primeiro lugar, eu não posso ver os médicos, detesto-os, querem sempre purgar-me! E eu não me quero purgar, não quero!

—Faz mal, minha senhora, porque se se tivesse purgado, é provável que essa borbulha não lhe nascesse no nariz.

—Com que é preciso untar esta borbulha para que desapareça imediatamente? Deve haver algum remédio.

—Minha senhora, advirto-a de que será perigoso; se faz recolher essa borbulha, hão de rebentar-lhe muitas outras em outros sítios!

—em outros sítios não me importa, contanto que não seja na cara.

—A senhora quer?

—Sim, senhor, vou amanhã a uma soirée... quero ir sem borbulha.

—Então aqui tem ceroto de chumbo, minha senhora, para fazer secar a sua borbulhinha...

—Oh! muito obrigada, vou untar bem todo o nariz!...

—Só a borbulha, minha senhora... mas previno-a de que lhe hão-de nascer outras...

—Muito bem... farei recolher todas.

A senhora pega no seu boiãozinho de ceroto, paga e vai-se embora, muito contente por ter com que curar ou pelo menos dissimular a sua borbulha.

É substituída por um sujeito moço, bem abafado, mas que tem maú parecer, e se aproxima do praticante com um ar acanhado. Os estudantes de farmácia sabem muito de isto; adivinham logo por que razão este senhor os quer consultor e vão ao seu encontro. Efetivamente, ele fala-lhes ao ouvido; e então fazem-no passar para uma salinha que fica por traz da botica. Ali, o homem explica o seu caso, sempre a meia voz. Dão-lhe uma caixa de pilulas, umas poucas de raízes de morangueiro para fazer tisana, uma garrafa com um xarope já preparado, e o homem leva tudo isto, dando um profundo suspiro.

Os praticantes da farmácia olham uns para os outros sorrindo, e um de eles murmura:

—Os deuses! responde outro, quer dizer, foi só Mercúrio que assim o quis! É o Deus do comércio; terá lá dito consigo: Isto há-de-me fazer vender muito.

—Meus senhores! vamos! tomem cuidado nas suas palavras! diz o rapaz que está sentado à carteira.

—Oh! não há perigo, as senhoras não sabem latim!

Chega um velho gordo, bufando, e atira consigo para cima de uma cadeira, dizendo:

—Ah! senhores, que dor! Irra! que dor!

—O que foi isso? deu alguma queda?

—Não, oh! não dei queda nenhuma; não me faltava mais nada!... É uma dor que me apanha desde o quadril até ao joelho, do lado direito...

—E essa dor deu-lhe agora quando ia andando?

—Deu-me agora? Há três semanas que padeço de ela. Não lhe tenho feito nada, porque dizia sempre comigo! Isto há de passar! mas, qual história! não me passa. Por isso é que me resolvi a vir...

—Teria feito melhor em vir mais cedo.

—Ah! é que eu não gosto de tomar remédios de botica! Receitem-me túberas, lagosta, Champagne, então bem! aplicarei a receita imediatamente.

—Tem talvez abusado de tudo isso, e aí está o motivo por que tem agora dores. Consultou já algum médico?

—Tenho consultado dez, doze, vinte. Cada vez que me acho em um sítio onda há um médico, trato logo de o consultar.

—O que lhe disseram eles que era?

—Um diz que é reumatismo; outro que é uma dor ciática; este diz que é gota; aquele, que é só cansaço. Todos eles me têm receitado umas fricções.

—De quê?

—De bálsamo de Opodeldoch, de bálsamo Tranquilo, de bálsamo de Fioravanti! e ainda muitos outros bálsamos... Eu, como tenho excelente rum, verdadeiro rum da Jamaica, tive a lembrança de dar umas fricções com ele...

—Não era mau.

—Não é verdade? Ora, como não tenho criado, pedi ao meu porteiro que me viesse dar as fricções; ele promptificou-se da melhor vontade. Dei-lhe o rum, e deitei-me sobre o lado que me não dói. O porteiro esfregava-me com toda a força... fazia-me arder a pele como todos os diabos! O homem descansava muito a miúdo. Tenho uma vez a lembrança de me voltar, e dou com ele a beber-me o rum mesmo pela botija; o maroto esfregava-me em seco! Nunca mais quis que ele me desse as fricções. Os senhores podem-me arranjar uma mulher para me fazer este serviço, antes quero uma mulher que um homem...

—Podemos inculcar-lhe uma mulher que deita bichas e ventosas, e também dá fricções quando é necessário.

—É moça?

—Cinquenta a sessenta anos.

—Preferia-a de vinte e cinco a trinta.

—Que importa, contanto que ela lhe dê bem as fricções. Uma mulher nova poderia causar-lhe distrações, e é isso que é preciso evitar.

—Ah! o senhor acha que as distrações são contrarias à minha dor?...

—Certamente. Também seria bom deitar umas ventosas e alguns cáusticos volantes.

—Oh! enquanto estiver em este estado não ponho dificuldades a coisa nenhuma, farei uso de tudo para me curar mais depressa. Aqui tem a minha morada, mande-me lá amanhã a tal mulher com as bichas, as ventosas e os cáusticos.

—Mas não vá aplicar tudo isso ao mesmo tempo.

—Com certeza que vou; a coisa assim vai mais depressa! Olhe, eu nunca faço remédios! mas quando me resolvo a isso, então não quero privar-me de nada. Dê cá sempre um bálsamo qualquer, tratarei de me untar e esfregar eu mesmo enquanto a tal mulher não aparece.

Enquanto estão aviando este senhor, entra muito aflita uma mulher de lencinho na cabeça, e dirige-se logo ao rapaz que está sentado à carteira:

—Ah! meu caro sr. Narciso! que má sorte que me persegue desde certo tempo para cá! Mal a minha pequena está restabelecida do catarral e o meu rapaz do sarampo, e aí me cai o meu homem doente, sem poder trabalhar! é o remate da desgraça!

—Mas o que é que o seu marido tem?

—Ora! uma moléstia esquisita... mas parece que é perigosa. Faça ideia, tem um antraz!

—Um antraz! que me diz?!

—Foi o que disse o médico, que é um sábio, e que disse logo: Não tem que ver! é um antraz! Aqui está o que tem o meu André, nasceu-lhe um antraz nas costas! Aquilo foi um golpe de ar, não é verdade?

—Não, mas é uma coisa muito má; a senhora deve trazer uma receita.

—Sim, senhor, oh! de certo o médico escreveu tudo isto... Levará muito tempo a fazer?

—Não, faça favor de se sentar e de esperar cinco minutos; vou já despachá-la.

—Então espero.

Entra na botica, com ar assustado, uma senhora já velha, trazendo um cãozinho atrelado, e exclama:

—Meus senhores, é verdade estar já em Paris, ter já feito muitos estragos? ataca com muita força?

—Perdão, minha senhora, mas de quem é que fala?

—Do cólera, senhor, disseram-me que já estava em Paris, que tinha aparecido no arrabalde de Santo Antônio.

—É a primeira vez que ouço falar de semelhante coisa, minha senhora.

—Deveras, não tem ouvido falar em tal?

—Não, minha senhora.

—O que confirmava os meus receios, foi que ao passar por diante de uns urinóis, reparei que os estavam alimpando com cloreto.

—Isso faz-se muito amiúde, é para destruir o mau cheiro...

—Acha que é só para esse fim? Devo também dizer-lhe que tenho uma amiga a quem acaba de morrer o marido muito repentinamente.

—Uma apoplexia, talvez.

—Oh! não, senhor, ele não era sanguíneo; mas voltou uma noite para casa com uma lagosta e um salsichão de Lyon, era o seu petisco favorito acompanhado de muita cerveja. Comeu menos mal; mas no outro dia pela manhã estava morto e da cor do salsichão.

—Teve uma indigestão, minha senhora.

—Mas ele já muitas vezes tinha comido tanto como de essa vez e não morrera.

—Essas coisa não acontecem nunca duas vezes, minha senhora.

—Aí está também o pequeno da minha porteira, um rapazito sadio e corado, pois está há três dias com uma dor de barriga e com uma disenteria.

—Isso é muito comum nas crianças.

—Enfim, acabo de encontrar um sujeito que jantou em minha casa há quinze dias, e estava então de perfeita saúde. Achei-o muito amarelo, com os olhos encovados, mudado a ponto que não me pude conter que lhe não dissesse: «Ai! Jesus! que cara que o senhor tem!» então está doente? E ele responde-me: Não sei o que tenho, sinto dores por todo o corpo. É assim que principia o cólera?

—Não, minha senhora, esse sujeito tem provavelmente uma grande constipação, é o que é.

—Oh! não importa, asseguro-lhe que anda no ar alguma coisa que não é natural. Eu esta manhã tinha quase frio quando me levantei, e agora estou com muito calor!

—É que andou muito depressa.

—Não, senhor; o Zozor obriga-me a parar a cada instante; o pobre animalzinho também não está no seu estado normal... Faça favor de me dar uma pouca de cânfora, sei que é um preservativo contra as más emanações.

—Vou dar-lha imediatamente.

—Meterei um pedaço no meu espartilho: isso não me pode fazer mal.

—Pelo contrário, minha senhora.

—Há de dar-me também um pouco de cloro; é outro preservativo.

—Liquido ou solido, minha senhora?

—Não compreendo.

—Minha senhora, solido é em pó; liquido é em garrafa, uma água preparada.

—Ah! eu não conhecia o solido. Dê-me dos dois, farei uso de ambos; lavar-me-ei com um, e trarei comigo o outro. Ah! tem arruda?

—Tenho, sim, minha senhora.

—É também um preservativo.

—Afugenta os insetos.

—Oh! e preserva também do mau ar, dê-me uma pouca; hei de trazê-la sempre no espartilho.

—Fará a senhora muito bem.

—A alfazema também tem propriedades reconhecidas?

—Tem, sim, minha senhora, é aromática.

—Dê-me também uma porção de alfazema, que é para trazer nas algibeiras. Que mais me poderá o senhor dar que seja contra os maus ares? Ah! patchouli... tem patchouli?

—Não, minha senhora, isso vende-se nas perfumarias; mas olhe que o patchouli cheira muito bem mas não combate o mau ar, e, se abusar de ele, pode alguma vez atacar-lhe o sistema nervoso.

—Ah! eu não quero nada que ataque o meu sistema; a mais pequena coisa me irrita os nervos!

—Então, minha senhora, leve antes valeriana, é uma raiz com que se faz uma infusão como o chá. Contudo, devo preveni-la de que não é agradável de beber, e que tem muito mau cheiro, mas é muito saudável.

—Oh! dê-me cá de essa raiz, bebel-a-ei e tral-a-ei sempre comigo.

O praticante dá a esta senhora tudo quanto ela lhe pede; ela enche as algibeiras e o seio de cânfora, arruda, cloro, alfazema, valeriana, e leva uma garrafa de água cloretada. Vai deixando por onde passa uma mistura de cheiros cuja reunião nada tem de agradável.

—Se esta senhora não tem à noite uma forte enxaqueca, será um grande milagre! diz um dos rapazes.

—Não falando em todos os gatos que vão correr e saltar atrás de ela, atraídos pelo cheiro da valeriana, que os faz quase endoudecer. Se não gosta de gatos, vai ver-se muito apoquentada.

Entra na botica um pedreiro mostrando o braço esquerdo todo ferido; ia sendo esmagado por uma trave que quase lhe caiu em cima, mas apenas apanhou um forte raspão no antebraço. Curam-no, ligam-lhe a ferida, dão-lhe um frasco de água-ardente canforada, para ele embeber o aparelho, e, quando quer pagar, despedem-no dizendo:

—Nós não aceitamos nada aos doentes pobres! Vá-se tratar, e, se tiver precisão de mais alguma coisa, não receie vir pedi-lo que não lhe custará nada.

Hão-de convir que, quando a gente vê os farmacêuticos mostrarem-se tão solícitos em socorrer os desgraçados, não deve ter mais a confiança de os tratar por boticários.

No entanto têm entrado na farmácia muitas criadas de servir; falam todas ao mesmo tempo, e dizem:

—Vá! despache-me, que estou com pressa.

—Oh senhor, eu tenho tosse: dê-me rebuçados de alteia! são muito bons! Aqui está um remédio que me agrada.

—A mim dói-me a garganta...

—Tome gargarejos de água de cevada com mel rosado...

—Minha ama quer pomada para os beiços, não há pomada que lhe chegue; eu não uso de isso, e tenho a boca mais fresca do que ela.

—Eu fiz um galo na testa, e dói-me muito.

—Deu alguma pancada?

—Foi em uma porta. Eu estava muito quieta, de repente abriram-na... eu não esperava...

—Provavelmente estava a escutar?

—Efetivamente escutava; tinha chegado o magnetizador?

—O que é isso de magnetizador?

—É um sujeito que anda ensinando a senhora a ser sonâmbula lucida, para fazer experiencias em sociedade.

—Ah! sua ama quer ser sonâmbula?

—É verdade, meteu-se-lhe aquilo na cabeça; por mais que o marido lhe diga: «Olha que vais adoecer!» a senhora não desiste. E, quando chega o magnetizador, mandam-me embora.

—E o marido?

—Meu amo? oh! esse está na repartição; sai de casa às nove horas, e só volta às cinco, é coisa sabida.

—Percebo. Onde é que deu a pancada?

—Aqui, na testa... apalpe...

—Ah! sim, cá sinto.

—Meu amo disse-me que não precisava fazer-lhe nada, que os galos na testa não são perigosos. Ele deve entender de isto...

—Tome sempre cosimento de vulneraria, será mais prudente.

—Então arranje-me isso em um instante.

Abre-se a porta, e sente-se um cheiro fortíssimo; é a velha dos preservativos que volta, dizendo:

—Senhor, esqueci-me de levar água de melissa dos Carmelitas; é uma coisa indispensável quando a gente se sente incomodada; podem-se também esfregar as fontes com ela; é um preservativo... faça favor de me dar um frasco.

—Aqui está, minha senhora.

—Esta é da verdadeira, não é assim? o senhor não quererá enganar-me! É dos verdadeiros Carmelitas, da verdadeira rua Taranne?

—Minha senhora, eu não conheço duas em Paris:

—Muito agradecida.

A velha mete o frasco na algibeira e retira-se.

A menina Adriana entra enfim na farmácia, exclamando:

—Ah! cá estou finalmente! ainda bem! pensei que não chegaria nunca...

—Tem alguém doente em casa, menina Adriana?

—Tenho; é minha ama que está com o seu ataque nervoso, com a sua crise, e com um grande tremor. Tome, aqui tem a receita, avie-me depressa... eu vim a correr quanto pude, agora não me demore muito tempo...

—Sente-se, que vou já despachá-la.

—Ah! agradeço-lhe muito a sua bondade! é que me faz muita pena ver sofrer a pobre de minha ama.

Começa o praticante a aviar a receita da sr.ª Montémolly, quando se abre de novo a porta, e invade a farmácia uma mistura de cheiros ativíssimos; é a senhora que tem medo do cólera, que torna a entrar e vai importunar o rapaz que está ao balcão, exclamando:

—Ah! senhor! não pode fazer ideia de como cheira mal a rua Meslée!...

—Sinto muito, mas que quer que lhe faça?

—Anda alguma coisa no ar, oh! certamente, o ar está maú em este momento!...

—É talvez uma trovoada que se prepara!...

—Oh! o que se prepara é outra coisa. Quer ter a bondade de me desrolhar o meu frasco de água de Melissa? Se me dá licença, vou esfregar o nariz e as fontes, e então poderei afrontar com menos susto os miasmas da rua.

—Faça o que quiser, minha senhora, aqui tem o seu frasco aberto; quer uma xícara?

—Bastará a ponta do meu lenço, vou embebê-la muito bem...

Efetivamente, esta senhora deita água de Melissa no lenço, depois esfrega as fontes, lava o nariz, introduz tanto quanto pode o lenço molhado nas ventas, esfrega também a testa, deita água de Melissa na palma da mão, depois aspira-a a ponto de espirrar oito vezes a fio. Enfim acabada esta cerimônia, torna a rolhar o frasco, mete-o na algibeira, vai-se, dizendo:

—de esta vez, creio que estou bem preservada do maú ar!...

—Oh! sim, minha senhora, está bem preservada, exclama o aprendiz de boticário. Folgo de crer que também nós o estamos agora das suas visitas. Que freguesa!...

—Mas é ela que empesta a gente, diz Adriana; o que foi então que o senhor deu àquela senhora?

—Tudo o que ela quis!...

—Qual é a doença de ela?

—A doença é medo, que é o mal mais comum e que nos manda cá mais gente. Esta senhora tem medo do cólera; outras têm medo de uma moléstia de que não apresentam o mais pequeno sintoma mas de que se julgam ameaçadas... o medo não raciocina! Ninguém faz ideia de quantos fregueses ele nos arranja...

—Ai! com a breca! exclama um dos praticantes, ei-la aí outra vez de volta conosco!...

—Quem?

—A senhora dos preservativos...

—Ora essa! nada, isso agora torna-se forte de mais. Que mais quererá ela lavar aqui? isto começa a dar-me cuidado.

A senhora, que recende fortemente, abre a porta e para no limiar, dizendo:

—Perdão, meus senhores, uma pergunta, se me dão licença... Se eu tomasse tabaco?... É uma coisa que também deve preservar, penso eu?...

—Sim, minha senhora, de certo, tome tabaco... tome mesmo muito; não cheirará mais nada!...

—Então faça favor de me dar uma porção de tabaco...

—Nós não vendemos tabaco, minha senhora, no boulevard encontra-o logo.

—Corro a comprá-lo. Cheirarei primeiramente, e depois talvez me arrisque a fumar um cigarrinho; as senhoras agora fumam, não é verdade?

—Sim, minha senhora. Oh! as senhoras fumam, fazem agora tudo o que fazem os homens; isso não as aformoseia, mas diverte-as...

—Oh! mas eu cá, não é com o fim de me aformosear, é para afrontar os maús ares. Vou comprar tabaco...

—Vá, minha senhora, vá! diz o jovem farmacêutico fechando-lhe a porta nas costas; cheire, fume, masque mesmo, se isso lhe dá prazer mas, por favor, deixe-nos sossegados um instante! Tome, menina Adriana, aqui tem o remédio para sua ama...

—Obrigada; vou de corrida levar-lho... faz-me tanta pena vê-la sofrer!... Boa tarde, meus senhores...

A criada grave retira-se, e de esta vez chega a casa sem ter tido outros encontros. Quando passa diz à porteira:

—Aqui me tem; cá trago o remédio; pensei que não acabavam de me aviar hoje; havia muita gente na botica...

—Pois olhe, não vale a pena apressar-se...

—Então porquê, sr.ª Bedou?

—Porque sua ama saiu de carruagem com a sua amiga, há já bastante tempo...

—A senhora saiu! oh! isso era de esperar! vá lá uma pessoa estafar-se a correr para dar conta do seu recado! vá lá a gente privar-se de conversar com os seus conhecimentos! Ah! esta não me há de esquecer...


A menina Lisa

Sinopse

Leia gratuitamente A menina Lisa, de Paul de Kock, em versão portuguesa anônima publicada em Lisboa em 1907. Esta edição Literunico preserva o prefácio e os 18 capítulos integrais, com normalização ortográfica conservadora para PT-BR moderno.

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