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A menina Lisa

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A menina Lisa

Capítulo 12 · A menina Lisa

O vinho quinado

12 de 19 ≈ 11 min de leitura

Um dia de manhã, Casimiro fica agradavelmente surpreendido ao receber a visita do lojista em casa de quem expôs o seu quadrozinho, e que se aproxima de ele dizendo:

—Temos comprador para o seu quadro por quatrocentos e cinquenta francos, quer dá-lo?

O jovem pintor receia ter ouvido mal, abre muito os olhos para se certificar de que é efetivamente o seu negociante de quadros que está diante de ele, e exclama:

—Quatrocentos e cinquenta francos, diz o senhor? é pela minha vista de Bougival que lhe oferecem esse dinheiro?

—Sim, se lhe convém, é negócio feito, e pode logo passar por minha casa para receber o dinheiro.

—Se me convém! isso deixa-me encantado, enche-me de alegria, nunca teria ousado pedir tanto.

—Eu tinha pedido quinhentos francos, e estou certo de que, se o senhor quisesse esperar, acabaríamos por achar quem os desse.

—Nada, não, não quero esperar, parece-me que fica muito bem pago, demais, visto que se acha valor aos meus quadros, pintarei outros.

—E fará muito bem. Trabalhe, sr. Casimiro, dê-se antes àquele gênero que a outro qualquer. Creio que lhe será isso muito mais rendoso que o retrato. O senhor é colorista, o que é um dom da natureza; conheço pintores de talento que não têm o menor sentimento da cor; têm uma figura para fazer, empregam a primeira coisa que acham no pincel; está perfeitamente desenhada, é espirituosa de atitude, de maneira, de ideias. Reina porém em tudo aquilo um tom pardo-escuro que tira ao quadro toda a graça que deveria ter. A esses, não peçam nunca luz, claridade, sol; é-lhes impossível meterem de isso nos seus quadros. Trabalhe, que nós o auxiliaremos.

Assim que o lojista se retira, Casimiro põe-se a pular e a dançar no quarto. Não é a ideia de que vai receber quatrocentos e cinquenta francos que o torna tão alegre; graças à generosidade da sua amante, tem tido muitas vezes quantias maiores à sua disposição; mas é o pensamento de que esse dinheiro é o fruto do seu trabalho, que ele soube ganhar por si mesmo, e que quando o receber, poderá metê-lo na algibeira sem corar.

—Nada faltaria agora à sua felicidade, se a sua vizinha do quinto andar consentisse em deixá-lo fazer-lhe o retrato; não conseguiu ainda vencer a sua resistência, e contudo Rouflard disse-lhe no dia anterior:

—Está-me parecendo que a menina Lisa não tardará a deixar-se retratar, porque o médico que trata da sua velha doente tem vindo vê-las estes dias; receitou uma nova beberagem, creio que é vinho quinado. Seria preciso que a boa da velha o tomasse todos os dias, e, com a breca! aquele vinho é caro; as garrafas são muito pequenas despejam-se em dois goles. A pequena levanta-se ainda mais cedo, vela ainda até mais tarde para arranjar o vinho quinado; mas creio que lhe custa a chegar. Não faria ela cem vezes melhor em se deixar tomar por modelo? Ainda ontem lho disse. Suba lá o senhor, é agora a ocasião, eu conheço as mulheres, tanto quanto a gente as pode conhecer; mas olhe, com elas, o que é preciso é aproveitar a ocasião.

Casimiro trata logo de pôr em prática o conselho de Rouflard, e sobe de novo a casa da menina Lisa. Todas as vezes que se dirige ali, sente uma viva comoção e o seu coração bate mais apressado. Contudo, tem dito muitas vezes a si próprio que não devia pensar em fazer a corte a Lisa; que aquela pequena era honesta, e que da parte de ele seria muito mal feito procurar seduzi-la, perturbar-lhe o sossego e fazer-lhe deixar a vereda da honra, na qual, como diz o poeta: é difícil entrar uma vez que se esteja fora.

Casimiro disse consigo tudo isto e muitas outras coisas, o que não impede que, ao olharem para a linda cara de aquela menina, os seus olhos não tenham uma expressão que não é de modo algum a da indiferença, e que a sua voz se não faça mais suave e mais insinuante.

Pela sua parte, Lisa sente-se inteiramente outra desde que travou conhecimento com o seu vizinho do terceiro andar. Tem-se mostrado para com ela tão delicado, e sobretudo tão respeitoso, que a rapariga pergunta a si mesma por que receia conceder-lhe o favor que ele solicita. Mas pergunta isto muitas vezes de mais; pensa em Casimiro todo o dia, não pode já reprimir-se de o fazer, e, apesar de toda a sua inocência, uma donzela de dezoito anos adivinha perfeitamente que é muito perigoso estar sempre a pensar em um rapaz, ocupar-se constantemente de ele; e, ainda que esse rapaz lhe não tenha dito uma única palavra de amor, ainda que não a veja senão diante de sua avó, a donzela deve conservar-se acautelada contra o sentimento que se lhe introduz na alma, e sobretudo não se expôr a amar alguém que não pensa em ela senão para lhe tirar o retrato.

É com receio de tomar demasiado gosto em se achar só com o seu jovem vizinho, que Lisa recusa sempre deixar-se retratar por ele.

Mas no meio de tudo isto, chegou aquela receita de quina em vinho de Malaga. Os malditos médicos não se importam com as posses dos seus doentes; receitam o que é favorável ao restabelecimento da saúde, e tanto pior para o enfermo se não pode comprar o remédio; eles cumpriram a sua missão.

Lisa havia comprado uma garrafinha do vinho receitado; fizera-o beber à sua velha doente, a quem isso havia dado grandes melhoras. Mas essa garrafinha fora bebida em sete dias, e ainda se não tinha comprado outra.

Este maldito vinho quinado preocupava agora Lisa quase tanto como Casimiro, e, como na vida todas as coisas têm o seu ricochete, ela não podia deixar de dizer de si para para si:

—Se eu me resolvesse a servir de modelo, bem depressa teria vinho quinado.

Rouflard não se enganara pois nas suas conjeturas, e, com efeito, ao ver entrar Casimiro no seu aposente, Lisa experimenta um vivo sentimento de prazer que ela dissimula o melhor que pode, cumprimentando o seu vizinho com ar amável e indicando-lhe uma cadeira, porque não pode largar a obra que está a acabar.

—Bons dias, minha vizinha, diz Casimiro; aqui tem um homem extremamente feliz.

—Realmente, estimo muito; o que lhe sucedeu então para lhe causar tanta alegria?

O que me aconteceu? Ah! a menina não o compreende talvez bem, porque é preciso ser artista para conhecer estas alegrias! Imagine um autor que obtém o seu primeiro triunfo no teatro, o compositor que ouve cantar na rua a música que fez publicar, enfim o pintor que vende o seu primeiro quadro, eis os homens mais felizes da terra! pois bem! eu sou de esse número... acabo de vender o meu primeiro quadro.

—O seu primeiro? como, pois ainda não tinha feito nenhum?

Esta reflexão tão natural de Lisa faz corar Casimiro, que compreende que a sua jovem vizinha deve perguntar lá de si para si em que tem ele empregado o seu tempo, para não ter feito, na sua idade, senão um quadro. O rapaz trata de sair do embaraço, respondendo:

—Não menina, é verdade; comecei muito tarde a pintar a paisagem, eu preferi o retrato, agradava-me isso mais.

—E agora renuncia o retrato para se dar à paisagem?

—Oh! não! renunciar ao retrato! nunca! uma coisa não impede a outra! Mas eu estava tão contente esta manhã com a venda do meu quadro, que não pude resistir ao desejo de lhe dar parte do meu bom sucedimento... e depois, quando se está em maré de felicidade, dizem que sempre nos chegam muitas; então, disse comigo: Vamos ver a minha linda vizinha; quem sabe se ela hoje quererá também consentir em deixar-se retratar, se não abrandarei a sua resistência!...

—Isso fazia-o então ainda muito feliz, se eu lhe deixasse fazer o meu retrato?

—Ah! seria o auge da minha felicidade? Empregaria todos os meus cuidados, todo o meu talento em esse trabalho! e estou bem certo de que havia de ser bem sucedido, que faria uma cabeça lindíssima.

—Mas esse retrato... vendia-o depois?

—Vender o seu retrato! oh! nunca, minha vizinha, nunca! conservá-lo-ia toda a minha vida... mas faria uma cópia para lha oferecer, ou, se a menina o preferisse, dar-lhe-ia o original e ficaria eu só com a cópia.

—Mas o que fará o senhor do meu retrato em sua casa! há de incomodá-lo...

—Incomodar-me! pelo contrário, será o mais belo ornato do meu atelier, olharei para ele todos os dias, não me cansarei nunca de o contemplar. Ah! minha vizinha, consinta, por obséquio, diga que consente.

Lisa ainda hesitava, porque os olhos de Casimiro tinham tomado uma expressão que lhe causava uma comoção vivíssima; mas em este momento a enferma, que estava adormecida, acorda, dizendo:

—Lisa, dá-me uma gota de esse vinho que me faz tanto bem.

—Sim, avozinha, de aqui a um instante, já o não há em casa, eu o vou buscar...

Depois, voltando-se para Casimiro, Lisa diz-lhe em voz baixa:

—Pois bem! consinto, começaremos amanhã.

—Oh! como a menina é cheia de bondade! e quão feliz eu sou! Corro então à farmácia a comprar-lhe o vinho quinado.

—Não, isso não, irei eu mesma.

—A menina não pode deixar a sua doente, permita-me fazer-lhe este pequeno serviço, eu sei que é vinho de Malaga.

—Oh! sr. Casimiro... por quem é...

—Deixe-me por minha vez ser-lhe agradável, a menina consente em me servir de modelo... estou tão contente! Corro a buscar o vinho, volto com ele em um momento.

E sem atender mais à rapariga, Casimiro sai apressadamente; desce a escada a quatro e quatro, por pouco que não deita ao chão o menino Proh que procurava pôr-se a cavalo na balaustrada do patamar, passa como uma frecha por diante do porteiro, corre à botica mais próxima, pede vinho de Malaga quinado, compra três garrafas, mete uma em cada um dos bolsos laterais, esconde a terceira debaixo de paletot e volta a casa de Lisa com a mesma pressa com que de lá saiu.

—Valha-me Deus!... então o senhor traz três garrafas! exclama a rapariga vendo Casimiro tirá-las dos bolsos.

—Sim, minha vizinha, terá assim para muito tempo sem se incomodar.

—Mas não era preciso, isto custa três francos e dez soldos cada garrafa...

—Com duas sessões ficam as nossas contas saldadas.

—Ah! senhor, não é possível!

—Perdão, minha vizinha, juro-lhe que a um modelo como a menina não se paga menos, e que lhe ficarei ainda muito obrigado. Mas tenha a bondade de me dizer a que hora quer que eu venha para a sessão.

—É sempre de manhã cedo que minha avó descansa melhor e não tem precisão de mim; se o não contrariasse vir às oito horas... mas é talvez cedo de mais para o senhor?

—Não! pelo contrário, essa hora convém-me muito, trabalharemos das oito às dez, se me fizer esse obséquio, porque eu não a quero fatigar, e, duas horas, isso é talvez já demasiado para a menina...

—Oh! não, senhor! demais, o senhor disse-me que eu poderia coser ao mesmo tempo...

—Sim, sim, fará tudo quanto quiser; em eu podendo olhar para a menina, é quanto basta.

—Eu pensava que o modelo era também obrigado a olhar para o pintor!

—Algumas vezes, de certo, é isso melhor; mas nós temos tempo, e quando for absolutamente necessário, então a menina terá a bondade de levantar por um momento os olhos de cima do seu trabalho. Assim, está ajustado, amanhã às oito horas cá me tem a minha vizinha com toda a minha bagagem...

—Estarei pronta.

Casimiro retira-se, e Lisa aproxima-se da velha doente, dizendo-lhe:

—Avozinha, aqui está o vinho quinado!


A menina Lisa

Sinopse

Leia gratuitamente A menina Lisa, de Paul de Kock, em versão portuguesa anônima publicada em Lisboa em 1907. Esta edição Literunico preserva o prefácio e os 18 capítulos integrais, com normalização ortográfica conservadora para PT-BR moderno.

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