Universo da obra
Universo da obra
Casimiro e a sr.ª Durmont voltam a ter com Ambrosina; acham-na ainda ao pé de Lisa, que não acordou, devorando com os olhos a medalha suspensa ao pescoço da donzela, mas não se atrevendo a tocar-lhe, com receio de a fazer sair do sono um pouco forçado em que a mergulhou o narcótico que lhe fizeram tomar.
—Minha senhora! minha senhora! aqui tem a sua colher! exclama Casimiro mostrando a colher de prata; estava escondida como aqui; graças a esta senhora, a pobre rapariga está plenamente justificada...
—Sim, senhor, sim; eu não duvidava de isso; mas alguma coisa que não posso compreender me detém ao pé de Lisa; esta medalha que ela traz, é exatamente como aquela que eu tinha posto ao pescoço de minha filha; a minha abria-se, e na parte anterior tinha eu mandado gravar duas letras: um A e um G, que eram as iniciais do meu nome e do de seu pai; ardo em desejo de saber se esta medalha se pode abrir, mas não me atrevo a tocar-lhe com receio de acordar esta menina...
—Oh! não há perigo! diz a sr.ª Durmont, o seu sono é profundo agora; espere... espere, vou tirar-lhe; ou antes desatar esta fita.
A inquilina do segundo andar faz esta operação com muito jeito; desata a fita, tira a medalha, e apresenta-a a Ambrosina; esta pega em ela com a mão trêmula, busca, descobre a juntura; a medalha abre-se. Ambrosina dá um grande grito, acaba de reconhecer as duas letras, e mostra-as às pessoas que a rodeiam, dizendo-lhes:
—Olhem! vejam... um A e um G... é exatamente a medalha que eu tinha posto ao pescoço de minha filha quando a entreguei à ama. Como é que ela se acha ao pescoço de esta menina?
Entretanto o grito dado por Ambrosina acordou Lisa, que abre os olhos, põe-se a olhar para as pessoas que a cercam, e balbucia:
—Meu Deus! o que é que eu fiz ainda?...
—Não receie nada, minha menina, diz a sr.ª Durmont, a sua inocência está reconhecida; tudo lhe será explicado...
—Mas em este momento, diz Ambrosina, queira responder-me, esta medalha, que a menina trazia ao pescoço, e que eu tomei a liberdade de lhe tirar para a examinar de mais perto, de onde lhe veio? de quem a houve?
—De quem a houve? mas eu tenho-a tido sempre, foi minha mãe que ma pôs ao pescoço quando me levou para casa da minha ama.
—Sua mãe? meu Deus!... como se chama ela?
—Eu nunca o soube, ela não dizia o seu nome quando vinha ver-me a casa da minha ama...
—Como! a menina não sabe? e tem consigo sua avó... ela existe?...
—Ah! minha senhora, a pobre velha paralitica não é minha parenta; era mãe da minha boa ama, que tinha muito cuidado em mim, que me conservou consigo, quando minha mãe me abandonou; eis a razão por que eu, quando a minha ama morreu, tive sempre cuidado em sua mãe...
—Meu Deus! tudo o que estou ouvindo... minha menina... por quem é... diga-me a terra onde foi educada...
—Em Pierrefitte, minha senhora...
—Pierrefitte... está bem, ah!... e o nome da sua ama...
—Catarina Vauger...
—Ah! não me resta dúvida! és minha filha!...
Ambrosina aperta Lisa nos braços, e cobre-a de beijos, dizendo-lhe:
—Sim, és efetivamente minha filha, mas não creias que eu tivesse nunca o pensamento de te abandonar, eu, que era tão feliz em ter uma filha! Tu foste... fomos ambas indignamente enganadas; eu tinha uma tia que te detestava; durante uma viagem que fiz a Itália para restabelecer a minha saúde, essa tia, a quem eu tinha recomendado muito que velasse por ti, anunciou-me que tinhas deixado de viver!...
—Oh! então, deve ter sido ela que escreveu à minha ama, remetendo-lhe uma quantia bastante avultada, para que viesse estabelecer-se em Paris, e não me chamasse mais senão Lisa em vez de Leontina, que era o nome que minha mãe me tinha dado...
—Leontina... ah! é isso mesmo... tua mãe... mas sou eu... querida filha, sou eu mesma... acaso não terás por mim alguma afeição... não me perdoarás... o mal que te tenho feito?...
—Oh! minha senhora... minha mãe... já me não lembro de isso!
As testemunhas de esta cena tomam parte na alegria, no enternecimento de estas duas mulheres, uma das quais torna a encontrar a filha que tinha por morta há muito tempo, enquanto que a outra, que quase todos acusavam, que suspeitavam culpada de uma ação desonrosa, se vê agora abraçada, coberta de carícias e de lágrimas por uma bela senhora que é sua mãe. Lisa, no auge da sua alegria, estende as mãos a Casimiro, exclamando:
—Ah! o senhor é que nunca me julgou criminosa!
Depois agradece à sr.ª Durmont dizendo-lhe:
—E' pois à senhora que eu devo o ter recuperado a estima do mundo, como é que se houve então para provar a minha inocência?
—Minha querida menina, depois de tudo o que se passara, eu tinha adivinhado que a menina era sonâmbula, e não me enganava.
—O quê! eu sou sonâmbula!...
—Sim, sem dúvida, quando está a dormir, sempre preocupada com a colher de prata que deu à sua velha companheira, e receando que lha furtem, a menina pega na que tem perto de si, pensando que é a sua, e esconde-a. Oh! isso não tem nada de muito extraordinário; tenho visto fazer a somnabulos coisas muito mais de espantar!...
—Mas, quando estou acordada, devia lembrar-me do que fiz estando a dormir!...
—Não, minha filha, os sonâmbulos não se recordam nunca do que fizeram enquanto estiveram entregues a esse sono em ação, e é isso o que há de mais singular em essa doença, porque é efetivamente uma doença, mas que passa com a mocidade, e desaparece inteiramente quando a idade tem acalmado as nossas paixões e o calor do nosso sangue.
—Agora, diz Ambrosina, não incomodemos mais tempo esta senhora, a quem eu devo também a minha felicidade, pois que é, graças à ideia que ela teve de te ver adormecida, que eu pude examinar essa medalha e tornar a achar minha filha. Vem, minha querida Lisa, vem para casa de tua mãe, a quem não deixarás mais de aqui em diante.
Lisa está perplexa e confusa, sorri-se para sua mãe, e balbucia:
—E a pobre velha de quem nunca me tenho separado... acaso quereria que eu a abandonasse?
—Não, não querida filha, compreendo o teu coração, não quero causar-te nenhum desgosto; a mãe da tua ama não se há de separar de ti, tomal-a-ei para a nossa companhia, a minha casa é bastante grande para que eu possa dar-lhe um quarto. de este modo nada lhe faltará, e tu velarás sempre por ela...
—Ah! minha senhora... minha mãe... é também muito bondosa!
—E, agora que vem rompendo a aurora, vou subir contigo a esse pobre quarto que habitavas; participaremos à boa velha que já não és órfã e que tua mãe nunca te tinha abandonado; eu te mostrarei a carta de minha tia, em que ela me anunciava que tinha perdido minha filha; tenho conservado sempre essa carta...
—E eu, minha mãe, hei de mostrar-lhe a carta que a minha ama recebeu juntamente com uma quantia, e na qual se lhe ordenava que não me chamasse mais senão Lisa e que viesse estabelecer-se em Paris.
—Oh! sim, e estou certa que hei de reconhecer a letra de minha tia.
Ambrosina está contentissima; estende a mão a Casimiro, dizendo-lhe:
—De hoje em diante somos amigos, e espero que não veja mais em mim senão a mãe de Lisa, que lhe agradece de todo o coração o interesse, a amizade que o senhor tinha por sua filha e que nunca se oporá ao que poder fazer a sua felicidade.
Casimiro aperta de bom grado esta mão, que é agora a de uma pessoa amiga.
Despedem-se todos da sr.ª Durmont, reiterando-lhe os seus agradecimentos, que tão bem merecidos eram. Lisa sobe ao seu quarto acompanhada por sua mãe, que não quer deixar mais a filha que um tão grande acaso acaba de lhe restituir. Na escada encontram ainda Rouflard, que sai de casa dos Proh, gritando:
—Eles lá têm a colher, que nunca lhes tinha saído de casa. Mas, apre! tive um trabalhão imenso! não me queriam abrir a porta!
Ouvindo tocar a sua campainha no meio da noite, a família Proh julgara primeiro inútil responder; mas, como o repique não cessava, tinha perguntado:
—Quem está aí?
—Sou eu, gritara Rouflard, que venho fazer-lhe achar a sua colher!
Ao reconhecer a voz de Rouflard, o professor respondera:
—O senhor é um maroto, quer perturbar o nosso sono com esse ignóbil gracejo, amanhã hei de metê-lo em processo.
Ao que Rouflard, replicara:
—Eu não gracejo, é o senhor e todos os seus que são uma família de pepinos! Eu tenho a peito fazer-lhes reconhecer a inocência de Lisa, que é sonâmbula, e vou fazer-lhes achar a sua colher! tocarei a campainha até amanhã se for necessário.
A sr.ª Proh decide-se enfim a abrir. Então Rouflard diz:
—Venham todos comigo ao quarto onde Lisa passou a noite; ela escondeu a colher debaixo do colchão de crina...
—Não é possível, diz Angelina, eu teria dado por isso!
—E de que modo, se a menina estava a dormir?... Vamos lá sempre.
Dirigem-se todos ao quarto da donzela. O rapazinho que se tem também levantado e ouve tudo, exclama:
—Eu vou procurar debaixo do colchão...
—Não, não, tu não tens o braço bastante comprido, diz Rouflard, que busque o ilustre professor, se isso lhe é agradável...
—Eu! prestar-me a essa nova mangação, para o senhor fazer chacota de mim!...não conte com isso...
Mas, durante esta altercação, a sr.ª Proh, que está muito impaciente, tem-se já posto de joelhos diante da cama; mete o braço debaixo do colchão, e em seguida tira de lá para fora a colher, dizendo:
—Pois é verdade, ela cá está!
—Então, professor, é mentira o que eu lhe dizia? Que diz a isto?
—Direi o que isso prova: que as nossas mulheres, filhas ou criadas que têm a seu cargo o arranjo da casa, não se dão ao trabalho de levantar os colchões quando fazem as camas!...
—Ora, senhor! exclama a sr.ª Proh, as mulheres têm já tantas coisas que levantar!
Ambrosina acompanha a filha até à água-furtada; acham a avó acordada, contam-lhe os acontecimentos da noite, e a boa da velha, à força de olhar para Ambrosina, de a examinar bem, exclama:
—Sim... é verdade... reconheço-a agora... foi a senhora que nos trouxe a pequena... e que voltou a vê-la muitas vezer a Pierrefitte.
Depois Lisa mostra a carta que a sua ama tinha recebido; Ambrosina reconhece a letra de sua tia, e, se ela tivesse ainda alguma dúvida sobre a identidade de sua filha, esta última prova não podia deixar-lhe mais nenhuma. Pela sua parte, mostra também a Lisa a carta de sua tia que lhe anunciava a morte da filha, porque tem a peito provar a Lisa que nunca tivera a ideia de a abandonar.
No dia imediato a esta noite tão fecunda em acontecimentos, faz-se na casa uma grande mudança: como Florentina viera buscar a filha, Ambrosina dá a Lisa o lindo quarto azul onde estivera a pequenita; depois arranja-se um outro quarto para a velha paralitica, que é trazida da sua água-furtada para o primeiro andar, e que fica muito satisfeita ao saber que, apesar da sua mudança de fortuna, a Lisinha, que ela considera como filha, não se quer separar de ela.
Casimiro ficou muito espantado, e assim a modo triste, quando se descobriu o segredo do nascimento de Lisa; teve mesmo por um momento o coração oprimido, como quem receia perder a pessoa que ama. Mas em breve adquire a prova de que o amor maternal extinguiu em Ambrosina qualquer outro sentimento, e que para esta mulher, tão feliz por ter achado sua filha, o passado não é mais do que um sonho, de que ela nem mesmo quer conservar a recordação. O jovem pintor pode pois agora ver Lisa em casa de sua mãe. Mas durante os primeiros meses que se seguem a este acontecimento, põe em isso certa discreção, porque compreende que há situações que precisam de tempo para se consolidarem. Demais, Casimiro trabalha agora muito; o bom acolhimento que os seus quadros obteem, redobra o seu entusiasmo, o seu amor pela pintura; em todas as artes, não é preciso muitas vezes mais que um bom exito para tirar um homem da mediocridade, para fazer de ele uma celebridade, e por falta de esse bom exito quantos talentos não têm morrido, sem terem desenfardado as suas mercadorias, como diz Montaigne.
Seis meses depois de estes acontecimentos, morre o sr. Loursain, em consequência de uma indigestão. Ambrosina sabe que está viúva, e, o que a surprehende muito mais, é que recebe uma carta de um tabelião, que lhe participa que seu marido lhe deixou toda a sua fortuna, que anda por perto de trezentos mil francos. A menina Rosa, a criada tão janota e presumida, que seu amo tratava por tu, teve apenas em legado uma quantia de seiscentos francos, e o retrato do corpo inteiro do sr. Loursain. A criadinha, na força da sua cólera, manda acrescentar no retrato um par de chifres e vende-o para servir de tabuleta a um salsicheiro, que manda escrever por baixo: O boi da moda.
Ambrosina, que tencionava entregar à filha uma parte dos seus haveres, dá-lhe primeiro em dote a fortuna que lhe deixa o sr. Loursain, comprando ela para si uma bonita casa nos subúrbios de Paris, onde faz tenção de ir viver quando Lisa casar com Casimiro.
Essa união pouco tarda a fazer-se, porque Lisa confessou a sua mãe que ama o rapaz que lhe fez o retrato. Ambrosina estabelece os jovens noivos em uma linda habitação, e retira-se para a casa de campo, onde agora quer viver sempre; Lisa, porém, se deixou sua mãe, não quis, posto que casada separar-se de aquela de quem cuidava tão carinhosamente na sua pobre água-furtada, da boa velha a quem ela chamava avó, e Casimiro, lá de si para si, estima cem vezes mais que ela tenha na sua companhia esta do que a outra.
Desde que em casa dos Proh se achou a colher de prata, o Fonfonzinho não cessa de gritar por toda a parte:
—Lisa é funâmbula! e quando uma pessoa é funâmbula esconde tudo quanto quer:
Debalde a sr.ª Proh diz ao filho:
—Não é funambula, sonâmbula é que essa menina era...
—Qual é a diferença?
—A diferença, meu filho, é que os sonâmbulos andam a dormir e os funâmbulos andam em uma corda e até dançam, estando acordados.
—Pois bem! eu antes quero ser sonâmbulo!
—Para quê, filho? o sonambulismo é uma enfermidade, enquanto que o funambulismo é um talento!
—Sim, mas quando eu for sonâmbulo hei de esconder todos os covilhetes de doce.
—Nada ganharias com isso, Afonso, pois que, em acordando, ninguém se lembra mais do que fez no estado de sonambulismo.
—Ah! pois não! então eu sou tolo! não serei sonâmbulo senão de um olho!...
O sr. Proh bate com a mão na testa, exclamando:
—Este rapazinho há de ir longe!
Graças ao trabalho que Casimiro lhe arranja Rouflard pode viver; poderia mesmo ter um quarto um pouco melhor, mas ele não quer mudar-se, dizendo que está habituado a morar ali, assim como a chamar ao porteiro seu criado; como o pintor já não mora no prédio, Chausson deixa algumas vezes o seu antigo amo dormir na rua, porque este contínua a embriagar-se do mesmo modo. Em vão Casimiro lhe diz:
—É preciso corrigir-se de esse ruim defeito, Rouflard; quando um homem quer deveras, de tudo se emenda! veja o exemplo em mim, eu era um preguiçoso, hoje gosto do trabalho.
—Isso é muito bonito, responde Rouflard, mas eu preciso de consolações; morava por baixo de mim um anjo, o senhor levou-o para longe! quando estou bêbedo, afigura-se-me que o tenho ainda ao pé de mim, e é por isso que bebo!
Leia gratuitamente A menina Lisa, de Paul de Kock, em versão portuguesa anônima publicada em Lisboa em 1907. Esta edição Literunico preserva o prefácio e os 18 capítulos integrais, com normalização ortográfica conservadora para PT-BR moderno.
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