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A menina Lisa

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A menina Lisa

Capítulo 14 · A menina Lisa

Um rapazito endiabrado

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O retrato de Lisa fazia muitas vezes descuidar o de Ambrosina, e não era só em pintura que esta dama notava que se descuidavam de ela. Casimiro ia a sua casa cada dia mais tarde, e, quando ela lhe lançava isso em rosto, ele achava por desculpa a nova paisagem que estava fazendo, as sessões que dava à sr.ª Proh ou a Rouflard e Ambrosina exclamava:

—Mas não é possível que o senhor não tenha acabado essas cabeças! E quando eu lhe peço para termos sessão, diz-me que não me quer fatigar. O senhor tem alguns amoricos, alguma nova ligação que arranjou; mas tome cuidado! eu o saberei.

Um dia pela manhã, a sr.ª Montémolly, sem ter prevenido o amante da sua visita, levanta-se muito mais cedo do que costuma, faz-se vestir à pressa por Adriana, e chega a casa de Casimiro pelas dez horas. Perguntou ao porteiro se o rapaz tinha saído; Chausson respondeu que o não vira descer. Ela sobe os três andares, vê a chave na porta da habitação do pintor, e entra sem bater, sem tocar a campainha, dizendo consigo:

—Vou surpreendê-lo e saber enfim em que trabalha tão assiduamente.

Ambrosina entra na saleta que serve de atelier a Casimiro, e não acha ali senão Rouflard, que está ensaiando posições diante de um espelho.

—O sr. Casimiro não está aqui? diz Ambrosina, correndo os olhos pelo atelier.

Rouflard, que reconheceu a dama e adivinha a situação, apressa-se a cortejar profundamente, respondendo:

—Não, minha senhora, o sr. Dernold saiu.

Apesar de esta resposta, Ambrosina vai ver ao quarto da cama, depois volta, dizendo:

—É verdade, não está, efetivamente.

—A senhora verificou que eu não menti, murmura Rouflard com um sorriso ligeiramente irônico.

—Mas onde está? voltará breve?

—Oh! não creio, minha senhora; o sr. Dernold disse: «Vou almoçar, e depois irei dar uma volta pelo Louvre, onde tenho que fazer uns estudos.»

—É singular, o porteiro disse-me que Casimiro não tinha saído.

—Oh! minha senhora! esse miserável Chausson nunca vê o que se passa; fazia-me muitas de essas quando era meu criado. Eu dizia-lhe: «Põe-te de sentinela, não deixes entrar os meus credores, não quero receber senão senhoras...» e o imbecil fazia exatamente o contrário.

—Mas o que faz o senhor aqui?

—Eu, minha senhora, tinha vindo agradecer ao meu artista, que teve a bondade de se ocupar de mim, e de me arranjar colocação em casa de um pintor seu amigo, um pintor de história; devo fazer um romano. E o sr. Casimiro disse-me: «Arranje um penteado à romana, ponha-se diante do espelho, ate uma fita vermelha à roda da cabeça, eu lhe direi depois se tem um falso ar de Rômulo...» porque parece que é um Rômulo que devo representar.

Ambrosina não parece dar muito crédito a esta história romana. Passeia pelo atelier, para por momentos, parece refletir, e diz:

—Não sei se devo esperar por ele.

—A senhora tem para isso todo o direito, certamente; mas temo que espere por muito tempo. Quando um pintor vai ao Louvre, nunca se sabe quando de lá sairá.

—O sr. Rouflard vem aqui muito amiúde?

—Sim, minha senhora, estou sempre às ordens do meu artista quando ele tem precisão de mim.

—E vê vir aqui muitas mulheres? não me engane...

—Minha senhora, posso afiançar-lhe que nunca vi aqui senão a senhora e a vizinha ali defronte; mas àquela não chamo eu uma mulher, o marido alcunhou-a de girafa, e fez muito bem.

—Vamos, acredito no senhor, e vou-me embora, terá a bondade de lhe dizer que vim aqui... e que o espero em minha casa, não é verdade?

—Executarei as suas ordens, minha senhora.

Ambrosina retira-se, e Rouflard acompanha-a até ao patamar; mas aqui encontram-se de cara com a sr.ª Proh e o filho, o jovem Fonfonso, que teima em querer montar-se na balaustrada. A amante de Casimiro tinha encontrado duas vezes em casa de ele esta senhora estando em sessão para o retrato, conhecem-se pois um pouco. Cumprimentam-se e trocam algumas frases banais.

—Minha senhora, tenho a honra de a cumprimentar; a sua saúde parece-me sempre perfeita?...

—É? ótima, muito agradecida, minha senhora. Ia a casa do sr. Casimiro?

—Não, minha senhora, em este momento não ia lá; vou comprar cabeça de vitela para meu marido, que não gosta de outra coisa para o almoço. É um hábito em que se pôs. Oh! meu marido é deveras insuportável com a sua cabeça de vitela! A senhora vem de casa do meu vizinho, do sr. Casimiro?

—Sim, tencionava dar-lhe sessão para o meu retrato.

—O meu está acabado, perfeitamente acabado; estou muito satisfeita com ele, ainda que toda a gente sustenta que me pareço com a sr.ª Saqui, que Deus haja, nos seus bons tempos; parece que era uma bonita mulher. E a senhora já acabou a sua sessão?

—Hoje não pôde ser, o sr. Casimiro não está em casa, isto contraria-me, porque tinha sido hoje mais madrugadora do que costumo ser.

—Ah! o meu vizinho já saiu...

—Não! não! não! não saiu. Oh! oh! oh! hi! hi! hi! grita o Fonfonzinho, pendurando-se da balaustrada.

—Fonfonso, não te balouces assim da balaustrada, que podes cair.

—Mas quero eu balouçar-me!

—Este pequeno é incorrigível!

—Perdão, minha senhora, mas parece-me que seu filho disse que o sr. Casimiro não tinha saído.

—O pequeno sabe lá o que diz, minha senhora!

—Sim, sim, eu bem sei onde está o pintor, onde ele vai todas as manhãs...

—Aonde vai todas as manhãs, mas então, Fonfonso, bem vês que o sr. Casimiro saiu.

—Não, porque ele vai lá acima, a casa da menina Lisa, para onde levou o cavalete e as tintas para estar a pintar como em sua casa. Hi! hi! hi! oh! oh! oh!

Ambrosina muda de cor, e a sr.ª Proh escancara os olhos, exclamando:

—O quê! o meu vizinho vai pintar em casa da pequena do quinto andar! palavra de honra, é a primeira vez que tal sei; mas este pequeno é extraordinário, minha senhora, sabe tudo, vê tudo o que se passa, não lhe escapa nada!

—Quem será essa menina Lisa que recebe o sr. Casimiro?

—É uma rapariga que vive com sua avó; a pobre velha está doente, meio paralitica; Lisa trabalha para a sustentar. Oh! é uma donzela honesta, muito capaz... pelo menos assim o creio.

—É bonita?

—Hum? bem sabe que isso depende do gosto, uma carinha que não é de todo desengraçada...

—Não! não! não! Rouflard diz que a menina Lisa é um anjo. Oh! oh! oh! ah! ah! ah!

—Ah! o Rouflard conhece-a, perdão, minha senhora, mas como é absolutamente preciso que eu fale ao Casimiro, tomo a liberdade de o ir procurar a casa de essa menina. Não me disse que é no quinto andar?

—Sim, a porta à direita...

—A chave está sempre na fechadura. Hu! hu! hu!...

Ambrosina não quer ouvir mais, e galga os andares como um valente soldado sobe ao assalto. Chega acima em um instante; acha efetivamente a chave na porta à direita, abre de repente, e dá com a menina Lisa sentada defronte de Casimiro, com a sua costura na mão, mas sem trabalhar; pela sua parte, o jovem pintor está ao seu cavalete, com a palheta e o pincel nas mãos, mas sem pintar. À vista de esta pessoa que abriu a porta e se conserva imóvel à entrada do quarto, o artista e o seu modelo ficam espantados. Mas Casimiro é o mais impressionado, porque Lisa recobra logo a sua placidez e diz a Ambrosina:

—É sem dúvida a mim que a senhora procura, e é para me dar alguma obra a fazer? tenha a bondade de entrar...

—Não, responde Ambrosina com um tom arrogante, não é a menina quem eu procuro, não é pela menina que estou aqui, é este senhor quem venho procurar, este senhor que já não tem um momento para me dedicar, que não acaba o meu retrato, porque está fazendo o da menina. Aqui está então a causa de todas as suas mentiras, da sua mudança de procedimento; eu bem sabia que em isto andavam amoricos! é para estar com esta menina que já não tem tempo de me ir ver. Ah! como os homens são falsos!

A voz da mulher ciumenta torna-se estrepitosa, os seus olhares lançam chispas. Lisa está toda a tremer, grossas lágrimas lhe obscurecem os olhos, depois uma voz trêmula e quebrada sai do leito, e diz:

—Lisa! o que é isso? pareceu-me ouvir gritar; estás altercando com alguém?

—Não, avozinha, não, não é nada...

E a donzela deita para Ambrosina uns olhares suplicantes, como para lhe dizer:

—Por quem é, não fale tão alto!

Mas já Casimiro se tem levantado, pegando na palheta, no quadro e nos pinceis, e dirige-se para a porta dizendo à sr.ª Montémolly:

—Faça favor de sair comigo, minha senhora, para pouparmos a esta menina uma bulha e uma cena pouco decorosa, faço isto, não pela senhora, mas em atenção a ela. Menina Lisa, desculpe-me de ter sido a causa de este barulho, que acordou a sua avó, e pode ficar certa de que não tornará a acontecer semelhante coisa.

Casimiro sai imediatamente para o patamar; Ambrosina, furiosa de ciúmes, hesita em sair, e olha para Lisa, que parece sempre pedir-lhe que se cale, mostrando-lhe o leito da enferma. A zelosa dama decide-se enfim, sai do quarto, depois de ter lançado sobre a rapariga um olhar ameaçador, depois desce atrás de Casimiro, que entra para sua casa. Ela entra também, e deita um olhar furioso sobre Rouflard, que se afasta encolhendo os ombros e olha para o pintor como para lhe dizer:

—Não é culpa minha; o senhor é que não teve a prudência necessária.

Ambrosina entra no atelier, e atira consigo para uma poltrona, exclamando:

—Há muito tempo que duram estes amores, senhor, e que esta rapariga é sua amante?

Casimiro, que recobrou todo o seu sossego, põe-se a trabalhar na sua obrazinha, e responde:

—Minha senhora, o ciúme cega-a e faz-lhe dizer coisas indignas de uma mulher que se preza. Estou fazendo o retrato de uma menina que mora no meu prédio; parece-me que isto é uma coisa que me é permitida, pois que o meu ofício é tirar retratos. Achei ali uma cabeça encantadora, senti o desejo de a reproduzir na tela, tudo isto é muito natural. Propus à menina Lisa que me servisse de modelo; ela a princípio recusou-se por muito tempo, porque não quer deixar a avó um único instante. Eu disse-lhe que iria trabalhar em sua casa, e ela recusava-se ainda; mas ganha apenas com que prover à sua existência, e a doença de sua avó exige por vezes gastos inesperados; fiz compreender a esta menina que, consentindo em me servir de modelo melhoraria a sua situação, e ela finalmente cedeu. A senhora pergunta-me desde quando sou amante de essa pobre menina. Ah! se a conhecesse, não teria semelhante pensamento! ela é recatada, honesta, não pensa senão no seu trabalho, em aliviar e consolar a sua velha doente, e eu, diante de um procedimento tão digno, tão puro, ter-me-ia envergonhado de lhe dirigir uma única palavra de amor.

A sr.ª Montémolly, que tem escutado tudo isto com impaciência batendo muitas vezes com o pé no sobrado, assim que Casimiro acabou de falar, exclama:

—O senhor pensa que vou dar crédito às suas histórias, aos seus contos! ao que parece, tem-me por tola! O senhor não tem dito uma palavra de amor a essa rapariga? O que estava então a fazer quando eu entrei? não estavam em atitude de quem trabalha, nem o senhor nem o seu modelo, olhavam um para o outro muito atentos, como se quisessem comer-se com os olhos; não há necessidade de se falar de amor, quando se olha assim para alguém; os olhos dizem o bastante! e se o senhor não tivesse pensado em vir a ser amante de essa rapariga, acaso teria feito um mistério de esse retrato, das suas idas ao quinto andar? E que tenciona então fazer do retrato de essa menina?

—É um estudo, pô-lo-ei no meu atelier.

—Pois saiba que o hei de de fazer em tiras! E esse miserável Rouflard, a quem o senhor tinha ensinado o recado, e que me disse que tinha ido ao Louvre! Estavam todos combinados para zombarem de mim!...

—Eu não ensinei recado nenhum a Rouflard, ele disse-lhe o que quis.

—Bom! basta! para que não torne mais a acontecer semelhante coisa, o senhor vai já deixar esta casa e não terá o capricho de subir todas as manhãs ao quinto andar; venha comigo é um momento enquanto lhe arranjo uma casa decente; mandarei buscar os seus moveis.

Casimiro encolhe os ombros, e continua a pintar dizendo:

—A senhora está doida!

—Como é que o senhor disse?

—Que a senhora não tem senso comum! e que eu não desejo mudar-me...

—Não quer mudar-se para não deixar a rapariga da água-furtada?

—A rapariga da água-furtada não entra para nada na minha resolução; não quero deixar esta casa, porque não quero fazer as suas vontades, porque estou cansado de ser escravo, e porque é tempo que isto acabe.

—Ah! aí está aonde o senhor queria chegar; é um rompimento que me propõe!...

—Será um rompimento se a senhora quiser, mas repito-lhe que não me quero submeter mais a todos os seus caprichos, e que me não mudarei.

—Casimiro! tome cuidado, se fica em esta casa, não lho perdoarei...

—Hei de ficar.

—E é a essa delambida que o senhor me sacrifica! Oh! é indigno! é infame!

—Nada de palavrões, minha senhora, bem sabe que comigo perdem o seu efeito; eu não a sacrifico a ninguém. Digo-lhe que não quero ser mais seu escravo, que quero ser senhor de mim, se isto lhe não convém, tanto pior!

—É porque já me não ama que o senhor me fala assim!

—Olhe, Ambrosina, seja franca, se eu fizesse o que me ordena, havia de desprezar-me e teria razão.

—Oh! o senhor é um traidor, tem zombado comigo, mas não quero continuar a ser enganada! depois de tudo quanto eu tenho feito por sua causa...

—Ah! eu estava à espera de essa frase! teria faltado à situação! Efetivamente a senhora tem feito muito por mim, eu não me esqueço, permita-me somente dizer-lhe que era sempre contra a minha vontade; que há muito tempo que eu me queria dar ao trabalho e que a senhora incessantemente me impedia de o fazer, porque queria ter-me constantemente nas suas redes, impedir-me de ser livre enfim e de poder tomar qualquer resolução sem a consultar. Se a fortuna um dia me for favorável, creia, minha senhora, que terei muito prazer em pagar tudo quanto lhe devo!

—Casimiro, esqueça-se do que eu acabo de dizer, o ciúme faz-me perder a cabeça, vamos, ceda-me ainda por esta vez, peço-lhe eu, venha comigo, deixe esta casa... e não lhe falarei mais em essa menina da água-furtada...

—As suas instâncias são inúteis, a minha resolução é inabalável, não saio de aqui.

Ambrosina ergue-se furiosa, dá alguns passos pelo quarto, para diante de Casimiro, e exclama:

—Então, senhor, está tudo acabado entre nós!

—Como a senhora quiser.

—Sim, senhor, nunca mais na minha vida o tornarei a ver!...

Depois de haver dito estas palavras, Ambrosina sai arrebatadamente, fechando a porta com estrondo, desce a escada sem parar, depois atravessa o pátio, passa por diante do porteiro que lhe varre para cima, e dá alguns passos na rua. Mas ali, para, volta-se, olha para a casa de onde acaba de sair, e vê um rótulo pendurado por cima da porta. Entra imediatamente na casa e diz ao porteiro, que está ainda no pátio:

—Tem cá alguns quartos para arrendar? vi um rótulo.

—Sim, minha senhora, um magnífico primeiro andar, com sete casas, todo forrado de novo, e uma bela adega!

—Quando está desocupado?

—de aqui a dez dias, minha senhora...

—Fica por minha conta...

—O preço é de dois mil e duzentos francos.

—Muito bem, arrendo-o eu.

—Mas a senhora não o viu, se quer subir, os inquilinos saíram agora mesmo...

—Não é preciso, repito-lhe que eu arrendo a casa. Tome, aqui tem o sinal...

E Ambrosina mete uma moeda de vinte francos na mão de Chausson, acrescentando:

—Tome; mas ficar-lhe-ei muito agradecida se não disser ao sr. Casimiro que fui eu que arrendei a casa, aqui tem a minha morada e o meu nome... se quiser ir tirar informações...

—Oh! minha senhora, eu bem vejo que não é preciso, quando se tem maneiras como a senhora; demais, a senhora é conhecida do sr. Casimiro!

—Tome; aqui tem mais vinte francos, seja discreto, que não ficarei somente em isto...

—Estarei às ordens da senhora tanto de dia como de noite, sempre pronto!...

Ambrosina retira-se, e Chausson admira as duas moedas de vinte francos, dizendo consigo:

—Isto é que é a nata das inquilinas! logo eu estava indo tirar informações!...


A menina Lisa

Sinopse

Leia gratuitamente A menina Lisa, de Paul de Kock, em versão portuguesa anônima publicada em Lisboa em 1907. Esta edição Literunico preserva o prefácio e os 18 capítulos integrais, com normalização ortográfica conservadora para PT-BR moderno.

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