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A menina Lisa

Capítulo 8 · A menina Lisa

A menina Lisa

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Depois do seu dia tão bem empregado, Casimiro não passou uma noite tão agradável: dormiu pouco; não se lhe tira da ideia a história de aquele pobre diabo que estava deitado na rua e que chama seu criado ao porteiro; obriga-o a fazer reflexões que não são cor de rosa; o rapaz, sem todavia se colocar no mesmo nível que o tal Rouflard, diz consigo que um homem é infinitivamente desprezível quando vive à custa de uma mulher.

O resultado de estas reflexões é uma resolução, firmíssima de esta vez, de se entregar ao trabalho, e, como a pintura é a única habilidade que possui e que pode utilizar, promete a si mesmo tornar a pegar nos lápis e nos pinceis e tratar de adquirir, trabalhando, o que ainda lhe falta para se arrojar a fazer um retrato do natural; demais, jura também não dizer nada a Ambrosina das suas novas intenções.

O que é indispensável a um pintor de retratos, é um modelo. Bem sabe Casimiro que a sr.ª Proh estimaria bastante prestar-lhe esse serviço; mas o rapaz, antes de fazer o retrato de esta senhora, quereria exercitar-se com outro modelo. Lembra-se do que lhe disse o porteiro a respeito de Rouflard, e por isso, logo depois de haver tomado a xícara de café que o Chausson lhe traz todas as manhãs, Casimiro sobe a escada para se dirigir a casa de Rouflard.

A escada era alta. Chegava ao quinto andar, onde não há senão quartos ocupados em grande parte pelas criadas do prédio, Casimiro para a fim de tomar fôlego, e olha depois em torno de si. Acaba ali a escada; o porteiro porém disse-lhe que o seu antigo amo habitava em uma água-furtada, no sexto andar, e ele não vê o mínimo rasto de escada.

em isto ouve-se uma voz de mulher, muito suave, muito juvenil, cantando como se embalasse uma criança. O quarto de onde sai a voz tem a chave na porta. Casimiro decide-se a entreabrir essa porta para perguntar por onde se sobe ao sexto andar.

Vê uma casa modestamente mobilada, poderia mesmo dizer-se mobilada pobremente; no fundo está um leito bastante confortável, com uns grandes cortinados de sarja, e quase ao lado uma caminha, sem cortinas, que apenas se compõe de um enxergão e de um colchão muito pobre, de lã; depois há uma comoda de nogueira, uma mesa, algumas cadeiras, um pequeno espelho sobre a chaminé, tudo o que é indispensável, o estritamente necessário e mais nada; mas isto tudo está arranjado com um cuidado e um asseio que dissimulam em parte a pobreza.

No leito está uma velha deitada; mas ao pé da mesa há uma rapariga sentada a coser. Casimiro fica pasmado à vista de esta jovem, cujo trajo é bem simples, bem modesto, mas cujo semblante agrada logo pela expressão meiga e engraçada dos seus lindos olhos, pelo encanto do seu sorriso, enfim por essa sensação, difícil de analisar, que experimentamos à vista de uma pessoa que nos é desconhecida, mas que nós voltamos para ver ainda muito tempo quando o acaso no-la faz encontrar.

—Perdão, menina, diz Casimiro conservando-se junto da porta que acaba de abrir. Sou indiscreto. Incomodo-a talvez. Mas, se bem que morando em este prédio há já muitos meses, conheço pouco as localidades. Procuro um individuo que mora no sexto andar, pelo que me disse o porteiro, mas esse sexto andar não dou com ele... não sei por onde se sobe para lá...

A rapariga sorri-se respondendo:

—Efetivamente, quando se não conhece bem este patamar, é difícil dar com a escada que vai para cima... Mas, olhe, além ao fundo a parede faz uma quina, é de traz de essa quina que o senhor achará uma escada muito estreita, que vai ter ao sexto andar, é tão estreita que, se o senhor fosse gordo, não caberia por ela!...

—Provavelmente o senhorio não quer que os inquilinos carreguem a casa demais, responde Casimiro rindo.

—Oh! não há senão um inquilino... um homem que está muito mal lá em cima!...

—Como parece que está sempre embriagado, pode tomar a água-furtada por um palácio.

—Acha que sim? Pobre Rouflard! mas ele não está sempre embriagado, felizmente está mais alegre quando se acha em jejum do que quando tem bebido... Ah! perdão, senhor, minha avó está-se voltando na cama... Creio que quer alguma coisa... perdão...

A rapariga faz-lhe uma mesura. Casimiro compreende que deve retirar-se; agradece outra vez à sua formosa vizinha e torna a fechar a porta, dizendo consigo:

—Como! pois eu tinha uma vizinha tão encantadora, e nem suspeitava de tal coisa! Em Paris mora a gente anos em uma casa e não conhece as pessoas que habitam na mesma escada, não as encontra nunca! É que esta rapariga é deveras encantadora; feições finas e suaves ao mesmo tempo, bonitos olhos, cabelo preto como ébano, uma boquinha amável; que delicioso modelo que isto faria! Vive com a avó; elas não parecem ser muito ricas... é preciso que me informe. Vamos, procuremos a escada por onde se sobe a casa de Rouflard. Ah! creio que achei... efetivamente é muito estreita! é uma escada de moinho! uma saia de balão não cabia por aqui.

Casimiro, conforme pode, sobe a escada, que não tem corrimão, mas segura-se a gente à parede dos dois lados. Chega a uma espécie de patamar que tem três portas; duas estão abertas de par em par, a do centro está fechada, mas simplesmente com o trinco. É necessariamente ali que deve morar o sujeito que na véspera se tinha deitado na rua. Casimiro levanta o trinco, abre a porta, e fica muito espantado do quadro que se lhe apresenta diante dos olhos; mas de esta vez não é enlevo o que a sua fisionomia exprime.

em uma água-furtada que tem doze pés quadrados, e que recebe a luz de uma trapeira construída no teto, está um homem estendido em cima de um montão de palha que sustenta uma espécie de colchão feito de aparas; um cobertor de algodão, negro de imundície e esburacado em muitos sítios, é tudo o que tem para se cobrir; ausência total de lenções; serve-lhe de travesseiro uma acha redonda, que, para ser menos dura, está coberta de velhos cartazes de espetáculos, que provavelmente foram arrancados das esquinas. O homem que dorme ali não deve nunca despir-se completamente; mas como se está no verão, tirou o paletot e o colete. Tem na cabeça uma velha caçarola de lata sem cabo, a qual lhe serve de barrete de dormir.

Junto de esta miserável cama está uma cadeira coxa servindo de mesa de cabeceira, em cima da qual se vê uma terrina de porcelana rachada e quebrada em muitos sítios. Aquela terrina, que talvez outrora teve dentro saborosas sopas, está reduzida a um emprego bem humilhante! Sic transit glória múndi! Há fato espalhado pelo meio do chão. Sobre uma tábua pregada no tabique estão alguns boiões de pomada, um pente, um cangirão, uma garrafa, um cachimbo e um pedacinho de espelho.

Quando o rapaz abre a porta, o sujeito que estava deitado dorme, tem a cara voltada para a parede, e a chegada de Casimiro não parece tê-lo acordado; por isso este último pode muito à vontade examinar o sítio em que se acha, e é o que ele faz, porque para um pintor de gênero havia ali assunto de um quadro original e curioso.

Mas, depois de ter visto e revisto tudo, o que não podia levar muito tempo, Casimiro decide-se a levantar a voz para despertar o dorminhoco:

—Olá!... ó senhor!... sr. vizinho! não se lhe poderia dar uma palavra?

Rouflard volta meio corpo, resmungando:

—O que é? que me querem? não estou cá! vão para o diabo! não pode um homem dormir sossegado em este cochicholo!...

—Perdão, sr. Rouflard, pelo ter acordado, mas são mais de dez horas, pensava encontrá-lo já levantado.

—Eu levanto-me tarde, porque gosto de estar deitado, e nada tenho de melhor a fazer do que dormir. Ah! se o senhor me paga o almoço, isso é diferente...

—Talvez que sim; e se lhe não ofereço de almoçar, posso dar-lhe com que possa arranjar um almoço muito decente.

A estas palavras, Rouflard volta-se de todo, senta-se na cama, tira a caçarola que lhe serve de barrete de dormir, esfrega os olhos, e exclama:

—Oh! mas então o caso é diferente; isso é que são palavras bem pensadas; espere, eu creio que o estou reconhecendo, é o sr. Casimiro Dernold, mora cá no prédio, no terceiro andar...

—Exatamente, ah! o senhor sabe o meu nome!...

—Foi o meu criado que me deu estas informações. Chausson, o nosso porteiro, que foi em outro tempo meu servo, e que queria ontem à noite deixar-me dormir na rua; porque, agora me lembro muito bem, se não fosse o meu nobre vizinho, era a soleira da porta da rua que me serviria de cama! Aquele tratante do Chausson!...

—Se me dá licença, não foi ontem à noite, foi esta madrugada que tudo isso aconteceu, porque era muito mais de duas horas quando eu vim para casa...

—Pois bem! ainda que fossem quatro! Por ventura as pessoas finas, as pessoas da boa sociedade deitam-se como as galinhas! Já não tenho com que ir cear à Maison de Or, é verdade, mas posso sempre passear no boulevard dos Italianos enquanto isso me der prazer! e Chausson é um maroto! vinga-se dos socós que lhe dei em outro tempo. Aí está o que são os homens! para conhecer os seus defeitos deem-lhes a riqueza. Creio que foi Larochefoucauld que disse isto, ou alguma coisa equivalente.

—O senhor tem instrução, sr. Rouflard, como é que não tem achado em que se empregar convenientemente?

—Empregar-me! empregar-me. Ah! o vizinho tem graça! é por não ter querido nunca empregar-me que durmo hoje em cima de uma pouca de palha! Mas não façamos recriminações! o senhor ficou em me dar com que almoçar, isso cairia do céu, porque não tenho um soldo, e em compensação tenho grande apetite; a tudo isto acresce que não tenho já crédito em parte nenhuma!...

—Mas, se o senhor não quer empregar-se, vai talvez rejeitar a minha proposta?...

—Conforme! se é coisa que não dê muito trabalho...

—Oh! não dá trabalho nenhum; tratava-se de vir a minha casa servir-me de modelo, quatro ou cinco horas por dia.

—Servir de modelo... para a cabeça?

—Naturalmente, oh! eu não quero senão o seu busto, a cabeça e as mãos.

—Bravo! isso convém-me, oh! convém-me muito! quando quer principiar?

—Hoje mesmo, esta manhã, se o senhor poder?

—Eu posso sempre... todavia...

—Todavia precisa almoçar, compreendo isso! Tome, aqui tem dez francos adiantados sobre o seu trabalho; vá almoçar, depois venha a minha casa, que eu vou preparar a palheta.

Rouflard levanta-se muito expedito, recebe os dez francos com uma cara radiante, e enfia logo o colete e o paletot, dizendo:

—Há muito tempo que não tenho um despertar tão bonito. Vamos entrar na extravagancia de comprar uma pouca de pomada de baunilha, para fazer honra ao nosso pintor...

—Não faça despesas de toucador por minha causa, acho-o muito bem assim como está.

—Que bondade a sua. Ah! se me houvesse conhecido outrora, nos meus bons tempos! então é que o meu retrato e a minha pessoa eram disputados; mas outros tempos, outros cuidados!

—Perdão, sr. Rouflard, uma outra pergunta, que vai talvez parecer-lhe indiscreta.

—Pergunte à vontade, não faça cerimônias.

—O senhor disse aí há pouco que não tinha nem um soldo, e que não queriam já dar-lhe nada fiado. Se não tivesse recebido a minha visita esta manhã, como é que havia de almoçar?...

—Como? ah! sim, compreendo que isso lhe pareça difícil de resolver! é que o senhor ignora que há um anjo em esta casa...

—Um anjo?

—Sim, senhor.

—No prédio?

—Sim, em esta mesma escada, não falo da que vem ter a esta água-furtada, mas cá por baixo, no quinto andar, em um quarto muito modesto, mas que parece um palácio em comparação de este chiqueiro, mora uma rapariga que pode ter dezoito anos, creio, e uma velha a quem ela chama sua avó. A rapariga chama-se Lisa, a menina Lisa, como toda a gente a conhece; é baixinha, é verdade, mas tão bem feita, tão graciosa... e uma cara!... linda a mais não poder ser! Oh! nos meus bons tempos vi bastantes mulheres bonitas! e mulheres que faziam furor, que viam a seus pés tudo o que havia de melhor no turf. Pois bem, digo-o francamente, a menina Lisa vale mais que todas elas...

—Vi há pouco essa rapariga, foi a ela que me dirigi para dar com a sua escada, pareceu-me, com efeito, muito interessante.

—Interessante! oh! isso é pouco; ela é mais que interessante! e depois um coração! uma bondade! quando estou completamente à divina, como eu lhe dizia ainda agora, é ela que me socorre. Um dia, havia eu parado diante da sua porta, que estava aberta, tinha fome, e arrisquei-me a dizer-lhe: «Minha vizinha, não terá por aí um bocado de pão que me dê? não tenho migalha em casa.» «Tem fome!...» exclamou ela, e correu logo ao armário a buscar-me pão e um pedacito de queijo, que me ofereceu, dizendo-me: «Tome, não lhe posso dar mais nada, não tenho vinho...» «Oh! isto é bastante, lhe disse eu, e a menina é um anjo de bondade!» ela acrescentou: «Quando lhe faltar pão, venha pedir-mo, não se constranja, é-nos preciso tão pouco a mim e a minha avó, que sempre tenho de sobra.» Aqui tem o senhor por que eu chamo a essa rapariga um anjo; vê que tenho razão, faço por não abusar da sua bondade, mas algumas vezes, mesmo muito amiúde, vejo-me obrigado a recorrer a ela... então que quer o senhor? parece que estava no meu destino o ser sustentado pelas mulheres; por isso chamo à menina Lisa a minha namorada. Mas de esta vez é honestamente! respeito essa pequena, tanto quanto a estimo; faço mais, escuto os seus conselhos, ela ralha comigo às vezes, quando venho para casa bêbedo...

—Mas não segue esses conselhos?

—Não sigo, é verdade; ainda ontem me emborrachei... que quer! a força do hábito. Também, quando estou bêbedo, não há perigo que eu pare para conversar com Lisa; pobre pequena! a sua bondade para comigo é tanto mais meritória, que ela trabalha sem descanso para sustentar sua avó, que está paralitica, algumas vezes à meia noite, à uma hora, sinto-a a trabalhar ainda... e então grito-lhe: «Vizinha! isso é de mais, velar até tão tarde, vá descansar, olhe que pode adoecer com tanto trabalho!» Ela responde-me alegremente: «Não, não! o meu divertimento é coser; depois, não tenho sono.» É realmente extraordinário que em uma rapariguita haja às vezes mais coragem para o trabalho do que em cinco ou seis homens robustos com eu!

Casimiro tem escutado mui atentamente tudo o que Rouflard lhe tem dito da menina Lisa. Isso ainda lhe dá que refletir. Mas Rouflard, que acabou de vestir-se, faz tinir os dez francos que tem na mão, e diz-lhe:

—Perdão, meu caro vizinho, mas a fome aperta comigo, eu não o ponho fora... o senhor pode ficar aqui se se diverte com isso, eu porém peço licença para me ir confortar.

E, sem aguardar a resposta do rapaz, Rouflard sai pela porta fora e desce rapidamente a escada, escutando apenas a Casimiro, que lhe grita:

—de aqui a uma hora... em minha casa!... não se esqueça!...


A menina Lisa

Sinopse

Leia gratuitamente A menina Lisa, de Paul de Kock, em versão portuguesa anônima publicada em Lisboa em 1907. Esta edição Literunico preserva o prefácio e os 18 capítulos integrais, com normalização ortográfica conservadora para PT-BR moderno.

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