Universo da obra
Universo da obra
No dia seguinte, depois do meio dia, Casimiro está em casa da amante, sentado a uma mesa sobre a qual se acha servido um magnífico almoço, defronte da sr.ª Montémolly, com quem ele fez as pazes em essa mesma noite do baile Mabille, que se passou sem nova cena de ciúmes. Miflaud, como não podia deixar de entregar-se à sua paixão pela dança, teve de largar o braço de Ambrosina, a qual, naturalmente, tomou o de Casimiro; mas este, que não tinha a menor propensão para o cancan, ainda o mais burguês, contentou-se em ver Miflaud fazer prodígios de destreza e de audácia, executando a tulipa tempestuosa e outras danças em voga nas quadrilhas excêntricas; depois, enternecido enfim pelos suspiros que dá Ambrosina apertando-lhe o braço, pelos olhares ardentes que sucederam aos que ela a princípio lhe lançava, por estas palavras: «Então já me não amas?» que são pronunciadas com uma voz quase suplicante, ele responde meigamente à pressão do braço, olha para ela sorrindo, e está feita a paz. Não é talvez uma paz bem solida, bem durável, mas enfim é uma reconciliação.
A sr.ª Montémolly está com um lindo trajo caseiro de manhã, que dá muito realce aos seus contornos bem pronunciados; na cabeça não tem mais enfeites que os seus lindos cabelos, muito negros e espessos, que ela própria sabe arranjar de maneira que harmonizem com a sua fisionomia, talento que nem sempre possuem os artistas cabeleireiros, que nos penteiam a seu modo, sem se importarem que o penteado fique bem ou mal à nossa cara.
Ambrosina é ainda uma mulher muito sedutora e que muitos homens se julgariam felizes de conquistar; mas, em este momento é ela que parece procurar agradar ao seu amante, prendê-lo em novas cadeias, enfim cativá-lo ainda mais. Estão trocados os papéis: é a senhora quem faz a corte, e o homem quem a recebe.
—Meu amiguinho, coma um bocadinho de este foie gras, diz Ambrosina a Casimiro. Não o acha bom?
—Delicioso, ótimo! mas já comi.
—Não importa. Então vai perdendo o apetite?
—Pelo contrário, tenho um apetite enorme, e parece-me que o mostro bem; faço honra ao seu almoço.
—Que tal acha este Chambertin?
—Excelente: sinto-me tentado a cantar aquela copla do Novo senhor de aldeia: É um vinho dos mais excelentes!... tem dez tem doze anos!...
—Tenho aqui um velho Madeira, de retorno da Índia, que o meu fornecedor de vinhos me recomendou; vai dizer-me o que pensa de ele.
—Estou de antemão persuadido de que pensarei muito bem; a senhora tem sempre vinhos deliciosos.
—É verdade, estou muito contente com o meu fornecedor. Coma de esta lagosta em mayonnaise...
—É o que estou fazendo.
—Aqui tem azeitonas... e atum.
—Logo, logo, temos muito tempo; a senhora não tem que sair hoje de manhã?
—Eu? ora essa! E aonde poderia eu ir quando estou com o senhor, quando o possuo aqui, ao pé de mim, em minha casa? Ah! sou tão feliz então! queria estar sempre assim...
—Provemos uma gota de este famoso Madeira de retorno da Índia. Hum! que linda cor... e como está nif....
—O que entende por nif, meu amiguinho?
—É um termo de campônio que quer dizer claro, puro. Hum! belo aroma, este não cheira a água-ardente como todo o Madeira falsificado... À sua saúde, minha querida amiga...
Vá à sua, meu brejeiro: mas sobretudo não me pregue petas como ontem.
—Ah! quer tornar à mesma? Afinal de contas, o crime não era grande. Toda a gente vai ao Mabille, e pode-se estar lá com muito juízo.
—Sim, mas não se deve dançar como o seu amigo Miflaud; aquele rapaz tem os ossos deslocados!
—Então que quer? ele aspira a uma reputação no gênero da do famoso Chicard!
—Felizmente o senhor não gosta de dança...
—Ainda que gostasse, peço-lhe que acredite que não seria isso razão para eu me entregar a um cancan tão descabelado.
—Meu amiguinho, aqui tem salmão grelhado que há de ser muito bom com este molho à genebriana.
—Diabo! ainda salmão; já tenho comido muito! Enfim, tanto pior! sacrifico-me...
—Então não bebe!
—Não faço outra coisa...
—Temos aqui Champagne rosei; gosta, creio eu?
—Oh! eu gosto de todos os vinhos quando são bons, é como as mulheres.
—Como, senhor! gosta de todas as mulheres?...
—Perdão! é quando elas são boas, e asseguro-lhe que não me prende isso muito.
—Ah! mau! então acha as mulheres más?
—Sim, em geral, mas há excepções.
—É uma felicidade! e eu sou uma excepção?
—Oh! a senhora abusa da minha situação, faz-me beber uma grande diversidade de vinhos... e depois faz-me perguntas insidiosas...
—Vamos, responda: eu sou boa?
—Ah! ah! ah!
—Não se ria! quero que me diga se sou boa.
—Só pela maneira de me perguntar isso, se poderia logo pensar o contrário! mas não, pode estar sossegada, a senhora é boa, é um carneiro, um cordeirinho... nunca se zanga...
—Creio que está mangando comigo?
—Não, oh! francamente, julgo-a boa, quando não está debaixo do império de uns zelos que lhe estragam às vezes o gênio.
—É minha a culpa? Eu não seria ciosa de certo se o amasse menos...
—Sim, isso diz-se sempre, mas eu não duvido dos seus sentimentos. Tem-me dado bastantes provas de afeição, tem-mas dado até de mais... e como poderei eu pagar...
—Cale-se! agora vai dizer tolices, beba, que é melhor. O Champagne está à sua espera. Vamos, faça-me a razão... este é o meu vinho favorito...
—À sua saúde, querida Ambrosina; sim, bebo mas isso não me impedirá de lhe dizer que no fundo do coração não estou contente comigo. Não faço coisa alguma, não me falta nada, a senhora corre ao encontro de todos os meus desejos, paga a todos os meus fornecedores: é odioso, isto assim não pode durar!
—Na verdade, Casimiro, não sei o que tem hoje, mas está a dizer-me coisas muito desagradáveis. Como, porventura entre duas pessoas que se amam, não deve ser tudo comum, o prazer e o desgosto, a miséria e a riqueza? Se eu não tivesse um soldo de meu, se carecesse de tudo, pensa que me havia de envergonhar de lhe dever tudo, de partilhar da sua fortuna, de viver dos seus benefícios?...
—Oh! em uma mulher, o caso é muito diferente! uma mulher, é esse o seu papel, é a sua sorte; a mulher nasceu para ser protegida, socorrida, sustentada pelo homem. As senhoras são feitas de uma das nossas costelas, por conseguinte são uma parte de nós mesmos. Mas o homem nasceu para trabalhar, para ganhar dinheiro, ou para o perder quando não é bem sucedido nas suas empresas. E quando ele passa todo o seu tempo a passear, a não fazer nada, senão divertir-se à custa da mulher, é o mundo às avessas!
—Ah! como é cruel! E todos aqueles que nasceram com fortuna, com herdades, quintas... têm acaso necessidade de trabalhar?
—Não, mas também não têm necessidade de que os seus fornecedores sejam pagos pela dama a quem fazem a corte.
—Mas, todos os dias se está vendo um homem que não tem nada casar com uma mulher que lhe leva um dote considerável; e ele não se envergonha de aceitar esse dote. Bem vê que é a sua mulher que ele deverá o seu bem estar, a sua fortuna, que muitas vezes ele se apressará a dissipar com amantes. Por que razão se acha o senhor tão repreensível, enquanto que esse homem será bem visto na sociedade?
—Oh! minha querida amiga, é que há aí uma grande diferença: esse homem veio a ser marido da senhora rica, ela julgou-o digno de o unir a si por laços indissolúveis, enfim tem o nome de ele. O marido torna-se dono da casa, o que é muito diferente! Então pode mandar, pode pôr e dispôr de uma fortuna que passou a ser sua...
A sr.ª Montémolly não responde nada; escutou com atenção as últimas palavras do seu amante, e isso carrega-lhe de sombras a fisionomia, enquanto que Casimiro, enche um copo de Champagne, que em seguida bebe aos golinhos, achando que é infinitamente mais agradável beber assim o vinho do que ingurgitá-lo, e nós somos completamente da seu parecer; não vemos que vantagem pode haver em fazer da boca jogo do tonel.
Entretanto, espantado do silêncio que guarda a sua amante, e do ar pensativo que substituiu o prazer que lhe animava os olhos, depois de ter acabado de beber o Champagne, Casimiro diz-lhe:
—Minha boa amiga, o que é que tem? vejo-a com um ar tão triste! está incomodada?
—Não, meu amigo, não, não é isso...
—Então temos outra coisa? Aind'agora parecia-me, tão alegre...
—Ah! Casimiro! foi o que o senhor acaba de dizer que me estragou a minha felicidade...
—O que foi então que eu disse para produzir esse efeito?
—Tudo coisas muito justas; mas eu compreendi-o perfeitamente, e além de isso, o que me quis fazer perceber é naturalíssimo.
—O que é que eu quis fazer-lhe perceber? Afianço-lhe que não entendo!
—Finge que me não compreende! O senhor, falando-me das mulheres que enriquecem um homem casando com ele, quis dizer-me: Por que não faz a senhora outro tanto, se tem muito a peito ver-me gozar da sua fortuna sem remorsos?...
—Eu? nunca tive semelhante pensamento. Oh! juro-lhe que se engana. É verdade que disse isso, mas foi sem a intenção que supõe.
—Oh! meu amigo, ainda que fosse com essa intenção, onde estaria aí o mal? Pensa que não tenho dito comigo desde muito tempo: Ah! como eu me daria por feliz em ser sua mulher, como me sentiria ufana de usar do nome de ele! E se fosse possível isso, não lhe teria eu já pedido que se ligasse a mim por laços indissolúveis?... Se o não tenho feito, ai! é por que é impossível! Olhe, meu amigo, não quero ter segredos para o senhor... Disse-lhe que era viúva, e não é verdade! sou casada, casada realmente, e meu marido ainda está vivo!
—Ah! será possível. Espere! espere! então vou beber mais Champagne... o sr. Montémolly está vivo?
—Esse nome não é o de meu marido; ao separar-me de um homem, que eu nunca tinha amado, com o qual me era impossível viver, apressei-me a abandonar o nome de ele, para tratar de esquecer que era ainda sua mulher.
—Tinha para isso todo o direito. E o que faz esse senhor? Oh! se a contrária falar mais em seu marido, fiquemos por aí. Por quem é, não se embarace, fiquemos por aí!
—Não, visto que principiei, estimo muito agora contar-lhe como este casamento se fez, e por que se rompeu.
—Fale; o seu Champagne é delicioso; sou todo ouvidos.
—Vou confessar-lhe coisas... que não tenho dito a ninguém! mas não quero ter nenhum segredo mais para com o senhor.
—Não me diga senão o que lhe apraz que eu saiba: eu não lhe pergunto nada!
—É justamente por isso que lhe quero dizer tudo. Eu, aos dezoito anos, era muito bonita!
—Creio bem que sim, pois que ainda o é, e há de sê-lo sempre...
—Cale-se! Não tinha outros parentes senão uma tia mui pouco amável, que ralhava comigo constantemente, mas que vigiava bastante mal. Um rapaz viu-me à janela, e namorou-se de mim. Comprou a minha criada grave, que o introduzia em nossa casa quando minha tia saía. Ele era um rapaz muito bonito... em suma...
—Muito bem, o resto adivinha-se, passemos os pormenores.
—Mas o rapaz era militar, teve de partir, de se ir reunir ao exército. Estava-se então em guerra. Quando ele partiu, a minha falta havia tido consequências...
—Diabo! diabo! o negócio complica-se.
—Escrevi ao meu amante participando-lhe o meu estado; ele respondeu-me que assim que voltasse se apressaria a reparar a minha falta, casando comigo. Mas, pobre de mim! não devia voltar! foi morto na primeira ação...
—Pobre rapaz! aí fica a senhora sem saber o que há de fazer. E a tia?
—Era-me impossível ocultar-lhe o meu estado; ela gritou muito. Mas, como a fortuna que eu possuía me vinha de minha mãe, como eu era mais rica de que ela, e como, se eu a deixasse, ela teria de levar uma vida mais modesta, apaziguou-se. Fui para o campo; alugamos uma casinha nos arredores de Montmorency; foi lá que dei à luz uma menina, que confiei a uma mulher de Pierrefite.
—Em tudo isso não vejo seu marido...
—Espere; há de vê-lo bem depressa. De volta a Paris, ia eu frequentes vezes a Pierrefite ver minha filha. Isto desagradava a minha tia, que me repetia sem cessar que eu me comprometia, que não acharia com quem casar, se não procedesse com mais prudência. Eu não lhe dava ouvidos e continuava a ir ver minha filha, que era fraquinha e delicada, mas gozava de boa saúde. Infelizmente, a mim não me acontecia o mesmo: ia-me definhando de dia para dia, de forma que os médicos receitaram-me uma viagem à Itália, ou pelo menos uma longa estada em Nice. Parti com minha tia, depois de ter bem recomendado minha filha à ama. Fiquei alguns meses em Nice; não me restabelecia. Aconselharam-me que fosse passar uma temporada em Nápoles. Fui para lá, mas minha tia, tendo que fazer em Paris, deixou-me por algum tempo. Tinha-lhe recomendado muito que fosse ver minha filha, que se certificasse de que não lhe faltava nada.
«Quando minha tia voltou a ter comigo, disse-me que minha filha tinha morrido, e que a camponesa a quem eu a dera a criar, muito aflita com essa desgraça, tinha saído de Pierrefite sem dizer em que sítio ia habitar. Fiquei muito mortificada com a perda da minha filhinha. Tinha-me sentido tão feliz por ter uma filha! fundava sobre ela toda a minha felicidade futura! Minha tia fez quanto pôde para me distrair. Andamos muito tempo a viajar; visitei a Itália toda, depois uma parte da Suíça. Finalmente tinha-me restabelecido, e voltamos a residir em Paris. Aqui, um sujeito rico, bastante amável, ao menos fazia então todo o possível para o ser, veio fazer-me a corte; era um antigo amigo de minha tia, e tenho motivos para crer que, desde muito tempo, ela lhe havia prometido fazer quanto pudesse para me levar a consentir em casar com ele. Este sujeito era muito mais velho do que eu; minha tia porém afirmava-me que assim ainda eu seria mais feliz; que um marido jovem abandonava em casa a mulher para andar metido com amantes, enquanto que um esposo, homem de juízo, andava sempre com a mulher nas palminhas das mãos. Que lhe direi? eu pensava não amar nunca mais... tinha perdido minha filha... Deixei-me casar para estar enfim em minha casa e não viver mais com minha tia, a quem o homem que me desposava tinha feito presente de uma linda casinha nos arredores de Paris.
«Mas não tardei a perceber que fizera uma asneira, e que me tinha ligado a um homem que de nenhum modo me convinha. Meu marido era ciumento, curioso, esmiuçador, intrometendo-se em tudo; pelo lado da fortuna, como eu possuía a minha, não tinha precisão de recorrer a ele. Isso contrariava-o, queria saber como eu gastava o meu dinheiro; convidei-o a que se não metesse nos meus negócios; foi o começo das nossas questões. Mas aquele senhor, que tudo queria saber, tinha o atrevimento de esquadrinhar tudo por toda a parte quando eu saía, e creio mesmo que possuía segundas chaves de todos os meus moveis. O que é certo, é que um dia achou em um cofrezinho, no fundo da minha papeleira, as cartas que me escrevia aquele pobre Augusto quando estava no exército, e nas quais falava da nossa filhinha. O meu amigo acreditará que meu marido deu por paus e por pedras, dizendo-me que eu o enganara indignamente deixando-o crer que era... Joana de Arc! Respondi-lhe que ainda se devia dar por muito feliz em eu ter consentido em ser sua mulher, mas que eu não viveria mais com um homem que remexia nos meus moveis e tinha a confiança de ler as cartas que eu recebera antes de usar do seu nome. No outro dia executei a minha ameaça; aluguei uma casa, e mandei levar para lá tudo o que me pertencia. Meu marido quis opôr-se à minha saída; mas eu mostrei-lhe um revólver que tinha comprado, e disse-lhe: Não só o deixo, mas proíbo-o, ouça-me bem, proíbo-o de se apresentar em minha casa... A lei autoriza-o a isso, bem sei, porque não estamos separados judicialmente, o que faremos amanhã, se quiser; mas, como pelo nosso contrato já estamos separados de bens, creio que podemos dispensar essa formalidade. Contudo, repito, não tenha o atrevimento de ir nunca a minha casa, senão... é com este revólver que o hei de receber. Meu marido é muito medroso... desde esse dia nunca mais ouvi falar em ele.
—Bravo! oh! a senhora é uma mulher decidida! E juntou-se com a sua tia?
—Com minha tia! oh! nunca! não queria nada com minha tia, que foi quem me fez aquele odioso casamento. Ficamos mal uma com a outra; pois não pretendia ela fazer-me voltar para meu marido! mas eu respondi-lhe em um tom que lhe fez ver que eu não era já a menina submissa às suas vontades. Demais, ela morreu pouco tempo depois de aquela separação; uma doença repentina a levou à sepultura em poucos dias; havia-me escrito para que a fosse ver; tinha, afirmava, uma coisa importante para me comunicar. Hesitei, dizendo comigo: Vai ainda pedir-me para que volte para meu marido. Enfim, resolvi-me a ir; mas, quando cheguei à sua quinta, já não era tempo, tinha ela morrido! Aqui tem, meu caro Casimiro, todos os acontecimentos da minha vida, agora já sabe porque, com grande pesar meu, lhe não posso oferecer que case comigo.
—Oh! minha querida Ambrosina! pela parte que me toca, devo confessar-lhe francamente que nunca pensei em tal, o casamento não me tenta, assusta-me, bem sabe que há quem afirme que o casamento é o túmulo do amor.
—Oh! nem sempre... mas é certo... não me acha talvez bastante jovem para ser sua mulher?
—Eu! pois eu penso lá em semelhante coisa... não, eu penso... em fazer alguma coisa... em trabalhar...
—Trabalhar... Para quê? com que fim?
—Para ganhar dinheiro...
—Não sou eu a sua tesoureira?...
—É justamente porque eu preferiria ser o meu próprio tesoureiro. Ia menos mal na pintura a óleo, fiz também alguns retratos bastante parecidos...
—Fazer retratos! lembra-se de isso! para ter modelos, olhar muito para mulheres, estudar-lhes o sorriso, os olhares! Não quero que faça retratos, ouve? proíbo-lho expressamente.
—E a paisagem? oh! a paisagem é uma coisa bem inocente!
—Com os pintores não há nada inocente; para a paisagem, é mister ir ao campo procurar pontos de vista, ou carneiros e pastoras que os guardam.
—E são lindas as pastoras dos arredores de Paris! e graciosas! como as mulheres que alugam cadeiras.
—Deixe-me em sossego com a sua pintura.
—Prefere que eu escreva para o teatro? Ah! deve ser uma grande felicidade ver a gente representar as suas peças, ouvir-se aplaudir...
—Fazer comédias! que horror! um autor passa a vida nos teatros, nos bastidores, com as atrizes, faz a corte a todas, e, prometendo-lhes papéis, faz com que lhe deem atenção; o senhor não sairia mais dos bastidores, passaria ali a sua vida. Ah! peço-lhe por tudo quanto há, não pense em fazer peças de teatro.
—Pois bem! então, se eu escrevesse um romance? Ah! isto não exige passeios nem saídas; escreve a gente com todo o sossego no seu gabinete. Eu tenho às vezes ideias bastante originais, talvez faça um romance divertido, um romance de costumes...
—Um romance! um romance! tenho ouvido dizer cem vezes que, para fazer um romance, era preciso ter visto muito, que era preciso ter corrido, ter estado nos sítios que se pretende descrever, sobretudo para fazer um romance de costumes; ah! se o senhor faz um romance extraordinário, inverossímil, então pode inventar...
—Não, eu prefiro o ordinário ao extraordinário.
—Então meu amigo, bem vê que não podia trabalhar sossegadamente no seu gabinete; teria de andar, de ir algumas vezes a sítios muito arriscados, a esses bailes onde se dançam todas as danças possíveis; sob pretexto de ver como se trabalha em um atelier, iria a casa das floristas, das modistas, das costureiras, isso não acabaria; seria para estudar os costumes das diversas classes da sociedade. Deus sabe quanto se vê quando se quer estudar os costumes! Não, siga o meu conselho, não faça romance nenhum! Demais, não creio que seja essa a sua vocação.
—Ah! se eu pudesse descobrir ou inventar alguma coisa boa, útil, alguma coisa que me cobrisse de glória e fizesse a minha fortuna.
—Tem todo o direito de procurar isso...
—Que pena que a batata seja conhecida! talvez eu a tivesse descoberto!...
—Sim, mas a batata é perfeitamente conhecida, não quebre pois a cabeça a procurar inventá-la.
—Repito, quero ocupar-me em alguma coisa.
—Pois bem! se o quer absolutamente, eu lhe procurarei um emprego.
—A senhora? E então onde?
—em uma secretaria; vai-se para a repartição não muito cedo, sai-se de lá não muito tarde; à noite está-se livre, isto não dá muito trabalho.
—Ah! isso havia de agradar-me muito! Mas como espera a senhora arranjar-me esse emprego?
—Eu verei, falarei aos meus conhecimentos; parece-me que o caso não é urgente. Espere, Florentina tem um primo, que é chefe de uma repartição; farei com que ela fale ao primo. Aquela pobre Florentina! como a gente é ingrata! quando se ama muito alguém, quando não se pensa senão em essa pessoa, esquecem-se todas as outras! Mas o senhor faz-me andar a cabeça à roda, tira-me o juízo!...
—Que mais temos então?
—Temos que ontem à noite, quando recebi a sua carta, acabava Florentina de entrar; vinha oferecer-me o seu camarote na Ópera; mas depois de haver lido o seu negregado bilhete em que o senhor me anunciava que não iria lá, tive um ataque de nervos terrível; aquela pobre Florentina dispensou-me todos os cuidados, mas não sabia o que me havia de dar, mandou a minha criada buscar o remédio que costumo tomar quando tenho de aqueles ataques; mas a criada não voltava, eu tornei a mim, e sem esperar pelo remédio, disse a Florentina: «Anda comigo, quero ir a casa de ele; mandei vir uma carruagem, e Florentina teve a complacência de me acompanhar até à sua porta, queria mesmo ficar à minha espera, sacrificando por mim a Ópera e o prazer que esperava ter lá; mas eu não quis consentir, mandei-a embora. Então! há de convir que é uma verdadeira amiga, e que tenho muita razão em ter por ela uma afeição sincera...
—Sim, sim, não digo o contrário, ela é-lhe muito afeiçoada, mas também é horrivelmente feia!...
—Ah! aí está o que são os homens!... Que importa que seja feia, se possui todas as qualidades do coração! Mas os senhores não apreciam senão a beleza!
—E as senhoras não descobrem todas as qualidades do coração em uma mulher, senão quando ela não é bonita. Oh! em o sendo, acham-lhe logo todos os defeitos, mas não falam nunca das suas boas qualidades.
—Oh! cale-se! porque é que diz isso?
—É que as suas amigas íntimas são todas feias como os pecados mortais.
—Queria talvez que eu, para lhe ser agradável, chamasse a minha casa algumas belezas raras, afim de que o senhor lhes fizesse a corte mesmo à minha vista!
—Não, eu não lhe peço belezas raras; a senhora é que prefere as fealdades raras! Oh! mas faça o que entender! a final de contas, isso é-me completamente indiferente.
Ambrosina reprime a grande custo um movimento de impaciência, depois toca a campainha a chamar a criada grave, que aparece imediatamente.
—Adriana, o café está pronto?
—Está sim, minha senhora.
—Então sirva-o.
—E que venha bem quente, quase a ferver, diz Casimiro. Ouve, menina? se o posso tomar, não o tomo.
Adriana sai a rir; Ambrosina exclama:
—Não gosto que se graceje com os criados; isso torna-os familiares.
—Porventura gracejei com a sua criada?
—Sem dúvida; faz trocadilhos a respeito do café...
—Minha querida amiga, com a senhora nunca a gente sabe como há de falar a uma mulher; em tudo vê maldade, espero que não pense que arrasto a aza à sua criada...
—Não digo isso; mas o senhor não pode dizer que ela seja muito feia...
—Oh! também não me fará crer que é bonita! Um nariz acachapado, cabelo ruivo, é um bom derriço para algum polícia.
—É uma excelente rapariga, é-me muito afeiçoada; quando estou doente anda sempre em uma roda viva a tratar de mim...
Adriana traz o café; enquanto ela dispõe as xícaras, diz a ama:
—Adriana, eu estive ontem muito doente, não é verdade?
—Oh! sim, minha senhora! eu estava bem aflita. A sr.ª Florentina disse-me que lhe fosse buscar o remédio à botica, corri em um pulo; mas havia lá tanta gente, tive que esperar muito tempo; por mais que eu pedisse que me despachassem dizendo: «É para minha ama, a senhora está muito doente» aqueles senhores da botica estão tão habituados a trabalhar para doentes, que não se apressam nunca...
—Minha pobre Adriana; olha, pega em aquela touca da manhã que ali está em cima da poltrona, douta...
—Ah! como a senhora é boa!...
—Gosto de recompensar quem me serve com zelo. Anda, podes sair!
A criada pega na touquinha que a ama lhe dá de presente, e retira-se aos saltinhos.
Casimiro toma o café, bebe um cálice do divino licor dos beneditinos de Fécamp, um outro de rum, e levanta-se dizendo:
—Creio que isto é que se pode chamar ter almoçado.
—Janta comigo?
—Oh! minha querida amiga, são quase três horas; quando se almoçou assim, não se pensa em jantar, não terei vontade de comer.
—Mas sabe que tem que me levar esta noite à Ópera-Cômica?
—Sim, sim, está ajustado...
—Não vá fazer como ontem?
—Não tenha receio; vou tomar um pouco de ar e jogar talvez uma partida de bilhar no café da Porta-São-Martinho...
—Vá, meu extravagante, dê-me um beijo.
—Até logo.
Leia gratuitamente A menina Lisa, de Paul de Kock, em versão portuguesa anônima publicada em Lisboa em 1907. Esta edição Literunico preserva o prefácio e os 18 capítulos integrais, com normalização ortográfica conservadora para PT-BR moderno.
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