Leia agora
A menina Lisa

Universo da obra

A menina Lisa

Capítulo 7 · A menina Lisa

A família Proh

7 de 19 ≈ 13 min de leitura

Achava-se a família Proh reunida na sua sala. Os leitores já conhecem a sr.ª Celeste Proh, de quem lhe fizemos o retrato; seu marido, o sr. Castor Proh, é um antigo professor de história e de línguas mortas. É um homem alto, magro, amarelo, que era feio em moço, e que não se fez bonito em velho; tem o nariz de tal forma chato, de tal forma acachapado, que lhe seria impossível segurar em ele uns óculos. Esse senhor tem sempre os ares de um preceptor prestes a ralhar com o discípulo, conserva constantemente uns modos arrogantes e desagradáveis; sua mulher sustenta nunca o ter visto rir, mas há pessoas que se divertem por dentro sem que ninguém dê por isso: com o sr. Proh não se dá por semelhante coisa.

Uma herança, com que ele não contava, permitiu ao professor descansar e viver dos seus rendimentos; já não quer ocupar-se, diz ele, senão da educação dos filhos; mas a filha prefere as artes agradáveis ao estudo da história, e o Afonsinho deita a língua de fora ao pai, quando este lhe fala de línguas mortas; é um verdadeiro diabrete, guloso, curioso, preguiçoso, traquinas, respondão; o pai afirma que o pequeno promete...

A menina Angelina Proh aproxima-se dos dezesseis anos; em esta idade, em não sendo torta nem corcovada, em não tendo o nariz escarrapachado nem os olhos remelosos, uma rapariga é sempre bonita; não é às vezes senão a beleza do diabo, mas isso faz ainda conquistas, há homens que não apreciam senão essa beleza. A menina Proh não possuía outra; juntava a isso uma dose de toleima, que podia ainda passar por ingenuidade, mas que mais tarde não devia deixar a menor dúvida sobre a sua qualidade.

em este momento, a sr.ª Proh está principiando a bordar uma gola, a menina Angelina tenta desenhar olhos e orelhas; o Fonfonzinho recorta uma estampa, e o ex-professor passeia pelo meio da casa, cofiando com a mão a barba e parecendo meditar. De repente para:

—Afonso, vou-te fazer uma pergunta bem simples.

—De que é que vai fazer...

—Não se diz: de que é que! em primeiro lugar essa construção de frase é viciosa...

—Viciosa! então que mal fez ela?

—Meu filho, eu interrogo-o, mas o menino não tem direito para me interrogar... Escute bem, e responda-me illico! Como se chamava o primeiro homem?

Illico!...

—Hein? vamos, menino, dê-me atenção... Pergunto-lhe como se chamava o primeiro homem?

—Pois bem! Illico! Disse-me que respondesse: Illico!... digo-lho, e não está contente!...

—Mas, velhaquete, eu entendo por illico, imediatamente... logo, logo...

—O pequeno tem razão; para que emprega com ele termos bárbaros que a criança não compreende? estraga-lhe a memória, e mais nada!

—Minha senhora, meta-se lá nos seus trapos, nos seus vestidos, e deixe-me dirigir a educação de meu filho, ele tem talento; promete, mas precisa ser bem ensinado...

—Graças a Deus, tem muito tempo diante de si.

—Nunca se tem bastante. Aqui estou eu, que sei muito, lisonjeio-me de isso, e precisaria ainda cem anos de existência para ser completo!

—Como um ônibus!...

—Fonfonso! tu castigaberis!...

—Papá, bem sabe que nos ônibus o condutor grita: Completo! Olhe! desenhe-me um boneco, a mana não me quer fazer nenhum...

—A mana está trabalhando nos seus olhos e nas suas orelhas, e tem razão. Isto porém faz-me lembrar que a sua lição de desenho era ontem... O Casimiro veio?

—Sim, papá...

—Não, é falso; a mana não fala verdade, o vizinho não veio ontem dar-nos lição...

—Seu mano tem razão, menina?

—Ora! não sei... já me não lembro... vão fazer-me enganar na minha orelha!

—Eu não dou vinte e cinco francos por mês a esse rapaz para que ele se descuide das suas lições. Sr.ª Proh, a senhora é que devia tomar sentido em essas coisas...

—Por quem é, sossegue! o sr. Casimiro não é capaz de o prejudicar em uma lição! é um rapaz muito distinto, e que só ensina desenho aos nossos filhos para nos obsequiar.

—Desconfio das pessoas que fazem as coisas para obsequiarem: em geral fazem-nas mal; é como aqueles criados que estão sempre a dizer que não nasceram para servir, não fazem nunca bem a sua obrigação.

—Papá, faça-me um boneco.

—Vamos lá; tens papel e lápis?

—Aqui está tudo. Ah! mas eu quero que faça o boneco com o pé.

—Com o pé? Fonfonso, tu não sabes o que dizes! então a gente desenha com os pés quando tem as mãos à sua disposição?

—Mas o papá deve servir-se tanto dos pés como das mãos, visto que é quadrúmano.

—Quadrúmano! eu sou quadrúmano! quem é que lhe disse tal insolência? o menino sabe o que é um quadrúmano?

—Sei, é um chimpanzé, e bem sabe que o outro dia a mamã disse-lhe que era um chimpanzé. Perguntei ao sr. Casimiro o que era um chimpanzé, e ele respondeu-me que era um homem dos bosques, que era um quadrúmano.

—A senhora bem está ouvindo; seu filho compara-me com um macaco, porque a senhora o outro dia não receou qualificar-me com esse epiteto.

—Também o senhor me chamou girafa. Era porventura mais delicado?

—Papá chimpanzé, faça-me um boneco.

—Se me tornas a chamar chimpanzé, levas uma sova de açoutes que te racho! Vá estudar a sua lição de gramatica, para ma dizer logo.

—Ora! a gramatica aborrece-me; gosto mais de recortar estampas.

—Faça o que lhe ordeno, seu patife! e não resmungue. Angelina, quando acabares o teu desenho de orelhas, espero que te lembres das minhas peúgas, que estão em muito maú estado, já me queixei de isso a tua mãe, que creio que terá atendido a minha reclamação.

—As suas peúgas! Ora! ainda lhes não toquei.

—Como! pois a senhora não manda concertar a roupa? na verdade, não sei em que pensa, ou antes sei-o demasiado. É nos seus adornos, nos seus enfeites, nos seus vestidos de cauda ou sem cauda, e a roupa fica em um estado miserável! os meus coletes de flanela não têm botões, as camisas estão todas rasgadas, as ceroulas estão cheias de buracos; mas a senhora, contanto que tenha um vestido à moda, não quer saber de mais nada.

—Queria talvez que eu tivesse sempre as suas ceroulas no pensamento! Ah! credo! seria bem triste!...

—O que é triste, é achar a gente as camisas rotas na ocasião de as vestir.

—Sossegue, a sua roupa há de ser concertada; mas como em esta casa há trabalho de mais e como eu e minha filha não podemos chegar para tanto dei tudo isso a uma costureira.

—A uma costureira! mas está a senhora bem informada a respeito de essa costureira? há algumas que trocam os objetos que se lhes confiam.

—Oh! não imagine que ela lhe vai trocar as peúgas, o senhor está sempre com medo de que o roubem, demais, é uma rapariga que mora no prédio, no quinto andar, é a menina Lisa.

—A menina Lisa! não conheço. E trabalha bem, essa menina Lisa.

—Cose como uma fada; já lhe dei que fazer, e fiquei muito satisfeita com ela, tanto mais que não leva caro, dá-lhe a gente o que quer.

—Oh! então é preciso dar-lhe que fazer muitas vezes. E essa rapariga mora sozinha lá em cima?

—Não, está com a avó, uma boa velhinha, quase paralitica, que já não se acha em estado de fazer nada; pois bem! é a menina Lisa que tem cuidado de ela, que trabalha dia e noite para que não falte nada à pobre velha. Oh! esta rapariga porta-se muito bem... toda a gente no prédio lhe faz elogios.

—Hum! desconfio de essas pessoas a quem todo o mundo faz elogios, isso esconde às vezes muitas coisas, essa sujeitinha tem sem dúvida namorados...

—Oh! que ideia! não fale assim diante de sua filha.

—Minha filha aprende desenho, e quando uma menina quer desenhar de modelos de gesso e copiar estatuas antigas, creio que pode compreender o que é um namorado. Demais, a tal menina Lisa é muito ajuizada, não tem nenhum! estimo bastante.

—Sim! sim! Lisa tem um namorado! exclama o jovem Fonfonso; eu bem sei! eu conheço-o...

—O que está o menino a dizer! aonde foi aprender essas coisas?...

—Ora, ouvi dizer. Não é verdade mana, que a costureirinha do quinto andar tem um namorado?...

—Deixa-me, vais fazer com que me engane na minha orelha.

—Menina, diz por sua vez a mamã, sou eu que a interrogo; deixe por um momento as suas orelhas e responda-me. A menina sabe que Lisa tem um namorado?

—Se derem crédito às tolices que diz o mano, estão bem aviados.

—Tu é que és uma tola; bem ouviste o borrachão que mora nas águas-furtadas dizer o outro dia na escada: Viva Lisa! viva a minha namorada! E por sinal tu disseste: Ora não há! olhem que belo namorado que a Lisa tem!

—Isso não é verdade! eu não disse tal!

—Disseste, sim!

—Não, não, não!

—Sim, sim, sim!...

—Basta, basta! satis! satis! grita por sua vez Castor Proh; estes irmãos fazem-me lembrar Cain e Abel, que eu não conheci, mas cujas questões tiveram consequências bem terríveis!

—Desde o momento em que o bêbedo das águas-furtadas está metido em tudo isto, diz Celeste, já o senhor vê que caso se pode fazer do que acaba de dizer seu filho.

—Sim, senhora, esse bêbedo, esse tal Rouflard, porque é assim que ele se chama, creio eu, esse maroto, preguiçoso, borrachão que devia ser expulso do prédio. Chausson, o porteiro, tinha-mo recomendado, pedindo-me que lhe desse alguma coisa que fazer, e dizendo-me que era um homem bem educado, que tivera desastres na sua vida. Eu acedi a ocupá-lo, ainda que desconfio sempre de essas pessoas que tiveram desastres. Eu tinha justamente precisão de rum da Jamaica, a senhora não gosta, prefere o licor de erva doce, mas gosto eu. Era um dia em que a senhora jantava fora com os pequenos. Dou dinheiro ao tal Rouflard, ordenando-lhe que fosse aos Americanos, que é onde há certeza de o achar bom. O homem sai de aqui perto das quatro horas da tarde. Era preciso quando muito uma hora para fazer o recado, e às seis horas ainda não tinha voltado. Vou-me queixar ao porteiro, receoso de que tivesse acontecido algum desastre ao seu protegido. Dão sete horas, dão oito, finalmente, às dez horas, vejo chegar o nosso homem, borracho, bêbedo, mal podendo suster-se nas pernas, e que me apresenta uma garrafa quase despejada, dizendo com ar chocarreiro: «Aqui tem a sua garrafa de rum... entornou-se um pouco pelo caminho... é que provavelmente não trazia a rolha bem apertada.» «Como! lhe disse eu, atreve-se a afirmar que a garrafa se entornou! porém ela devia estar perfeitamente lacrada! para que teve a confiança de a abrir?... foi para beber o meu rum... você é um maroto!... um patife!...» Em vez de se desculpar, de me pedir perdão, o tal Rouflard diz-me a modo de injúria: «Se não está contente, vou beber o resto!...» Efetivamente, deixei-lhe o resto; mas dei os meus agradecimentos ao porteiro, e, repito, um tal bêbedo não devia continuar a viver no prédio.

—Ora adeus! o Rouflard não tem medo de vossemecê, papá Chimpanzé, não, Chimpanzé não... papá Castor...

—Então o menino conversa com esse homem? Fonfonso, proíbo-o que lhe fale, não quero que aprenda maús costumes.

—Não sou eu que lhe falo, ele é que me diz sempre tolices quando passa.

—Não lhe responda, encerre-se no seu foro íntimo.

—Não entendo, papá.

—Quero dizer que não dê atenção ao que lhe diz esse bêbedo.

—Ora! mas diverte-me, faz-me rir, ontem pela manhã disse-me: Porque é que teu pai não põe o seu nome por cima da porta? é uma coisa que sempre se faz para os artistas.

—O que, Fonfonso! esse homem tem a petulância de te tratar por tu! Que insolência!

—Eu não lhe posso obstar...

—Deves-lhe dizer: Olhe que eu nunca guardei perus com o senhor.

—E ele responder-me-á: Mas já os guardaste com o teu pai.

—Ah! esse tal Rouflard queria que eu pusesse o meu nome por cima da porta!

—Sim, senhor; até me disse: Fica descansado, pequeno, hei de eu lá pô-lo e mais o de toda a família, é preciso que todos saibam onde hão de procurar a família Proh...

—Ele disse-te isso! mera brincadeira, talvez...

—Ah! exclama Angelina, isto faz-me lembrar que vi ontem esse homem subir a escada com um grande pedaço de giz na mão.

—Teria ele porventura a petulância de fazer caricaturas ridículas por cima da minha porta!...

—Vá sempre ver, sr. Proh, em um bêbedo tudo se deve esperar, nós ainda hoje não saímos, poderia ele ter efetuado ontem as suas ameaças sem que nós o soubéssemos.

O sr. Proh sai da sala e dirige-se ao patamar. de aí a poucos instantes ouve-se um grito de indignação; toda a família corre imediatamente para a escada, com grande curiosidade de saber o que pode estar escrito por cima da porta.

—Venha, senhora, venha! exclama Castor, venham todos, e vejam o que o tal Rouflard teve a pouca vergonha e a audácia de escrever por cima da nossa porta. Oh! há para toda a gente...

Com efeito, por cima da porta tinham escrito a giz, e em grandes letras:

A sr.ª Pro-fanée.

A menina, Pro-nobis.

O sr. Pro-fesse.

O menino Pro-pice.


A menina Lisa

Sinopse

Leia gratuitamente A menina Lisa, de Paul de Kock, em versão portuguesa anônima publicada em Lisboa em 1907. Esta edição Literunico preserva o prefácio e os 18 capítulos integrais, com normalização ortográfica conservadora para PT-BR moderno.

A menina Lisa

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de A menina Lisa

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral A menina Lisa Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 7 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir