Universo da obra
Universo da obra
Casimiro desce a escada muito devagar atrás do inquilino da água-furtada, não porque tenha receio de cair, mas porque está muito preocupado com o que Rouflard lhe contou acerca da rapariga que mora no quinto andar, que trabalha toda a noite para sustentar a avó, e acha ainda meio de ser útil aos que carecem de pão.
Chegado ao patamar do quinto andar, o nosso mancebo para diante da porta da menina Lisa; estimaria bastante que aquela porta estivesse aberta, mas não acontece assim; é verdade porém que a chave está ainda na fechadura, o que anuncia que se não receia visita importuna. Casimiro está morto por tornar a ver a rapariga de quem se lhe fez tão grande elogio, diz de si para si que há pouco não lhe agradeceu bastante a indicação que ela lhe dera, acrescenta ainda que entre vizinhos não deve haver muita cerimonia, que de mais esta menina não tem muito trabalho para ganhar dinheiro pela sua agulha, e que se ele pudesse ser-lhe útil arranjando-lhe que fazer, em isso lhe prestaria um grande serviço. Enfim dá a si mesmo uma infinidade de razões para ter o direito de abrir a porta, e é o que faz.
Lisa continuava trabalhando, mas já não cantava; tinha o parecer triste, e dirigia especialmente a vista para o leito, onde a velha estava deitada, depois dava um profundo suspiro. Ao ver entrar de novo Casimiro em sua casa, as suas feições exprimem a sua surpresa; mas, quando o rapaz vai para falar, ela põe um dedo na boca, e diz-lhe a meia voz:
—Baixinho! tenha a bondade de falar baixo, porque minha avó está dormindo, e preciso não a acordar; esteve esta noite muito doente, muito inquieta, não sossegou um instante...
Casimiro entra pé ante pé, e murmura aproximando-se da rapariga:
—Menina, eu sou sem dúvida muito indiscreto em vir segunda vez incomodá-la, mas não sei se lhe disse que era seu vizinho.
—Sim, senhor, disse-mo, demais, eu já o sabia, tenho-o visto algumas vezes no prédio.
—Tem-me visto, e eu não tinha dado pela menina. Onde tinha os olhos?...
—É que eu estava no cubículo do porteiro, e depois ocupo tão pouco espaço, é muito fácil não me verem...
—Mas, quando alguém a vir uma vez é impossível que não deseje tornar a vê-la mais vezes...
Lisa não responde a isto, mas volta os olhos para o leito; Casimiro percebe que o momento é mal escolhido para lhe render finezas, e que, demais, não é para lhe fazer a corte que ele quer travar conhecimento com a sua vizinha, mas no desejo de lhe ser útil. É esse realmente o seu único intuito? Eu por mim não respondo por isso; mas já é alguma coisa o ter boas intenções. O mancebo prossegue pois falando baixo e sentando-se em uma cadeira que está perto de ele:
—Perdão, minha vizinha, vou falar-lhe francamente, e espero que nas minhas palavras não verá nada que a possa ofender. Soube pela pessoa que mora lá em cima, com que atividade a menina se entrega ao trabalho, para que sua avó não careça de coisa alguma; mas o trabalho de uma mulher é quase sempre mal retribuído, eu ter-me-ia por muito feliz se pudesse oferecer-lhe o meio de ganhar mais, fatigando-se menos...
—Porque outro trabalho? eu não sei senão coser, bordar e fazer meia ou renda.
—Eu me explico: sou pintor; ensaiei alguns quadrozinhos de gênero, mas ganha-se mais dinheiro a fazer retratos; em isso ainda eu não sou muito forte, preciso estudar, trabalhar muito, enfim tenho necessidade sobretudo de pintar do natural, e para isso preciso de modelos. Notei que aquele Rouflard tinha uma cabeça característica, eis a razão por que fui esta manhã falar com ele. Propus-lhe vir a minha casa servir-me de modelo; ele aceitou com alegria, e eu poderei ocupá-lo bastante tempo. Mas a minha simpática vizinha, que tem uma cabeça encantadora, ah! perdoe-me este elogio, é como artista que lho faço, eu Julgar-me-ia muito feliz se pudesse reproduzir na tela as suas feições tão finas, tão suaves. Oh! estou certo de que havia de conseguir! trabalha-se tão bem quando se tem diante dos olhos um modelo que nos encanta... não lhe pedirei que venha servir-me de modelo senão quando não tiver nada urgente para fazer... aceitaria a sua hora... o seu tempo vago... e não julgaria nunca pagar bastante caro as sessões que houvesse por bem conceder-me; eis o motivo por que tomei a liberdade de abrir outra vez a sua porta e de me apresentar aqui de novo. Se a minha proposta lhe desagrada, espero, ao menos, que não verá em isso da minha parte nenhuma intenção má.
A menina Lisa, que escutou Casimiro com muita atenção, responde-lhe logo:
—Não, senhor, não tomarei à má parte a sua proposta. Soube pelo Rouflard que trabalho para viver, para que nada falte à minha boa avó, e desejou ser-me útil; não posso senão agradecer-lhe muito o interesse que se dignou tomar por mim. Mas não aceito a sua proposta; ser modelo de pintores não é a minha ocupação, e tenho ouvido dizer... ao meu vizinho cá de cima, que as mulheres que consentiam em servir de modelos, não eram bem vistas na sociedade. Eu sou uma pobre rapariga, sem amparo, sem família, não tenho pois por única fortuna senão a minha reputação, e devo ter a peito conservá-la; tenho razão não é verdade?
Estas palavras tão simples, mas tão justas fazem viva impressão em Casimiro, que não está habituado a ouvir uma mulher falar tão discretamente. Trata contudo de convencer Lisa.
—Menina, convenho que o mister de modelo não dá a qualquer mulher uma perfeita reputação de seriedade, posto que em todas as profissões se possa ter bom comportamento quando há firme vontade de proceder bem. Mas também eu não vinha propôr-lhe que renunciasse às suas ocupações habituais por esta nova profissão. Podia-lhe que me servisse de modelo somente a mim, que me permitisse reproduzir as suas feições na tela, era um favor que eu solicitava e, para a menina, uma curta distração aos seus trabalhos. E como lhe podia parecer pouco regular ir a minha casa servir de modelo, viria eu para aqui pintar, traria para cá a minha palheta e os meus pinceis; de esta maneira, a menina não deixaria mesmo um instante a pessoa a quem prodigaliza todos os seus cuidados. Os modelos pagam-se muito caro, desculpe-me entremeter a questão de dinheiro em tudo isto; mas na vida não há remédio senão atender a essa questão: ora, se eu ocupasse um modelo durante umas dez sessões, dar-me-ia por muito feliz se ele se contentasse em receber cinquenta francos...
—Ih! Jesus! tanto dinheiro, só por servir de modelo!...
—Sim; e quanto mais bonito é o modelo, mais caro se faz pagar, isso compreende-se. Por isso, para achar um como a menina, em primeiro lugar seria muito difícil, depois teria de o pagar por um preço muito mais elevado, e as minhas posses não me permitem uma tão grande despesa. Já vê portanto que, satisfazendo ao meu pedido, era a mim que a menina obsequiava, era eu que lhe devia agradecimentos; mas isto desagrada-lhe, não pensemos mais em tal...
Lisa de esta vez hesita para responder; a final murmura.
—Sinto não poder ser-lhe agradável; parece-me entretanto que não deve ser difícil achar uma cara que valha bem a minha. Olhe, senhor, eu não conheço nada o mundo, mas creio que o céu me deu o segredo de ler no pensamento das outras pessoas: o senhor deseja ser-me útil e trata de me persuadir de que eu é que lhe prestaria serviço. Ah! isso é bem generoso da sua parte... confesse que adivinhei.
Casimiro está muito admirado da perspicácia da rapariga. Não pode deixar de sorrir, balbuciando:
—Confesso que me espanta, menina; a sua linguagem anuncia mais educação do que de ordinário se recebe na posição precária em que a vejo. Não tem mais parentes senão essa pobre enferma, diz a menina; mas aqueles que perdeu ocupavam então uma posição mais afortunada; perdão, sou talvez demasiadamente curioso?
—Oh! eu não tenho motivo para me rodear de mistérios! não conheci nunca meus pais; abandonaram-me muito cedo aos cuidados de uma ama, depois esqueceram-se de mim completamente.
—É possível! pobre criança! mas essa velhinha que aí está?...
—Chamo-lhe avó, mas não me é nada; era mãe de minha ama. Essa chamava-se Catarina Vauger; queria-me muito, e o que mais receava era o momento em que teria de separar-se de mim para me entregar à minha família; ficou pois bem contente quando lhe enviaram uma forte quantia, dizendo-lhe: «Saia da sua aldeia, fique com a criança; em vez do nome que ela tem, chame-lhe Lisa unicamente; mas vá para Paris, para a morada que aqui se lhe indica, estabeleça-se, e arranje uma lojinha, que alguém terá o cuidado de a indenizar das despesas que fizer com a menina.» A minha ama acabava de perder o marido. Partiu para Paris, trazendo consigo a mãe, que ali está, em aquela cama. Durante algum tempo recebeu pelo correio certas quantias para mim, depois, de repente isso acabou, não se ouviu mais falar em coisa alguma!...
—Mas a sua ama sabia sem dúvida o nome da pessoa que lhe escrevia?
—Não, as cartas não vinham assinadas; nunca mesmo lhe tinham dito o nome de minha mãe...
—É completamente um romance!...
—A minha boa ama pouco se inquietou com isso; tinha empreendido um negociosinho de leite e de queijos que corria bem. Assim que fiz seis anos, mandou-me à escola; depois, um pouco mais tarde, a um colégio semi-interna, porque ela não queria nunca separar-se de mim mais de meio dia. Querida e boa ama! queria-me mais que uma mãe! visto que a minha me abandonara. Vivemos assim muito felizes durante alguns anos; mas, há quatro anos, a boa Catarina caiu doente, e, apesar de todos os meus desvelos, morreu; tinha eu apenas quatorze anos, e contudo a minha ama recomendou-me sua velha mãe, porque ela conhecia-me, sabia que eu tinha coragem, e a firme vontade de reconhecer pelo meu trabalho tudo o que tinham feito por mim. Durante os primeiros tempos, para vivermos, minha avó e eu, fomos obrigadas a trespassar o estabelecimento da minha ama. Eu procurava trabalho, mas não o podia obter, achavam-me muito nova para mo confiarem, e quando minha avó o pedia, achavam-na muito velha. A final, a Providência veio em nosso auxílio, e eu pude ganhar a nossa vida. Mas, há um ano, a minha pobre companheira ficou meia paralitica, já o senhor vê que tenho razão para trabalhar sem descanso e para velar constantemente pela pobre velha que não tem mais ninguém para a tratar.
—O que me acaba de dizer, não tem feito mais que aumentar o interesse que me inspirava, e perdoe, se torno ainda a falar em isto, o desejo que sinto de lhe ser útil. Pobre pequena, abandonada pelos pais, que vivem talvez na abastança e podem ter todos os gozos que a riqueza proporciona, enquanto que a menina...
—Asseguro-lhe que nunca penso em tal, não choro senão a minha ama, a minha única mãe! e que me queria tanto! Não tenho ressentimentos contra meus pais por me haverem deixado com ela. Nem minha mãe nem meu pai me teriam de certo tratado melhor.
—A menina tem muita filosofia, dou-lhe por isso os meus parabéns: outras, no seu lugar, forjariam mil quimeras.
—Oh! eu não! não penso senão no meu trabalho.
—E sempre me recusa o favor que lhe peço de me deixar tirar o seu retrato, vindo eu aqui?
—Certamente; de essa maneira, é muito mais decoroso; mas não importa, não quero servir de modelo.
Casimiro suspira e levanta-se dizendo:
—Vamos, vejo perfeitamente que nada pode vencer a sua repugnância. Não devo por insistir mais; mas, no entanto, se por acaso mudar de parecer, eu estarei sempre pronto com a palheta e os pinceis, e a menina não tem senão uma palavra a dizer, para me ver aqui imediatamente.
—Muito agradecida.
—Demais, se me dá licença, virei eu próprio saber da saúde da sua doente, a menina permite-me, não é verdade?
A menina Lisa faz-se corada, hesita, mas este pedido era-lhe feito com uma voz tão meiga, este rapaz tem mostrado por ela tanto interesse, mostra-se tão respeitoso, tão delicado, e depois não é um estranho qualquer, mora no mesmo prédio, e o porteiro nunca disse de ele senão bem; tudo isto decide, a rapariga a pronunciar um sim, que enche de alegria o seu vizinho.
Casimiro então torna a agradecer a Lisa a permissão que ela acaba de lhe conceder, depois despede-se e retira-se em bicos dos pés, sem fazer bulha, de modo que a doente não acorda.
O nosso mancebo, ao entrar em sua casa, sente-se cheio de ardor para o trabalho; dispõe a sua tela, e prepara a palheta e os pinceis. Os bons exemplos fazem muito mais efeito que os bons conselhos, no que há a diferença da prática à teoria; escuta-se muitas vezes com indiferença, e esquece-se mesmo o que se ouviu; mas nunca se olvida o que se viu. Tem razão o provérbio que diz: Um olho vale mais que dez ouvidos:
O jovem pintor aguarda impaciente a chegada de Rouflard para se pôr ao trabalho; mas passa-se o tempo e o modelo não aparece. Casimiro começa a pensar que fez mal em pagar adiantado ao inquilino da água-furtada, que é capaz de gastar tudo quanto recebeu, antes de pensar em cumprir a sua promessa.
Mas não tarda que se ouça um grande arruído de vozes; grita-se, ralha-se no patamar, e a voz de Rouflard cobre muitas vezes todas as outras. Casimiro quer saber o que se passa, corre a abrir a porta e vê no seu patamar a família Proh à briga com o seu futuro modelo.
O sr. Proh e sua mulher parecem muito exaltados; Rouflard está apenas um pouco «eletrizado...»
—Sim, senhor, grita o sr. Proh, que tem efetivamente alguma semelhança com um chimpanzé; eu tinha direito para o chamar a uma polícia correcional pelo que o senhor escreveu por cima da minha porta...
—Ah! ah! ah! o senhor faz-me rir com a sua polícia correcional, faça-me ir ao tribunal, isso há de divertir-me...
—Pelo menos há de ir à presença do juiz de paz! diz Celeste Proh, porque o senhor insultou-me, chamando-me sr.ª Profanée!...
—Insultei-a! com a breca! a senhora é difícil de contentar! comparo-a com uma flor. Quando uma flor está meio murcha, diz-se que está fanée... concedo-lhe que é uma rosa fanée... e zanga-se com isso... eu podia-lhe ter posto: a sr.ª Probléme... a sr.ª Profile... um reles algodão...
—Cale a boca, insolente! meu vizinho, faço-o juiz de esta questão: o senhor leu sem dúvida o que este homem tinha escrito com giz por cima da nossa porta?...
—Não, minha senhora, não reparei...
O rapazito põe-se a gritar:
—Era: A menina Pronobis, a sr.ª Profanée...
—Cale-se, Afonsinho, não é preciso repetir essas coisas feias, visto que o nosso vizinho não as leu...
—O sr. Professe! eu sou o menino Propice...
—Cale a boca. Fonfonso!... vá já para casa...
—Não quero...
—E porque é que me pôs a mim o sr. Professe?... O que entende por esta locução? exclama o falso chimpanzé muito zangado.
—O que entendo? oh! essa é boa! Pois não é difícil de adivinhar! É verdade que talvez isso lhe não aconteça já!
—Senhor, hei de ter uma satisfação de todas essas ofensas!...
—Quer que eu lhe dê uma satisfação? Estou pronto, um duelo! agrada-me a proposta; logo cá lhe mandarei o meu criado, para o senhor ajustar com ele as condições do combate, aceitarei a arma que escolher, isso para mim é indiferente! bato-me com tudo quanto se quer, mas o florete é a arma das pessoas de distinção...
—O que é que diz? um duelo! este homem propõe-me um duelo, creio eu... que desaforo! atrever-se a supor que iria medir-me com ele! tem graça!...
—Medir-se, meu caro amigo! oh! não com um metro! o senhor é uma grande vara, e eu não tenho senão três polegadas e meia, a vantagem seria toda sua! mas Chausson, o meu antigo groom, nos emprestará duas espadas de guarda nacional, ou dois paus de vassoura, à sua escolha. Convém-lhe isto, sr. Pro... rata?
—Sr. Casimiro, peço-lhe que diga a este homem que se cale, aliás não respondo pelo que acontecerá...
—Não te faças fanfarrão, Professeur! olha que te vou à figura...
—Sr. Rouflard, vê-se perfeitamente que almoçou bem de mais, não é isso que me tinha prometido. Esquece-se de que tem de vir a minha casa servir-me de modelo, e que estou à sua espera?...
—Ah! é verdade, tem razão, desculpe, meu pintor, eu ia a sua casa, para que me tomou esta gente o caminho?...
—Sr. Proh, e minha senhora, peço-lhes que não tomem a sério os gracejos de maú gosto que este homem se atreveu a proferir, ele bebe de mais algumas vezes para esquecer a sua miséria, devemos ser indulgentes com os desgraçados, prometo-lhes que não tornará mais!...
—Ah! sr. Casimiro, é só em atenção ao senhor!
—Vamos, Rouflard, vamos para o nosso trabalho...
—Já vou, meu Miguel Ângelo, meu Rafael. Família Proh... tornaremos a ver-nos...
—Venha, Rouflard, venha de aí...
—Vamos lá fazer de modelo Pro Deo e pro pátria!... É bonito isto! Pro-deo...
Casimiro faz entrar o modelo em sua casa, e a família Proh retira-se também do patamar, depois de ter tido o cuidado de apagar o que restava de giz por cima da porta.
Leia gratuitamente A menina Lisa, de Paul de Kock, em versão portuguesa anônima publicada em Lisboa em 1907. Esta edição Literunico preserva o prefácio e os 18 capítulos integrais, com normalização ortográfica conservadora para PT-BR moderno.
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