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A menina Lisa

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A menina Lisa

Capítulo 13 · A menina Lisa

A primeira sessão

13 de 19 ≈ 17 min de leitura

Casimiro está encantado com o seu dia, e assim que sai de casa do seu novo modelo, dirige-se à morada de Ambrosina, à qual quer participar a venda do seu quadro. Não está bem certo se ela compartilhará da sua alegria, mas estima muito que saiba que ele pelo seu trabalho pode enfim prescindir dos socorros de outrem.

Enquanto ao que acaba de obter de Lisa, terá o cuidado de não dizer uma única palavra à sua amante, da qual conhece os excessivos zelos; bem pelo contrário, espera que ela ignorará as suas relações com a sua jovem vizinha; por isso ficou muito contente quando esta lhe propôs dar-lhe sessão às oito horas da manhã; das oito às dez não receia receber a visita de Ambrosina, que se levanta habitualmente muito tarde, e se por acaso ela viesse a sua casa antes que ele tivesse descido do quinto andar, sempre poderia dizer que tinha ido almoçar ao café.

Ao sair de casa, Casimiro encontra-se com Rouflard; o inquilino da água-furtada nota o ar alegre e triunfante do jovem pintor, e exclama:

—Aposto que se arranjou a coisa!

—É verdade, Rouflard, sim, a menina Lisa consente em me deixar fazer o estudo da sua cabeça, ah! estou muito contente!

—Eu bem sabia que havíamos de acabar por isso, mas isto de mulheres, é preciso sempre que se façam rogar um pouco.

—Amanhã pela manhã às oito horas subo a casa de ela, com a palheta e os pinceis, e temos a primeira sessão...

—Quando qualquer mulher dá uma sessão, dá ao depois tantas quantas se querem... isso vai mesmo por si, é como o primeiro passo.

—Mas, Rouflard, isto fica aqui entre nós; quando eu estiver trabalhando com o senhor em minha casa, se vier aquela senhora, bem sabe, aquela morena a quem trato simplesmente por Ambrosina... e que já aqui tem vindo muitas vezes...

—Sim, sim, a senhora primeira, a sultana favorita, percebo!

—Pois bem! escuso de advertir-lhe que é preciso não dizer palavra acerca das minhas visitas a casa de Lisa e do retrato que vou fazer...

—Ora essa! como, meu artista! é a mim que o senhor diz isso, a mim, um veterano nas lides amorosas! parece-me todavia que não tenho ares de galucho! eu, que ficaria aflito se causasse o menor dissabor à minha jovem benfeitora!

—Tem razão, eu devia louvar-me no senhor.

—Enquanto a Chausson, o meu antigo criado, ele não é de todo maú, se quer eu lhe falarei.

—Não, não é preciso, isso fica por minha conta...

—Ah! é antes dos Prohs que se deve desconfiar; são uns tagarelas, uns palradores, uns mexeriqueiros! que ficam encantados quando sabem o que se passa em casa dos vizinhos, e acham meio de fazer de um argueiro um cavaleiro!

—Terei cuidado de que eles não saibam nada das minhas visitas a casa de Lisa, e vou tratar de acabar quanto antes o retrato da sr.ª Proh, para que ela não venha mais a minha casa.

—Aí está um retrato que eu não queria ter nas minhas inglesas, a não ser como laxante...

—Rouflard, vendi a minha pequena paisagem, aqui tem, tome lá isto para se divertir, sou hoje feliz, quero que toda a gente esteja satisfeita.

—Isto é que é falar como Buckingham obrava, o senhor tinha nascido para semear pérolas no seu caminho e eu para as apanhar.

Casimiro acha a sua amante acabando de arranjar-se e dispondo-se para ir a sua casa.

Até que enfim! é uma felicidade vê-lo! exclama Ambrosina, o senhor vem cada vez mais tarde; de aqui a pouco, sem dúvida, deixa de vir de todo.

—Minha querida amiga, desculpe-me, tenho hoje tido muitas ocupações.

—Esteve a trabalhar com o borrachão do seu modelo... como é interessante!...

—Não, hoje não trabalhei com Rouflard; recebi a visita do logista que me vende os quadros; dê-me os parabéns, está vendida a minha paisagem.

Ambrosina franze o sobr'olho e morde os beiços, respondendo ao mesmo tempo:

—Ah! está vendida a sua paisagem...

—Sim, e muito bem vendida, por muito mais do que eu teria ousado pedir.

—O senhor é demasiadamente modesto, e faz mal em ser assim; nas artes, a modéstia é uma tolice, porque é um merecimento que ninguém leva em conta ao artista, e que muitas vezes o impede de chegar à celebridade. Porquanto lhe pagaram o seu quadro?

—Quatrocentos e cinquenta francos.

—Ah! que miséria! e é isso que o senhor chama bem vendido! pensava que ia dizer-me dois ou três mil francos.

—Ah! está zombando comigo! bem sabe que aquela pequena paisagem não valia isso; para uma estreia é um preço muito bonito; isto anima-me, e quero trabalhar de modo que possa vender mais caro os quadros que fizer.

—Ah! o senhor tenciona fazer outros quadros de gênero; então renuncia ao retrato? Provavelmente não acabará o meu, pelo qual não mostrava nenhum entusiasmo.

—Como é injusta! sou sempre eu que lhe peço para se pôr em atitude; mas a senhora, em estando em posição um quarto de hora enfada-se, já não pode estar quieta no mesmo sítio.

—Ah! é que me faz mal aos nervos! Vamos, a sem razão está da minha parte, convenho. de aqui em diante serei mais razoável, irei meter-me em sua casa logo pela manhã, e não arredarei pé do seu atelier, assim, poderá fazer-me estar em posição todo o tempo que quiser.

de esta vez, é Casimiro que morde os lábios e franze ligeiramente as sobrancelhas. É coisa para se notar que, em um coloquio de duas pessoas, fazem-se muitíssimas vezes de estas mudanças fisionômicas, que dizem o que a boca não diz, ou que significam inteiramente o contrário do que ela diz. Porque, por mais que se queira dissimular o pensamento, há sempre alguma coisa que transparece em este semblante que a natureza nos deu, e que é por vezes rebelde às transformações que lhe queremos impôr.

Ambrosina deseja ir passear ao campo. Casimiro acede a esse desejo com alegria; como trouxe consigo o seu livro de lembranças, tomará notas, esboçará alguns pontos de vista.

—Se nós fossemos à Suíça? diz a bela morena; é lá que o meu amigo acharia vistas admiráveis, que poderia fazer ampla provisão de bosquejos para os seus quadros de gênero.

Mas o jovem pintor não está por forma alguma disposto a viajar.

—Sem ir tão longe, diz ele, há nos arredores de Paris sítios lindos, vistas encantadoras; mas ninguém pensa em pintá-las, porque estão às portas de Paris, e não se liga merecimento senão ao que está longe de nós. Eu, minha querida amiga, não vejo razão para se fazer pouco caso de uma coisa que nós podemos arranjar sem incômodo e sem despesa. Assim, por exemplo, muito perto de aqui, por detrás do forte de Romainville, em aquele sítio que era em outro tempo o bosque, há outeiros de onde a vista é magnífica, tem a gente diante de si uma extensão imensa de terreno; podem os olhos abranger mais de doze léguas em redor. Em baixo fica Patim com os seus fornos de cal, que tornam a paisagem pitoresca; depois está o canal que corta o caminho, e um pouco mais adiante S. Diniz, Montmorency, Pierrefitte. À esquerda vê-se Montmartre, o Monte Valeriano, e Saint-Cloud, que se desenha no horizonte. E tudo isto entremeado de bosquezinhos, de bonitas casas de campo, de fábricas. Afianço-lhe que é um panorama admirável. Quer ir vê-lo?

A sr.ª Montémolly deixa-se conduzir ao que era em outro tempo o bosque de Romainville, e entretém-se a colher algumas flores campestres, enquanto Casimiro está sentado na relva esboçando à pressa algumas vistas; mas as flores são raras no terreno barrento, que é bom para fabricar louça, mas não para fazer brotar as rosas. Demais, Ambrosina é sempre a mulher da moda, e portanto leva de ali o seu companheiro dizendo-lhe:

—Meu riquinho, por mais que o senhor diga, as suas lindas vistas de Romainville não valem a cascata e o lago do Bosque de Bolonha.

—Para a senhora, compreendo isso; perdoe-me pois, nunca mais a trarei para este lado, é preciso ser pintor para o apreciar.

—Meu amigo, é mister procurarmos a nossa Vitória, que não pôde seguir-nos em estes caminhos cheios de barrancos, onde a gente a cada instante corre risco de cair em um buraco, ou de se enterrar na areia! Vamos jantar ao Ledoyen nos Campos Elísios, isso há de mudar-nos completamente...

—Aí está o que são as mulheres! e falava a senhora em ir à Suíça! lá é que há caminhos escarpados, difíceis de trepar!

—Sim, mas está a gente na Suíça, inscreve o seu nome no registo das estalagens; e vê-se ali que os srs. Fulanos de tal passaram por aquele sítio, e quiseram trepar o monte Righi.

Este dia passa mui lentamente para o jovem pintor, que almeja pelo momento em que poderá fazer o retrato de Lisa. E, posto que faça todo o possível para ser com Ambrosina tão amável, tão alegre como de costume, tem por vezes momentos de preocupação, ou de distração, que não escapam à sua zelosa amante; esta diz-lhe então de súbito:

—Em que é que está pensando?

—Eu... em nada... estou-a ouvindo.

—Está-me ouvindo? O que é que eu acabo de dizer?

—O que acaba de dizer-me? já não sei o que foi, era então alguma coisa muito interessante?

—Bem vê que não me estava ouvindo. Ah! olhe, Casimiro, eu não sei o que lhe aconteceu, mas, com toda a certeza, o senhor tem alguma coisa! anda pensativo, responde fora de propósito ao que lhe digo. Oh! em isto andam amoricos.

—É que vendi o meu quadro, e ando a pensar em aquele que hei de fazer agora, aqui está o que é.

—O senhor não fala verdade! não é em isso que pensa. Oh! eu conheço bem o mundo! não me enganam assim!

—Tanto pior para a senhora, porque as pessoas mais felizes são aquelas que se deixam enganar mais facilmente.

—É possível, mas não quero essa felicidade.

Enfim, passa-se o dia e a noite também; Casimiro levanta-se muito cedo, escolhe a tela, arranja a palheta, e prepara um cavalete que já lhe não servia e que ele tencionava deixar em casa da sua vizinha, para não ter o trabalho de o levar e trazer todos os dias. Olha a cada instante para o relógio, receia ser indiscreto chegando antes da hora que se ajustou.

Dão oito horas: Casimiro vai abrir a porta da escada, certifica-se de que não está ainda ali ninguém, depois vai buscar todos os objetos de que precisa, e sobe lentamente os dois andares.

A porta de Lisa tem a chave na fechadura; mas vem ela pessoalmente abri-la, porque ouviu subir e desconfiou logo que é a pessoa por quem espera.

—Oh! meu Deus! como o senhor vem carregado! exclama Lisa querendo desembaraçar Casimiro do seu cavalete.

—Tudo isto é muito leve, menina, não se incomode. Posso entrar?

—De certo; minha avó está a dormir, creio eu, mas, ainda mesmo que acordasse, eu disse-lhe ontem que o senhor havia de vir aqui fazer o meu retrato, e ela ficou muito contente. Disse-me assim: «Hás de colocá-lo diante de mim para que eu te veja sempre minha filha.» Ah! é que ela quer-me muito, a minha avozinha.

—Bem vê pois a minha querida vizinha que, consentindo em se deixar retratar, já fez duas pessoas felizes!

—É verdade. Se eu soubesse que era assim, teria acedido mais cedo. Creio que a avozinha está descansando; não faremos bulha.

—Eu não tenho necessidade nenhuma de fazer bulha quando trabalho. Olhe, aqui tem o cavalete armado, estou às suas ordens.

—Mas o senhor é que manda; como quer que eu me coloque?

—Como costuma estar; sente-se e pegue no seu trabalho.

—O quê! deveras posso trabalhar!

—Sem dúvida, principalmente durante a primeira sessão, em que eu não copio senão o conjunto da cabeça.

—E não tenho precisão de olhar para o senhor?

—Sim, algumas vezes, mas não sempre.

Põem-se ambos ao trabalho. Lisa faz bainhas, o que não obriga a muita atenção. De vez em quando Casimiro diz-lhe:

—Olhe para mim...

O que ela se apressa a fazer; mas baixa bem depressa os olhos, porque encontra os do jovem pintor que lhe diz então:

—Mas a menina não olha par mim bastante tempo, mal pude apanhar-lhe a nuance dos olhos.

—É que o senhor encara-me tanto, que me intimida; isso perturba-me.

—É preciso que eu olhe para a menina com atenção para reproduzir as suas feições, isso não deve intimidá-la; não veja em mim senão um artista, ou antes um operário que faz o seu ofício, e isso não a perturbará.

—Ah! mas o senhor não é um operário!

—Ora adeus, minha vizinha, todos nós o somos, cada um no seu gênero; pois quem trabalha para viver não é operário? Há porém, dirá a menina, profissões que exigem mais estudos, mais inteligência que outras; mas esteja persuadida de que o poeta ou o escritor que trabalha com o seu pensamento, que tira do cérebro os seus materiais, tem às vezes muito mais fadiga, muito maior lida em fazer a sua obra do que o marceneiro em aplainar as suas tábuas. Olhe para mim por um pouco.

Lisa ergue os olhos, e de esta vez torna a baixá-los menos depressa encontrando os de Casimiro. Este gosta de fazer conversar o seu modelo, o que não receiam fazer os pintores de grande talento, porque apanham melhor a expressão da nossa fisionomia enquanto falamos, do que o fazem aqueles que nos proíbem de nos mexermos, o que nos dá então um ar aborrecido, ou contrafeito, ou afetado; eu poderia mesmo dizer apalermado.

Lisa estima bastante poder conversar; em vida da sua ama, quando esta tinha uma venda de leite e fazia muito bom negócio, levou três vezes a pequena ao teatro, e esta lembra-se sempre de isso, porque gostou muito do espetáculo. Este divertimento e a leitura são os únicos que ela deseja; a dança, os passeios, as festas campestres têm para ela poucos atrativos. Antes de cair doente, a boa da avó queria que a sua Lisa procurasse estas distrações; mas, em vez de ir ver esses bailes que há no termo de Paris com o falso nome de campestres, Lisa levava a sua companheira para um passeio pouco frequentado, para uma vereda solitária, coberta de sombra, e ali, sentando-se na relva, lia um romance que tinha alugado economizando alguns soldos na despesa do sustento. Lia em voz alta; a velha adormecia, mas Lisa continuava a ler, e ambas estavam contentes.

—Se a minha vizinha gosta de ler, diz Casimiro, posso emprestar-lhe alguns livros; tenho todos os romances de Alexandre Dumas, e estou bem certo de que lhe hão de agradar muito.

—Ah! agradeço a sua bondade; mas, desde que a avó caiu doente, não tenho já tempo de ler, vale mais trabalhar.

—É mister todavia ter alguns instantes de repouso.

—O trabalho que eu faço não cansa.

Na primeira sessão, Casimiro não quer demorar muito tempo o seu modelo; levanta-se pois, dizendo:

—Basta por hoje; obrigado, minha vizinha.

—Ah! está acabado?

—Acabado por esta sessão; permite-me que deixe aqui o cavalete?

—Oh! certamente. Ah! leva o quadro; mas o senhor não precisa de ele sem mim!

—Perdão, há coisas em que posso trabalhar sem ter o modelo à vista.

—Deixa-me ver?

—Ainda não, peço-lhe eu. Está muito pouco adiantado; em três ou quatro sessões, poderá ver à sua vontade. São dez horas, vou almoçar.

—Já dez horas! é singular como o tempo passa depressa quando se está servindo de modelo. O senhor virá amanhã?

—De certo, se isto não a contrária.

—Oh! de modo algum.

A pequena ia dizer: pelo contrário, mas parou fazendo-se muito corada, e limita-se a murmurar:

—Então, até amanhã.

No dia seguinte, Casimiro não falta a dirigir-se a casa do seu encantador modelo, que o vê agora chegar com prazer, e, sem ser coquete, tem todavia mais esmero no seu penteado, no arranjo dos seus cabelos; o jovem pintor repara em isto, não diz nada, mas fica secretamente lisonjeado, porque há uma multidão de pequenas coisas que fazem presagiar as grandes.

Trabalha-se, e conversa-se a meia voz; é quase sempre de manhã que a avó descansa melhor. Lisa levanta mais vezes os olhos para o seu pintor e sustenta um pouco melhor o fogo dos seus olhares; algumas vezes, contudo, um vivo rubor lhe sobe à cara, enquanto Casimiro murmura:

—Ah! como a menina se coloca bem! que lindo retrato eu vou fazer, sim, há de ficar muito parecido; tenho as suas feições tão bem gravadas na memória!

—Então, já não é preciso que eu olhe para o senhor?

—Oh! sim! sim! eu nunca a vejo bastante.

—Que felicidade saber pintar!

—Sim, também acho isso agora, e ainda há pouco tempo nem o suspeitava! Ah! minha vizinha, saiba que se eu chegar a adquirir algum talento, é à menina que o deverei.

—A mim! ora essa! não foi olhando para mim que o senhor fez essa linda paisagem que vendeu.

—Não, mas foi vendo-a trabalhar sem descanso, em este modesto aposento, sabendo que achava meio de prover às necessidades de sua velha avô paralitica, que eu tive vergonha da minha existência, da minha preguiça, que compreendi que havia de lamentar um dia o ter empregado tão mal a minha mocidade e enfim que tomei a resolução de mudar de vida. Bem vê pois que, se eu obtiver um dia talento, é à menina que o deverei.

Lisa não responde nada, porque está demasiadamente comovida, mas o seu olhar fita-se em Casimiro, e tem uma expressão tão terna, tão meiga, que de esta vez é o pintor que deixa de trabalhar.

Estes colóquios confidenciais renovam-se todos os dias e tornam mais íntimas as relações que existem entre o pintor e o seu modelo. Pouco a pouco, uma afetuosa confiança substitui a fria polidez. Conversam mais, fazem as sessões maiores, separam-se a custo, porque têm sempre alguma coisa para se dizerem; acham-se tão bem juntos, que Lisa impacienta-se e abre a porta quando Casimiro tarda alguns minutos. E, contudo, nunca uma palavra de amor foi pronunciada em estas sessões de todas as manhãs; mas há coisas que a gente não tem precisão de dizer para se fazer compreender, e o amor é uma de essas coisas.

O retrato adiantava-se; mas, como Casimiro queria fazer durar muito as sessões, achava sempre alguma coisa para pintar de novo, para retocar. Lisa não se queixava de isso, pelo contrário, quando o seu pintor dizia: «Basta por hoje,» acontecia-lhe às vezes exclamar:

—Já! ah! parece-me que não trabalhamos muito esta manhã!

Então Casimiro sorria-se, e continuavam a conversar. A rapariga examinara o retrato, e pulara de prazer vendo-se tão bonita. Tinha exclamado:

—Ah! o senhor lisonjeia-me; eu não sou assim!...

Não se atrevera a dizer: «Tão bonita!» Mas as mulheres param muitas vezes no momento de dizerem o verdadeiro fundo do seu pensamento.


A menina Lisa

Sinopse

Leia gratuitamente A menina Lisa, de Paul de Kock, em versão portuguesa anônima publicada em Lisboa em 1907. Esta edição Literunico preserva o prefácio e os 18 capítulos integrais, com normalização ortográfica conservadora para PT-BR moderno.

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