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A menina Lisa

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A menina Lisa

Capítulo 15 · A menina Lisa

A senhora do primeiro andar

15 de 19 ≈ 10 min de leitura

Dez minutos depois da saída de Ambrosina, subia Casimiro ao quinto andar e entrava em casa da sua jovem vizinha.

Lisa está trabalhando, mas grossas lágrimas lhe rebentam dos olhos e por momentos caem sobre a sua costura. O seu lindo rosto parece ainda mais sedutor sob esta nuvem de tristeza espalhada por todas as suas feições. Ao ver Casimiro, o seu primeiro movimento é limpar os olhos e esforçar-se por sorrir.

Mas o rapaz, que já lhe viu as lágrimas, apressa-se a correr para ela, exclamando:

—Lisa, está chorando, e sou eu a causa da sua tristeza. Ah! perdoe-me, se soubesse quanto estou aflito pelo que sucedeu.

—Oh! eu não lhe quero mal, não chorava...

—Chorava, sim, em vão procura ocultar-mo.

—É somente, porque sinto haver sido a causa de que aquela senhora ralhasse com o sr. Casimiro; ela parecia muito encolerizada, disse que o senhor já não cuida do seu retrato e que é por culpa minha. Bem vê que fiz mal em consentir que fizesse o meu; mas está tudo acabado; não lhe servirei mais de modelo; poderá assim retratar aquela senhora; não lhe farei mais perder o seu tempo...

—Não diga isso, Lisa, continuarei a retratá-la como de costume...

—Oh! não, aquela senhora não quer; se ela voltasse e o encontrasse aqui, teríamos nova cena, isto assusta minha avó, e eu não quero...

—Aquela senhora não voltará aqui; demais, não tem o direito de me impedir de fazer o que me agrada; conheço-a há muito tempo, ela estava habituada a dar-me conselhos e eu ouvia-a como se ouve um antigo conhecimento...

—Aquela senhora é mais velha que o sr. Casimiro?...

—Sim, é por isso que eu lhe mostrava uma certa deferência. Mas não é razão para que ela me trate como uma criança...

—E é bem bonita, aquela senhora, mas deitava-me uns olhos cheios de ódio, que me faziam muita pena...

—Não pense mais em ela, não tornará a vê-la.

—Parece-me que teria muito gosto em a ver, se ela me não tivesse deitado uns olhos tão terríveis. Sr. Casimiro, é preciso levar o seu cavalete e não vir mais aqui pintar...

—Minha querida vizinha, espero que terá a bondade de me dar ainda as sessões de que necessito, não há de querer que eu deixe um trabalho imperfeito; a sua cabeça é um estudo que me fará muita honra, assim o espero; permita-me acabá-lo com cuidado e satisfazer-lhe o que lhe devo por todas as sessões que me tem dado...

—Mas o senhor não me deve nada, comprou-me o vinho quinado...

—Oh! isso pagava apenas três sessões! depois tivemos mais dez pelo menos, que eu pago bem mesquinhamente dando-lhe esta remuneração.

Casimiro põe trinta francos em cima da mesa, volta a pegar na mão da rapariga, e aperta-a ternamente nas suas, dizendo-lhe:

—Não chorará mais, esquecerá a cena de esta manhã, e dar-me-á ainda algumas sessões, não é verdade?

Lisa sorri-se, e responde:

—Far-lhe-ei a vontade, visto que assim o quer!

Casimiro retira-se muito satisfeito.

No dia seguinte, Rouflard, que entra todas as manhãs em casa de Casimiro para saber se ele tem algum recado para lhe dar, diz ao jovem pintor:

—Acabo de ver o meu bom anjo, a menina Lisa, que está feliz como uma rainha, e isto graças ao sr. Casimiro!

—Graças a mim! como é isso, Rouflard?

—Porque, com o dinheiro que o senhor lhe deu ontem, comprou ela uma colher, de prata à avó, uma bela colher efetivamente, que lhe custou vinte e dois francos. A velha doente está encantada, era a sua mania, isto restituir-lhe-á uma parte das forças.

—Estimo imenso ter podido melhorar um pouco a posição de Lisa, que se mata com trabalho. E o sr. Rouflard tem ido a casa do pintor a quem eu o recomendei?

—Sim, senhor, mas não para fazer de romano, é para fazer de saltimbanco. É verdade que isso para mim é indiferente! servir de modelo para um herói ou para um salteador, é sempre servir de modelo.

Decorrem alguns dias; Casimiro não deixa passar um único dia sem subir a casa de Lisa, que lhe mostra a colher de prata, dizendo-lhe:

—Estou muito contente! mas acreditará o senhor que sonho todas as noites que ma roubam? Isto faz-me pesadelos.

—Isso há de passar, minha vizinha, a gente habitua-se a tudo, mesmo aos talheres de prata.

Casimiro não tornou a casa da sr.ª Montémolly, e, com grande surpresa sua, não ouviu falar mais de ela desde o seu rompimento. Aplaude-se por enfim quebrado um grilhão que já não podia suportar, e entrega-se com ardor ao trabalho, porque quer poder passar sem o socorro alheio. O seu quadrozinho de gênero vai saindo muito bom; o negociante de quadros que veio vê-lo, ficou muito satisfeito, e ofereceu-lhe mesmo algum dinheiro adiantado, se ele o precisasse.

Mas, nas suas idas e vindas a casa, Rouflard, que conversa amiúde com o porteiro, repara, no penúltimo dia do arrendamento, que enquanto o inquilino do primeiro andar faz a sua mudança, Chausson esfrega as mãos, apressa quanto pode essa mudança, depois, assim que vê a casa despejada, põe-se a encerar o patamar do primeiro andar, a varrer cuidadosamente os quartos desocupados, e a observar se tudo está asseado e se há teias de aranha em algum recanto.

—Com a breca! como se afadiga com o seu primeiro andar! diz Rouflard ao porteiro, nunca esfregou tanto em minha casa, nos meus bons tempos!

—É que mesmo nos seus bons tempos nunca teve uns aposentos tão esplendidos!

—Está então arrendado o seu primeiro andar?

—Sim, de certo, está arrendado, e magnificamente arrendado; presumo que se muda para cá amanhã o novo inquilino, por isso fiz sair o outro hoje, para ter tempo de arranjar tudo. Ah! ah! quero que ao entrar aqui se veja tudo reluzente...

—É algum dentista que vem para a casa?

—Não... não é um dentista! é uma senhora... e mesmo uma bonita senhora...

—Ah! entendo, é uma cocote de primeira ordem!

—Não, senhor, pois eu arrendo lá a casa a cocotes! porventura o prédio não está bem habitado, não contando com o senhor?...

—Chausson, não me insulte; dificilmente acharia um homem tão fino como eu para morar na sua água-furtada.

—Sim, quando não está bêbedo, tem ainda uma boa presença.

—A tal senhora bonita tem marido?

—Não; pelo menos, creio que não. A final de contas, como ela vem amanhã, posso dizer ao senhor quem é.

—Então eu conheço-a?

—Deve tê-la visto em casa do sr. Casimiro, é aquela senhora que o vinha visitar tantas vezes, antigamente, porque não tem aqui voltado desde que arrendou o primeiro andar.

—Como! seria a sr.ª Montémolly que arrendou o quarto do primeiro andar?

—Exatamente, a sr.ª Montémolly, é o nome que está no seu bilhete.

—Oh! com mil diabos!...

Rouflard apressa-se a subir a casa do pintor, e diz-lhe:

—Venho dar-lhe uma notícia! o quarto do primeiro andar foi arrendado pela sr.ª Montémolly, que se muda para cá amanhã.

Casimiro fica aterrado; julgava-se para sempre livre de Ambrosina, e ela vem morar para o seu prédio; não dúvida que não seja para espreitar o seu procedimento e saber que relações existem entre ele e a menina do quinto andar. Estas relações são muito inocentes, mas aos olhos do mundo, que procura por toda a parte o mal e nunca o bem hão de parecer criminosas. O que Casimiro receia sobretudo, é que as frequentes visitas que ele faz a Lisa lhe tragam ainda alguma cena desagradável. Está a ponto de subir a casa da sua vizinha para a prevenir do que acontece, mas diz consigo: Não devo assustá-la antes de tempo. Aguardemos. Ambrosina não arrendou talvez a casa para si, é também possível que se não mude ainda amanhã.

Mas no dia seguinte não é já possível a dúvida: faz-se a mudança para o primeiro andar, e é efetivamente a sua antiga amante que Casimiro vê chegar; ouve já na escada a voz estrondosa da criada Adriana, que está muito contrariada por ter saído da casa da rua Meslée, que dava sobre o boulevard, para virem morar na rua Paradis-Poissonniére e tomarem uma casa onde o quarto da criada está debaixo da mesma chave que a dos amos.

Então o jovem pintor decide-se a subir a casa de Lisa. Pelo seu ar perturbado, comovido, a rapariga adivinha que sucedeu algum caso desagradável, e diz:

—O senhor tem alguma coisa; aquela senhora voltou a vê-lo; virá ela aqui, porventura.

—Não, não é isso, Lisa, entretanto, é alguma coisa que a vai contrariar, tenho a certeza.

—Então, fale!

—Aquela senhora, porque efetivamente é de ela que se trata... o primeiro andar estava sem inquilino para este semestre... a menina sabe isto sem dúvida.

—Eu! não! pois eu ocupo-me lá do que se passa no prédio? E então, o primeiro andar?...

—Está arrendado... por... por essa senhora...

—Que veio aqui.

—Sim.

—Ah! meu Deus! e virá para cá brevemente?

—Muda-se hoje...

—Ela está aqui! no prédio. Ah! vá-se embora, sr. Casimiro, vá-se embora, muito depressa, se ela subisse e o encontrasse... tenho medo de essa senhora.

—Sossegue, ela não virá mais a sua casa, estou persuadido de isso; que motivo teria para cá voltar?

—Virá procurá-lo...

—Não, eu disse-lhe que já não a via. Estamos indiferentes, e se ela me quisesse falar, é a minha casa e não à sua que viria ter comigo...

—Ah! o senhor diz isso para me sossegar; de aqui em diante não me atreverei mais a descer a escada; felizmente, não a desço muito! uma vez somente, de madrugada, para ir fazer as minhas compras; mas não importa, sr. Casimiro, o meu retrato está acabado, como o senhor ontem confessou; portanto é mister que não venha mais visitar-me...

—Ah! Lisa, então já não sou seu amigo? não quer receber-me em sua casa?

—Não digo isso, mas não quero que essa senhora aqui o encontre.

—Serei prudente, eu conheço os hábitos de essa senhora, e depois espreitarei as ocasiões em que ela sair, incumbirei isso a Rouflard, posso contar em ele.

—Oh! é um excelente homem, esse Rouflard; é pena embriagar-se; meu Deus! parece-me que ouço subir!...

—Não... é no quarto andar que abrem a porta...

—Sr. Casimiro, leve de aqui o seu cavalete... vendo-o em minha casa, dirão: «Então ele contínua a ir pintar lá?» e é preciso que se não possa dizer isto...

—Pois sim, levarei o cavalete; mas isso não me impedirá de a vir ver todos os dias, é para mim um hábito tão agradável... não poderia mais trabalhar em todo o dia se não a visse pela manhã; outro tanto não acontece à menina...

Lisa não responde, mas suspira olhando para Casimiro, e o seu olhar vale a melhor resposta. O jovem pintor aperta-lhe a mão, e decide-se enfim a levar o cavalete.


A menina Lisa

Sinopse

Leia gratuitamente A menina Lisa, de Paul de Kock, em versão portuguesa anônima publicada em Lisboa em 1907. Esta edição Literunico preserva o prefácio e os 18 capítulos integrais, com normalização ortográfica conservadora para PT-BR moderno.

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