Leia agora
A menina Lisa

Universo da obra

A menina Lisa

Capítulo 18 · A menina Lisa

O que era

18 de 19 ≈ 19 min de leitura

Casimiro para diante de Ambrosina, dizendo-lhe.

—E a senhora também acredita que aquela menina lhe tenha tirado essa colher de prata que lhe falta?

Ambrosina trata de dominar a impressão que lhe causa a vista de Casimiro, com quem ela se não tinha encontrado desde a altercação que dera em resultado o rompimento das suas relações, e responde-lhe com um tom levemente irônico:

—Na verdade, sinto muito o que acontece, sobretudo por sua causa; lamento que seja a sua protegida aquela a quem o senhor sacrificou uma antiga amizade, que se tenha tornado culpada de uma ação tão repreensível, mas é forçoso reconhecer o que é, o que não se pode negar...

—Mas, minha senhora, essa menina tem sido sempre um modelo de honestidade, de bom comportamento. A senhora sabe como ela trabalha para que a sua velha paralitica não sinta falta de coisa alguma...

—Tudo o que quiser, senhor, mas então ache-me a colher...

—Podia ter entrado alguém em sua casa enquanto Lisa dormia, porque ela dormiu.

—Quem queria o senhor que entrasse... ladrões? mas o porteiro havia de saber se entraram alguns no prédio, e o senhor não supõe, presumo eu, que seja alguém da minha casa que tenha entrado no quarto onde a menina Lisa estava velando a Adelinazinha... Ela dormiu, diz o senhor, di-lo ela, mal quem o prova?

—Ora! demais, exclama a sr.ª Proh, que desceu do terceiro andar para se meter na conversação; não se dirá que em minha casa pôde alguém entrar até junto da enfermeira; depois, há em tudo isto alguma coisa que deve fazer condenar Lisa, é o amor, a paixão da avó pelas colheres de prata, a sua menina comprou-lhe uma ultimamente, que ela se apressou a mostrar-me. E' provável que a velha tenha querido ter outras...

—A senhora está a calumniar pessoas honradas, não o consentirei!...

—Eu não calumnio, digo o que é e custa pouco a dizer: Ela está inocente! está inocente! então onde estão as nossas colheres?

Uma senhora que mora por cima de Ambrosina, que tem cinquenta anos, o ar muito distinto, o aspeto frio, severo mesmo, e não fala a ninguém no prédio, mas que, atraída pelo barulho que se faz na escada, ouviu tudo o que se acaba de dizer no patamar do primeiro andar, desce também aí por sua vez, e diz a Casimiro:

—O senhor não crê a menina Lisa culpada, nem eu tão pouco; mas há em tudo isto um mistério que é preciso descobrir, estou persuadida de que o hei de conseguir eu...

—Ah! minha senhora! restituirá a vida a essa pobre Lisa, porque ela morrerá de desgosto se a sua inocência não for por todos reconhecida... fale, o que tenciona fazer?...

—Senhor, para isso é preciso que essa menina consinta em vir passar esta noite em minha casa, dir-lhe-ei que minha irmã, que vive comigo, está doente, e que é preciso que alguém a fique velando...

—Ah! minha senhora, Lisa não quererá; depois do que lhe aconteceu duas vezes, como quer a senhora que ela consinta ainda em velar alguém?

—Consentirá se o senhor se encarregar de lhe pedir, se lhe disser que é para ficar certa da sua inocência que lhe pede este último sacrifício de uma noite...

—Oh! minha senhora, se assim é, eu a decidirei a ficar velando esta noite em sua casa.

—Pois bem! então, mande-a vir à meia noite. Pedirei a estas senhoras que estejam em minha casa um pouco antes.

—Para quê? pergunta a sr.ª Proh.

—Para serem testemunhas do que lá se há de passar, e, como espero, reconhecerem a inocência de Lisa.

—Oh! a mim é-me impossível estar de vela, isso constipa-me...

—Eu não faltarei, diz Ambrosina, antes da meia noite terei a honra de a ir visitar.

—Muito bem, com o sr. Casimiro e comigo, será o suficiente. O senhor terá a extrema bondade de vir durante o dia dizer-me se Lisa consente em vir ficar de vela em minha casa?...

—Vou imediatamente lá acima, minha senhora, e em breve terá a sua resposta.

—Muito bem. Minhas senhoras, tenho a honra de as cumprimentar.

A sr.ª Durmont, é este o nome da inquilina do segundo andar, sobe para sua casa, deixando cada vizinha a fazer os seus comentários.

—Eu não creio nada que esta senhora descubra o mistério, diz a sr.ª Proh.

—Ficará também sem uma colher, murmura Adriana.

A sr.ª Montémolly manda calar a criada, e entra com ela para casa.

—Aí está uma senhora respeitável, exclama Rouflard olhando para o segundo andar; aquela não é de continhos, diz lá consigo: A pequena não tirou as colheres, mas há em isso um mistério, logo é preciso descobri-lo...

—E como se haverá ela para isso? diz o porteiro.

—Isso está acima da sua capacidade...

—E da sua também...

—Você esquece-se da sua posição, meu ex-frontinio!...

—Qual frontinio!... eu sou guarda-portão...

—Então, varra melhor o pátio.

Casimiro não perde um instante; sobe a casa de Lisa, que ele acha sempre na mesma tristeza, e diz-lhe:

—Tenho boas notícias a anunciar-lhe. A sr.ª Durmont, esta senhora que mora no segundo andar, interessa-se pela menina e não dúvida da sua inocência...

—Ah! agradeço-lhe muito; com efeito, essa senhora sempre olhou para mim com bondade...

—Mas não é só isso; ela quer que a verdade seja conhecida de todos, que se descubra o que é feito das duas colheres que desapareceram.

—Ah! como serei feliz se ela consegue fazer isso; é a vida, porque é a honra que essa senhora me restituirá. E o que fará ela para isso?

—Oh! vai parecer-lhe singular; mas é preciso que esta noite a menina consinta ainda em ir velar em casa de ela, ao pé de sua irmã, que está doente.

—Velar, passar a noite longe de minha avó? oh! não, não, bem sabe que é uma coisa que sempre me traz desgraça.

—Mas de esta vez é pelo contrário para a justificar que se lhe pede isso. O que pode recear? aquela senhora interessa-se pela menina, ceda pois, peço-lhe eu, consinta mais esta vez; tenho confiança na sr.ª Durmont, ela descobrirá de certo o mistério que reina em essas duas noites inexplicáveis...

—E' essa a sua vontade? pois bem! farei o que o senhor quer; mas em casa de essa senhora terei o cuidado de não adormecer.

—Sim, é isso; de esse modo verá o que se passar. A' meia noite virei buscá-la, e eu mesmo a levarei a casa de essa senhora.

—Terá essa bondade?

—Ah! Lisa, trata-se da sua felicidade, da sua reputação; pois a menina acredita que alguém tome em isso mais interesse do que eu? Então, está ajustado; à meia noite estará pronta?

—Oh! sim, a essa hora já minha avó está a dormir.

—Eu virei buscá-la.

E, deixando Lisa, Casimiro dirige-se imediatamente a casa da vizinha do segundo andar, e diz-lhe:

—Lisa consentiu; à meia noite eu lha trarei.

—Muito bem.

—Prometeu não se deixar dormir, e eu incitei-a também a isso, para que ela veja se alguém vem ter com ela durante a noite.

—Oh! o senhor fez muito mal, pelo contrário, é preciso que Lisa durma, é indispensável; é com isso que eu conto...

—Não a compreendo, minha senhora.

—Há de compreender-me esta noite; demais, vou preparar uma bebida ligeiramente soporífica, e pedir-lhe-ei que a faça beber o senhor mesmo a essa menina, dizendo-lhe que é para se conservar bem esperta.

—Mas, minha senhora...

—Senhor, se Lisa não dormir, não saberemos nada, e esta experiência será completamente inútil.

—Oh! em esse caso obedecerei, porque tenho confiança na senhora.

—Folgo de crer que se não arrependerá. Venha, senhor, acompanhe-me, vou levá-lo ao quarto onde Lisa há de ficar velando esta noite; é onde dorme minha mana, que goza de perfeita saúde, mas que fingirá estar doente, e pela noite adiante pedirá de beber duas ou três vezes quando a sua enfermeira não estiver a dormir.

A sr.ª Durmont faz entrar o rapaz em um belo quarto de dormir, que tem duas portas: uma, que é de vidraça, dá para outro quarto; aí estão os vidros apenas cobertos por uma ligeira cortina de cassa. A senhora leva Casimiro a este quarto, e diz-lhe:

—Não acha, senhor, que detrás de esta vidraça se pode ver tudo quanto se faz no quarto onde Lisa há de ficar?

—Sim, minha senhora, efetivamente, não há nada mais fácil; como a cortina está de este lado, pode-se facilmente afastar.

—Tanto mais que, pela maneira porque há de estar alumiado o quarto de minha mana, esta porta de vidraça ficará completamente na obscuridade. Pois bem, senhor, é aqui, de traz de esta vidraça e sem que a pequena o saiba, que nós passaremos a noite, o senhor, a vizinha do primeiro andar e eu; parece-lhe que poderemos assim ver tudo o que Lisa fizer?

—Certamente, minha senhora; mas, não compreendo...

—Espere, espere, e estou certa de que há de compreender esta noite. O senhor terá a bondade de me trazer a menina Lisa, e fingirá que vai para sua casa, mas voltará aqui por estoutro lado; não se esquecerá do caminho?

—Fique descansada, minha senhora, não me esquecerei de coisa alguma...

—Até à noite, senhor.

Casimiro deixa esta senhora, procurando em vão adivinhar o que ela espera. Emcontra Rouflard e comunica-lhe as suas inquietações. O ex-janota abana a cabeça, dizendo:

—Eu também não adivinho nada em tudo isso; mas em todo o caso, afianço-lhe que passarei a noite na escada diante da porta de essa senhora, e que se algum larapio de colheres tentar introduzir-se na casa, começarei pelo desancar.

Assim que dá meia noite, Casimiro dirige-se a casa da sua vizinha. Acha-a muito triste, a tremer, mas pronta a segui-lo, porque sua avó está a dormir. A rapariga apressa-se a pegar no seu trabalho, e, sem dizer palavra, vai aceitar o braço que lhe oferece Casimiro. Descem assim alguns degraus.

—A menina está a tremer, diz-lhe o seu braceiro, tem frio?

—Não, pelo contrário, tenho muito calor; mas estou a tremer, porque adivinho ainda uma desgraça...

—Mas, ao contrário, são os seus desgostos que vão acabar, sossegue, esta senhora quer que a sua inocência brilhe aos olhos de toda a gente.

—E como se haverá para isso?...

—E' segredo de ela... tenha confiança.

Chegam ao segundo andar. A sr.ª Durmont vem pessoalmente ao seu encontro, e leva-os para o quarto onde a irmã está deitada há muito tempo.

—E' aqui que a menina ficará velando, diz ela à sua jovem vizinha; tome uma chávena de chá, que lhe há de fazer bem e conservá-la acordada.

—Agradecida, minha senhora, não preciso de nada.

—Lisa, diz Casimiro, tome o que esta senhora lhe oferece, peço-lhe eu, isso há de socegá-la.

—Se o senhor o deseja...

E a rapariga bebe o conteúdo da chávena que lhe apresentam.

—Agora, boa noite, diz Casimiro, vou para minha casa... até amanhã...

—Sim, até amanhã.

O jovem pintor retira-se. A sr.ª Durmont diz então a Lisa:

—Minha menina, aqui tem tudo quanto lhe é preciso; tisana para quando minha irmã pedir de beber... uma colher de este xarope quando ela tossir.

—Uma colher, ah! sim... aí temos outra; mas podia-se passar sem ela, minha senhora.

—Não... pelo contrário, é indispensável; precisa mais alguma coisa?

—Oh! não, minha senhora, de nada absolutamente.

—em esse caso, vou deixá-la; minha irmã parece menos aflita esta noite, creio que lhe dará pouco que fazer, aqui tem uma grande poltrona onde estará à sua vontade para repousar. Porque, se minha irmã dormir, também a menina pode descansar um pouco.

—Oh! não, minha senhora, não quero... velarei sempre...

—Boa noite, menina, até amanhã.

Assim que a sr.ª Durmont se retira, Lisa senta-se em uma cadeira e pega no seu trabalho, dizendo consigo:

—Oh! não, não me deixarei dormir, para que durante o meu sono venham ainda tirar a colher... Ah! se eu tivesse velado sempre, não teria acontecido isso; mas esta lampada alumia perfeitamente, posso bordar.

Casimiro entretanto dirigiu-se ao quarto que lhe foi indicado e que está apenas alumiado por uma lamparina. Encontra ali Ambrosina, que está sentada junto da porta de vidraça; toca um frio cumprimento com ela, dizendo-lhe:

—Agradeço-lhe, minha senhora, o não ter faltado aqui, para ter a prova da inocência de Lisa...

—Desejo-o muito, porque eu não sou tão má como o senhor pensa; mas confesso-lhe que duvido que se consiga prová-la.

Põe termo a este coloquio a chegada da sr.ª Durmont, que coloco a lamparina muito longe da porta de vidraça, dizendo:

—de esta maneira, é impossível que do quarto da minha mana se veja que há luz aqui, enquanto que nós, através de esta ligeira cortina de cassa, podemos ver tudo o que ali se passa. Olhe, minha senhora, tenha a bondade de ver...

—Ambrosina põe a cara à vidraça e murmura:

—Efetivamente, vejo muito bem, porque o quarto està muito iluminado... a rapariga trabalha...

—Sim, e agora é preciso termos paciência, devemos esperar que ela adormeça.

—Mas se não adormecer?

—Oh! estou certa do contrário, graças a um ligeiro narcótico que misturei na chávena de chá que lhe fiz tomar, e creio que era isso necessário, porque ela estava muito decidida a não dormir. Mas aquela beberagem não fará talvez o seu efeito senão dentro de duas ou três horas... de aqui até lá, se a senhora quer encostar-se em esta poltrona...

—Não, minha senhora, muito agradecida, não tenho vontade de dormir, porque estou com muita curiosidade de saber o que sairá de tudo isto.

Esta conversação era toda em voz baixa, o que aumentava o mistério que esta noite devia descobrir. As três pessoas ali reunidas têm-se sentado e guardam silêncio, pondo os ouvidos à escuta do que se passa no quarto onde está Lisa. A irmã da sr.ª Durmont, que sabe bem o seu recado, pede de beber; a rapariga apressa-se a dar-lhe a tisana, e em seguida oferece-lhe uma colher de xarope, que é logo aceita. Lisa torna a pôr a colher em cima do mesa, e senta-se ao lado. A suposta enferma adormece deveras, e a rapariga põe-se de novo ao seu trabalho.

Assim se passa uma hora, e depois outra. A ansiedade de Casimiro aumenta; Ambrosina não diz palavra, mas não fecha os olhos. A sr.ª Durmont olha constantemente pela vidraça, murmurando:

—Mas a pequena não adormece... conseguiria ela vencer o narcótico!...

—Passam ainda alguns minutos, que parecem séculos; a final a sr.ª Durmont exclama:

—Ah! debalde pretende resistir, cai-lhe o trabalho das mãos, vai adormecer...

—Sim, sim, adormece, diz Casimiro; veja, lá inclinou a cabeça para traz. Oh! ela aí está bem adormecida...

—E agora, diz Ambrosina olhando também pela vidraça, o que é que se vai passar?...

—Espere, minha senhora, espere que o sono seja bem profundo, agora podemos levantar de todo esta cortina sem receio de sermos vistos.

E' levantada a cortina. As três pessoas que espreitam estão com os olhos pregados em Lisa; esta, no fim de algum tempo, agita-se; o seu sono parece desassocegado e molesto.

—Coitada! parece-me bem aflita, diz Casimiro, deve estar com algum sonho maú...

—Ah! aí acorda ela... porque lá se levanta e abre os olhos, diz Ambrosina.

—Silêncio, minha senhora, silêncio, diz a sr.ª Durmont; ela contínua dormindo, não vê que é sonâmbula?

—Sonâmbula!

—Pois! escute... está falando...

Lisa, que continua a dormir, não obstante estar com os olhos muito abertos, levanta-se da cadeira, dizendo:

—Sim, avozinha, sim, vou fechar a sua colher de prata... que a avozinha estima tanto, e que tem tanto medo que nos furtem. Oh! mas eu a esconderei bem, não tenha cuidado, sempre no mesmo sítio, a avozinha bem sabe, debaixo do meu colchão de crina...

E Lisa vai imediatamente buscar a colher que está em cima da mesa, e, indo pôr-se de joelhos diante da cama, mete-a entre o leito e o colchão; depois ergue-se, dizendo:

—Oh! está bem escondida, ninguém dará com ela... não tenha medo agora, avozinha...

Lisa volta para o seu lugar, torna a sentar-se e fecha os olhos. A's três pessoas que espreitam pela vidraça, não lhes escapou nada do que se passou. Casimiro está transportado de alegria.

—Justificada! exclama ele, está justificada, porque as outras colheres devem estar escondidas no mesmo sítio, não é verdade, minha senhora?

—Certamente! responde a sr.ª Durmont, esta rapariga é sonâmbula, eis o que eu havia adivinhado; eis o que eu tinha a peito fazer-lhes ver: agora, venham, podemos entrar no quarto, que ela não acordará...

—Sonâmbula! diz Ambrosina, que custa a cair em si do seu espanto. Ah! estou com muita curiosidade de a examinar de perto.

Aberta a porta de vidraça, entram todos três no quarto de dormir. Lisa está na poltrona, com a cabeça inclinada para traz, e, na agitação do seu sono, afastou completamente o lencinho que lhe cobria o pescoço; pode-se então ver uma pequena medalha presa a uma fita preta, que ela traz sempre escondida debaixo do vestido.

A sr.ª Montémolly, que dúvida ainda do sono de Lisa, aproxima-se de ela e examina-a com muita atenção.

—Venha, minha senhora, diz-lhe Casimiro, venha, vamos a sua casa, a colher deve estar igualmente escondida debaixo do leito da sua doentinha; é preciso que a senhora tenha pessoalmente a prova da inocência de Lisa...

Mas Ambrosina parece estar atônita; acaba de ver a medalha que a rapariga traz ao pescoço; essa medalha, que tem uma forma particular, é esmaltada toda em roda e artisticamente lavrada. Ambrosina não pode tirar de ela os olhos, e responde apenas a Casimiro:

—Vá, senhor, vá com essa senhora... não precisam de mim; a minha criada está velando, com luz... demais, aqui têm a minha chave...

—Mas porque não vem a senhora conosco?

—Porque não, alguma coisa muito mais importante me faz ficar ao pé de Lisa; logo saberão o que é... andem, vão...

Casimiro não insiste, porque demais está com pressa de ir procurar a outra colher; a sr.ª Durmont não tem menos pressa, porque sente certo orgulho em ter conseguido descobrir o mistério que envolvia as ações de Lisa. Na escada encontram Rouflard, o qual se pusera ali de sentinela.

—Justificada! diz-lhe logo Casimiro, Lisa é sonâmbula, e a dormir, pensando sempre na colher da avó, esconde debaixo do colchão de crina quantas colheres encontra à mão. Vamos procurar a que ela deve ter escondido assim em casa da sr.ª Montémolly.

—Ah! por favor, permitam-me que vá também, exclama Rouflard, gostarei muito de ver a cara que vai fazer a besbilhoteira da criada!...

—Venha, Rouflard, venha...

Entram em casa de Ambrosina, e acham a menina Adriana a dormir na sala em vez de estar velando à cabeceira da doentinha; mas Casimiro desperta-a dizendo-lhe:

—Venha conosco, menina, conduza-nos ao quarto onde Lisa passou ontem a noite; vamos lá achar esse objeto perdido...

—A colher? ah! isso agora é forte de mais; se eu procurei por toda a parte inutilmente!...

Mas não fazem caso do que diz a criada, e dirigem-se todos ao bonito quarto onde dorme a pequenita. Aí, Casimiro corre à cama, busca debaixo do colchão de crina e não tarda a soltar um grito de júbilo, tirando para fora a colher e mostrando-a a toda a gente.

Então Rouflard pula de alegria, e diz a Adriana:

—Responda a isto, má língua! parece que não tinha buscado por toda a parte!

—Oh! valha-me Deus! quem é que podia suspeitar que se fosse pôr uma colher de prata em este sítio; com que fim?

—Quando uma pessoa é sonâmbula faz coisas muito mais admiráveis!

—Sonâmbula?...

—Sim, eis todo o mistério! Ah! subo a casa dos Proh, para lhes dizer onde têm a colher...

—Mas eles estão a dormir, Rouflard!

—Razão de mais, meu artista; isso há de fazer-lhes mais efeito! quero que a justificação do meu anjo bom faça tanta bulha como as calúnias que lhe acusavam.


A menina Lisa

Sinopse

Leia gratuitamente A menina Lisa, de Paul de Kock, em versão portuguesa anônima publicada em Lisboa em 1907. Esta edição Literunico preserva o prefácio e os 18 capítulos integrais, com normalização ortográfica conservadora para PT-BR moderno.

A menina Lisa

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de A menina Lisa

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral A menina Lisa Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 18 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir