Universo da obra
Universo da obra
Desejando obter uma visão melhor do que até então tivera do oceano, que, segundo nos dizem, cobre mais de dois terços do globo, mas do qual um homem que vive algumas milhas terra adentro talvez nunca veja vestígio algum, não mais do que de outro mundo, fiz uma visita a Cape Cod em outubro de 1849, outra no mês de junho seguinte e outra a Truro em julho de 1855; na primeira e na última vez, com um único companheiro, e na segunda, sozinho. Passei, ao todo, cerca de três semanas no Cabo; caminhei de Eastham a Provincetown duas vezes pelo lado do Atlântico e uma vez também pelo lado da baía, exceto por quatro ou cinco milhas, e atravessei o Cabo meia dúzia de vezes pelo caminho; mas, tendo chegado tão fresco ao mar, fiquei apenas ligeiramente salgado. Meus leitores devem esperar somente a quantidade de salinidade que a brisa terrestre adquire ao soprar sobre um braço de mar, ou que se prova nas janelas e na casca das árvores vinte milhas terra adentro, depois dos vendavais de setembro. Eu costumava fazer excursões aos lagos num raio de dez milhas de Concord, mas, ultimamente, estendi minhas excursões até o litoral.
Não via por que não poderia fazer um livro sobre Cape Cod, assim como meu vizinho fizera um sobre “Cultura Humana”. Trata-se apenas de outro nome para a mesma coisa, e de uma fase dela pouco mais arenosa. Quanto ao meu título, suponho que a palavra Cape venha do francês cap, que vem do latim caput, cabeça, que talvez venha do verbo capere, tomar, por ser essa a parte pela qual agarramos uma coisa: agarre o Tempo pelo topete. É também a parte mais segura pela qual agarrar uma serpente. Quanto a Cod, derivou diretamente daquela “grande abundância de bacalhau” que o capitão Bartholomew Gosnold pescou ali em 1602; esse peixe parece ter recebido tal nome da palavra saxônica codde, “um invólucro onde se alojam sementes”, seja pela forma do peixe, seja pela quantidade de ova que contém; daí também, talvez, codling (pomum coctile?) e coddle, cozinhar ainda verde, como ervilhas. (V. Dic.)
Cape Cod é o braço descoberto e dobrado de Massachusetts: o ombro fica em Buzzard’s Bay; o cotovelo, ou osso engraçado, em Cape Mallebarre; o pulso, em Truro; e o punho arenoso, em Provincetown, atrás do qual o Estado se mantém em guarda, de costas para as Green Mountains e com os pés plantados no fundo do oceano, como um atleta protegendo sua baía, trocando golpes com as tempestades de nordeste e, vez por outra, erguendo do colo da terra seu adversário atlântico, pronto para lançar à frente o outro punho, que nesse meio-tempo se conserva em guarda sobre seu peito, em Cape Ann.
Ao estudar o mapa, vi que devia haver uma praia ininterrupta no lado leste, ou exterior, do antebraço do Cabo, a mais de trinta milhas da linha geral da costa, que proporcionaria uma boa vista do mar; mas que, por causa de uma abertura na praia, formando a entrada de Nauset Harbor, em Orleans, eu teria de alcançá-la em Eastham, caso me aproximasse por terra, e provavelmente poderia caminhar dali em linha reta até Race Point, cerca de vinte e oito milhas, sem encontrar obstáculo algum.
Partimos de Concord, Massachusetts, na terça-feira, 9 de outubro de 1849. Ao chegarmos a Boston, descobrimos que o vapor de Provincetown, que deveria ter entrado no dia anterior, ainda não havia chegado, por causa de uma violenta tempestade; e, como notamos nas ruas um folheto encimado pelas palavras “Morte! cento e quarenta e cinco vidas perdidas em Cohasset”, decidimos seguir por Cohasset. Encontramos muitos irlandeses nos vagões, indo identificar corpos e prestar solidariedade aos sobreviventes, e também comparecer ao funeral que se realizaria à tarde; e, quando chegamos a Cohasset, parecia que quase todos os passageiros se dirigiam à praia, que ficava a cerca de uma milha, enquanto muitas outras pessoas acorriam das redondezas. Centenas delas se espalhavam pelo campo comunal de Cohasset naquela direção, algumas a pé, outras em carroças, e entre elas havia caçadores com seus casacos de caça, espingardas, bolsas de caça e cães. Ao passarmos pelo cemitério, vimos ali uma grande cova, semelhante a um porão, recém-aberta; e, pouco antes de alcançarmos a costa, por uma estrada agradavelmente sinuosa e pedregosa, encontramos várias armações para transportar feno e carroças de fazenda que se afastavam em direção à casa de reuniões, cada qual carregada com três grandes caixas rústicas de pinho. Não precisávamos perguntar o que havia nelas. Os donos das carroças haviam sido transformados em agentes funerários. Muitos cavalos atrelados a carruagens estavam presos às cercas perto da costa e, por uma milha ou mais, para cima e para baixo, a praia estava coberta de pessoas à procura de corpos e examinando os fragmentos do naufrágio. Havia uma pequena ilha chamada Brook Island, com uma cabana sobre ela, logo ao largo da costa. Diz-se que essa é a costa mais rochosa de Massachusetts, de Nantasket a Scituate, formada por duras rochas sieníticas que as ondas deixaram expostas, mas não conseguiram esboroar. Foi cenário de muitos naufrágios.
O brigue St. John, vindo de Galway, Irlanda, carregado de emigrantes, naufragara na manhã de domingo; era agora manhã de terça-feira, e o mar ainda se quebrava violentamente contra as rochas. Dezoito ou vinte das mesmas grandes caixas que mencionei jaziam numa encosta verde, a poucos rods da água, cercadas por uma multidão. Os corpos recuperados, vinte e sete ou vinte e oito ao todo, haviam sido reunidos ali. Alguns pregavam rapidamente as tampas, outros levavam as caixas em carroças, e outros levantavam as tampas, ainda soltas, e espiavam sob os panos, pois cada corpo, com os trapos que ainda lhe permaneciam aderidos, estava frouxamente coberto por um lençol branco. Não presenciei sinais de pesar, mas havia uma sóbria presteza no trabalho que era comovente. Um homem procurava identificar determinado corpo, e um agente funerário ou carpinteiro gritava para outro, querendo saber em qual caixa certa criança fora colocada. Vi muitos pés de mármore e cabeças de cabelos emaranhados quando os panos eram levantados, e um corpo lívido, inchado e mutilado de uma moça afogada, que provavelmente pretendia empregar-se como criada em alguma família americana, ao qual ainda aderiam alguns trapos, com um cordão meio oculto pela carne em torno do pescoço inchado; o destroço enrodilhado de um casco humano, rasgado pelas rochas ou pelos peixes, de modo que os ossos e músculos ficavam expostos, mas inteiramente sem sangue, apenas vermelho e branco, com os olhos muito abertos e fixos, embora sem brilho, escotilhas mortas; ou semelhantes às janelas da cabine de uma embarcação encalhada, cheias de areia. Às vezes havia duas ou mais crianças, ou um dos pais e uma criança, na mesma caixa, e na tampa talvez estivesse escrito com giz vermelho: “Bridget Fulana, e o filho da irmã”. O relvado ao redor estava coberto de pedaços de velas e roupas. Desde então ouvi, de alguém que vive junto a essa praia, que uma mulher que viera antes, mas deixara para trás o bebê para que sua irmã o trouxesse, chegou e olhou dentro dessas caixas, vendo em uma delas, provavelmente a mesma cuja inscrição citei, o filho nos braços da irmã, como se esta tivesse pretendido ser encontrada assim; e, menos de três dias depois, a mãe morreu em consequência daquela visão.
Afastamo-nos dali e caminhamos ao longo da costa rochosa. Na primeira enseada estavam espalhados o que pareciam ser fragmentos de uma embarcação, em pequenos pedaços misturados com areia e algas marinhas, além de grandes quantidades de penas; mas tudo parecia tão velho e enferrujado que, a princípio, julguei tratar-se de algum naufrágio antigo que jazia ali havia muitos anos. Cheguei a pensar no capitão Kidd e que as penas fossem as que aves marinhas haviam deixado ali; talvez houvesse alguma tradição a respeito nas redondezas. Perguntei a um marinheiro se aquilo era o St. John. Ele disse que sim. Perguntei onde o navio batera. Ele apontou para uma rocha à nossa frente, a uma milha da costa, chamada Grampus Rock, e acrescentou:
— Dá para ver agora uma parte dele sobressaindo; parece um barquinho.
Eu a vi. Supunha-se que estivesse presa pelos cabos de corrente e pelas âncoras. Perguntei se os corpos que eu vira eram todos os que haviam se afogado.
— Nem a quarta parte deles — disse ele.
— Onde estão os demais?
— A maioria bem debaixo daquele pedaço que o senhor está vendo.
Pareceu-nos que havia entulho suficiente, só naquela enseada, para compor os destroços de uma grande embarcação, e que seriam necessários muitos dias para removê-lo em carroças. Tinha vários pés de profundidade, e aqui e ali havia sobre ele uma touca ou um casaco. Bem no meio da multidão reunida em torno dos destroços, homens com carroças recolhiam ativamente as algas marinhas que a tempestade lançara à praia e as transportavam para além do alcance da maré, embora muitas vezes fossem obrigados a separar delas fragmentos de roupa e pudessem, a qualquer momento, encontrar um corpo humano por baixo. Afogasse quem se afogasse, eles não esqueciam que aquela alga era um adubo valioso. Esse naufrágio não produzira vibração visível no tecido da sociedade.
Cerca de uma milha ao sul, podíamos ver, erguendo-se acima das rochas, os mastros do brigue britânico que o St. John tentara seguir, o qual soltara seus cabos e, por sorte, entrara na boca de Cohasset Harbor. Um pouco mais adiante, ao longo da costa, vimos as roupas de um homem sobre uma rocha; mais além, o xale de uma mulher, um vestido, uma touca de palha, a cozinha do brigue e um de seus mastros, em seco e bem acima da água, partido em vários pedaços. Em outra enseada rochosa, a vários rods da água e atrás de rochas de vinte pés de altura, jazia parte de um dos costados da embarcação, ainda mantida unida. Tinha talvez quarenta pés de comprimento por catorze de largura. Fiquei ainda mais surpreso com a força das ondas, manifestada naquele fragmento despedaçado, do que ficara antes ao ver os fragmentos menores. As maiores peças de madeira e escoras de ferro estavam quebradas além do necessário, e vi que nenhum material poderia resistir à força das ondas; que, num caso assim, o ferro teria de se partir, e uma embarcação de ferro se racharia como casca de ovo sobre as rochas. Algumas daquelas madeiras, contudo, estavam tão apodrecidas que eu quase poderia atravessá-las com o guarda-chuva. Disseram-nos que algumas pessoas se salvaram sobre aquele fragmento e também mostraram onde o mar o arremessara para dentro daquela enseada, então seca. Quando vi por onde ele entrara e em que estado se encontrava, admirei-me de que alguém tivesse se salvado sobre ele. Um pouco mais adiante, uma multidão de homens estava reunida em torno do imediato do St. John, que contava sua história. Era um jovem de aparência franzina, que se referia ao capitão como o mestre e parecia um tanto agitado. Dizia que, quando saltaram para o bote, ele se encheu de água e, com a embarcação adernando, o peso da água no bote fez romper a boça, separando-os. Ao ouvir isso, um homem se afastou dizendo:
— Bem, não vejo por que dizer que ele não conta uma história bastante coerente. Veja, o peso da água no bote rompeu a boça. Um bote cheio de água é muito pesado — e assim por diante, num tom alto e impertinentemente grave, como se tivesse uma aposta em jogo, mas nenhum interesse humano no caso.
Outro, um homem corpulento, estava ali perto, de pé sobre uma rocha, contemplando o mar e mascando grandes nacos de tabaco, como se esse hábito estivesse para sempre arraigado nele.
— Venha — diz outro ao companheiro —, vamos embora. Já vimos tudo. Não adianta ficar para o funeral.
Mais adiante, vimos um homem de pé sobre uma rocha, que, segundo nos disseram, era um dos salvos. Tinha um ar sóbrio, vestia paletó e calças cinzentas e mantinha as mãos nos bolsos. Fiz-lhe algumas perguntas, às quais respondeu; mas parecia pouco disposto a falar do ocorrido e logo se afastou. Ao lado dele estava um dos homens do bote salva-vidas, com uma jaqueta de oleado, que nos contou como haviam ido socorrer o brigue britânico, supondo que o bote do St. John, pelo qual passaram no caminho, levasse toda a tripulação, pois as ondas os impediam de ver os que permaneciam na embarcação, embora pudessem ter salvado alguns, caso soubessem que ainda havia gente ali. Um pouco adiante, a bandeira do St. John estava estendida sobre uma rocha para secar, presa nos cantos por pedras. Essa parte frágil, mas essencial e significativa, da embarcação, que por tanto tempo fora joguete dos ventos, estava destinada a alcançar a costa. Dali se avistavam uma ou duas casas, nas quais alguns dos sobreviventes se recuperavam do abalo sofrido pelo corpo e pela mente. Não se esperava que um deles sobrevivesse.
Prosseguimos pela costa até um promontório chamado Whitehead, a fim de vermos mais dos Rochedos de Cohasset. Numa pequena enseada, a menos de meia milha dali, um velho e seu filho recolhiam, com sua parelha, as algas que aquela tempestade fatal lançara à praia, ocupados com tanta serenidade como se jamais houvesse ocorrido um naufrágio no mundo, embora estivessem à vista do Rochedo Grampus, contra o qual o St. John batera. O velho ouvira dizer que houvera um naufrágio e conhecia a maior parte dos pormenores, mas disse que não estivera lá desde que acontecera. O que mais lhe importava eram as algas naufragadas, sargaço de rocha, kelp e algas marinhas, como ele as chamava, que transportava em carroça para o terreiro do celeiro; e aqueles corpos não passavam, para ele, de outras ervas que a maré lançara à praia, mas que não lhe serviam para nada. Depois chegamos ao bote salva-vidas em seu porto, à espera de outra emergência; e, à tarde, vimos de longe o cortejo fúnebre, à frente do qual caminhava o capitão com os demais sobreviventes.
Em suma, não foi uma cena tão impressionante quanto eu poderia ter esperado. Se tivesse encontrado um único corpo lançado à praia em algum lugar solitário, eu teria sido mais afetado. Eu antes simpatizava com os ventos e as ondas, como se lançar e dilacerar aqueles pobres corpos humanos fosse a ordem do dia. Se essa era a lei da Natureza, por que desperdiçar tempo com assombro ou piedade? Se o último dia houvesse chegado, não pensaríamos tanto na separação dos amigos nem nas esperanças frustradas dos indivíduos. Vi que os cadáveres podiam multiplicar-se, como num campo de batalha, até deixarem de nos afetar em qualquer medida, como exceções à sorte comum da humanidade. Reúnam-se todos os cemitérios: eles são sempre a maioria. É o individual e o privado que exigem nossa compaixão. Um homem só pode assistir a um funeral no curso de sua vida, só pode contemplar um cadáver. Contudo, percebi que os moradores da costa seriam profundamente afetados por esse acontecimento. Vigiariam ali por muitos dias e noites, esperando que o mar entregasse seus mortos, e sua imaginação e sua compaixão fariam as vezes dos enlutados distantes, que ainda nada sabiam do naufrágio. Muitos dias depois, alguém que passeava pela praia viu algo branco flutuando na água. Aproximaram-se num barco e descobriram ser o corpo de uma mulher, que emergira em posição ereta, com a touca branca soprada para trás pelo vento. Vi que a própria beleza da costa ficara naufragada para muitos caminhantes solitários dali, até que por fim pudessem perceber como essa beleza era realçada por naufrágios como aquele e adquiria, assim, uma beleza ainda mais rara e sublime.
Por que nos importarmos com esses corpos mortos? Na verdade, não têm amigos senão os vermes ou os peixes. Seus donos vinham para o Novo Mundo, como fizeram Colombo e os Peregrinos; estavam a menos de uma milha de suas praias; mas, antes que pudessem alcançá-lo, emigraram para um mundo mais novo do que Colombo jamais sonhou, embora creiamos haver, da existência desse mundo, provas muito mais universais e convincentes, ainda que ele não tenha sido descoberto pela ciência, do que Colombo possuía deste; não apenas histórias de marinheiros e uns míseros pedaços de madeira à deriva e algas marinhas, mas uma deriva e um instinto contínuos rumo a todas as nossas praias. Vi seus cascos vazios chegarem à terra; mas eles próprios, nesse meio-tempo, foram lançados a alguma costa ainda mais a oeste, para a qual todos tendemos e que afinal alcançaremos, talvez através da tempestade e da escuridão, como eles. Sem dúvida, temos motivo para agradecer a Deus por não terem sido “naufragados de volta à vida”. O marinheiro que chega ao porto mais seguro do Céu talvez pareça naufragado a seus amigos na terra, pois eles consideram o Porto de Boston o lugar melhor; embora, talvez invisível para eles, um piloto hábil venha ao encontro do marinheiro, e as mais belas e balsâmicas brisas soprem ao largo daquela costa, seu bom navio aviste terra em dias de bonança e ele beije a praia em êxtase ali, enquanto seu velho casco é sacudido na arrebentação aqui. É difícil separar-se do próprio corpo, mas, sem dúvida, é bastante fácil passar sem ele depois que se foi. Todos os seus planos e esperanças rebentaram como uma bolha! Crianças às dezenas arremessadas contra as rochas pelo Oceano Atlântico enfurecido! Não, não! Se o St. John não chegou a seu porto aqui, sua chegada foi telegrafada para lá. O vento mais forte não pode fazer vacilar um Espírito; ele é o sopro de um Espírito. O propósito de um homem justo não pode partir-se contra nenhum Grampus ou rochedo material; ele próprio partirá rochedos até alcançar seu fim.
Os versos dirigidos a Colombo moribundo podem, com pequenas alterações, aplicar-se aos passageiros do St. John:
“Logo tudo lhes será findo,
Logo a viagem há de começar,
Que os levará, descobrindo,
A uma terra ignota, além-mar.
“Terra que cada um, sozinho,
Há de visitar, sem novas dar;
Pois nenhum marujo, ido ao caminho,
Jamais tornou para contar.
“Nenhuma madeira talhada, nenhum ramo partido
Vem boiando daquele ermo distante;
Quem se lança nesse oceano desconhecido
Não encontra o corpo de um anjo infante.
“Sem temor, meus nobres marinheiros,
Abri, pois, abri vossas velas;
Espíritos! num mar de éter
Logo flutuareis serenos sobre ele!
“Onde o prumo não sonda a profundeza,
Não temais escolhos ocultos no mar,
E a asa dos anjos, em leveza,
Levará vossa barca sempre adiante a singrar.
“Deixai agora, de coração pleno e consolado,
Estas costas ásperas, que à terra pertencem;
Onde as nuvens róseas se abrem de lado,
As ilhas benditas ao longe aparecem.”
Num dia de verão, depois disso, vim por este caminho, a pé, seguindo a costa desde Boston. Fazia tanto calor que alguns cavalos haviam subido até o topo das muralhas do velho forte de Hull, onde mal havia espaço para se virarem, em busca da brisa. A Datura stramonium, ou estramônio, estava em plena floração ao longo da praia; e, ao avistar esse cosmopolita, esse Capitão Cook entre as plantas, transportado em lastro por todo o mundo, senti como se estivesse na grande estrada das nações. Digamos, antes, esse viking, rei das Baías, pois não é uma planta inocente; sugere não apenas o comércio, mas os vícios que o acompanham, como se suas fibras fossem a matéria com que os piratas fiam suas histórias. Ouvi as vozes de homens gritando a bordo de uma embarcação, a meia milha da costa, e soavam como se eles estivessem num celeiro no campo, por se encontrarem entre as velas. Era um som puramente rural. Ao olhar sobre as águas, vi as ilhas desfazerem-se rapidamente, o mar mordiscando vorazmente o continente, o arco ascendente de uma colina subitamente interrompido, como em Point Alderton, aquilo que os botânicos talvez chamassem de premorso, mostrando, por sua curva contra o céu, quanto espaço devia ter ocupado onde agora havia apenas água. Por outro lado, esses destroços de ilhas eram caprichosamente rearranjados em novas costas, como em Hog Island, no interior de Hull, onde tudo parecia deslizar suavemente para o futuro. Essa ilha assumira a própria forma de uma ondulação; e pensei que os habitantes deveriam trazer uma ondulação como emblema em seus escudos, uma onda passando sobre eles, com a datura, que se diz produzir alienação mental de longa duração sem afetar a saúde do corpo,[1] brotando de sua borda. A coisa mais interessante de que ouvi falar nesse município de Hull foi uma fonte perene, cuja localização me apontaram na encosta de uma colina distante, enquanto eu avançava ofegante pela costa, embora não a tenha visitado. Talvez, se eu passasse por Roma, fosse alguma fonte do Monte Capitolino aquilo de que me lembraria por mais tempo. É verdade que me interessei um pouco pelo poço do velho forte francês, que se dizia ter noventa pés de profundidade, com um canhão no fundo. Na praia de Nantasket contei uma dúzia de charretes vindas da hospedaria. De tempos em tempos, os condutores voltavam os cavalos para o mar, detendo-os dentro d’água para se refrescarem; e percebi o valor das praias para as cidades, por causa da brisa marítima e do banho.
Na aldeia de Jerusalem, os moradores recolhiam às pressas, antes de uma tempestade que se aproximava, o musgo-irlandês que haviam espalhado para secar. A tempestade passou por um dos lados e me deu apenas algumas gotas, que não refrescaram o ar. Senti apenas uma lufada na face, embora, à vista, uma embarcação tivesse emborcado na baía, e várias outras garreassem e estivessem quase encalhando. O banho de mar nos Rochedos de Cohasset era perfeito. A água era mais pura e transparente do que qualquer outra que eu já tivesse visto. Não havia nela uma partícula de lama ou limo. Como o fundo era arenoso, eu podia ver as percas-marinhas nadando. As rochas lisas e fantasticamente desgastadas, e as algas de rocha perfeitamente limpas, semelhantes a tranças, que caíam sobre nós e se prendiam com tanta firmeza às pedras que era possível içar-se por elas, aumentavam em muito o deleite do banho. A faixa de cracas logo acima das algas lembrava-me algum crescimento vegetal, os botões, pétalas e cápsulas de sementes das flores. Estendiam-se pelas juntas da rocha como botões num colete. Era um dos dias mais quentes do ano, mas achei a água tão glacial que só consegui dar uma ou duas braçadas, e pensei que, em caso de naufrágio, haveria mais perigo de morrer de frio do que simplesmente afogado. Uma única imersão bastava para fazer esquecer por completo os dias caniculares. Embora estivéssemos sufocando de calor antes, levaríamos agora meia hora para recordar que algum dia fizera calor. Ali estavam as rochas fulvas, como leões deitados, desafiando o oceano, cujas ondas se lançavam incessantemente contra elas e as esfregavam com vastas quantidades de cascalho. A água retida em suas pequenas cavidades quando a maré recuava era tão cristalina que eu não conseguia acreditar que fosse salgada e desejava bebê-la; mais acima havia bacias de água doce deixadas pela chuva, todas elas, por terem também profundidades e temperaturas diferentes, convenientes para diferentes tipos de banho. Além disso, as cavidades maiores nas rochas polidas formavam os mais cômodos assentos e vestiários. Nesses aspectos, era o litoral mais perfeito que eu já vira.
Vi em Cohasset, separado do mar apenas por uma praia estreita, um belo mas raso lago de cerca de quatrocentos acres que, segundo me disseram, o mar lançara para além da praia durante uma grande tempestade na primavera; depois que os arenques-de-rio entraram nele, o mar obstruiu sua saída, e agora os peixes morriam aos milhares, enquanto os habitantes temiam uma pestilência à medida que a água evaporava. Havia nele cinco ilhotas rochosas.
Essa costa rochosa é chamada Pleasant Cove em alguns mapas; no mapa de Cohasset, esse nome parece restringir-se à enseada específica onde vi o naufrágio do St. John. O oceano agora não parecia um lugar onde alguém jamais houvesse naufragado; não era grandioso e sublime, mas belo como um lago. Não se via vestígio algum de naufrágio, nem eu podia acreditar que os ossos de tantos náufragos estivessem sepultados naquela areia pura. Mas prossigamos com nossa primeira excursão.
[1] A erva-de-Jamestown (ou estramônio). “Esta, por ser uma planta precoce, foi colhida ainda muito nova, para uma salada cozida, por alguns dos soldados enviados para lá [isto é, para a Virgínia] a fim de sufocar a rebelião de Bacon; e alguns deles comeram-na em abundância, cujo efeito foi uma comédia muito agradável, pois se tornaram perfeitos idiotas durante vários dias: um soprava uma pena para o alto; outro atirava palhinhas contra ela com grande fúria; e outro, completamente nu, estava sentado num canto como um macaco, arreganhando os dentes e fazendo caretas para os demais; um quarto beijava e apalpava afetuosamente os companheiros e zombava na cara deles, com um semblante mais grotesco do que qualquer personagem de uma farsa holandesa. Nesse estado frenético, foram confinados, para que, em sua loucura, não destruíssem a si mesmos, embora se observasse que todos os seus atos eram cheios de inocência e boa índole. Na verdade, não eram muito asseados. Fizeram mil dessas travessuras tolas e, depois de onze dias, voltaram a si, sem se lembrar de coisa alguma do que se passara.” — History of Virginia, de Beverly, p. 120.
Edição integral de Cape Cod, de Henry David Thoreau, em tradução brasileira Literunico feita diretamente do texto inglês de domínio público.
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