Je ne parle pas français Êxtase e outros contos · Capítulo 2 de 14
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Je ne parle pas français

Não sei por que tenho tanta simpatia por este pequeno café. É sujo e triste, triste. Não é como se tivesse algo que o distinguisse de uma centena de outros — não tem; ou como se os mesmos tipos estranhos viessem aqui todos os dias, que se pudesse observar do próprio canto e reconhecer e mais ou menos (com forte acento no menos) compreender.

Mas, por favor, não imagine que esses parênteses sejam uma confissão da minha humildade diante do mistério da alma humana. De modo algum; não acredito na alma humana. Nunca acreditei. Acredito que as pessoas são como malas de viagem — abarrotadas de certas coisas, postas em movimento, atiradas de um lado para outro, lançadas fora, largadas no chão, perdidas e achadas, subitamente meio esvaziadas, ou espremidas até ficarem mais gordas que nunca, até que, por fim, o Carregador Definitivo as arremesse para dentro do Trem Definitivo e lá vão elas chacoalhando...

Não que essas malas de viagem não possam ser muito fascinantes. Oh, mas muito! Vejo-me diante delas, sabe, como um fiscal da alfândega.

— Tem alguma coisa a declarar? Vinhos, bebidas, charutos, perfumes, sedas?

E o instante de hesitação em saber se vou ser enganado, logo antes de eu traçar aquele rabisco de giz, e depois o outro instante de hesitação, logo depois, em saber se fui, são talvez os dois momentos mais emocionantes da vida. Sim, são, para mim.

Mas, antes que eu começasse essa longa digressão um tanto rebuscada e nem tremendamente original, o que eu queria dizer, com toda simplicidade, era que aqui não há malas de viagem a examinar, porque a clientela deste café, senhoras e senhores, não se senta. Não, fica de pé no balcão, e consiste num punhado de operários que sobem do rio, todos recobertos de farinha branca, cal ou coisa parecida, e alguns soldados, trazendo consigo moças magras, morenas, com argolas de prata nas orelhas e cestas de feira no braço.

Madame também é magra e morena, com faces brancas e mãos brancas. Sob certas luzes parece quase transparente, brilhando dentro de seu xale preto com um efeito extraordinário. Quando não está servindo, senta-se num banquinho com o rosto voltado, sempre, para a janela. Seus olhos de olheiras escuras procuram entre as pessoas que passam e as seguem, mas não como se procurasse alguém. Talvez, quinze anos atrás, procurasse; mas agora a pose se tornou hábito. Pode-se perceber, por seu ar de fadiga e desesperança, que ela deve ter desistido deles há pelo menos dez anos...

E depois há o garçom. Nada patético — decididamente nada cômico. Nunca faz uma daquelas observações perfeitamente insignificantes que tanto espantam quando vêm de um garçom (como se o pobre-diabo fosse uma espécie de cruzamento entre uma cafeteira e uma garrafa de vinho, e não se esperasse que guardasse sequer uma gota de qualquer outra coisa). É grisalho, tem pés chatos e é murcho, com unhas longas, quebradiças, que arrepiam seus nervos enquanto ele raspa seus dois sous da mesa. Quando não está besuntando a mesa ou dando petelecos numa ou duas moscas mortas, fica de pé, com uma das mãos no encosto de uma cadeira, em seu avental comprido demais, e sobre o outro braço a dobra triangular do guardanapo sujo, esperando para ser fotografado em relação a algum assassinato miserável. “Interior do Café Onde o Corpo Foi Encontrado.” Você já o viu centenas de vezes.

Você acredita que todo lugar tem sua hora do dia em que realmente ganha vida? Não é exatamente isso que quero dizer. É mais ou menos assim. Parece mesmo haver um momento em que você percebe que, por puro acaso, entrou em cena exatamente no instante em que era esperado. Tudo está arranjado para você — à sua espera. Ah, senhor da situação! Você se enche de uma respiração importante. E, ao mesmo tempo, sorri, secretamente, astutamente, porque a Vida parece empenhada em negar-lhe essas entradas, parece mesmo ocupada em arrancá-las de você e torná-las impossíveis, mantendo-o nos bastidores até que seja tarde demais, na verdade... Só dessa vez você derrotou a velha bruxa.

Desfrutei um desses momentos na primeira vez em que entrei aqui. É por isso que continuo voltando, suponho. Revisitando o cenário do meu triunfo, ou o cenário do crime onde, por uma vez, agarrei a velha cadela pelo pescoço e fiz dela o que quis.

Pergunta: Por que sou tão amargo contra a Vida? E por que a vejo como uma trapeira do cinema americano, arrastando-se embrulhada num xale imundo, com as velhas garras curvadas sobre uma bengala?

Resposta: Resultado direto do cinema americano atuando sobre uma mente fraca.

De todo modo, “a curta tarde de inverno chegava ao fim”, como se diz, e eu vagava por ali, ou indo para casa ou não indo para casa, quando me vi aqui dentro, caminhando até este assento no canto.

Pendurei meu sobretudo inglês e meu chapéu cinza de feltro naquele mesmo gancho atrás de mim e, depois de conceder ao garçom tempo suficiente para que pelo menos vinte fotógrafos se saciassem dele, pedi um café.

Ele me serviu um copo daquela coisa familiar, arroxeada, com uma luz verde errante brincando sobre ela, e se arrastou para longe; e eu fiquei sentado, apertando as mãos contra o copo, porque fazia um frio atroz lá fora.

De repente percebi que, à parte de mim mesmo, eu sorria. Lentamente ergui a cabeça e vi a mim mesmo no espelho em frente. Sim, ali estava eu, apoiado à mesa, sorrindo meu sorriso profundo, astuto, o copo de café com sua vaga pluma de vapor diante de mim e, ao lado, o círculo do pires branco com dois pedaços de açúcar.

Abri muito os olhos. Ali eu estivera por toda a eternidade, por assim dizer, e agora, enfim, começava a ganhar vida...

Estava muito quieto no café. Lá fora, mal se podia ver através do crepúsculo que começara a nevar. Mal se podiam ver as formas de cavalos, carroças e pessoas, macias e brancas, movendo-se pelo ar emplumado. O garçom desapareceu e reapareceu com uma braçada de palha. Espalhou-a pelo chão, da porta ao balcão e em torno do fogão, com gestos humildes, quase adoradores. Não teria sido surpresa se a porta se abrisse e a Virgem Maria entrasse, montada num jumento, as mãos dóceis cruzadas sobre a grande barriga...

Isso é bastante bonito, você não acha, essa parte da Virgem? Sai da pena tão suavemente; tem um “declínio” tão morrente. Pensei assim na hora e decidi tomar nota. Nunca se sabe quando uma pequena fórmula dessas pode vir a calhar para arrematar um parágrafo. Então, tomando cuidado para me mover o mínimo possível, porque o “encanto” ainda não se quebrara (você sabe o que é isso?), estendi a mão até a mesa ao lado em busca de um bloco de escrever.

Nenhum papel nem envelopes, é claro. Apenas um pedaço de mata-borrão rosa, incrivelmente macio e mole e quase úmido, como a língua de um gatinho morto, que nunca toquei.

Fiquei sentado — mas sempre por baixo, nesse estado de expectativa, enrolando a pequena língua do gatinho morto em torno do dedo e enrolando a frase macia em torno da mente, enquanto meus olhos recolhiam os nomes das moças, as piadas sujas e os desenhos de garrafas e xícaras que não queriam ficar nos pires, espalhados pelo bloco de escrever.

São sempre os mesmos, sabe. As moças sempre têm os mesmos nomes, as xícaras nunca ficam nos pires; todos os corações estão espetados e amarrados com fitas.

Mas então, muito de repente, no rodapé da página, escrito em tinta verde, dei de cara com aquela frasezinha estúpida, batida: Je ne parle pas français.

Ali estava! chegara — o momento — o geste! E embora eu estivesse tão preparado, ele me apanhou, me fez tombar; fui simplesmente esmagado. E a sensação física era tão curiosa, tão particular. Era como se tudo em mim, exceto a cabeça e os braços, tudo em mim que estava debaixo da mesa, tivesse simplesmente se dissolvido, derretido, virado água. Só minha cabeça permaneceu, e dois gravetos de braços pressionados contra a mesa. Mas, ah! a agonia daquele momento! Como descrevê-la? Não pensei em nada. Nem sequer gritei para mim mesmo. Por um momento apenas, eu não era. Eu era Agonia, Agonia, Agonia.

Depois passou, e no segundo seguinte eu pensava: “Meu Deus! Sou capaz de sentir com tanta força assim? Mas eu estava absolutamente inconsciente! Não tinha uma frase para enfrentá-lo! Fui vencido! Fui arrancado do chão! Nem mesmo tentei, do modo mais obscuro, pôr aquilo por escrito!”

E lá fui eu inflando, inflando, até finalmente soltar o ar com: “No fim das contas, devo ser de primeira categoria. Nenhuma mente de segunda ordem poderia ter experimentado uma intensidade de sentimento tão... pura.”

O garçom encostou uma lasca de papel no fogão vermelho e acendeu uma bolha de gás sob uma cúpula larga. Não adianta olhar pela janela, Madame; agora está completamente escuro. Suas mãos brancas pairam sobre o xale escuro. São como dois pássaros que voltaram para empoleirar-se. Estão inquietas, inquietas... Por fim, você as enfia sob suas axilazinhas quentes.

Agora o garçom pegou uma vara comprida e fechou as cortinas com estrondo. “Acabou tudo”, como dizem as crianças.

E, além disso, não tenho paciência com pessoas que não sabem largar as coisas, que seguem atrás delas e gritam. Quando uma coisa se foi, foi-se. Está encerrada e acabada. Deixe-a ir, então! Ignore-a, e console-se, se é que deseja consolo, com o pensamento de que nunca se recupera a mesma coisa que se perde. É sempre uma coisa nova. No instante em que ela o deixa, já mudou. Ora, isso é verdade até de um chapéu atrás do qual você corre; e não quero dizer superficialmente — quero dizer profundamente falando... Fiz uma regra de vida nunca me arrepender e nunca olhar para trás. O arrependimento é um desperdício pavoroso de energia, e ninguém que pretenda ser escritor pode se dar ao luxo de cultivá-lo. Não se pode dar forma a ele; não se pode construir sobre ele; só presta para chafurdar. Olhar para trás, é claro, é igualmente fatal à Arte. É manter-se pobre. A Arte não pode e não quer suportar a pobreza.

Je ne parle pas français. Je ne parle pas français. Durante todo o tempo em que escrevi essa última página, meu outro eu esteve correndo de um lado para o outro, lá fora, na escuridão. Deixou-me bem quando comecei a analisar meu grande momento, saiu disparado, transtornado, como um cachorro perdido que pensa afinal, afinal, ouvir de novo o passo familiar.

“Mouse! Mouse! Onde está você? Está perto? É você inclinada da janela alta, estendendo os braços para as asas das venezianas? É você este embrulho macio que se move em minha direção através da neve emplumada? É você esta menininha que passa pelas portas giratórias do restaurante? É sua sombra escura que se inclina para a frente dentro do fiacre? Onde está você? Onde está? Para que lado devo virar? Para que lado devo correr? E a cada momento em que fico aqui hesitando, você está de novo mais longe. Mouse! Mouse!”

Agora o pobre cachorro voltou para dentro do café, com o rabo entre as pernas, completamente exausto.

— Foi um... falso... alarme. Ela não está... em parte... alguma.

— Deite-se, então! Deite-se! Deite-se!

Meu nome é Raoul Duquette. Tenho vinte e seis anos e sou parisiense, um verdadeiro parisiense. Quanto à minha família — isso realmente não importa. Não tenho família; não quero nenhuma. Nunca penso na minha infância. Esqueci-a.

Na verdade, há apenas uma lembrança que se destaca de algum modo. É bastante interessante porque agora me parece muito significativa a meu respeito, do ponto de vista literário. É esta.

Quando eu tinha uns dez anos, nossa lavadeira era uma africana, muito grande, muito escura, com um lenço xadrez sobre os cabelos crespos. Quando vinha à nossa casa, sempre reparava especialmente em mim, e depois que as roupas eram tiradas da cesta, ela me erguia para dentro dela e me balançava, enquanto eu me agarrava firme às alças e gritava de alegria e medo. Eu era miúdo para a minha idade, e pálido, com uma adorável boquinha entreaberta — tenho certeza disso.

Um dia, quando eu estava à porta, vendo-a partir, ela se virou e me chamou com um aceno, assentindo e sorrindo de um modo estranho, secreto. Nunca me ocorreu não segui-la. Levou-me a uma pequena dependência no fim do corredor, agarrou-me nos braços e começou a me beijar. Ah, aqueles beijos! Especialmente aqueles beijos dentro das orelhas, que quase me ensurdecem.

Quando me pôs no chão, tirou do bolso um bolinho frito redondo coberto de açúcar, e eu cambaleei pelo corredor de volta à nossa porta.

Como essa cena se repetia uma vez por semana, não é de admirar que eu a recorde com tanta vividez. Além disso, desde aquela primeira tarde, minha infância foi, para dizê-lo com graça, “beijada embora”. Tornei-me muito lânguido, muito acariciante, e ganancioso além de qualquer medida. E, assim acelerado, assim afiado, eu parecia compreender todo mundo e ser capaz de fazer o que quisesse com todo mundo.

Suponho que eu estivesse num estado de excitação física mais ou menos constante, e era isso que os atraía. Pois todos os parisienses são mais que meio — oh, bem, basta disso. E basta também da minha infância. Enterre-a sob uma cesta de roupas em vez de uma chuva de rosas e passons oultre.

Eu me dato a partir do momento em que me tornei inquilino de um pequeno apartamento de solteiro no quinto andar de uma casa alta, não muito decadente, numa rua que podia ou não ser discreta. Muito útil, isso... Ali emergi, saí para a luz e pus para fora meus dois chifres, com um escritório, um quarto e uma cozinha às costas. E móveis de verdade plantados nos cômodos. No quarto, um guarda-roupa com um espelho comprido, uma cama grande coberta por uma colcha amarela, fofa e inchada, uma mesinha de cabeceira com tampo marmorizado e um conjunto de toucador salpicado de maçãzinhas. No meu escritório — escrivaninha inglesa com gavetas, cadeira de escrever com almofadas de couro, livros, poltrona, mesinha lateral com corta-papel e lâmpada em cima, e alguns estudos de nus nas paredes. Eu não usava a cozinha, a não ser para jogar papéis velhos dentro dela.

Ah, consigo me ver naquela primeira noite, depois que os homens dos móveis foram embora e eu consegui me livrar da minha atroz velha concierge — andando na ponta dos pés, arrumando coisas e parando diante do espelho com as mãos nos bolsos e dizendo àquela visão radiante: “Sou um jovem que tem seu próprio apartamento. Escrevo para dois jornais. Vou me dedicar à literatura séria. Estou iniciando uma carreira. O livro que lançarei simplesmente deixará os críticos atônitos. Vou escrever sobre coisas que nunca foram tocadas antes. Vou fazer meu nome como escritor do mundo submerso. Mas não como outros fizeram antes de mim. Oh, não! Muito ingenuamente, com uma espécie de humor terno e por dentro, como se tudo fosse muito simples, muito natural. Vejo meu caminho com absoluta perfeição. Ninguém jamais fez isso como eu farei, porque nenhum dos outros viveu as minhas experiências. Sou rico — sou rico.”

Mesmo assim, eu não tinha mais dinheiro do que tenho agora. É extraordinário como se pode viver sem dinheiro... Tenho quantidades de roupas boas, roupa íntima de seda, dois trajes de noite, quatro pares de botas de verniz com canos claros, toda sorte de coisinhas, como luvas e caixas de pó de arroz e um estojo de manicure, perfumes, sabonete muito bom, e nada está pago. Se me vejo necessitado de dinheiro vivo — bem, há sempre uma lavadeira africana e uma dependência nos fundos, e sou muito franco e bon enfant quanto a bastante açúcar no bolinho frito depois...

E aqui eu gostaria de deixar algo registrado. Não por qualquer vaidade empinada, mas antes com um brando senso de espanto. Até hoje nunca fiz os primeiros avanços a mulher alguma. Não é como se eu tivesse conhecido apenas uma classe de mulher — de modo algum. Mas de pequenas prostitutas e mulheres sustentadas e viúvas idosas e balconistas e esposas de homens respeitáveis, e até damas literárias modernas avançadas nos jantares e soirées mais seletos (eu estive lá), encontrei invariavelmente não só a mesma disposição, mas o mesmo convite positivo. A princípio, isso me surpreendia. Eu costumava olhar do outro lado da mesa e pensar: “Aquela jovem senhora tão distinta, discutindo le Kipling com o cavalheiro de barba marrom, está realmente pressionando meu pé?” E eu nunca tinha certeza de verdade até pressionar o dela.

Curioso, não é? Não tenho absolutamente a aparência de um sonho de donzela...

Sou pequeno e leve, de pele oliva, olhos negros de cílios longos, cabelos negros e sedosos cortados curtos, dentinhos quadrados que aparecem quando sorrio. Minhas mãos são flexíveis e pequenas. Uma mulher numa padaria me disse certa vez: “Você tem mãos para fazer pastõezinhos finos.” Confesso que, sem roupas, sou bastante encantador. Rechonchudo, quase como uma moça, com ombros lisos, e uso uma fina pulseira de ouro acima do cotovelo esquerdo.

Mas espere! Não é estranho que eu tenha escrito tudo isso sobre meu corpo e assim por diante? É o resultado da minha má vida, da minha vida submersa. Sou como uma mulherzinha num café que precisa se apresentar com um punhado de fotografias. “Eu de combinação, saindo de uma casca de ovo... Eu de cabeça para baixo num balanço, com um traseiro cheio de babados como uma couve-flor...” Você conhece essas coisas.

Se você acha que o que escrevi é meramente superficial, insolente e barato, está enganado. Admito que soa assim, mas não é tudo. Se fosse, como eu poderia ter experimentado o que experimentei ao ler aquela frasezinha batida, escrita em tinta verde no bloco? Isso prova que há mais em mim e que realmente sou importante, não prova? Qualquer coisa uma fração menor que aquele momento de angústia eu poderia ter encenado. Mas não! Aquilo foi real.

— Garçom, um whisky.

Odeio whisky. Toda vez que o ponho na boca, meu estômago se ergue contra ele, e a coisa que eles guardam aqui com certeza é particularmente vil. Só o pedi porque vou escrever sobre um inglês. Nós, franceses, ainda somos incrivelmente antiquados e fora de moda em certos aspectos. Estranho eu não ter pedido a ele, ao mesmo tempo, um par de calças de tweed até os joelhos, um cachimbo, alguns dentes compridos e um conjunto de suíças ruivas.

— Obrigado, mon vieux. Por acaso você não tem umas suíças ruivas?

— Não, monsieur — responde ele, triste. — Não vendemos drinques americanos.

E, tendo besuntado um canto da mesa, volta para deixar que tirem mais umas duas dúzias de fotografias dele à luz artificial.

Ugh! O cheiro disso! E a sensação enjoativa quando a garganta se contrai.

— É uma coisa ruim para se embriagar — diz Dick Harmon, girando o copinho nos dedos e sorrindo seu sorriso lento, sonhador.

Então ele se embriaga com aquilo, lenta e sonhadoramente, e em certo momento começa a cantar muito baixo, muito baixo, sobre um homem que anda para cima e para baixo tentando encontrar um lugar onde possa jantar.

Ah! como eu amava aquela canção, e como eu amava o modo como ele a cantava, devagar, devagar, numa voz escura e macia:

Havia um homem

Que andava sem parar

Buscando na cidade

Um lugar para jantar...

Ela parecia conter, em sua gravidade e cadência abafada, todos aqueles edifícios altos e cinzentos, aquelas névoas, aquelas ruas sem fim, aquelas sombras agudas de policiais que significam Inglaterra.

E depois — o tema! A criatura magra, faminta, andando para cima e para baixo com todas as casas fechadas contra ele porque não tinha “lar”. Como isso é extraordinariamente inglês... Lembro que terminava quando ele finalmente “encontrava um lugar” e pedia um bolinho de peixe, mas, ao pedir pão, o garçom gritava com desprezo, em voz alta: “Não servimos pão com um só bolinho de peixe.”

Que mais você quer? Como são profundas essas canções! Ali está toda a psicologia de um povo; e que pouco francês — que pouco francês!

— Mais uma vez, Deeck, mais uma vez! — eu suplicava, juntando as mãos e fazendo uma boquinha bonita para ele.

Ele ficava perfeitamente satisfeito em cantá-la para sempre.

Aí está outra vez. Mesmo com Dick. Foi ele quem fez os primeiros avanços.

Conheci-o numa festa à noite oferecida pelo editor de uma nova revista. Era uma reunião muito seleta, muito elegante. Um ou dois dos homens mais velhos estavam presentes, e as damas eram extremamente comme il faut. Sentavam-se em sofás cubistas, de traje de noite completo, e nos permitiam lhes oferecer dedais de licor de cereja e falar com elas sobre sua poesia. Pois, tanto quanto me lembro, eram todas poetisas.

Era impossível não reparar em Dick. Era o único inglês presente e, em vez de circular graciosamente pela sala como todos nós fazíamos, ficou num só lugar, encostado à parede, as mãos nos bolsos, aquele meio sorriso sonhador nos lábios, e respondendo em excelente francês, com sua voz baixa e macia, a qualquer pessoa que falasse com ele.

— Quem é ele?

— Um inglês. De Londres. Escritor. E está fazendo um estudo especial da literatura francesa moderna.

Aquilo bastou para mim. Meu livrinho, Moedas Falsas, acabara de ser publicado. Eu era um jovem escritor sério que fazia um estudo especial da literatura inglesa moderna.

Mas, na verdade, eu nem tive tempo de lançar minha linha antes que ele dissesse, dando a si mesmo um suave sacolejo, saindo da água direto atrás da isca, por assim dizer:

— Você não quer vir me ver no hotel? Venha por volta das cinco, e podemos conversar antes de sair para jantar.

— Encantado!

Fiquei tão profundamente, profundamente lisonjeado que tive de deixá-lo ali mesmo para me pavonear, me pavonear diante dos sofás cubistas. Que presa! Um inglês, reservado, sério, fazendo um estudo especial da literatura francesa...

Naquela mesma noite, um exemplar de Moedas Falsas, com uma dedicatória cuidadosamente cordial, foi despachado pelo correio, e um ou dois dias depois jantamos juntos e passamos a noite conversando.

Conversando — mas não só de literatura. Descobri, com alívio, que não era necessário nos atermos à tendência do romance moderno, à necessidade de uma nova forma ou à razão pela qual nossos jovens pareciam estar apenas deixando de acertar. De vez em quando, como por acaso, eu lançava uma carta que parecia nada ter a ver com o jogo, só para ver como ele a receberia. Mas a cada vez ele a recolhia nas mãos, com o olhar sonhador e o sorriso inalterados. Talvez murmurasse: “Isso é muito curioso.” Mas não como se fosse curioso de fato.

Aquela aceitação calma acabou me subindo à cabeça. Fascinava-me. Levava-me adiante e adiante, até que lancei sobre ele todas as cartas que eu possuía e me recostei para vê-lo arrumá-las na mão.

— Muito curioso e interessante...

A essa altura, nós dois estávamos bastante bêbados, e ele começou a cantar sua canção muito suavemente, muito baixo, sobre o homem que andava para cima e para baixo à procura do jantar.

Mas eu estava quase sem fôlego ao pensar no que fizera. Mostrara a alguém os dois lados da minha vida. Contara-lhe tudo com a maior sinceridade e verdade de que era capaz. Tivera um trabalho imenso para explicar coisas sobre a minha vida submersa que eram realmente repugnantes e nunca poderiam ver a luz do dia literário. No conjunto, fizera-me parecer muito pior do que era — mais fanfarrão, mais cínico, mais calculista.

E ali estava sentado o homem a quem eu me confidenciara, cantando para si mesmo e sorrindo... Aquilo me comoveu tanto que lágrimas de verdade vieram aos meus olhos. Eu as vi cintilando nos meus cílios longos e sedosos — tão encantadoras.

Depois disso, levei Dick comigo por toda parte, e ele vinha ao meu apartamento, sentava-se na poltrona, muito indolente, brincando com o corta-papel. Não consigo imaginar por que sua indolência e seu ar sonhador sempre me davam a impressão de que ele estivera no mar. E todos os seus modos vagarosos, pausados, pareciam levar em conta o movimento do navio. Essa impressão era tão forte que, muitas vezes, quando estávamos juntos e ele se levantava e deixava uma mulherzinha justamente quando ela não esperava que ele se levantasse e a deixasse, mas exatamente o contrário, eu explicava:

— Ele não consegue evitar, Baby. Precisa voltar para o navio.

E eu acreditava nisso muito mais do que ela.

Durante todo o tempo em que estivemos juntos, Dick nunca saiu com uma mulher. Às vezes eu me perguntava se ele não seria completamente inocente. Por que eu não perguntava? Porque eu nunca lhe perguntava nada sobre si mesmo. Mas, tarde numa noite, ele tirou a carteira do bolso e uma fotografia caiu dela. Eu a apanhei e a examinei antes de lhe devolver. Era de uma mulher. Não exatamente jovem. Morena, bela, de ar selvagem, mas tão cheia, em cada linha, de uma espécie de orgulho abatido que, mesmo se Dick não tivesse estendido a mão tão depressa, eu não teria olhado por mais tempo.

“Fora da minha vista, seu pequeno fox-terrier francês perfumado”, disse ela.

(Nos meus piores momentos, meu nariz me lembra o de um fox-terrier.)

— Esta é minha mãe — disse Dick, guardando a carteira.

Mas, se ele não fosse Dick, eu teria ficado tentado a me benzer, só por brincadeira.

Foi assim que nos separamos. Quando estávamos diante do hotel dele certa noite, esperando que o concierge soltasse o fecho da porta externa, ele disse, olhando para o céu:

— Espero que faça tempo bom amanhã. Vou partir para a Inglaterra de manhã.

— Você não está falando sério.

— Perfeitamente. Tenho de voltar. Tenho um trabalho a fazer que não consigo tocar aqui.

— Mas... mas você já fez todos os preparativos?

— Preparativos? — Ele quase abriu um sorriso. — Não tenho nenhum a fazer.

— Mas, enfin, Dick, a Inglaterra não fica do outro lado do boulevard.

— Não fica muito mais longe — disse ele. — Só algumas horas, sabe.

A porta se abriu com um estalo.

— Ah, eu gostaria de ter sabido no começo da noite!

Senti-me ferido. Senti como uma mulher deve se sentir quando um homem tira o relógio e se lembra de um compromisso que não pode, de modo algum, dizer respeito a ela, salvo pelo fato de sua reivindicação ser mais forte.

— Por que você não me contou?

Ele estendeu a mão e ficou de pé, balançando levemente no degrau, como se todo o hotel fosse seu navio e a âncora tivesse sido levantada.

— Esqueci. De verdade, esqueci. Mas você vai escrever, não vai? Boa noite, velho amigo. Voltarei um dia desses.

E então fiquei sozinho na margem, mais parecido do que nunca com um pequeno fox-terrier...

“Mas, afinal, foi você que assobiou para mim, você que me pediu para vir! Que espetáculo fiz, abanando o rabo e saltando ao seu redor, apenas para ser deixado assim enquanto o barco parte em seu jeito lento, sonhador... Malditos sejam esses ingleses! Não, isso é insolente demais. Quem você imagina que eu sou? Um pequeno guia pago dos prazeres noturnos de Paris?... Não, monsieur. Sou um jovem escritor, muito sério, e extremamente interessado na literatura inglesa moderna. E fui insultado — insultado.”

Dois dias depois chegou uma longa e encantadora carta dele, escrita num francês um tanto francês demais, mas dizendo o quanto sentia minha falta e contava com nossa amizade, com mantermos contato.

Li a carta diante do espelho do guarda-roupa (não pago). Era de manhã cedo. Eu usava um quimono azul bordado de pássaros brancos, e meus cabelos ainda estavam molhados; caíam sobre minha testa, úmidos e reluzentes.

— Retrato de Madame Butterfly — disse eu — ao saber da chegada de ce cher Pinkerton.

Segundo os livros, eu deveria ter sentido imenso alívio e alegria. “... Indo até a janela, ele afastou as cortinas e olhou para as árvores de Paris, recém-rebentando em botões e verde... Dick! Dick! Meu amigo inglês!”

Não senti. Senti apenas um pouco de enjoo. Depois de subir pela primeira vez num aeroplano, eu não queria subir outra vez, pelo menos não naquele momento.

Isso passou, e meses depois, no inverno, Dick escreveu dizendo que voltaria a Paris para ficar por tempo indefinido. Eu poderia arranjar quartos para ele? Traria consigo uma amiga.

Claro que eu poderia. Lá saiu voando o pequeno fox-terrier. Aconteceu de modo muito oportuno também; pois eu devia muito dinheiro ao hotel onde fazia minhas refeições, e duas pessoas inglesas precisando de quartos por tempo indefinido eram uma excelente soma por conta.

Talvez eu tenha me perguntado um pouco, enquanto estava no maior dos dois quartos com Madame, dizendo “Admirável”, como seria a amiga, mas apenas vagamente. Ou seria muito severa, plana de frente e de costas, ou seria alta, clara, vestida de verde-mignonette, nome — Daisy, e cheirando a água de lavanda um tanto adocicada.

Veja, a essa altura, de acordo com minha regra de não olhar para trás, eu quase havia esquecido Dick. Cheguei até a errar um pouquinho a melodia de sua canção sobre o homem desafortunado quando tentei cantarolá-la...

Quase não apareci na estação, afinal. Havia combinado ir e, na verdade, me vesti com especial cuidado para a ocasião. Pois desta vez eu pretendia adotar uma nova linha com Dick. Nada mais de confidências e lágrimas nos cílios. Não, obrigado!

— Desde que você deixou Paris — disse eu, dando o nó na minha gravata preta salpicada de prata no espelho (também não pago) sobre a lareira —, tenho feito muito sucesso, sabe. Tenho mais dois livros em preparação, e depois escrevi uma história em folhetim, Portas Erradas, que está prestes a ser publicada e me renderá muito dinheiro. E depois meu livrinho de poemas — exclamei, agarrando a escova de roupas e escovando a gola de veludo do meu novo sobretudo azul-índigo —, meu livrinho — Guarda-chuvas Esquecidos — realmente causou — e ri e agitei a escova — uma sensação imensa!

Era impossível não acreditar nisso a respeito da pessoa que afinal se examinava dos pés à cabeça, calçando suas luvas macias e cinzentas. Ele parecia o papel; ele era o papel.

Isso me deu uma ideia. Tirei meu caderno de notas e, ainda em plena vista, rabisquei uma ou duas observações... Como pode alguém parecer o papel e não ser o papel? Ou ser o papel e não parecê-lo? Parecer não é — ser? Ou ser — parecer? De todo modo, quem há de dizer que não é?...

Naquele momento, isso me pareceu extraordinariamente profundo, e inteiramente novo. Mas confesso que alguma coisa sussurrou quando, sorrindo, guardei o caderno: “Você — literário? Você parece ter anotado uma aposta num hipódromo!” Mas não dei ouvidos. Saí, puxando a porta do apartamento com suavidade e rapidez para não avisar a concierge de minha partida, e desci correndo as escadas, veloz como um coelho, pelo mesmo motivo.

Mas ah! a velha aranha. Foi rápida demais para mim. Deixou-me descer a última escadinha da teia e então deu o bote.

— Um momento. Um momentinho, Monsieur — sussurrou, odiosamente confidencial. — Entre. Entre.

E acenou com uma concha de sopa pingando. Fui até a porta, mas isso não bastava. Para ela falar, era preciso entrar de vez e fechar a porta.

Há duas maneiras de lidar com a sua concierge quando se está sem dinheiro. Uma é — tomar ares de superioridade, transformá-la em inimiga, fanfarronar, recusar-se a discutir qualquer coisa; a outra é — manter-se de bem com ela, adulá-la até os dois nós do trapo preto que lhe amarra as mandíbulas, fingir que lhe faz confidências, e confiar que ela se entenda com o homem do gás e adie o senhorio.

Eu havia tentado a segunda. Mas ambas são igualmente detestáveis e malsucedidas. De todo modo, qualquer que seja a que você está tentando é sempre a pior, a impossível.

Desta vez era o senhorio... Imitação do senhorio pela concierge, ameaçando me pôr na rua... Imitação da concierge pela concierge, domando o touro selvagem... Imitação do senhorio novamente em fúria, respirando no rosto da concierge. Eu era a concierge. Não, era nauseante demais. E o tempo todo a panela preta sobre a argola de gás borbulhando, cozinhando lentamente os corações e fígados de todos os inquilinos da casa.

— Ah! — exclamei, encarando o relógio sobre a lareira e então, percebendo que ele não funcionava, batendo na testa como se a ideia nada tivesse a ver com isso. — Madame, tenho um compromisso importantíssimo com o diretor do meu jornal às nove e meia. Talvez amanhã eu possa lhe dar...

Fora, fora. E para baixo no metrô, espremido num vagão cheio. Quanto mais cheio, melhor. Cada pessoa era um travesseiro a mais entre mim e a concierge. Eu estava radiante.

— Ah! perdão, Monsieur! — disse a criatura alta e encantadora, de preto, com um seio grande e cheio e um enorme ramalhete de violetas caindo dele. Quando o trem balançava, empurrava o buquê direto nos meus olhos. — Ah! perdão, Monsieur!

Mas olhei para ela, sorrindo maliciosamente.

— Não há nada que eu ame mais, Madame, do que flores numa sacada.

No exato momento em que falei, avistei o homem enorme de casaco de pele contra quem minha encantadora estava apoiada. Ele enfiou a cabeça por cima do ombro dela e ficou branco até o nariz; na verdade, seu nariz se destacou numa espécie de verde queijo.

— O que foi que o senhor disse à minha esposa?

A Gare Saint-Lazare me salvou. Mas você há de convir que, mesmo como autor de Moedas Falsas, Portas Erradas, Guarda-chuvas Esquecidos e dois em preparação, não era muito fácil prosseguir no meu caminho triunfal.

Por fim, depois que incontáveis trens haviam vaporizado em minha mente, e incontáveis Dick Harmon haviam vindo rolando em minha direção, chegou o trem de verdade. O pequeno nó de nós que esperávamos junto à barreira se aproximou, esticou o pescoço e rompeu em gritos como se fôssemos algum tipo de monstro de muitas cabeças, e Paris atrás de nós nada além de uma grande armadilha que tivéssemos armado para apanhar aqueles inocentes sonolentos.

Eles entraram na armadilha e foram arrebatados e levados para serem devorados. Onde estava minha presa?

“Meu Deus!” Meu sorriso e minha mão erguida caíram ao mesmo tempo. Por um instante terrível, pensei que aquela fosse a mulher da fotografia, a mãe de Dick, caminhando em minha direção com o casaco e o chapéu de Dick. No esforço — e via-se que esforço era — para sorrir, seus lábios se curvaram exatamente do mesmo modo, e ele veio ao meu encontro, abatido, selvagem e orgulhoso.

O que acontecera? O que poderia tê-lo mudado assim? Eu deveria mencionar?

Esperei por ele e cheguei a ter consciência de arriscar uma ou duas abanadinhas de fox-terrier para ver se ele conseguiria responder, no modo como disse:

— Boa noite, Dick! Como vai, velho amigo? Tudo bem?

— Tudo bem. Tudo bem. — Ele quase arquejava. — Você conseguiu os quartos?

Vinte vezes, meu Deus! Vi tudo. A luz rompeu sobre as águas escuras, e meu marinheiro não se afogara. Quase dei uma cambalhota de divertimento.

Era nervosismo, é claro. Era embaraço. Era a famosa seriedade inglesa. Que diversão eu teria! Eu poderia tê-lo abraçado.

— Sim, consegui os quartos — quase gritei. — Mas onde está Madame?

— Ela ficou cuidando da bagagem — ofegou ele. — Lá vem ela, agora.

Não esse bebê caminhando ao lado do velho carregador como se ele fosse sua ama e acabasse de tirá-la do carrinho feio enquanto empurrava as caixas sobre ele.

— E ela não é Madame — disse Dick, arrastando a voz de repente.

Naquele momento ela o avistou e o saudou com seu regalo minúsculo. Separou-se de sua ama e correu até ele e disse alguma coisa, muito depressa, em inglês; mas ele respondeu em francês:

— Oh, muito bem. Eu me arranjo.

Mas, antes de se voltar para o carregador, indicou-me com um aceno vago e murmurou algo. Fomos apresentados. Ela estendeu a mão daquele estranho modo de rapaz que as inglesas têm, e, de pé, muito ereta diante de mim, com o queixo levantado e fazendo — ela também — o esforço de sua vida para controlar sua excitação absurda, disse, apertando minha mão (tenho certeza de que nem sabia que era a minha): Je ne parle pas français.

— Mas tenho certeza de que fala — respondi, tão terno, tão tranquilizador, que eu poderia ser um dentista prestes a arrancar seu primeiro dentinho de leite.

— Claro que fala. — Dick voltou-se bruscamente para nós. — Ora, não podemos arranjar uma carruagem ou um táxi ou qualquer coisa? Não queremos ficar nesta estação maldita a noite inteira. Queremos?

Aquilo foi tão rude que levei um momento para me recompor; e ele deve ter percebido, pois lançou o braço em torno dos meus ombros, à velha maneira, dizendo:

— Ah, perdoe-me, velho amigo. Mas tivemos uma viagem tão repugnante, hedionda. Levamos anos para chegar. Não foi?

Para ela. Mas ela não respondeu. Baixou a cabeça e começou a acariciar seu regalo cinzento; caminhou ao nosso lado acariciando o regalo cinzento o caminho inteiro.

“Eu me enganei?”, pensei. “Será isto simplesmente um caso de impaciência frenética da parte deles? Estão apenas ‘precisando de uma cama’, como dizemos? Sofreram agonias na viagem? Sentados, talvez, muito juntos e quentes sob a mesma manta de viagem?”, e assim por diante, e assim por diante, enquanto o cocheiro prendia as caixas. Feito isso...

— Olhe aqui, Dick. Vou para casa de metrô. Aqui está o endereço do hotel de vocês. Está tudo arranjado. Venha me ver assim que puder.

Por minha vida, pensei que ele fosse desmaiar. Ficou branco até os lábios.

— Mas você vai voltar conosco — exclamou. — Pensei que estivesse tudo resolvido. Claro que você vai voltar. Não vai nos deixar.

Não, desisti. Era difícil demais, inglês demais para mim.

— Certamente, certamente. Encantado. Só pensei, talvez...

— Você precisa vir! — disse Dick ao pequeno fox-terrier.

E outra vez fez aquela grande volta desajeitada em direção a ela.

— Entre, Mouse.

E Mouse entrou no buraco negro e sentou-se acariciando Mouse II, sem dizer uma palavra.

Partimos sacolejando e chacoalhando como três dadinhos que a vida decidira lançar.

Eu fiz questão de tomar o assento dobrável de frente para eles, porque não perderia por nada aqueles relances ocasionais e fulgurantes que tinha quando atravessávamos os círculos brancos dos lampiões.

Eles revelavam Dick, sentado bem recuado no canto, a gola do casaco erguida, as mãos enfiadas nos bolsos, e seu largo chapéu escuro sombreando-o como se fosse parte dele — uma espécie de asa sob a qual se escondia. Mostravam-na sentada muito ereta, o lindo rostinho parecendo mais um desenho do que um rosto verdadeiro — cada linha era tão cheia de sentido e tão nitidamente recortada contra a escuridão nadante.

Pois Mouse era bela. Era requintada, mas tão frágil e fina que cada vez que eu olhava para ela era como se fosse a primeira. Ela chegava a você com o mesmo tipo de choque que se sente quando se esteve bebendo chá numa xícara fina e inocente e, de repente, no fundo, se vê uma criaturinha, meio borboleta, meio mulher, fazendo uma reverência, as mãos dentro das mangas.

Pelo que pude perceber, ela tinha cabelos escuros e olhos azuis ou negros. Seus longos cílios e as duas peninhas traçadas acima eram importantíssimos.

Usava uma longa capa escura dessas que se veem em gravuras antiquadas de inglesas no exterior. Onde os braços saíam dela havia pele cinzenta — pele também em torno do pescoço, e sua touca ajustada era de pele.

“Levando adiante a ideia de camundonga”, decidi.

Ah, mas como era intrigante — como era intrigante! A excitação deles se aproximava cada vez mais de mim, enquanto eu corria para encontrá-la, banhava-me nela, lançava-me para longe, fora do meu pé, até que por fim era tão difícil para mim manter o controle quanto para eles.

Mas o que eu queria fazer era me comportar do modo mais extraordinário — como um palhaço. Começar a cantar, com gestos largos e extravagantes, apontar pela janela e gritar: “Estamos agora passando, senhoras e senhores, por uma das vistas pelas quais notre Paris é justamente famosa”, saltar do táxi em movimento, trepar sobre o teto e mergulhar por outra porta; pendurar-me à janela e procurar o hotel pela ponta errada de uma luneta quebrada, que também era uma trombeta particularmente ensurdecedora.

Eu me observava fazendo tudo isso, entende, e até conseguia aplaudir de maneira privada, juntando suavemente minhas mãos enluvadas, enquanto dizia a Mouse:

— E esta é sua primeira visita a Paris?

— Sim, nunca estive aqui antes.

— Ah, então há muita coisa para ver.

E eu estava prestes a tocar de leve nos objetos de interesse e nos museus quando paramos com um solavanco.

Sabe — é muito absurdo —, mas enquanto empurrava a porta para abri-la para eles e subia as escadas até o escritório no patamar, senti de algum modo que aquele hotel era meu.

Havia um vaso de flores no peitoril da janela do escritório, e cheguei até a rearranjar um ou dois botões e me afastar para observar o efeito enquanto a gerente os recebia. E, quando ela se voltou para mim, entregou-me as chaves (o garçon vinha arrastando as caixas para cima) e disse: “Monsieur Duquette lhes mostrará os quartos” — tive vontade de bater no braço de Dick com uma chave e dizer, muito confidencialmente: “Olhe aqui, velho amigo. Como amigo meu, estarei mais que disposto a fazer uma pequena redução...”

Subimos e subimos. Em voltas e voltas. Passando por um ocasional par de botas (por que nunca se vê um par de botas atraente diante de uma porta?). Mais alto e mais alto.

— Receio que sejam um pouco altos — murmurei idiotamente. — Mas os escolhi porque...

Eles tão obviamente não se importavam com o motivo de eu tê-los escolhido que não fui adiante. Aceitavam tudo. Não esperavam que coisa alguma fosse diferente. Aquilo era apenas parte do que estavam atravessando — foi assim que analisei.

— Enfim chegamos.

Corri de um lado a outro do corredor, acendendo as luzes, explicando.

— Este pensei para você, Dick. O outro é maior e tem um pequeno quarto de vestir na alcova.

Meu olhar “proprietário” notou as toalhas e colchas limpas, e a roupa de cama bordada em algodão vermelho. Achei os quartos bastante encantadores, inclinados, cheios de ângulos, exatamente o tipo de quarto que se esperaria encontrar se nunca se tivesse estado em Paris antes.

Dick atirou o chapéu sobre a cama.

— Eu não devia ajudar aquele sujeito com as caixas? — perguntou a ninguém.

— Sim, devia — respondeu Mouse —, elas são terrivelmente pesadas.

E se voltou para mim com o primeiro vislumbre de sorriso:

— Livros, sabe.

Oh, ele lhe lançou um olhar tão estranho antes de sair correndo. E não apenas ajudou; deve ter arrancado a caixa das costas do garçon, pois voltou cambaleando, carregando uma, despejou-a no chão e depois foi buscar a outra.

— Essa é sua, Dick — disse ela.

— Bem, você não se importa que fique aqui por enquanto, não é? — perguntou ele, sem fôlego, respirando forte (a caixa devia ser tremendamente pesada).

Puxou um punhado de dinheiro.

— Suponho que devo pagar este sujeito.

O garçon, de pé ali perto, parecia pensar o mesmo.

— E o senhor precisará de mais alguma coisa, Monsieur?

— Não! Não! — disse Dick, impaciente.

Mas então Mouse deu um passo à frente. Disse, deliberada demais, sem olhar para Dick, com seu curioso sotaque inglês cortado:

— Sim, eu gostaria de chá. Chá para três.

E de repente ergueu o regalo como se suas mãos estivessem apertadas dentro dele, e dissesse ao garçon pálido e suado, com aquele gesto, que chegara ao fim de seus recursos, que gritava para ele salvá-la com “Chá. Imediatamente!”

Aquilo me pareceu tão espantosamente dentro do quadro, tão exatamente o gesto e o grito que se esperaria (embora eu não pudesse tê-lo imaginado) arrancar de uma inglesa diante de uma grande crise, que quase me senti tentado a erguer a mão e protestar.

— Não! Não! Chega. Chega. Paremos por aí. Na palavra — chá. Pois, de verdade, de verdade, você encheu seu assinante mais guloso até tal ponto que ele há de estourar se tiver de engolir mais uma palavra.

Aquilo até deteve Dick. Como alguém que esteve inconsciente por muito, muito tempo, ele se voltou lentamente para Mouse e a olhou devagar, com seus olhos cansados, devastados, e murmurou com o eco de sua voz sonhadora:

— Sim. É uma boa ideia.

E depois:

— Você deve estar cansada, Mouse. Sente-se.

Ela se sentou numa cadeira com abas de renda nos braços; ele se encostou à cama, e eu me instalei numa cadeira de espaldar reto, cruzei as pernas e escovei uma poeira imaginária dos joelhos das calças. (O parisiense à vontade.)

Houve uma pequena pausa. Então ele disse:

— Você não quer tirar o casaco, Mouse?

— Não, obrigada. Agora não.

Iam me perguntar? Ou eu deveria erguer a mão e exclamar, com voz de criança: “É minha vez de ser convidado.”

Não, eu não deveria. Eles não me convidaram.

A pausa tornou-se silêncio. Um silêncio verdadeiro.

“...Vamos, meu fox-terrier parisiense! Divirta esses tristes ingleses! Não admira que sejam uma nação tão dada a cães.”

Mas, afinal — por que eu deveria? Não era meu “trabalho”, como eles diriam. Ainda assim, dei um pequeno salto vivaz em direção a Mouse.

— Que pena que vocês não tenham chegado à luz do dia. Há uma vista encantadora dessas duas janelas. Sabe, o hotel fica numa esquina, e cada janela dá para uma rua imensamente longa e reta.

— Sim — disse ela.

— Não que isso soe muito encantador — ri. — Mas há tanta animação — tantos menininhos absurdos de bicicleta, e pessoas penduradas nas janelas, e... oh, bem, você verá por si mesma de manhã... Muito divertido. Muito animado.

— Oh, sim — disse ela.

Se o pálido e suado garçon não tivesse entrado naquele momento, carregando a bandeja de chá bem alto numa das mãos, como se as xícaras fossem balas de canhão e ele um levantador de peso no cinema...

Conseguiu baixá-la sobre uma mesa redonda.

— Traga a mesa para cá — disse Mouse.

O garçom parecia ser a única pessoa com quem ela se importava de falar. Tirou as mãos do regalo, descalçou as luvas e jogou para trás a capa antiquada.

— Você toma leite e açúcar?

— Sem leite, obrigado, e sem açúcar.

Fui buscar o meu como um pequeno cavalheiro. Ela serviu outra xícara.

— Esta é para Dick.

E o fiel fox-terrier a levou até ele e a depositou a seus pés, por assim dizer.

— Oh, obrigado — disse Dick.

E então voltei para minha cadeira, e ela afundou de novo na dela.

Mas Dick disparara outra vez. Fitou loucamente a xícara de chá por um momento, olhou em torno, pousou-a na mesa de cabeceira, apanhou o chapéu e balbuciou a toda carreira:

— Ah, a propósito, você se importa de pôr uma carta no correio para mim? Quero que ela saia no correio de hoje à noite. Preciso. É muito urgente...

Sentindo os olhos dela sobre si, atirou:

— É para minha mãe.

Para mim:

— Não vou demorar. Tenho tudo de que preciso. Mas ela precisa seguir esta noite. Você não se importa? Não... não vai levar tempo nenhum.

— Claro que ponho no correio. Encantado.

— Não quer beber seu chá primeiro? — sugeriu Mouse suavemente.

...Chá? Chá? Sim, é claro. Chá... Uma xícara de chá na mesa de cabeceira... Em seu sonho disparado, ele lançou o sorriso mais brilhante, mais encantador, à sua pequena anfitriã.

— Não, obrigado. Agora não.

E, ainda esperando que não fosse me dar nenhum trabalho, saiu do quarto e fechou a porta; ouvimos seus passos atravessarem o corredor.

Escaldei-me com o meu, na pressa de levar a xícara de volta à mesa e dizer, ali de pé:

— Você deve me perdoar se sou impertinente... se sou franco demais. Mas Dick não tentou disfarçar — tentou? Há alguma coisa errada. Posso ajudar?

(Música suave. Mouse se levanta, atravessa o palco por um instante ou dois antes de voltar à cadeira e lhe servir, oh, uma xícara tão cheia, tão ardente que as lágrimas vêm aos olhos do amigo enquanto ele sorve — enquanto a bebe até a borra amarga...)

Tive tempo de fazer tudo isso antes que ela respondesse. Primeiro olhou dentro do bule, encheu-o de água quente e mexeu com uma colher.

— Sim, há alguma coisa errada. Não, receio que você não possa ajudar, obrigada.

De novo tive aquele vislumbre de sorriso.

— Sinto muitíssimo. Deve ser horrível para você.

Horrível, de fato! Ah, por que eu não podia lhe dizer que havia meses e meses eu não me divertia tanto?

— Mas você está sofrendo — arrisquei suavemente, como se fosse isso que eu não suportasse ver.

Ela não negou. Assentiu e mordeu o lábio inferior, e pensei ver seu queixo tremer.

— E realmente não há nada que eu possa fazer? — Ainda mais suave.

Ela sacudiu a cabeça, empurrou a mesa para trás e se pôs de pé num salto.

— Oh, logo vai ficar tudo bem — respirou, caminhando até a penteadeira e ficando de costas para mim. — Vai ficar tudo bem. Isto não pode continuar assim.

— Mas é claro que não pode — concordei, perguntando-me se pareceria desalmado se eu acendesse um cigarro; senti um desejo súbito de fumar.

De algum modo, ela viu minha mão mover-se até o bolso do peito, tirar pela metade a cigarreira e tornar a guardá-la, pois a coisa seguinte que disse foi:

— Fósforos... no... castiçal. Eu os notei.

E ouvi em sua voz que chorava.

— Ah! obrigado. Sim. Sim. Encontrei.

Acendi meu cigarro e caminhei de um lado para o outro, fumando.

Estava tão quieto que poderiam ser duas horas da manhã. Estava tão quieto que se ouviam as tábuas rangerem e estalarem, como acontece numa casa no campo. Fumei o cigarro inteiro e esmaguei a ponta no pires antes que Mouse se virasse e voltasse à mesa.

— Dick não está demorando um pouco demais?

— Você está muito cansada. Imagino que queira ir para a cama — disse bondosamente. (E, por favor, não se incomode comigo se quiser, disse minha mente.)

— Mas ele não está demorando demais? — insistiu ela.

Dei de ombros.

— Está, um pouco.

Então vi que ela me olhava de modo estranho. Estava escutando.

— Ele saiu há séculos — disse, e foi com passinhos leves até a porta, abriu-a e atravessou o corredor para o quarto dele.

Esperei. Escutei também, agora. Eu não suportaria perder uma palavra. Ela deixara a porta aberta. Atravessei o quarto furtivamente e olhei atrás dela. A porta de Dick também estava aberta. Mas — não havia palavra alguma a perder.

Sabe, tive a ideia louca de que eles se beijavam naquele quarto silencioso — um beijo longo, confortável. Um desses beijos que não apenas põem a dor de uma pessoa na cama, mas cuidam dela, aquecem-na, ajeitam-lhe as cobertas e a mantêm bem envolvida até que durma profundamente. Ah! como isso é bom.

Por fim acabou. Ouvi alguém se mover e me afastei na ponta dos pés.

Era Mouse. Ela voltou. Tateou o caminho para dentro do quarto, trazendo a carta para mim. Mas não estava num envelope; era apenas uma folha de papel, e ela a segurava pela ponta como se ainda estivesse molhada.

A cabeça dela estava tão baixa — tão metida em sua gola de pele — que eu não tinha a menor ideia — até que deixou o papel cair e quase caiu ela mesma no chão ao lado da cama, encostou a face nela, estendeu as mãos como se a última de suas pobres pequenas armas houvesse desaparecido e agora ela se deixasse levar, lavar para dentro da água funda.

Flash! fez minha mente. Dick deu um tiro em si mesmo, e então uma sucessão de clarões enquanto eu entrava correndo, via o corpo, cabeça intacta, pequeno buraco azul sobre a têmpora, acordava o hotel, organizava o funeral, comparecia ao funeral, fiacre fechado, fraque novo...

Inclinei-me e apanhei o papel e, você acreditaria — tão arraigado é meu senso parisiense de comme il faut —, murmurei “pardon” antes de lê-lo.

“MOUSE, MINHA PEQUENA MOUSE,

Não adianta. É impossível. Não consigo ir até o fim. Oh, eu amo você. Eu amo você. Mouse, mas não posso feri-la. As pessoas a feriram a vida inteira. Simplesmente não ouso lhe dar este golpe final. Veja, embora ela seja mais forte do que nós dois, é tão frágil e orgulhosa. Isso a mataria — a mataria, Mouse. E, oh Deus, não posso matar minha mãe! Nem mesmo por você. Nem mesmo por nós. Você entende isso — entende?

Tudo parecia tão possível quando conversamos e planejamos, mas no exato momento em que o trem partiu, tudo acabou. Senti que ela me puxava de volta para si — chamando. Posso ouvi-la agora, enquanto escrevo. E ela está sozinha e não sabe. Um homem teria de ser um demônio para lhe contar, e eu não sou um demônio, Mouse. Ela não pode saber. Oh, Mouse, em algum lugar, em algum lugar dentro de você, você não concorda? Tudo é tão indizivelmente horrível que não sei se quero ir ou não. Quero? Ou é Mamãe que está apenas me puxando? Não sei. Minha cabeça está cansada demais. Mouse, Mouse — o que você vai fazer? Mas também não posso pensar nisso. Não ouso. Eu desmoronaria. E não devo desmoronar. Tudo o que tenho de fazer é — simplesmente lhe dizer isto e ir. Eu não poderia ter ido embora sem lhe contar. Você teria ficado assustada. E você não pode ficar assustada. Não ficará — ficará? Não suporto — mas nada mais disso. E não escreva. Eu não teria coragem de responder às suas cartas, e ver sua letra de aranha...

Perdoe-me. Não me ame mais. Sim. Ame-me. Ame-me. Dick.”

O que você acha disso? Não foi um achado raro? Meu alívio por ele não ter atirado em si mesmo se misturava a uma maravilhosa sensação de júbilo. Eu estava até — mais do que até — quite com meu inglês do “isso é muito curioso e interessante”...

Ela chorava de modo tão estranho. Com os olhos fechados, o rosto inteiramente calmo, salvo pelas pálpebras trêmulas. As lágrimas desciam como pérolas por suas faces, e ela as deixava cair.

Mas, sentindo meu olhar sobre ela, abriu os olhos e me viu segurando a carta.

— Você leu?

Sua voz estava bastante calma, mas já não era sua voz. Era como a voz que se poderia imaginar vindo de uma conchinha minúscula e fria, enfim varrida para o alto e deixada a seco pela maré salgada...

Assenti, completamente dominado, você entende, e pousei a carta.

— É inacreditável! inacreditável! — sussurrei.

Com isso ela se levantou do chão, foi até o lavatório, mergulhou o lenço na jarra e enxugou os olhos, dizendo:

— Oh, não. Não é nada inacreditável.

E, ainda comprimindo a bola molhada contra os olhos, voltou para mim, para sua cadeira de abas de renda, e afundou nela.

— Eu soube o tempo todo, é claro — disse a vozinha fria e salgada. — Desde o exato momento em que partimos. Senti isso por todo o corpo, mas continuei esperando... — e aqui abaixou o lenço e me deu um último vislumbre — como fazemos tão estupidamente, sabe.

— Como fazemos.

Silêncio.

— Mas o que você vai fazer? Vai voltar? Vai vê-lo?

Isso a fez se sentar bem ereta e me encarar.

— Que ideia extraordinária! — disse, mais fria do que nunca. — É claro que não penso nem por um sonho em vê-lo. Quanto a voltar — está inteiramente fora de questão. Não posso voltar.

— Mas...

— É impossível. Para começar, todos os meus amigos pensam que estou casada.

Estendi a mão.

— Ah, minha pobre amiguinha.

Mas ela recuou. (Falso movimento.)

É claro que havia uma pergunta que estivera no fundo da minha mente todo esse tempo. Eu a odiava.

— Você tem algum dinheiro?

— Sim, tenho vinte libras — aqui —, e pôs a mão no peito.

Fiz uma reverência. Era muito mais do que eu esperava.

— E quais são seus planos?

Sim, eu sei. Minha pergunta foi a mais desajeitada, a mais idiota que eu poderia ter feito. Ela estivera tão mansa, tão confiante, deixando-me, ao menos espiritualmente falando, segurar seu corpinho minúsculo e trêmulo numa das mãos e acariciar sua cabeça peluda — e agora eu a havia lançado fora. Oh, eu poderia ter me chutado.

Ela se levantou.

— Não tenho planos. Mas... é muito tarde. Você precisa ir agora, por favor.

Como poderia trazê-la de volta? Eu a queria de volta. Juro que então não estava representando.

— Sinta que sou seu amigo — exclamei. — Você me deixará vir amanhã, cedo? Deixará que eu cuide um pouco de você — tome um pouco conta de você? Você me usará exatamente como achar melhor?

Consegui. Ela saiu de sua toca... tímida... mas saiu.

— Sim, você é muito gentil. Sim. Venha amanhã. Ficarei contente. As coisas ficam bastante difíceis porque... — e mais uma vez apertei sua mão de rapaz — je ne parle pas français.

Só quando eu já estava no meio do boulevard é que aquilo me invadiu — toda a sua força.

Ora, eles estavam sofrendo... aqueles dois... sofrendo de verdade. Vi duas pessoas sofrerem como suponho que jamais verei outra vez...

É claro que você sabe o que esperar. Antecipa, plenamente, o que vou escrever. Não seria eu, caso contrário.

Nunca mais me aproximei daquele lugar.

Sim, ainda devo aquela soma considerável por almoços e jantares, mas isso não vem ao caso. É vulgar mencioná-lo no mesmo fôlego que o fato de eu nunca mais ter visto Mouse.

Naturalmente, eu pretendia. Saí decidido — cheguei até a porta — escrevi e rasguei cartas — fiz todas essas coisas. Mas simplesmente não consegui fazer o esforço final.

Mesmo agora não compreendo por completo por quê. É claro que eu sabia que não conseguiria sustentar aquilo. Isso tinha muito a ver com o caso. Mas se poderia pensar que, no mínimo, a curiosidade não teria mantido meu nariz de fox-terrier afastado...

Je ne parle pas français. Esse foi seu canto do cisne para mim.

Mas como ela me faz quebrar minha regra. Oh, você viu por si mesmo, mas eu poderia lhe dar inúmeros exemplos.

...Noites em que me sento em algum café sombrio e um piano automático começa a tocar uma melodia de “Mouse” (há dezenas de melodias que a evocam exatamente), começo a sonhar coisas como...

Uma casinha à beira-mar, em algum lugar longe, muito longe. Uma moça do lado de fora, com um vestido um pouco parecido com os que usam as mulheres indígenas da América, saudando um rapaz leve, descalço, que vem correndo da praia.

— O que você trouxe?

— Um peixe.

Eu sorrio e o entrego a ela.

...A mesma moça, o mesmo rapaz, trajes diferentes — sentados a uma janela aberta, comendo frutas, debruçando-se para fora e rindo.

— Todos os morangos silvestres são para você, Mouse. Não vou tocar em nenhum.

...Uma noite molhada. Eles estão voltando para casa juntos debaixo de um guarda-chuva. Param à porta para encostar as faces molhadas uma na outra.

E assim por diante, e assim por diante, até que algum velho galanteador imundo se aproxima da minha mesa, senta-se diante de mim e começa a fazer caretas e ganir. Até eu me ouvir dizendo:

— Mas tenho a garotinha para você, mon vieux. Tão pequena... tão minúscula.

Beijo as pontas dos dedos e as pouso sobre o coração.

— Dou-lhe minha palavra de honra como cavalheiro, escritor, sério, jovem e extremamente interessado na literatura inglesa moderna.

Preciso ir. Preciso ir. Pego meu casaco e meu chapéu. Madame me conhece.

— Ainda não jantou? — sorri.

— Não, ainda não, Madame.

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