Psicologia Êxtase e outros contos · Capítulo 5 de 14
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Psicologia

Quando ela abriu a porta e o viu ali de pé, ficou mais contente do que jamais ficara antes; e ele também, ao segui-la para dentro do ateliê, parecia muito, muito feliz por ter vindo.

— Ocupada?

— Não. Ia tomar chá agora.

— E você não está esperando ninguém?

— Ninguém.

— Ah! Que bom.

Ele pousou o casaco e o chapéu com delicadeza, demoradamente, como se tivesse tempo de sobra para tudo, ou como se se despedisse deles para sempre, e aproximou-se do fogo, estendendo as mãos para a chama viva, saltitante.

Por um instante ambos permaneceram calados naquela luz saltitante. Ainda, por assim dizer, saboreavam nos lábios sorridentes o doce sobressalto da saudação. Seus eus secretos sussurravam:

— Por que haveríamos de falar? Isto não basta?

— Mais que basta. Eu nunca percebi, até este momento...

— Como é bom simplesmente estar com você...

— Assim...

— É mais que bastante.

Mas de repente ele se virou e olhou para ela, e ela se afastou depressa.

— Quer um cigarro? Vou pôr a chaleira no fogo. Está morrendo de vontade de tomar chá?

— Não. Morrendo, não.

— Pois eu estou.

— Ah, você. — Ele bateu na almofada armênia e atirou-se sobre o sommier. — Você é uma chinesinha perfeita.

— Sou mesmo — riu ela. — Anseio por chá como homens fortes anseiam por vinho.

Ela acendeu o lampião sob o amplo abajur alaranjado, fechou as cortinas e puxou a mesa de chá para perto. Dois pássaros cantavam na chaleira; o fogo tremeluzia. Ele se sentou, abraçando os joelhos. Era delicioso — esse negócio de tomar chá — e ela sempre tinha coisas deliciosas para comer: pequenos sanduíches picantes, docinhos curtos de amêndoa, e um bolo escuro, rico, com gosto de rum — mas era uma interrupção. Ele queria que aquilo terminasse, que a mesa fosse afastada, que as duas cadeiras fossem puxadas para junto da luz, e que chegasse o momento em que ele tiraria o cachimbo, o encheria e diria, apertando bem o fumo no fornilho: “Estive pensando no que você disse da última vez, e me parece...”

Sim, era isso que ele esperava, e ela também. Sim, enquanto sacudia o bule quente e seco sobre a chama de álcool, ela via aqueles outros dois: ele, recostado, à vontade entre as almofadas, e ela, enrolada en escargot na poltrona azul em forma de concha. A imagem era tão clara e tão minuciosa que poderia ter sido pintada na tampa azul do bule. E no entanto ela não conseguia apressar-se. Quase poderia ter gritado: “Dê-me tempo.” Precisava de tempo para se acalmar. Queria tempo para se libertar de todas aquelas coisas familiares com as quais vivia de modo tão intenso. Pois todas aquelas coisas alegres ao seu redor eram parte dela — sua descendência — e elas sabiam disso e faziam as reivindicações maiores, mais veementes. Mas agora precisavam ir embora. Precisavam ser varridas, enxotadas — como crianças, mandadas escada acima, para a sombra, enfiadas na cama e ordenadas a dormir — imediatamente — sem um murmúrio!

Pois a qualidade especial, palpitante, da amizade deles estava em sua completa entrega. Como duas cidades abertas no meio de uma vasta planície, as duas mentes jaziam abertas uma para a outra. E não era como se ele entrasse na dela como um conquistador, armado até as sobrancelhas e sem ver nada além de um alegre tremular de sedas — nem como se ela entrasse na dele como uma rainha pisando macia sobre pétalas. Não: eram viajantes ávidos, sérios, absorvidos em compreender o que havia para ver e em descobrir o que estava escondido — tirando o máximo dessa extraordinária oportunidade absoluta que tornava possível que ele fosse inteiramente verdadeiro com ela, e ela inteiramente sincera com ele.

E o melhor de tudo é que ambos já tinham idade suficiente para desfrutar plenamente a aventura sem nenhuma estúpida complicação emocional. A paixão teria arruinado tudo; eles viam isso perfeitamente. Além disso, todo esse tipo de coisa já estava encerrado e acabado para ambos — ele tinha trinta e um anos, ela trinta —, haviam tido suas experiências, e bem ricas e variadas tinham sido, mas agora era tempo de colheita — colheita. Os romances dele não seriam romances realmente grandiosos? E as peças dela. Quem mais tinha seu exquisito senso da verdadeira Comédia Inglesa?...

Com cuidado, ela cortou o bolo em pequenos nacos grossos, e ele se estendeu para pegar um pedaço.

— Perceba como é bom — implorou ela. — Coma-o imaginativamente. Revire os olhos, se puder, e sinta-o na respiração. Não é um sanduíche da sacola do chapeleiro — é o tipo de bolo que poderia ter sido mencionado no Livro do Gênesis... E Deus disse: “Haja bolo. E houve bolo. E Deus viu que era bom.”

— Não precisa me suplicar — disse ele. — De verdade, não precisa. É curioso, mas eu sempre reparo no que como aqui, e em nenhum outro lugar. Suponho que venha de eu viver sozinho há tanto tempo e sempre ler enquanto me alimento... meu hábito de encarar a comida apenas como comida... alguma coisa que está ali, em certas horas... para ser devorada... para ficar... fora dali. — Ele riu. — Isso a choca. Não choca?

— Até os ossos — disse ela.

— Mas... veja bem... — Ele afastou a xícara e começou a falar muito depressa. — Eu simplesmente não tenho vida exterior nenhuma. Não sei o nome das coisas, nem um pouco — árvores e assim por diante —, e nunca reparo nos lugares, nos móveis ou na aparência das pessoas. Um cômodo é igual a outro para mim — um lugar onde sentar e ler ou conversar — exceto — e aqui ele fez uma pausa, sorriu de um modo estranho e ingênuo, e disse — exceto este ateliê. — Olhou ao redor e depois para ela; riu, espantado e feliz. Parecia um homem que acorda num trem e descobre que já chegou ao fim da viagem.

— Eis outra coisa curiosa. Se fecho os olhos, consigo ver este lugar até o último detalhe — cada detalhe... Agora que penso nisso — nunca havia percebido isso conscientemente. Muitas vezes, quando estou longe daqui, revisito este lugar em espírito — vagueio entre suas cadeiras vermelhas, fico olhando para a tigela de frutas sobre a mesa preta — e toco apenas, muito de leve, aquela maravilha de cabeça de menino adormecido.

Ele a olhou enquanto falava. Ela ficava no canto da lareira; a cabeça inclinada para um lado, caída, os lábios entreabertos, como se durante o sono o menininho escutasse algum som doce...

— Amo aquele menininho — murmurou ele. E então os dois ficaram em silêncio.

Um novo silêncio se instalou entre eles. Nada que se parecesse minimamente com a pausa satisfatória que se seguira à saudação — aquele “Bem, cá estamos juntos outra vez, e não há motivo para não continuarmos exatamente de onde paramos da última vez”. Aquele silêncio podia caber no círculo quente, delicioso, do fogo e da luz do lampião. Quantas vezes não tinham atirado alguma coisa dentro dele apenas pelo prazer de ver as ondulações se quebrarem em suas margens fáceis. Mas nesse poço desconhecido mergulhou a cabeça do menininho adormecido em seu sono sem tempo — e as ondas fluíram para longe, para longe — infinitamente longe — para uma escuridão profunda e cintilante.

E então ambos o romperam. Ela disse: — Preciso ajeitar o fogo —, e ele disse: — Estive experimentando um novo... — Ambos escaparam. Ela ajeitou o fogo e recolocou a mesa no lugar, a poltrona azul foi puxada para a frente, ela se enrolou nela e ele se recostou entre as almofadas. Depressa! Depressa! Precisavam impedir que aquilo acontecesse outra vez.

— Bem, li o livro que você deixou da última vez.

— Ah, o que achou dele?

Lá foram eles, e tudo estava como sempre. Mas estava? Não estavam um pouco rápidos demais, prontos demais nas respostas, ansiosos demais para retomar um ao outro? Aquilo era realmente algo além de uma imitação maravilhosamente boa das outras ocasiões? O coração dele batia; a face dela ardia, e a coisa estúpida era que ela não conseguia descobrir exatamente onde estavam ou o que exatamente estava acontecendo. Não teve tempo de olhar para trás. E, justo quando chegara até aí, aconteceu de novo. Eles vacilaram, oscilaram, fraquejaram, calaram-se. Mais uma vez tiveram consciência da escuridão ilimitada, interrogativa. Mais uma vez estavam ali — dois caçadores inclinados sobre o fogo, mas ouvindo, de repente, vindo da selva além, um sopro de vento e um grito alto, interrogativo...

Ela ergueu a cabeça.

— Está chovendo — murmurou. E sua voz era como a dele quando dissera: “Amo aquele menininho.”

Bem. Por que não se rendiam simplesmente àquilo — cediam — e viam o que aconteceria então? Mas não. Por mais vagos e perturbados que estivessem, sabiam o bastante para perceber que sua preciosa amizade estava em perigo. Ela é que seria destruída — não eles — e eles não seriam cúmplices disso.

Ele se levantou, bateu o cachimbo para esvaziá-lo, passou a mão pelos cabelos e disse:

— Ando me perguntando muito, ultimamente, se o romance do futuro será ou não um romance psicológico. Até que ponto você tem certeza de que a psicologia qua psicologia tem alguma coisa a ver com a literatura?

— Você quer dizer que sente haver uma boa possibilidade de que essas criaturas misteriosas e inexistentes — os jovens escritores de hoje — estejam simplesmente tentando saltar por cima da reivindicação do psicanalista?

— Sim, quero. E penso que é porque esta geração é apenas sábia o bastante para saber que está doente e para perceber que sua única chance de recuperação está em entrar nos próprios sintomas — fazer deles um estudo exaustivo — rastreá-los — tentar chegar à raiz do problema.

— Mas, oh — gemeu ela. — Que perspectiva terrivelmente lúgubre.

— De modo nenhum — disse ele. — Veja bem... — A conversa prosseguiu. E agora parecia que realmente haviam conseguido. Ela se virou na poltrona para olhar para ele enquanto respondia. Seu sorriso dizia: “Vencemos.” E ele sorriu de volta, confiante: “Absolutamente.”

Mas o sorriso os desfez. Durou tempo demais; transformou-se num arreganho. Eles se viram como duas pequenas marionetes sorridentes, sacolejando no nada.

“O que estávamos dizendo?”, pensou ele. Estava tão completamente entediado que quase gemeu.

“Que espetáculo fizemos de nós mesmos”, pensou ela. E viu-o laboriosamente — oh, laboriosamente — traçando os fundamentos, e a si mesma correndo atrás, pondo aqui uma árvore, ali um arbusto florido, e aqui um punhado de peixes cintilantes num lago. Dessa vez ficaram em silêncio por puro desalento.

O relógio deu seis pequenas badaladas alegres, e o fogo fez um suave tremor. Que tolos eram — pesados, pastosos, envelhecidos — com mentes positivamente estofadas.

E agora o silêncio lançou sobre eles um encanto como música solene. Era angústia — angústia para ela suportá-lo, e ele morreria — morreria se aquilo fosse quebrado... E, no entanto, ansiava por quebrá-lo. Não pela fala. Ao menos, não por sua conversa comum, enlouquecedora. Havia outra maneira de falarem um com o outro, e, dessa nova maneira, ele queria murmurar: “Você também sente isto? Compreende alguma coisa disto?”...

Em vez disso, para seu horror, ouviu-se dizer:

— Preciso ir; vou encontrar Brand às seis.

Que demônio o fizera dizer aquilo em vez da outra coisa? Ela saltou — simplesmente saltou da poltrona —, e ele a ouviu exclamar:

— Então você precisa correr. Ele é tão pontual. Por que não disse antes?

“Você me feriu; você me feriu! Fracassamos!”, disse o eu secreto dela, enquanto lhe entregava o chapéu e a bengala, sorrindo alegremente. Ela não lhe daria um momento para outra palavra, mas correu pelo corredor e abriu a grande porta externa.

Poderiam se despedir assim? Como poderiam? Ele ficou no degrau, e ela logo dentro, segurando a porta. Já não chovia.

“Você me feriu — me feriu”, dizia o coração dela. “Por que você não vai? Não, não vá. Fique. Não — vá!” E ela olhou para a noite.

Viu a bela descida dos degraus, o jardim escuro cercado de hera cintilante, do outro lado da estrada os enormes salgueiros nus e, acima deles, o céu grande e claro de estrelas. Mas é claro que ele não veria nada disso. Era superior a tudo aquilo. Ele — com sua maravilhosa visão “espiritual”!

Ela estava certa. Ele não via absolutamente nada. Miséria! Ele havia perdido aquilo. Agora era tarde demais para fazer qualquer coisa. Era tarde demais? Sim, era. Uma rajada fria de vento odioso soprou para dentro do jardim. Maldita vida! Ele a ouviu gritar “au revoir” e a porta bateu.

Correndo de volta ao ateliê, ela se comportou de modo tão estranho. Corria para cima e para baixo, erguendo os braços e gritando:

— Oh! Oh! Que estupidez! Que imbecilidade! Que estupidez!

E então se atirou no sommier sem pensar em nada — apenas deitada ali em sua fúria. Tudo estava acabado. O que estava acabado? Oh — alguma coisa estava. E ela nunca mais o veria — nunca. Depois que um tempo muito, muito longo (ou talvez dez minutos) se passou naquele golfo negro, sua campainha soou num tilintar agudo e rápido. Era ele, é claro. E, igualmente é claro, ela não deveria dar a menor atenção, mas apenas deixá-la tocar e tocar. Voou para atender.

No umbral estava uma solteirona idosa, uma criatura patética que simplesmente a idolatrava (sabe Deus por quê) e tinha o hábito de aparecer, tocar a campainha e então dizer, quando ela abria a porta: “Minha querida, mande-me embora!” Ela nunca mandava. Em geral, convidava-a a entrar, deixava-a admirar tudo e aceitava o ramalhete de flores de aparência ligeiramente encardida — mais que graciosamente. Mas hoje...

— Oh, sinto tanto — exclamou ela. — Mas estou com alguém aqui. Estamos trabalhando em umas xilogravuras. Vou estar desesperadamente ocupada a noite inteira.

— Não tem importância. Não tem importância nenhuma, querida — disse a boa amiga. — Eu só estava passando e pensei em lhe deixar algumas violetas. — Ela remexeu entre as varetas de um grande guarda-chuva velho. — Coloquei-as aqui embaixo. Um lugar tão bom para guardar flores longe do vento. Aqui estão — disse, sacudindo para fora um pequeno ramalhete morto.

Por um momento, ela não pegou as violetas. Mas, enquanto permanecia logo dentro, segurando a porta, uma coisa estranha aconteceu... Mais uma vez viu a bela descida dos degraus, o jardim escuro cercado de hera cintilante, os salgueiros, o grande céu claro. Mais uma vez sentiu o silêncio que era como uma pergunta. Mas desta vez não hesitou. Avançou. Muito suave e delicadamente, como se temesse fazer uma ondulação naquele poço ilimitado de quietude, pôs os braços em torno da amiga.

— Minha querida — murmurou a amiga feliz, completamente tomada por aquela gratidão. — Não são nada, de verdade. Apenas o ramalhetinho mais simples, de três pence.

Mas, enquanto falava, foi envolvida — abraçada com mais ternura, com mais beleza, presa por uma pressão tão doce e por tanto tempo que a cabeça da pobre querida chegou positivamente a rodar, e ela mal teve forças para trêmula dizer:

— Então você realmente não se importa muito comigo?

— Boa noite, minha amiga — sussurrou a outra. — Volte logo.

— Oh, volto. Volto.

Desta vez ela caminhou devagar de volta ao ateliê e, parada no meio da sala, com os olhos semicerrados, sentiu-se tão leve, tão descansada, como se tivesse despertado de um sono infantil. Até o ato de respirar era uma alegria...

O sommier estava muito desarrumado. Todas as almofadas “como montanhas furiosas”, como ela dizia; arrumou-as antes de ir até a escrivaninha.

“Estive pensando em nossa conversa sobre o romance psicológico”, escreveu rapidamente, “é de fato intensamente interessante...” E assim por diante, e assim por diante.

No fim, escreveu: “Boa noite, meu amigo. Volte logo.”

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