A pequena governanta Êxtase e outros contos · Capítulo 12 de 14
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A pequena governanta

Oh, céus, como ela desejava que não fosse noite. Teria preferido muito viajar de dia, muito, muito mais. Mas a senhora da Agência de Governantas dissera: “É melhor você tomar um barco à noite, e então, se conseguir um compartimento ‘Somente Senhoras’ no trem, estará muito mais segura do que dormindo num hotel estrangeiro. Não saia do vagão; não fique andando pelos corredores e não se esqueça de trancar a porta do lavatório, se for até lá. O trem chega a Munique às oito horas, e Frau Arnholdt diz que o Hotel Grunewald fica a apenas um minuto. Um carregador pode levá-la até lá. Ela chegará às seis da mesma tarde, de modo que você terá um belo dia tranquilo para descansar da viagem e repassar seu alemão. E, quando quiser comer alguma coisa, eu a aconselharia a entrar depressa na padaria mais próxima e comprar um pãozinho e um café. Você nunca esteve no exterior, esteve?” “Não.” “Bem, eu sempre digo às minhas moças que é melhor desconfiar das pessoas primeiro, em vez de confiar nelas, e é mais seguro suspeitar das más intenções das pessoas do que das boas... Parece um pouco duro, mas precisamos ser mulheres do mundo, não é?”

Fora agradável na Cabine das Senhoras. A camareira era tão gentil, trocou dinheiro para ela e lhe ajeitou as cobertas sobre os pés. Ela se deitou num daqueles sofás duros, salpicados de rosa, e ficou observando as outras passageiras, amistosas e naturais, prendendo os chapéus aos travesseiros, tirando as botas e as saias, abrindo nécessaires e arrumando misteriosos pacotinhos farfalhantes, amarrando véus em torno da cabeça antes de se deitar. Tum, tum, tum, fazia a hélice constante do vapor. A camareira puxou uma cúpula verde sobre a luz e sentou-se junto ao fogareiro, a saia dobrada para trás sobre os joelhos, um longo pedaço de tricô no colo. Numa prateleira acima de sua cabeça havia uma garrafa de água com um ramalhete apertado de flores enfiado nela. “Gosto muito de viajar”, pensou a pequena governanta. Sorriu e se entregou ao balanço morno.

Mas, quando o barco parou e ela subiu ao convés, a cesta de roupas numa mão, a manta e o guarda-chuva na outra, um vento frio, estranho, voou por baixo de seu chapéu. Olhou para os mastros e vergas do navio, negros contra um céu verde e cintilante, e para baixo, para o escuro desembarcadouro onde figuras estranhas e abafadas vagueavam, esperando; avançou com o rebanho sonolento, todos sabendo aonde ir e o que fazer, menos ela, e sentiu medo. Só um pouco — apenas o bastante para desejar — oh, desejar que fosse dia e que uma daquelas mulheres que lhe haviam sorrido no espelho, quando ambas arrumavam os cabelos na Cabine das Senhoras, estivesse agora por perto. “Bilhetes, por favor. Mostrem os bilhetes. Tenham os bilhetes à mão.” Desceu a passarela, equilibrando-se com cuidado sobre os saltos. Então um homem de boné preto de couro avançou e tocou-lhe o braço.

— Para onde, Miss?

Falava inglês — devia ser guarda ou chefe de estação com um boné daqueles. Ela mal havia respondido quando ele deu o bote na cesta de roupas.

— Por aqui — gritou, numa voz rude, determinada, e, abrindo caminho com os cotovelos, passou a passos largos pelas pessoas.

— Mas eu não quero um carregador.

Que homem horrível!

— Não quero um carregador. Quero carregar sozinha.

Ela teve de correr para acompanhá-lo, e sua raiva, muito mais forte que ela, correu à sua frente e arrancou a bolsa da mão do miserável. Ele não lhe deu atenção alguma, mas continuou avançando pela longa plataforma escura, e atravessou uma linha de trem. “Ele é um ladrão.” Ela tinha certeza de que era um ladrão ao pisar entre os trilhos prateados e sentir a escória estalar sob os sapatos. Do outro lado — oh, graças a Deus! — havia um trem com Munique escrito nele. O homem parou junto aos vagões enormes e iluminados.

— Segunda classe? — perguntou a voz insolente.

— Sim, um compartimento de senhoras.

Ela estava completamente sem fôlego. Abriu a pequena bolsa à procura de uma moeda miúda para dar àquele homem horrível, enquanto ele atirava sua cesta de roupas no bagageiro de um vagão vazio que tinha um bilhete, Dames Seules, colado à janela. Ela entrou no trem e entregou vinte cêntimos.

— O que é isto? — gritou o homem, encarando o dinheiro e depois a ela, erguendo-o até o nariz, farejando-o como se nunca na vida tivesse visto, muito menos segurado, uma quantia daquelas. — É um franco. Você sabe disso, não sabe? É um franco. Esse é meu preço!

Um franco! Imaginava ele que ela lhe daria um franco por lhe pregar uma peça daquelas só porque era uma moça e viajava sozinha à noite? Nunca, nunca! Apertou a bolsa na mão e simplesmente não o viu — olhou para uma vista de St. Malo na parede oposta e simplesmente não o ouviu.

— Ah, não. Ah, não. Quatro sous. Você se engana. Aqui, pegue. É um franco que eu quero.

Ele saltou para o estribo do trem e jogou o dinheiro no colo dela. Tremendo de terror, ela se encolheu toda, toda, e estendeu uma mão gelada e pegou o dinheiro — guardou-o na mão.

— Isso é tudo o que você vai receber — disse.

Por um ou dois minutos sentiu os olhos agudos dele espetando-a por toda parte, enquanto ele assentia lentamente, puxando a boca para baixo:

— Mui-to bem. Trrrès bien.

Encolheu os ombros e desapareceu na escuridão. Oh, o alívio! Como aquilo fora simplesmente terrível! Ao se levantar para sentir se a cesta de roupas estava firme, ela avistou a si mesma no espelho, inteiramente branca, com grandes olhos redondos. Desamarrou o “véu de automóvel” e desabotoou a capa verde.

— Mas agora já passou — disse ao rosto no espelho, sentindo de algum modo que ele estava mais assustado do que ela.

As pessoas começaram a se reunir na plataforma. Ficavam juntas em pequenos grupos, conversando; uma luz estranha das lâmpadas da estação pintava seus rostos de quase verde. Um garotinho de vermelho veio ruidosamente com um enorme carrinho de chá e se encostou nele, assobiando e batendo nas botas com um guardanapo. Uma mulher de avental preto de alpaca empurrava um carrinho de travesseiros para alugar. Parecia sonhadora e vazia — como uma mulher empurrando um carrinho de bebê — de um lado para outro, de um lado para outro — com uma criança adormecida dentro. Grinaldas de fumaça branca subiam de algum lugar e ficavam suspensas sob o teto como vinhas enevoadas. “Como tudo é estranho”, pensou a pequena governanta, “e no meio da noite, ainda por cima.” Olhou para fora de seu canto seguro, já não assustada, mas orgulhosa por não ter dado aquele franco. “Sei cuidar de mim mesma — é claro que sei. O importante é não...”

De repente, vindo do corredor, ouviu-se um bater de pés e vozes de homens, altas e quebradas por pedaços de riso forte. Vinham em sua direção. A pequena governanta se encolheu no canto quando quatro rapazes de chapéus-coco passaram, olhando pela porta e pela janela. Um deles, rebentando com a piada, apontou para o aviso Dames Seules, e os quatro se abaixaram para ver melhor a única mocinha no canto. Oh, céus, estavam no vagão ao lado. Ela os ouviu pisando forte por ali, e então um súbito silêncio, seguido por um sujeito alto e magro, de bigodinho preto, que abriu de supetão a porta dela.

— Se mademoiselle quiser vir conosco — disse, em francês.

Ela viu os outros se amontoando atrás dele, espiando por baixo de seu braço e por cima de seu ombro, e ficou sentada muito ereta e imóvel.

— Se mademoiselle nos der a honra — zombou o homem alto.

Um deles não conseguiu mais se conter; seu riso estourou num estalo alto.

— Mademoiselle é séria — insistiu o rapaz, fazendo mesuras e caretas.

Tirou o chapéu com um floreio, e ela ficou sozinha outra vez.

— En voiture. En voi-ture!

Alguém corria de um lado para outro ao lado do trem. “Eu queria que não fosse noite. Queria que houvesse outra mulher no vagão. Tenho medo dos homens ao lado.” A pequena governanta olhou para fora e viu seu carregador voltando outra vez — o mesmo homem vindo para o vagão dela com os braços cheios de bagagem. Mas — mas o que estava fazendo? Enfiou a unha do polegar sob o letreiro Dames Seules e o arrancou de uma vez; depois ficou de lado, olhando vesgo para ela, enquanto um velho envolto numa capa xadrez subia o alto degrau.

— Mas este é um compartimento de senhoras.

— Oh, não, Mademoiselle, a senhorita se engana. Não, não, eu lhe garanto. Merci, Monsieur.

— En voi-turre!

Um apito estridente. O carregador desceu triunfante, e o trem partiu. Por um ou dois instantes, lágrimas grandes transbordaram nos olhos dela, e através delas ela viu o velho desenrolando um cachecol do pescoço e desamarrando as abas do boné Jaeger. Ele parecia muito velho. Noventa, pelo menos. Tinha bigode branco e grandes óculos de aro dourado, com olhinhos azuis por trás, e faces rosadas e enrugadas. Um rosto bondoso — e encantador o modo como se inclinou para a frente e disse, num francês hesitante:

— Eu a incomodo, Mademoiselle? Preferiria que eu tirasse todas estas coisas do bagageiro e procurasse outro vagão?

O quê! Aquele velho ter de mover todas aquelas coisas pesadas só porque ela...

— Não, está tudo perfeitamente bem. O senhor não me incomoda em absoluto.

— Ah, mil agradecimentos.

Ele se sentou diante dela, desabotoou a capa de seu casaco enorme e a lançou para fora dos ombros.

O trem parecia feliz por ter deixado a estação. Com um longo salto, lançou-se na escuridão. Ela esfregou um ponto da janela com a luva, mas não conseguia ver nada — apenas uma árvore aberta como um leque negro, ou um punhado de luzes, ou a linha de uma colina, solene e imensa. No vagão ao lado, os rapazes começaram a cantar “Un, deux, trois.” Cantavam a mesma canção uma e outra vez, no mais alto da voz.

“Eu nunca teria coragem de dormir se estivesse sozinha”, decidiu ela. “Não conseguiria pôr os pés para cima, nem sequer tirar o chapéu.” O canto lhe dava um tremorzinho estranho no estômago e, abraçando-se para detê-lo, os braços cruzados sob a capa, sentiu-se realmente contente por ter o velho no vagão consigo. Tomando cuidado para ver se ele não estava olhando, espiou-o por baixo dos longos cílios. Ele se sentava extremamente ereto, o peito estufado, o queixo bem recolhido, os joelhos apertados um contra o outro, lendo um jornal alemão. Era por isso que falava francês de modo tão engraçado. Era alemão. Algo do exército, supôs ela — um coronel ou general — antes, é claro, não agora; agora era velho demais para isso. Como parecia asseado e impecável para um velho. Usava uma pérola espetada na gravata preta e um anel com uma pedra vermelho-escura no dedo mínimo; a ponta de um lenço de seda branca aparecia no bolso do paletó transpassado. De algum modo, no conjunto, era realmente agradável de olhar. A maioria dos velhos era tão horrível. Ela não suportava quando eram trôpegos — ou tinham uma tosse repugnante, ou alguma coisa assim. Mas não ter barba — isso fazia toda a diferença — e depois suas faces eram tão rosadas, e seu bigode tão branco. O jornal alemão desceu, e o velho se inclinou para a frente com a mesma deliciosa cortesia:

— A senhorita fala alemão, Mademoiselle?

— Ja, ein wenig, mehr als Französisch — disse a pequena governanta, corando num rosa profundo que se espalhou lentamente pelas faces e fez seus olhos azuis parecerem quase negros.

— Ach, so!

O velho inclinou-se graciosamente.

— Então talvez queira olhar alguns jornais ilustrados.

Ele deslizou um elástico de um pequeno rolo deles e os entregou.

— Muito obrigada.

Ela gostava muito de ver figuras, mas primeiro tiraria o chapéu e as luvas. Levantou-se, desprendeu os alfinetes da palha marrom e a pôs cuidadosamente no bagageiro, ao lado da cesta de roupas; tirou as luvas de pelica marrom, juntou-as num rolinho apertado e as colocou dentro da copa do chapéu, para segurança; então se sentou de novo, desta vez mais confortavelmente, os pés cruzados, os jornais no colo. Como o velho no canto observava com bondade a mãozinha nua dela virando as grandes páginas brancas, observava os lábios se mexendo enquanto ela pronunciava para si as palavras compridas, repousava nos cabelos dela, que ardiam debaixo da luz. Ah! Como era trágico para uma pequena governanta possuir cabelos que faziam pensar em tangerinas e malmequeres, em damascos e gatos tartaruga e champanhe! Talvez fosse isso que o velho pensasse enquanto a fitava e fitava, e que nem mesmo as roupas escuras e feias conseguiam disfarçar sua beleza macia. Talvez o rubor que lambeu suas faces e seus lábios fosse um rubor de raiva por alguém tão jovem e delicado ter de viajar sozinha e desprotegida pela noite. Quem sabe ele não murmurava à sua maneira sentimental alemã: “Ja, es ist eine Tragœdie! Quem dera Deus que eu fosse o avô da criança!”

— Muito obrigada. Eram muito interessantes.

Ela sorriu com graça ao devolver os jornais.

— Mas a senhorita fala alemão extremamente bem — disse o velho. — Já esteve na Alemanha antes, é claro?

— Oh, não, esta é a primeira vez — uma pequena pausa, depois — esta é a primeira vez que estive no exterior, em toda a minha vida.

— Realmente! Estou surpreso. A senhorita me deu a impressão, se me permite dizer, de estar habituada a viajar.

— Oh, bem — já viajei bastante pela Inglaterra, e à Escócia, uma vez.

— Assim. Eu mesmo estive na Inglaterra uma vez, mas não consegui aprender inglês.

Ele ergueu uma das mãos e sacudiu a cabeça, rindo.

— Não, foi difícil demais para mim... “Ow-do-you-do. Please vich is ze vay to Leicestaire Squaare.”

Ela riu também.

— Os estrangeiros sempre dizem...

Tiveram uma conversinha inteira sobre isso.

— Mas a senhorita vai gostar de Munique — disse o velho. — Munique é uma cidade maravilhosa. Museus, quadros, galerias, belos edifícios e lojas, concertos, teatros, restaurantes — tudo está em Munique. Viajei por toda a Europa muitas, muitas vezes na vida, mas é sempre a Munique que volto. A senhorita vai se divertir lá.

— Eu não vou ficar em Munique — disse a pequena governanta, e acrescentou timidamente: — Vou para um posto de governanta na família de um médico em Augsburgo.

— Ah, era isso.

Augsburgo ele conhecia. Augsburgo — bem — não era bonita. Uma sólida cidade industrial. Mas, se a Alemanha era nova para ela, esperava que encontrasse também ali alguma coisa interessante.

— Tenho certeza de que encontrarei.

— Mas que pena não ver Munique antes de ir. A senhorita deveria tirar uma pequena folga no caminho — ele sorriu — e guardar algumas lembranças agradáveis.

— Receio que não poderia fazer isso — disse a pequena governanta, sacudindo a cabeça, de súbito importante e séria. — E também, estando sozinha...

Ele compreendia perfeitamente. Fez uma reverência, sério também. Ficaram calados depois disso. O trem seguia despedaçando o caminho, descobrindo seu peito escuro e flamejante às colinas e aos vales. Estava quente no vagão. Ela parecia encostar-se à escuridão em corrida e ser levada para longe, para longe. Pequenos sons se faziam ouvir; passos no corredor, portas abrindo e fechando — um murmúrio de vozes — assobios... Então a janela foi picada por longas agulhas de chuva... Mas não tinha importância... estava lá fora... e ela tinha seu guarda-chuva... fez um bico, suspirou, abriu e fechou as mãos uma vez e caiu em sono profundo.

— Pardon! Pardon!

O correr da porta do vagão a despertou sobressaltada. O que acontecera? Alguém havia entrado e saído outra vez. O velho estava sentado em seu canto, mais ereto que nunca, as mãos nos bolsos do casaco, a testa muito franzida.

— Ha! ha! ha! — veio do vagão ao lado.

Ainda meio adormecida, ela levou as mãos aos cabelos para se certificar de que não era sonho.

— Vergonhoso! — murmurou o velho, mais para si do que para ela. — Sujeitos vulgares, ordinários! Receio que a tenham incomodado, graciosa Fräulein, entrando aqui aos tropeços desse modo.

Não, na verdade não. Ela estava mesmo prestes a acordar, e tirou o relógio de prata para ver a hora. Quatro e meia. Uma luz azul e fria enchia os vidros da janela. Agora, quando esfregou um ponto, conseguiu ver manchas claras de campos, um grupo de casas brancas como cogumelos, uma estrada “como uma pintura”, com álamos dos dois lados, um fio de rio. Como era bonito! Como era bonito e diferente! Até aquelas nuvens rosadas no céu pareciam estrangeiras. Estava frio, mas ela fingiu que estava muito mais frio, e esfregou as mãos uma na outra e estremeceu, puxando a gola do casaco, porque estava tão feliz.

O trem começou a diminuir a velocidade. A locomotiva deu um apito longo e estridente. Estavam chegando a uma cidade. Casas mais altas, cor-de-rosa e amarelas, deslizavam adormecidas atrás de suas pálpebras verdes, guardadas pelos álamos que tremiam no ar azul como se estivessem na ponta dos pés, escutando. Numa casa, uma mulher abriu as venezianas, lançou um colchão vermelho e branco através do caixilho da janela e ficou encarando o trem. Uma mulher pálida, de cabelos pretos e xale branco de lã sobre os ombros. Mais mulheres apareceram às portas e janelas das casas adormecidas. Veio um rebanho de ovelhas. O pastor usava uma blusa azul e sapatos de madeira pontudos. Olhe! olhe que flores — e junto à estação de trem ainda por cima! Roseiras em pé como buquês de madrinhas, gerânios brancos, outros rosados e cerosos que você jamais veria fora de uma estufa em casa. Mais devagar, mais devagar. Um homem com um regador borrifava a plataforma.

— A-a-a-ah!

Alguém veio correndo e agitando os braços. Uma mulher enorme e gorda saiu bamboleando pelas portas de vidro da estação com uma bandeja de morangos. Oh, ela estava com sede! Estava com muita sede!

— A-a-a-ah!

O mesmo alguém correu de volta outra vez. O trem parou.

O velho ajeitou o casaco em torno do corpo e se levantou, sorrindo para ela. Murmurou alguma coisa que ela não entendeu direito, mas ela lhe sorriu de volta quando ele deixou o vagão. Enquanto ele estava fora, a pequena governanta tornou a se olhar no espelho, sacudiu-se e se apalpou com o cuidado preciso e prático de uma moça que tem idade suficiente para viajar sozinha e não tem mais ninguém para lhe assegurar que está “inteiramente bem por trás”. Sede e sede! O ar tinha gosto de água. Baixou a janela, e a mulher gorda dos morangos passou como que de propósito, erguendo a bandeja para ela.

— Nein, danke — disse a pequena governanta, olhando para as grandes frutas sobre as folhas reluzentes. — Wie viel? — perguntou quando a mulher gorda se afastava.

— Dois marcos e cinquenta, Fräulein.

— Santo Deus!

Recuou da janela e se sentou no canto, muito sóbria por um minuto. Meia coroa!

— H-o-o-o-o-o-e-e-e! — gritou o trem, reunindo-se para partir outra vez.

Ela esperava que o velho não ficasse para trás. Oh, era dia — tudo era adorável, se ao menos ela não estivesse com tanta sede. Onde estava o velho — oh, lá vinha ele —, ela lhe abriu covinhas como se ele fosse um velho amigo aceito, enquanto ele fechava a porta e, virando-se, tirava de debaixo da capa uma cesta de morangos.

— Se Fräulein me honrasse aceitando estes...

— Para mim?

Mas ela recuou e ergueu as mãos como se ele estivesse prestes a pôr um gatinho selvagem em seu colo.

— Certamente, para a senhorita — disse o velho. — Quanto a mim, faz vinte anos que sou corajoso o bastante para comer morangos.

— Oh, muito obrigada. Danke bestens — balbuciou ela —, sie sind so sehr schön!

— Coma-os e veja — disse o velho, parecendo contente e amistoso.

— O senhor não vai comer nem um?

— Não, não, não.

Tímida e encantadoramente, a mão dela pairou. Eram tão grandes e sumarentos que precisava dar duas mordidas em cada um — o sumo escorreu por seus dedos — e foi enquanto mastigava os morangos que pensou pela primeira vez no velho como num avô. Que avô perfeito ele daria! Exatamente como um de livro!

O sol saiu, as nuvens cor-de-rosa no céu, as nuvens de morango, foram comidas pelo azul.

— São bons? — perguntou o velho. — Tão bons quanto parecem?

Quando os terminou, sentiu que o conhecia havia anos. Contou-lhe sobre Frau Arnholdt e como conseguira o posto. Ele conhecia o Hotel Grunewald? Frau Arnholdt só chegaria à noite. Ele ouviu, ouviu até saber tanto sobre o caso quanto ela, até dizer — sem olhar para ela —, alisando uma contra a outra as palmas de suas luvas de camurça marrom:

— Será que a senhorita me permitiria lhe mostrar um pouco de Munique hoje? Nada demais — mas talvez uma galeria de quadros e o Englischer Garten. Parece uma pena tão grande que tenha de passar o dia no hotel, e também um pouco desconfortável... num lugar estranho. Nicht wahr? A senhorita estaria de volta lá no começo da tarde, ou quando desejasse, é claro, e daria a um velho um grande prazer.

Só muito depois de ter dito “Sim” — porque, no momento em que disse e ele lhe agradeceu, começou a lhe contar sobre suas viagens pela Turquia e sobre a essência de rosas — é que ela se perguntou se havia feito mal. Afinal, não o conhecia de verdade. Mas ele era tão velho e fora tão gentil — sem falar nos morangos... E ela não poderia ter explicado por que dizia “Não”, e era de certa forma seu último dia, seu último dia para se divertir de verdade. “Estive errada? Estive?” Uma gota de sol caiu em suas mãos e ali ficou, quente e trêmula.

— Se eu puder acompanhá-la até o hotel — sugeriu ele — e chamá-la de novo por volta das dez horas.

Ele tirou a carteira do bolso e lhe entregou um cartão. “Herr Regierungsrat...” Ele tinha um título! Bem, estava destinado a estar tudo certo! Assim, depois disso, a pequena governanta se entregou à excitação de estar realmente no exterior, de olhar pela janela e ler os anúncios estrangeiros, de lhe contarem sobre os lugares por onde passavam — de ter sua atenção e seu prazer cuidados pelo encantador velho avô — até chegarem a Munique e à Hauptbahnhof.

— Carregador! Carregador!

Ele lhe encontrou um carregador, despachou a própria bagagem em poucas palavras, guiou-a através da multidão atordoante para fora da estação, descendo os degraus brancos e limpos até a estrada branca que levava ao hotel. Explicou quem ela era ao gerente, como se tudo aquilo tivesse necessariamente de acontecer, e então por um instante a mãozinha dela se perdeu nas grandes mãos de camurça marrom.

— Venho buscá-la às dez horas.

Ele se foi.

— Por aqui, Fräulein — disse um garçom que estivera se esquivando atrás das costas do gerente, todo olhos e ouvidos para o estranho casal.

Ela o seguiu por dois lances de escada até um quarto escuro. Ele largou a cesta de roupas no chão e puxou para cima uma persiana rangente e empoeirada. Ugh! Que quarto feio e frio — que móveis enormes! Imagine passar o dia ali!

— Este é o quarto que Frau Arnholdt reservou? — perguntou a pequena governanta.

O garçom tinha um jeito curioso de encará-la, como se houvesse alguma coisa engraçada nela. Fez um bico, prestes a assobiar, e depois mudou de ideia.

— Gewiss — disse.

Bem, por que não ia embora? Por que ficava olhando daquele jeito?

— Gehen Sie — disse a pequena governanta, com frígida simplicidade inglesa.

Seus olhinhos, como passas, quase saltaram das faces pastosas.

— Gehen Sie sofort — repetiu ela, gelidamente.

À porta, ele se virou.

— E o cavalheiro — disse —, devo conduzir o cavalheiro para cima quando ele chegar?

Sobre as ruas brancas, grandes nuvens brancas franjadas de prata — e sol por toda parte. Cocheiros gordos, gordos, conduzindo carruagens gordas; mulheres engraçadas de chapeuzinhos redondos limpando as linhas do bonde; pessoas rindo e empurrando umas às outras; árvores dos dois lados das ruas e, em quase todo lugar para onde se olhava, fontes imensas; um ruído de risos vindo das calçadas ou do meio das ruas ou das janelas abertas. E, ao seu lado, mais bem escovado do que nunca, com um guarda-chuva enrolado numa das mãos e luvas amarelas em vez das marrons, seu avô, que a convidara para passar o dia. Ela queria correr, queria se pendurar no braço dele, queria exclamar a cada minuto: “Oh, estou tão terrivelmente feliz!” Ele a guiava pelas ruas, parava enquanto ela “olhava”, e seus olhos bondosos brilhavam para ela, e ele dizia “o que a senhorita quiser”. Ela comeu duas salsichas brancas e dois pãezinhos frescos às onze horas da manhã e bebeu um pouco de cerveja, que ele lhe disse não embriagar, não ser em nada parecida com a cerveja inglesa, num copo que parecia um vaso de flores. E então tomaram uma carruagem, e, na verdade, ela deve ter visto milhares e milhares de maravilhosos quadros clássicos em cerca de quinze minutos! “Terei de pensar neles quando estiver sozinha...” Mas, quando saíram da galeria de quadros, estava chovendo. O avô abriu o guarda-chuva e o segurou sobre a pequena governanta. Começaram a caminhar até o restaurante para almoçar. Ela, bem perto dele, para que ele também ficasse sob um pouco do guarda-chuva.

— Vai mais fácil — observou ele de modo desprendido — se a senhorita tomar meu braço, Fräulein. E, além disso, é o costume na Alemanha.

Então ela tomou-lhe o braço e caminhou ao lado dele enquanto ele apontava as estátuas famosas, tão interessado que se esqueceu por completo de abaixar o guarda-chuva mesmo quando a chuva já havia passado fazia tempo.

Depois do almoço foram a um café ouvir uma banda cigana, mas ela não gostou nada daquilo. Ugh! Que homens horríveis havia ali, com cabeças como ovos e cortes no rosto; então virou a cadeira, pôs as faces ardentes nas mãos em concha e ficou olhando seu velho amigo em vez disso... Depois foram ao Englischer Garten.

— Gostaria de saber que horas são — disse a pequena governanta. — Meu relógio parou. Esqueci de dar corda nele no trem ontem à noite. Vimos tantas coisas que sinto que já deve ser bem tarde.

— Tarde!

Ele parou diante dela, rindo e sacudindo a cabeça de um modo que ela começara a conhecer.

— Então a senhorita não se divertiu de verdade. Tarde! Ora, ainda nem tomamos sorvete!

— Oh, mas eu me diverti — exclamou ela, aflita — mais do que posso dizer. Foi maravilhoso! Só que Frau Arnholdt deve estar no hotel às seis, e eu devo estar lá às cinco.

— E assim será. Depois do sorvete, eu a colocarei numa carruagem e a senhorita poderá ir confortavelmente.

Ela ficou feliz outra vez. O sorvete de chocolate derretia — derretia em pequenos goles, descendo um longo caminho. As sombras das árvores dançavam sobre as toalhas de mesa, e ela se sentava de costas cuidadosamente voltadas para o relógio ornamental que marcava vinte e cinco para as sete.

— De verdade, de verdade — disse a pequena governanta com ardor —, este foi o dia mais feliz da minha vida. Eu jamais imaginei sequer um dia assim.

Apesar do sorvete, seu coraçãozinho grato de bebê brilhava de amor pelo avô de conto de fadas.

Então saíram do jardim por uma longa alameda. O dia estava quase no fim.

— Está vendo aqueles prédios grandes do outro lado? — disse o velho. — O terceiro andar — é ali que moro. Eu e a velha governanta que cuida de mim.

Ela ficou muito interessada.

— Agora, antes que eu encontre uma carruagem para a senhorita, viria ver meu pequeno “lar” e me permitiria lhe dar uma garrafa da essência de rosas de que lhe falei no trem? Como lembrança?

Ela adoraria.

— Nunca vi um apartamento de solteiro na vida — riu a pequena governanta.

O corredor estava bastante escuro.

— Ah, suponho que minha velha tenha saído para me comprar um frango. Um momento.

Ele abriu uma porta e se afastou para ela passar, um pouco tímida, mas curiosa, para dentro de uma sala estranha. Ela não sabia bem o que dizer. Não era bonita. De certo modo, era muito feia — mas arrumada, e, supôs, confortável para um velho como aquele.

— Bem, o que acha? — Ele se ajoelhou e tirou de um armário uma bandeja redonda com dois copos cor-de-rosa e uma garrafa alta cor-de-rosa. — Dois quartinhos além — disse alegremente — e uma cozinha. Basta, não?

— Oh, basta perfeitamente.

— E, se algum dia a senhorita estiver em Munique e quiser passar um dia ou dois — ora, há sempre um ninhozinho — uma asa de frango, uma salada, e um velho encantado em recebê-la como hóspede mais uma vez e muitas, muitas vezes, querida pequena Fräulein!

Ele tirou a rolha da garrafa e serviu vinho nos dois copos cor-de-rosa. Sua mão tremia e o vinho derramou sobre a bandeja. O quarto estava muito quieto. Ela disse:

— Acho que devo ir agora.

— Mas tomará uma tacinha de vinho comigo — só uma, antes de ir? — disse o velho.

— Não, de verdade, não. Nunca bebo vinho. Eu... prometi nunca tocar em vinho nem em nada assim.

E, embora ele suplicasse, e embora ela se sentisse terrivelmente grosseira, especialmente quando ele pareceu levar tanto a peito, estava decididíssima.

— Não, de verdade, por favor.

— Bem, então ao menos se sente no sofá por cinco minutos e me deixe beber à sua saúde?

A pequena governanta sentou-se na beira do sofá de veludo vermelho, e ele se sentou ao seu lado e bebeu à sua saúde de um gole.

— Foi realmente feliz hoje? — perguntou o velho, virando-se, tão perto dela que ela sentiu o joelho dele tremendo contra o seu.

Antes que pudesse responder, ele lhe segurou as mãos.

— E vai me dar um beijinho antes de ir? — perguntou, puxando-a ainda mais para perto.

Era um sonho! Não era verdade! Não era o mesmo velho, de modo algum. Ah, que horror! A pequena governanta o encarou, aterrorizada.

— Não, não, não! — gaguejou, tentando se soltar das mãos dele.

— Um beijinho. Um beijo. O que é isso? Apenas um beijo, querida pequena Fräulein. Um beijo.

Ele empurrou o rosto para a frente, os lábios abertos num amplo sorriso; e como seus olhinhos azuis brilhavam por trás dos óculos!

— Nunca — nunca. Como pode!

Ela saltou de pé, mas ele foi rápido demais e a segurou contra a parede, pressionou contra ela o velho corpo duro e o joelho que tremia e, embora ela sacudisse a cabeça de um lado para o outro, fora de si, beijou-a na boca. Na boca! Onde nenhuma alma que não fosse parente próxima a beijara antes...

Ela correu, correu pela rua até encontrar uma avenida larga, com trilhos de bonde e um policial de pé no meio como um boneco mecânico.

— Quero pegar um bonde para a Hauptbahnhof — soluçou a pequena governanta.

— Fräulein?

Ela torceu as mãos diante dele.

— A Hauptbahnhof. Ali — ali vem um agora.

E enquanto ele observava muito surpreso, a mocinha, com o chapéu torto, chorando sem lenço, saltou para dentro do bonde — sem ver as sobrancelhas do condutor, nem ouvir a hochwohlgebildete Dame comentando sobre ela com uma amiga escandalizada. Ela se embalava e chorava alto e dizia “Ah, ah!”, comprimindo as mãos contra a boca.

— Foi ao dentista — guinchou uma velha gorda, estúpida demais para ser maldosa. — Na, sagen Sie ’mal, que dor de dente! A criança não ficou com um só na boca.

Enquanto o bonde balançava e tinia por um mundo cheio de velhos com joelhos trêmulos.

Quando a pequena governanta chegou ao saguão do Hotel Grunewald, o mesmo garçom que entrara em seu quarto pela manhã estava de pé junto à mesa, polindo uma bandeja de copos. A visão da pequena governanta pareceu enchê-lo de algum conteúdo importante e inexplicável. Ele estava pronto para a pergunta dela; sua resposta veio certeira e suave.

— Sim, Fräulein, a senhora esteve aqui. Eu lhe disse que a senhorita havia chegado e saído outra vez imediatamente com um cavalheiro. Ela me perguntou quando a senhorita voltaria — mas é claro que eu não podia dizer. E então foi falar com o gerente.

Pegou um copo da mesa, ergueu-o contra a luz, olhou para ele com um olho fechado e começou a poli-lo com a ponta do avental.

— ...?

— Perdão, Fräulein? Ach, não, Fräulein. O gerente não pôde lhe dizer nada — nada.

Sacudiu a cabeça e sorriu para o copo brilhante.

— Onde está a senhora agora? — perguntou a pequena governanta, estremecendo tão violentamente que teve de levar o lenço à boca.

— Como eu poderia saber? — exclamou o garçom.

E, ao passar num voo por ela para se lançar sobre um recém-chegado, seu coração batia com tanta força contra as costelas que ele quase soltou uma risadinha em voz alta. “É isso! é isso!”, pensou. “Isso há de ensiná-la.” E, ao erguer a caixa do recém-chegado sobre os ombros — hup! — como se fosse um gigante e a caixa uma pena, saboreou mais uma vez as palavras da pequena governanta:

“Gehen Sie. Gehen Sie sofort. Devo? Devo?” — gritou para si mesmo.

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