Feuille d’Album Êxtase e outros contos · Capítulo 10 de 14
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Ele era mesmo uma pessoa impossível. Tímido demais, absolutamente. Sem ter absolutamente nada a dizer de si. E que peso. Uma vez dentro do seu ateliê, nunca sabia a hora de ir embora; ficava sentado, sentado, até você quase gritar, e ardia de vontade de atirar alguma coisa enorme atrás dele quando afinal saía, ruborizado — alguma coisa como a estufa em forma de tartaruga. O estranho era que, à primeira vista, ele parecia interessantíssimo. Todos concordavam nisso. Você entrava à deriva no café, uma noite, e ali o via, sentado num canto, com um copo de café diante de si: um rapaz magro, moreno, vestindo uma malha azul com um casaquinho de flanela cinza abotoado por cima. E, de algum modo, aquela malha azul e o casaco cinza de mangas curtas demais lhe davam o ar de um menino que tomou a decisão de fugir para o mar. Que fugiu, de fato, e que vai se levantar dentro de um instante, prender na ponta de um pau uma trouxa feita de lenço, contendo a camisola de dormir e o retrato da mãe, e sair pela noite para se afogar... Talvez tropeçar na beira do cais a caminho do navio... Tinha cabelos negros cortados rente, olhos cinzentos de cílios compridos, faces brancas e uma boca franzida como se estivesse decidido a não chorar... Como resistir a ele? Oh, o coração da gente se apertava só de vê-lo. E, como se isso não bastasse, havia aquele seu hábito de corar... Sempre que o garçom se aproximava, ele ficava carmesim — podia ter acabado de sair da prisão, e o garçom saber de tudo...

— Quem é ele, minha querida? Você sabe?

— Sim. Chama-se Ian French. Pintor. Dizem que é terrivelmente talentoso. Alguém começou por lhe dedicar os ternos cuidados de uma mãe. Perguntou com que frequência ele tinha notícias de casa, se tinha cobertores suficientes na cama, quanto leite bebia por dia. Mas quando foi ao ateliê dele para dar uma olhada em suas meias, tocou e tocou a campainha, e embora pudesse jurar que ouvia alguém respirando lá dentro, ninguém abriu a porta... Caso perdido!

Outra pessoa decidiu que ele precisava se apaixonar. Chamou-o para junto de si, chamou-o de “menino”, inclinou-se sobre ele para que pudesse sentir o perfume encantador de seus cabelos, tomou-lhe o braço, disse-lhe como a vida podia ser maravilhosa se alguém tivesse apenas coragem, e foi ao ateliê dele certa noite e tocou e tocou a campainha... Caso perdido.

— O que o pobre rapaz precisa mesmo é de uma boa sacudida — disse uma terceira.

Então lá foram eles para cafés e cabarés, pequenos bailes, lugares onde se bebia algo com gosto de suco de damasco em lata, mas que custava vinte e sete xelins a garrafa e se chamava champanhe; outros lugares também, emocionantes demais para se descrever, onde se sentava numa penumbra terrível e onde alguém sempre havia sido baleado na noite anterior. Mas ele não se abalava. Só uma vez ficou muito bêbado, mas, em vez de desabrochar, ficou sentado ali, pétreo, com duas manchas vermelhas nas faces, como, minha querida, sim, a imagem viva daquela coisa de ragtime que estavam tocando, como uma “Boneca Quebrada”. Mas, quando ela o levou de volta ao ateliê, ele já se recuperara por completo e lhe disse “boa noite” na rua lá embaixo, como se tivessem voltado juntos da igreja... Caso perdido.

Depois de Deus sabe quantas outras tentativas — pois o espírito de bondade custa muito a morrer nas mulheres —, desistiram dele. É claro que continuavam perfeitamente encantadoras, e o convidavam para suas exposições, e falavam com ele no café, mas era só. Quando se é artista, não se tem tempo simplesmente para pessoas que não respondem. Tem-se?

— E, além disso, acho mesmo que deve haver alguma coisa meio suspeita em algum lugar... você não acha? Não pode ser tudo tão inocente quanto parece! Por que vir a Paris se você quer ser uma margarida no campo? Não, não sou desconfiada. Mas...

Ele morava no alto de um edifício alto e melancólico, com vista para o rio. Um desses edifícios que parecem tão românticos nas noites de chuva e nas noites de luar, quando as venezianas estão fechadas, e a porta pesada, e a placa anunciando “pequeno apartamento para alugar imediatamente” brilha de modo indizivelmente desolado. Um desses edifícios que cheiram tão pouco românticos o ano inteiro, e onde a concierge vive numa gaiola de vidro no térreo, embrulhada num xale imundo, mexendo alguma coisa numa panela e dando bocadinhos ao velho cão inchado que se espreguiça sobre uma almofada de contas... Empoleirado no ar, o ateliê tinha uma vista maravilhosa. As duas grandes janelas davam para a água; ele podia ver os barcos e as barcaças balançando para cima e para baixo, e a orla de uma ilha plantada de árvores, como um buquê redondo. A janela lateral dava para outra casa, ainda mais pobre e menor, e lá embaixo havia um mercado de flores. Podiam-se ver os topos de enormes guarda-chuvas, com franjas de flores vivas escapando deles, barracas cobertas por toldos listrados onde se vendiam plantas em caixas e touceiras de palmeiras molhadas, reluzentes, em vasos de terracota. Entre as flores, as velhas corriam de um lado para outro, como caranguejos. Na verdade, ele não precisava sair. Se ficasse sentado à janela até que a barba branca lhe caísse sobre o peitoril, ainda encontraria alguma coisa para desenhar...

Como ficariam surpresas aquelas mulheres ternas se tivessem conseguido arrombar a porta. Pois ele mantinha o ateliê limpo como um brinco. Tudo estava arranjado para formar um padrão, uma pequena “natureza-morta”, por assim dizer — as panelas com suas tampas na parede atrás do fogareiro a gás, a tigela de ovos, a leiteira e o bule na prateleira, os livros e a lâmpada com o abajur de papel enrugado sobre a mesa. Uma cortina indiana, com uma franja de leopardos vermelhos marchando ao redor, cobria sua cama durante o dia, e na parede ao lado da cama, na altura dos olhos quando se estava deitado, havia um pequeno aviso impresso com capricho: LEVANTE-SE IMEDIATAMENTE.

Todos os dias eram quase iguais. Enquanto a luz era boa, ele se matava pintando; depois cozinhava suas refeições e arrumava o lugar. E, à noite, ia ao café, ou ficava em casa lendo, ou elaborando a mais complicada lista de despesas, intitulada: “Com quanto eu deveria ser capaz de viver”, e terminando com uma declaração juramentada... “Juro não exceder esta quantia no próximo mês. Assinado, Ian French.”

Nada de muito suspeito nisso; mas aquelas mulheres de longo alcance estavam absolutamente certas. Não era tudo.

Certa noite, ele estava sentado à janela lateral, comendo ameixas secas e atirando os caroços sobre os topos dos enormes guarda-chuvas no mercado de flores deserto. Chovera — caíra a primeira verdadeira chuva de primavera do ano —, um brilho vivo de lantejoulas pendia de tudo, e o ar cheirava a brotos e terra úmida. Muitas vozes, soando lânguidas e satisfeitas, ressoavam no ar crepuscular, e as pessoas que tinham vindo fechar as janelas e prender as venezianas inclinavam-se para fora, em vez disso. Lá embaixo, no mercado, as árvores estavam salpicadas de verde novo. Que espécie de árvores seriam?, perguntou-se. E agora vinha o acendedor de lampiões. Ele encarou a casa do outro lado, a casa pequena e pobre, e de repente, como se em resposta a seu olhar, duas asas de janela se abriram e uma moça saiu para a sacadinha carregando um vaso de narcisos. Era uma moça estranhamente magra, com um avental escuro e um lenço cor-de-rosa amarrado sobre os cabelos. As mangas estavam arregaçadas quase até os ombros, e seus braços delgados brilhavam contra o tecido escuro.

— Sim, está quente o bastante. Vai lhes fazer bem — disse ela, pousando o vaso e voltando-se para alguém dentro do quarto. Ao se virar, levou as mãos ao lenço e escondeu algumas mechas de cabelo. Olhou para baixo, para o mercado deserto, e para cima, para o céu; mas, onde ele estava sentado, poderia haver uma cavidade no ar. Ela simplesmente não viu a casa em frente. E então desapareceu.

O coração dele caiu pela janela lateral do ateliê e desceu até a sacada da casa em frente — enterrou-se no vaso de narcisos, sob os botões meio abertos e as lanças verdes... Aquele quarto com a sacada era a sala de estar, e o quarto ao lado era a cozinha. Ele ouviu o barulho dos pratos enquanto ela os lavava depois do jantar, e então ela veio à janela, bateu um pequeno esfregão contra o peitoril e o pendurou num prego para secar. Ela nunca cantava, nem destrançava os cabelos, nem estendia os braços para a lua, como se supõe que as moças façam. E usava sempre o mesmo avental escuro e o lenço cor-de-rosa sobre os cabelos... Com quem morava? Ninguém mais aparecia naquelas duas janelas, e no entanto ela estava sempre falando com alguém no quarto. A mãe, decidiu ele, era inválida. Elas costuravam para fora. O pai estava morto... Fora jornalista — muito pálido, com longos bigodes, e uma mecha de cabelo preto caindo sobre a testa.

Trabalhando o dia inteiro, elas ganhavam apenas o bastante para viver, mas nunca saíam e não tinham amigos. Agora, quando ele se sentava à mesa, precisava redigir uma série inteiramente nova de declarações juramentadas... Não ir à janela lateral antes de certa hora: assinado, Ian French. Não pensar nela até ter guardado os materiais de pintura do dia: assinado, Ian French.

Era muito simples. Ela era a única pessoa que ele realmente queria conhecer, porque era, decidiu, a única outra pessoa viva que tinha exatamente a sua idade. Ele não suportava meninas risonhas, e não tinha utilidade alguma para mulheres adultas... Ela tinha sua idade, ela era — bem, exatamente como ele. Sentava-se no ateliê sombrio, cansado, com um braço pendendo sobre o encosto da cadeira, olhando para dentro da janela dela e vendo a si mesmo lá dentro, com ela. Ela tinha um temperamento violento; às vezes brigavam terrivelmente, ele e ela. Ela tinha um jeito de bater o pé e torcer as mãos no avental... furiosa. E raríssimas vezes ria. Só quando lhe contava sobre uma gatinha absurda que tivera certa vez, que rugia e fingia ser um leão quando lhe davam carne para comer. Coisas assim a faziam rir... Mas, em geral, sentavam-se juntos, muito quietos; ele, exatamente como estava sentado agora, e ela com as mãos cruzadas no colo e os pés encolhidos debaixo de si, conversando em voz baixa, ou silenciosos e cansados depois do trabalho do dia. É claro que ela nunca lhe perguntava sobre os quadros, e é claro que ele fazia os desenhos mais maravilhosos dela, que ela odiava, porque ele a fazia tão magra e tão escura... Mas como poderia conhecê-la? Aquilo poderia continuar por anos...

Então descobriu que uma vez por semana, à noite, ela saía para fazer compras. Em duas quintas-feiras seguidas, ela apareceu à janela usando uma capa antiquada por cima do avental e carregando uma cesta. De onde ele estava sentado, não podia ver a porta da casa dela; mas, na quinta-feira seguinte, à mesma hora, agarrou o boné e desceu correndo as escadas. Havia uma adorável luz rosada sobre tudo. Ele a viu reluzindo no rio, e as pessoas que caminhavam em sua direção tinham rostos rosados e mãos rosadas.

Encostou-se à lateral de sua casa, esperando por ela, sem a menor ideia do que faria ou diria. “Lá vem ela”, disse uma voz em sua cabeça. Ela caminhava muito depressa, com passos pequenos e leves; com uma das mãos carregava a cesta, com a outra mantinha a capa fechada... O que poderia fazer? Só podia segui-la... Primeiro ela entrou na mercearia e passou um bom tempo ali, depois foi ao açougue, onde teve de esperar sua vez. Depois levou uma eternidade na loja de tecidos, combinando alguma coisa, e então foi à frutaria e comprou um limão. Enquanto a observava, ele soube com mais certeza do que nunca que precisava conhecê-la, agora. Sua compostura, sua seriedade e sua solidão, o próprio modo como andava, como se estivesse ansiosa por acabar logo com todo aquele mundo de adultos, era tão natural para ele e tão inevitável.

“Sim, ela é sempre assim”, pensou com orgulho. “Nós não temos nada a ver com essa gente.”

Mas agora ela estava voltando para casa, e ele continuava tão distante como sempre... De repente, ela entrou na leiteria, e ele a viu pela vitrine comprando um ovo. Ela o escolheu da cesta com tanto cuidado — um ovo marrom, de formato belíssimo, aquele que ele teria escolhido. E, quando ela saiu da leiteria, ele entrou depois dela. Num instante estava do lado de fora outra vez, seguindo-a além de sua casa, através do mercado de flores, desviando-se entre os enormes guarda-chuvas e pisando nas flores caídas e nas marcas redondas onde os vasos haviam estado... Entrou furtivamente pela porta dela e subiu as escadas atrás dela, tomando cuidado para pisar no mesmo ritmo, para que ela não notasse. Por fim, ela parou no patamar e tirou a chave da bolsa. Quando a enfiou na porta, ele correu até ela e se pôs à sua frente.

Corando mais carmesim que nunca, mas olhando-a com severidade, disse, quase zangado:

— Com licença, Mademoiselle, a senhorita deixou cair isto.

E lhe entregou um ovo.

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