Revelações
Das oito horas da manhã até cerca de onze e meia, Monica Tyrell sofria dos nervos, e sofria tão terrivelmente que essas horas eram — agonizantes, simplesmente. Não era como se pudesse controlá-los. “Talvez se eu fosse dez anos mais moça...”, costumava dizer. Pois agora que tinha trinta e três anos adquirira uma estranha maniazinha de se referir à própria idade em todas as ocasiões, de olhar para as amigas com olhos graves e infantis e dizer: “Sim, lembro-me de como, há vinte anos...” ou de chamar a atenção de Ralph para as moças — moças de verdade —, com lindos braços e pescoços juvenis e movimentos rápidos, hesitantes, que se sentavam perto deles nos restaurantes. “Talvez se eu fosse dez anos mais moça...”
— Por que você não manda Marie se sentar do lado de fora da sua porta e proibir terminantemente qualquer pessoa de se aproximar do seu quarto até você tocar a campainha?
— Oh, se fosse simples assim! — Ela atirou as luvinhas no chão e comprimiu as pálpebras com os dedos daquele modo que ele conhecia tão bem. — Mas, em primeiro lugar, eu ficaria tão consciente de Marie sentada ali, Marie sacudindo o dedo para Rudd e Mrs. Moon, Marie como uma espécie de cruzamento entre carcereira e enfermeira de doentes mentais! E depois há o correio. Não se pode contornar o fato de que o correio chega, e, uma vez que chegou, quem — quem — conseguiria esperar até as onze para ver as cartas?
Os olhos dele brilharam; ele a estreitou, rápido, leve.
— As minhas cartas, querida?
— Talvez — arrastou ela, suavemente, e passou a mão pelos cabelos avermelhados dele, sorrindo também, mas pensando: “Céus! Que coisa idiota para dizer!”
Mas naquela manhã ela fora despertada por uma grande batida da porta da frente. Bum. O apartamento estremeceu. O que era aquilo? Ela se ergueu de um salto na cama, agarrando o edredom; o coração batia. O que poderia ser? Então ouviu vozes no corredor. Marie bateu, e, quando a porta se abriu, com um rasgo agudo, saíram voando a persiana e as cortinas, retesando-se, batendo, sacudindo. O pingente da persiana batia — batia contra a janela.
— Eh-h, voilà! — gritou Marie, pousando a bandeja e correndo. — C’est le vent, Madame. C’est un vent insupportable.
A persiana subiu enrolando; a janela ergueu-se num solavanco; uma luz esbranquiçada, acinzentada, encheu o quarto. Monica entreviu um imenso céu pálido e uma nuvem como uma camisa rasgada se arrastando através dele antes de esconder os olhos com a manga.
— Marie! As cortinas! Depressa, as cortinas!
Monica caiu de volta na cama e então “trim-tim-a-pim-pim, trim-tim-a-pim-pim”. Era o telefone. O limite de seu sofrimento fora alcançado; ela ficou completamente calma.
— Vá ver, Marie.
— É Monsieur. Para saber se Madame almoçará no Princes’ à uma e meia hoje.
Sim, era o próprio Monsieur. Sim, ele pedira que a mensagem fosse dada a Madame imediatamente. Em vez de responder, Monica pousou a xícara e perguntou a Marie, numa vozinha assombrada, que horas eram. Eram nove e meia. Ela ficou imóvel e semicerrrou os olhos.
— Diga a Monsieur que não posso ir — disse suavemente.
Mas, assim que a porta se fechou, a raiva — a raiva de súbito a agarrou de perto, muito perto, violenta, quase a estrangulando. Como ele ousava? Como Ralph ousava fazer tal coisa quando sabia que seus nervos eram agonizantes de manhã! Ela não lhe explicara, descrevera e até — embora de leve, é claro; não podia dizer uma coisa dessas diretamente — lhe dera a entender que aquela era a única coisa imperdoável?
E ainda escolher essa manhã horrível de vento. Será que ele achava que era apenas uma mania dela, uma pequena tolice feminina a ser ridicularizada e posta de lado? Ora, só na noite anterior ela dissera: “Ah, mas você precisa me levar a sério também.” E ele respondera: “Minha querida, você não vai acreditar, mas eu a conheço infinitamente melhor do que você conhece a si mesma. Cada pensamento e sentimento delicado seu eu reverencio, eu entesouro. Sim, ria! Amo o modo como seu lábio se levanta” — e ele se inclinara sobre a mesa — “não me importa quem veja que eu adoro tudo em você. Eu estaria com você no alto de uma montanha e deixaria todos os holofotes do mundo incidirem sobre nós.”
“Céus!” Monica quase levou as mãos à cabeça. Era possível que ele tivesse dito realmente aquilo? Como os homens eram incríveis! E ela o amara — como podia ter amado um homem que falava assim? O que estivera fazendo desde aquele jantar, meses antes, quando ele a acompanhara até em casa e perguntara se poderia vir “ver outra vez aquele lento sorriso árabe”? Oh, que absurdo — que absoluto absurdo —, e no entanto ela se lembrava de ter sentido na ocasião um estranho arrepio profundo, diferente de tudo o que já sentira.
— Carvão! Carvão! Carvão! Ferro-velho! Ferro-velho! Ferro-velho! — soou lá de baixo.
Estava tudo acabado. Compreendê-la? Ele não compreendera nada. Telefonar para ela numa manhã de vento era imensamente significativo. Será que ele compreenderia isso? Ela quase poderia ter rido. “Você me telefonou quando a pessoa que me compreendesse simplesmente não poderia fazê-lo.” Era o fim. E, quando Marie disse: “Monsieur respondeu que ficará no vestíbulo, caso Madame mude de ideia”, Monica disse:
— Não verbena, Marie. Cravos. Dois punhados.
Uma manhã branca e selvagem, um vento que rasgava e sacudia. Monica sentou-se diante do espelho. Estava pálida. A criada penteou para trás seus cabelos escuros — penteou-os todos para trás —, e seu rosto ficou como uma máscara, com pálpebras pontiagudas e lábios vermelho-escuros. Enquanto se fitava no vidro azulado e sombrio, de repente sentiu — oh, a mais estranha, a mais tremenda excitação enchendo-a devagar, devagar, até que teve vontade de abrir os braços, de rir, de espalhar tudo, de chocar Marie, de gritar: “Estou livre. Estou livre. Livre como o vento.” E agora todo esse mundo vibrante, trêmulo, excitante, voador, era seu. Era seu reino. Não, não, ela não pertencia a ninguém senão à Vida.
— Basta, Marie — balbuciou. — Meu chapéu, meu casaco, minha bolsa. E agora arranje-me um táxi.
Aonde ia? Oh, a qualquer lugar. Não suportava aquele apartamento silencioso, Marie sem ruído, aquele interior feminino, fantasmagórico, quieto. Precisava sair; precisava ir depressa num carro — a qualquer lugar, a qualquer lugar.
— O táxi está aí, Madame.
Ao abrir com força as grandes portas externas do prédio, o vento selvagem a agarrou e a fez flutuar pela calçada. Para onde? Ela entrou e, sorrindo radiante para o motorista de aparência contrariada e fria, disse-lhe que a levasse ao cabeleireiro. O que teria feito sem seu cabeleireiro? Sempre que Monica não tinha outro lugar aonde ir ou nada no mundo a fazer, ia para lá. Talvez apenas ondulasse os cabelos, e até lá teria elaborado um plano. O motorista contrariado e frio dirigia a uma velocidade tremenda, e ela se deixou arremessar de um lado para o outro. Queria que ele fosse cada vez mais depressa. Oh, libertar-se do Princes’ à uma e meia, de ser a gatinha minúscula na cesta de penugem de cisne, de ser a árabe, e a criança grave e encantada, e a criaturinha selvagem...
— Nunca mais — gritou em voz alta, cerrando o pequeno punho.
Mas o táxi havia parado, e o motorista estava de pé, segurando a porta aberta para ela.
A loja do cabeleireiro era quente e cintilante. Cheirava a sabonete, papel queimado e brilhantina de goivo. Lá estava Madame atrás do balcão, redonda, gorda, branca, a cabeça como uma almofada de pó de arroz rolando sobre uma almofadinha de alfinetes de cetim preto. Monica sempre tinha a sensação de que a amavam naquela loja e a compreendiam — a ela de verdade — muito melhor do que muitas de suas amigas. Ali era seu verdadeiro eu, e ela e Madame muitas vezes haviam conversado — de modo bastante estranho — uma com a outra. Depois havia George, que lhe fazia o cabelo, jovem, moreno, esbelto George. Ela gostava muito dele.
Mas hoje — que curioso! Madame mal a cumprimentou. Seu rosto estava mais branco do que nunca, mas aros de vermelho vivo apareciam ao redor de seus olhos de contas azuis, e nem mesmo os anéis em seus dedos gorduchos faiscavam. Estavam frios, mortos, como lascas de vidro. Quando chamou George pelo telefone interno, havia em sua voz uma nota que nunca estivera ali antes. Mas Monica não queria acreditar nisso. Não, recusava-se. Era apenas sua imaginação. Aspirou avidamente o ar quente e perfumado e passou por trás da cortina de veludo para o pequeno cubículo.
Seu chapéu e o casaco estavam fora e pendurados no cabide, e ainda assim George não veio. Era a primeira vez que ele não estava ali para segurar a cadeira para ela, para tirar-lhe o chapéu e pendurar sua bolsa, balançando-a nos dedos como se fosse algo que nunca tivesse visto antes — algo de fada. E como a loja estava quieta! Não vinha som algum nem mesmo de Madame. Apenas o vento soprava, sacudindo a velha casa; o vento uivava, e os retratos de Damas do Período Pompadour olhavam de cima e sorriam, astutos e dissimulados. Monica desejou não ter vindo. Oh, que erro ter vindo! Fatal. Fatal. Onde estava George? Se ele não aparecesse no instante seguinte, ela iria embora. Tirou o quimono branco. Não queria mais olhar para si. Quando abriu um pote grande de creme na prateleira de vidro, seus dedos tremiam. Havia uma sensação de puxão em seu coração, como se sua felicidade — sua maravilhosa felicidade — estivesse tentando se libertar.
“Irei embora. Não vou ficar.”
Pegou o chapéu. Mas, nesse exato momento, passos soaram e, olhando no espelho, ela viu George fazendo uma reverência à porta. Como ele sorria de modo estranho! Era o espelho, é claro. Ela se virou depressa. Os lábios dele se curvavam para trás numa espécie de esgar e — não estava por fazer a barba? — seu rosto parecia quase verde.
— Mil perdões por tê-la feito esperar — murmurou, deslizando, escorregando para a frente.
Oh, não, ela não ia ficar.
— Receio... — começou.
Mas ele já acendera o gás e pusera as tenazes atravessadas sobre a chama, e estava lhe estendendo o quimono.
— Que vento — disse ele.
Monica se submeteu. Sentiu o cheiro dos dedos jovens e frescos dele prendendo a roupa sob seu queixo.
— Sim, há vento — disse ela, afundando na cadeira.
E caiu o silêncio. George retirou os grampos à sua maneira experiente. Seus cabelos tombaram para trás, mas ele não os segurou como costumava fazer, como que para sentir o quanto eram finos, macios e pesados. Não disse que estavam “em esplêndida condição”. Deixou-os cair e, tirando uma escova de uma gaveta, tossiu de leve, limpou a garganta e disse opacamente:
— Sim, eu diria que é dos fortes.
Ela não tinha resposta a dar. A escova caiu sobre seus cabelos. Oh, oh, que luto, que luto! Caía rápida e leve, caía como folhas; e então caía pesada, puxando como o puxão em seu coração.
— Já basta — exclamou, libertando-se com um movimento.
— Fiz demais? — perguntou George. Agachou-se sobre as tenazes. — Desculpe.
Veio o cheiro de papel queimado — o cheiro que ela amava —, e ele girou as tenazes quentes na mão, fitando o vazio.
— Não me surpreenderia se chovesse.
Pegou uma mecha de seus cabelos, quando — ela não podia suportar mais — o deteve. Olhou para ele; viu a si mesma olhando para ele no quimono branco, como uma freira.
— Há algo errado aqui? Aconteceu alguma coisa?
Mas George deu de ombros pela metade e fez uma careta.
— Oh, não, Madame. Apenas uma pequena ocorrência.
E tornou a pegar a mecha de cabelo. Mas, oh, ela não estava enganada. Era isso. Algo terrível havia acontecido. O silêncio — realmente, o silêncio parecia vir descendo em flocos de neve. Ela estremeceu. Estava frio no pequeno cubículo, tudo frio e cintilante. As torneiras de níquel, os bicos e os pulverizadores pareciam, de algum modo, quase malignos. O vento sacudia o caixilho da janela; um pedaço de ferro batia, e o jovem continuava trocando as tenazes, curvado sobre ela. Oh, como a Vida era aterradora, pensou Monica. Como era terrível. É a solidão que é tão apavorante. Rodopiamos como folhas, e ninguém sabe — ninguém se importa onde caímos, em que rio negro flutuamos para longe. A sensação de puxão pareceu subir para sua garganta. Doía, doía; ela ansiava por chorar.
— Basta — sussurrou. — Dê-me os grampos.
Enquanto ele permanecia ao seu lado, tão submisso, tão silencioso, ela quase deixou cair os braços e soluçou. Não podia suportar mais. Como um homem de madeira, o jovem e alegre George ainda deslizou, escorregou, entregou-lhe o chapéu e o véu, pegou a nota e trouxe o troco. Ela o enfiou na bolsa. Para onde ia agora?
George pegou uma escova.
— Há um pouco de pó no seu casaco — murmurou.
Escovou-o. E então, de repente, endireitou-se e, olhando para Monica, fez um estranho gesto com a escova e disse:
— A verdade é que, Madame, já que a senhora é uma cliente antiga — minha filhinha morreu esta manhã. A primeira filha.
E então seu rosto branco amarrotou-se como papel, e ele lhe deu as costas e começou a escovar o quimono de algodão.
— Oh, oh — Monica começou a chorar.
Saiu correndo da loja para dentro do táxi. O motorista, com ar furioso, desceu do assento e bateu a porta de novo.
— Para onde?
— Princes’ — soluçou ela.
E durante todo o caminho até lá não viu nada além de uma minúscula boneca de cera com uma pena de cabelo dourado, deitada dócil, as mãozinhas e os pezinhos cruzados. E então, pouco antes de chegar ao Princes’, viu uma floricultura cheia de flores brancas. Oh, que pensamento perfeito. Lírios-do-vale, amores-perfeitos brancos, violetas brancas dobradas e fita de veludo branco... De uma amiga desconhecida... De alguém que compreende... Para uma Menininha... Ela bateu no vidro, mas o motorista não ouviu; e, de todo modo, já estavam no Princes’.