O homem sem temperamento
Ele estava à porta do vestíbulo, girando o anel, girando o pesado anel de sinete no dedo mínimo, enquanto seu olhar percorria friamente, deliberadamente, as mesas redondas e as cadeiras de vime espalhadas pela varanda envidraçada. Franziu os lábios — poderia estar prestes a assobiar — mas não assobiou — apenas girou o anel — girou o anel em suas mãos rosadas, recém-lavadas.
No canto, estavam sentadas as Duas de Coque, bebendo uma decocção que sempre bebiam àquela hora — alguma coisa esbranquiçada, acinzentada, em copos, com pequenas cascas boiando por cima — e remexendo numa lata cheia de aparas de papel à procura de pedaços de biscoito salpicado, que quebravam, deixavam cair nos copos e pescavam com colheres. Seus dois rolos de tricô, como duas cobras, dormiam ao lado da bandeja.
A Mulher Americana sentava-se onde sempre se sentava, contra a parede de vidro, à sombra de uma grande coisa rastejante, de olhos roxos muito abertos, que se comprimia — que se achatava contra o vidro, observando-a avidamente. E ela sabia que aquilo estava ali — sabia que olhava para ela daquele jeito. Fazia cena para aquilo; dava-se pequenos ares. Às vezes chegava a apontar para aquilo, exclamando:
— Não é a coisa mais terrível que você já viu? Não é macabro?
Estava do outro lado da varanda, afinal... e, além disso, não podia tocá-la, podia, Klaymongso? Ela era uma Mulher Americana, não era, Klaymongso, e simplesmente iria direto ao seu cônsul. Klaymongso, enrolado em seu colo, com sua bolsa antiga de brocado rasgado, um lenço encardido e uma pilha de cartas de casa sobre ele, espirrou em resposta.
As outras mesas estavam vazias. Um olhar passou entre a Americana e as Duas de Coque. Ela deu um pequeno encolher de ombros estrangeiro; elas agitaram um biscoito compreensivo. Mas ele não viu nada. Agora estava imóvel, agora via-se por seus olhos que escutava. “Hoo-e-zip-zoo-oo!” soou o elevador. A gaiola de ferro se abriu com estrondo. Passos leves, arrastados, soaram pelo vestíbulo, vindo em sua direção. Uma mão, como uma folha, caiu sobre seu ombro. Uma voz suave disse:
— Vamos sentar ali — onde possamos ver a entrada. As árvores estão tão lindas.
E ele avançou com a mão ainda em seu ombro, e os passos leves, arrastados, ao lado dos seus. Puxou uma cadeira e ela afundou nela, devagar, encostando a cabeça no espaldar, os braços caindo pelos lados.
— Você não traz a outra para mais perto? Está a quilômetros de distância.
Mas ele não se moveu.
— Onde está seu xale? — perguntou.
— Oh! — Ela deu um pequeno gemido de consternação. — Que tolice a minha, deixei-o lá em cima, na cama. Não faz mal. Por favor, não vá buscá-lo. Não vou precisar dele, sei que não.
— É melhor você tê-lo.
E ele se virou e atravessou rapidamente a varanda para dentro do vestíbulo sombrio, com seus móveis de pelúcia escarlate e dourados — móveis de prestidigitador —, seu Aviso de Ofícios na Igreja Inglesa, seu quadro de baeta verde com as cartas não reclamadas subindo pela treliça preta, o enorme relógio de “Apresentação” que batia as horas nas meias-horas, feixes de bengalas, guarda-chuvas e sombrinhas no abraço de um urso de madeira marrom, passando pelas duas palmeiras aleijadas, duas mendigas antigas ao pé da escada, subindo os degraus de mármore de três em três, passando pelo grupo em tamanho natural no patamar, de duas crianças camponesas gorduchas com seus aventais de mármore cheios de uvas de mármore, e ao longo do corredor, com seus destroços empilhados de velhas caixas de lata, malas de couro, sacolas de lona, até o quarto deles.
A criada estava no quarto, cantando alto enquanto despejava água ensaboada num balde. As janelas estavam escancaradas, as venezianas abertas, e a luz entrava em clarão. Ela havia jogado os tapetes e os grandes travesseiros brancos sobre os gradis da sacada; as redes mosquiteiras estavam suspensas das camas; sobre a escrivaninha havia uma panela cheia de fiapos e pontas de fósforo. Quando o viu, seus olhinhos insolentes faiscaram, e seu canto mudou para um murmúrio. Mas ele não deu sinal. Seus olhos vasculharam o quarto ofuscante. Onde diabo estava o xale!
— Vous désirez, Monsieur? — zombou a criada.
Nenhuma resposta. Ele o vira. Atravessou o quarto a passos largos, agarrou a teia de aranha cinzenta e saiu, batendo a porta. A voz da criada, no mais alto e estridente que podia, seguiu-o pelo corredor.
— Oh, aí está você. O que aconteceu? O que o deteve? O chá está aqui, veja. Acabo de mandar Antonio buscar a água quente. Não é extraordinário? Devo ter falado com ele pelo menos umas sessenta vezes sobre isso, e ainda assim ele não a traz. Obrigada. Isso está muito bom. A gente sente mesmo o ar quando se inclina para a frente.
— Obrigado.
Ele pegou o chá e se sentou na outra cadeira.
— Não, nada de comer.
— Oh, coma! Só um, você comeu tão pouco no almoço e ainda faltam horas para o jantar.
O xale dela escorregou enquanto se inclinava para lhe passar os biscoitos. Ele pegou um e o pôs no pires.
— Oh, aquelas árvores ao longo da entrada — exclamou ela —, eu poderia olhá-las para sempre. São como as mais requintadas samambaias gigantes. E você vê aquela ali, de casca cinza-prateada e cachos de flores cor de creme? Ontem puxei para baixo uma cabeça delas para sentir o cheiro, e o perfume — ela fechou os olhos à lembrança, e sua voz se afinou, débil, aérea — era como noz-moscada recém-moída.
Uma pequena pausa. Ela se virou para ele e sorriu.
— Você sabe que cheiro tem a noz-moscada — sabe, Robert?
E ele sorriu de volta para ela.
— Agora, como vou provar a você que sei?
Antonio voltou não apenas com a água quente — com cartas numa salva e três rolos de jornal.
— Oh, o correio! Oh, que maravilha! Oh, Robert, não podem ser todas para você! Acabaram de chegar, Antonio?
As mãos finas dela voaram para cima e pairaram sobre as cartas que Antonio lhe oferecia, inclinando-se para a frente.
— Neste instante, Signora — sorriu Antonio. — Eu peguei-as do carteiro eu mesmo. Eu fiz o carteiro dá-las para mim.
— Nobre Antonio! — riu ela. — Pronto — estas são minhas, Robert; as outras são suas.
Antonio girou bruscamente, enrijeceu, o sorriso desapareceu de seu rosto. A jaqueta listrada de linho e a franja lisa, reluzente, faziam-no parecer um boneco de madeira.
Mr. Salesby pôs as cartas no bolso; os jornais ficaram sobre a mesa. Girou o anel, girou o anel de sinete no dedo mínimo e ficou olhando à sua frente, piscando, vazio.
Mas ela — com a xícara de chá numa mão, as folhas de papel fino na outra, a cabeça inclinada para trás, os lábios abertos, uma pincelada de cor viva nas maçãs do rosto — sorvia, sorvia, bebia... bebia...
— De Lottie — veio seu murmúrio suave. — Pobrezinha... tanto problema... pé esquerdo. Ela pensou... neurite... doutor Blyth... pé chato... massagem. Tantos pintarroxos este ano... criada muito satisfatória... coronel indiano... cada grão de arroz separado... nevasca muito forte.
E seus olhos amplos, iluminados, ergueram-se da carta.
— Neve, Robert! Pense nisso!
E tocou as violetinhas escuras presas ao peito magro e voltou à carta.
...Neve. Neve em Londres. Millie com a xícara de chá da manhã cedo. “Caiu uma neve terrível durante a noite, Sir.” “Ah, caiu, Millie?” As cortinas se separam nos varões, deixando entrar a luz pálida, relutante. Ele se ergue na cama; entrevê as casas sólidas em frente emolduradas de branco, as jardineiras cheias de grandes ramos de coral branco... No banheiro — com vista para o jardim dos fundos. Neve — neve pesada sobre tudo. O gramado está coberto por um desenho ondulado de patas de gato; há uma camada espessa, espessa, de glacê sobre a mesa do jardim; as vagens murchas do laburno são borlas brancas; só aqui e ali, na hera, aparece uma folha escura... Aquecendo as costas junto ao fogo da sala de jantar, o jornal secando sobre uma cadeira. Millie com o bacon. “Oh, se me permite, Sir, vieram dois menininhos que limpam os degraus e a frente por um xelim, devo deixá-los?”... E então descendo leve, leve, as escadas — Jinnie. “Oh, Robert, não é maravilhoso! Oh, que pena que tenha de derreter. Onde está o bichaninho?” “Vou pegá-lo com Millie”... “Millie, será que você poderia me passar o gatinho, se ele estiver aí embaixo?” “Pois não, Sir.” Ele sente o pequeno coração batendo sob a mão. “Venha, velho companheiro, sua Dona quer você.” “Oh, Robert, mostre a neve a ele — a primeira neve dele. Posso abrir a janela e dar-lhe um pedacinho na pata para segurar?...”
— Bem, no conjunto, isso é muito satisfatório — muito. Pobre Lottie! Querida Anne! Como eu gostaria de poder mandar-lhes um pouco disto — exclamou ela, agitando as cartas para o jardim brilhante, deslumbrante. — Mais chá, Robert? Robert querido, mais chá?
— Não, obrigado, não. Estava muito bom — arrastou ele.
— Bem, o meu não estava. O meu estava como feno picado. Oh, aí vem o Casal em Lua de Mel.
Meio a passos largos, meio correndo, carregando uma cesta entre os dois, varas e linhas, eles subiram pela entrada, subiram os degraus rasos.
— Meu Deus! Vocês foram pescar? — gritou a Mulher Americana.
Estavam sem fôlego, ofegavam:
— Sim, sim, estivemos o dia todo num barquinho. Pegamos sete. Quatro são bons de comer. Mas três vamos dar. Para as crianças.
Mrs. Salesby virou a cadeira para olhar; as Duas de Coque depuseram as cobras. Eram um casal muito moreno — cabelos negros, pele oliva, olhos e dentes brilhantes. Ele estava vestido “à moda inglesa”, com uma jaqueta de flanela, calças e sapatos brancos. Em torno do pescoço usava um lenço de seda; a cabeça, com os cabelos penteados para trás, estava descoberta. E continuava enxugando a testa, esfregando as mãos com um lenço brilhante. A saia branca dela tinha uma mancha molhada; seu pescoço e sua garganta estavam tingidos de um rosa intenso. Quando erguia os braços, grandes semicírculos de suor apareciam debaixo das axilas; seus cabelos grudavam em cachos úmidos nas faces. Parecia que o jovem marido a estivera mergulhando no mar e pescando-a de novo para secar ao sol e depois — dentro com ela outra vez — o dia inteiro.
— Klaymongso gostaria de um peixe? — gritaram.
Suas vozes risonhas, carregadas de excitação, batiam contra a varanda envidraçada como pássaros, e um estranho cheiro salgado vinha da cesta.
— Vocês vão dormir bem esta noite — disse uma das Duas de Coque, limpando a orelha com uma agulha de tricô, enquanto a outra sorria e assentia.
O Casal em Lua de Mel olhou um para o outro. Uma grande onda pareceu passar sobre eles. Ofegaram, engoliram em seco, cambalearam um pouco e então vieram à tona rindo — rindo.
— Não podemos subir, estamos cansados demais. Precisamos tomar chá assim mesmo. Aqui — café. Não — chá. Não — café. Chá — café, Antonio!
Mrs. Salesby virou-se.
— Robert! Robert!
Onde estava ele? Não estava ali. Oh, ali estava, no outro extremo da varanda, de costas, fumando um cigarro.
— Robert, vamos dar nossa voltinha?
— Certo.
Ele esmagou o cigarro num cinzeiro e foi se aproximando devagar, os olhos no chão.
— Você estará aquecida o bastante?
— Oh, perfeitamente.
— Tem certeza?
— Bem — ela pôs a mão no braço dele —, talvez — e deu no braço dele a pressão mais leve possível — não está lá em cima, está só no vestíbulo — talvez você pudesse pegar minha capa. Pendurada.
Ele voltou com ela, e ela inclinou a cabecinha enquanto ele a deixava cair sobre seus ombros. Então, muito rígido, ofereceu-lhe o braço. Ela fez uma doce inclinação às pessoas na varanda, enquanto ele apenas encobria um bocejo, e desceram juntos os degraus.
— Vous avez vu ça! — disse a Mulher Americana.
— Ele não é homem — disseram as Duas de Coque —, é um boi. Eu digo à minha irmã de manhã e à noite, quando estamos na cama, digo a ela — não é homem, é um boi!
Rodopiando, tombando, precipitando-se, o riso do Casal em Lua de Mel arremessou-se contra o vidro da varanda.
O sol ainda estava alto. Cada folha, cada flor no jardim jazia aberta, imóvel, como se exausta, e um cheiro doce, rico, forte, enchia o ar trêmulo. Das folhas grossas, carnudas, de um cacto erguia-se um talo de aloé carregado de flores pálidas que pareciam recortadas em manteiga; a luz faiscava nas lanças erguidas das palmeiras; sobre um canteiro de flores escarlates, cerosas, alguns grandes insetos negros faziam “zum-zum”; uma grande trepadeira vistosa, laranja salpicada de azeviche, espalhava-se contra uma parede.
— Afinal, não preciso da capa — disse ela. — Está quente demais, de verdade.
Então ele a tirou e a carregou sobre o braço.
— Vamos por este caminho aqui. Estou me sentindo tão bem hoje — maravilhosamente melhor. Meu Deus — olhe aquelas crianças! E pensar que é novembro!
Num canto do jardim havia duas tinas transbordantes de água. Três menininhas, tendo prudentemente tirado as calçolas e as pendurado num arbusto, com as saias presas à cintura, estavam de pé nas tinas, pisoteando para cima e para baixo. Gritavam, os cabelos lhes caíam sobre o rosto, respingavam umas nas outras. Mas de repente a menor, que tinha uma tina só para si, ergueu os olhos e viu quem estava olhando. Por um momento pareceu tomada de terror; então, desajeitada, lutou e fez esforço para sair de sua tina, ainda segurando as roupas acima da cintura.
— O inglês! O inglês! — guinchou e fugiu para se esconder.
Gritando e berrando, as outras duas a seguiram. Num instante tinham ido embora; num instante não havia nada além das duas tinas transbordantes e suas calçolinhas no arbusto.
— Que coisa — muito — extraordinária! — disse ela. — O que as deixou tão assustadas? Com certeza eram novas demais para...
Ela ergueu os olhos para ele. Achou que ele parecia pálido — mas extraordinariamente belo, com aquela grande árvore tropical atrás dele e seus longos espinhos pontiagudos.
Por um momento ele não respondeu. Então encontrou seu olhar e, sorrindo seu sorriso lento:
— Très rum! — disse.
Très rum! Oh, ela se sentiu quase desfalecer. Oh, por que o amava tanto só porque dizia uma coisa assim? Très rum! Aquilo era Robert inteiro. Ninguém senão Robert poderia jamais dizer uma coisa dessas. Ser tão maravilhoso, tão brilhante, tão culto, e depois dizer, naquela voz estranha, de menino... Ela poderia ter chorado.
— Sabe que você às vezes é muito absurdo — disse ela.
— Sou — respondeu ele.
E continuaram andando.
Mas ela estava cansada. Já bastava. Não queria andar mais.
— Deixe-me aqui e vá fazer um pouco de exercício, quer? Ficarei numa destas espreguiçadeiras. Que bom que você está com minha capa; não precisará subir para buscar uma manta. Obrigada, Robert, vou olhar aquele heliotrópio delicioso... Você não vai demorar?
— Não — não. Você não se importa de ficar sozinha?
— Tolo! Quero que você vá. Não posso esperar que se arraste atrás de sua esposa inválida a cada minuto... Quanto tempo vai ficar?
Ele tirou o relógio.
— Passa um pouco das quatro e meia. Estarei de volta às cinco e quinze.
— De volta às cinco e quinze — repetiu ela, e ficou imóvel na espreguiçadeira, com as mãos cruzadas.
Ele se afastou. De repente voltou.
— Olhe aqui, você quer ficar com meu relógio?
E o balançou diante dela.
— Oh! — Ela prendeu a respiração. — Muito, muito.
E apertou o relógio, o relógio quente, o relógio querido, entre os dedos.
— Agora vá depressa.
Os portões da Pension Villa Excelsior estavam escancarados, presos contra alguns gerânios atrevidos. Curvando-se um pouco, olhando direto para a frente, caminhando rápido, ele passou por eles e começou a subir a colina que serpenteava atrás da cidade como uma grande corda atando as villas entre si. A poeira estava espessa. Uma carruagem veio rolando em direção ao Excelsior. Nela estavam sentados o General e a Condessa; haviam saído para o seu arejamento diário. Mr. Salesby deu um passo para o lado, mas a poeira subiu em pancadas, espessa, branca, sufocante como lã. A Condessa mal teve tempo de cutucar o General.
— Lá vai ele — disse, maldosa.
Mas o General deu um grasnido alto e se recusou a olhar.
— É o inglês — disse o cocheiro, virando-se e sorrindo.
E a Condessa ergueu as mãos e assentiu com tanta amabilidade que ele cuspiu de satisfação e deu uma chicotada no cavalo tropeçante.
Adiante — adiante — passando pelas villas mais finas da cidade, palácios magníficos, palácios que valiam qualquer distância para serem vistos, passando pelos jardins públicos com grutas entalhadas e estátuas e animais de pedra bebendo na fonte, entrando num bairro mais pobre. Ali a estrada corria estreita e imunda entre casas altas e magras, cujos andares térreos eram escavados e esvaziados em estábulos e oficinas de carpinteiro. Numa fonte adiante, duas velhas bruxas batiam roupa. Quando ele passou, elas se agacharam para trás sobre os calcanhares, encararam-no, e então seu “A-hak-kak-kak!”, com o tapa, tapa, da pedra no linho, soou atrás dele.
Ele alcançou o alto da colina; dobrou uma esquina e a cidade ficou escondida. Olhou para baixo, para um vale profundo com um leito de rio seco ao fundo. De um lado e de outro, tudo era coberto por pequenas casas arruinadas com varandas de pedra quebrada onde frutas secavam, fileiras de tomates no jardim, e, dos portões às portas, uma treliça de videiras. A luz tardia do sol, profunda, dourada, jazia na taça do vale; havia cheiro de carvão no ar. Nos jardins, os homens cortavam uvas. Ele observou um homem de pé na sombra esverdeada, levantando, segurando um cacho negro numa das mãos, tirando a faca do cinto, cortando, pousando o cacho numa cesta rasa em forma de barco. O homem trabalhava sem pressa, silenciosamente, levando centenas de anos para fazer o serviço. Nas cercas vivas do outro lado da estrada havia uvas pequenas como bagas, crescendo silvestres, crescendo entre as pedras. Ele se encostou a um muro, encheu o cachimbo, acendeu um fósforo...
Inclinado sobre um portão, levantou a gola do impermeável. Ia chover. Não importava, estava preparado. Não se esperava outra coisa em novembro. Olhou por cima do campo nu. Do canto junto ao portão vinha o cheiro de rutabagas, uma grande pilha delas, úmidas, de cor forte. Dois homens passaram caminhando para o vilarejo disperso. “Bom dia!” “Bom dia!” Por Deus! precisava se apressar se quisesse pegar aquele trem para casa. Por cima do portão, atravessando um campo, sobre a escada da cerca, entrando na alameda, avançando na chuva e no crepúsculo que desciam... Chegando em casa bem a tempo de um banho e de trocar de roupa antes da ceia... Na sala de visitas; Jinnie sentada quase dentro do fogo. “Oh, Robert, não ouvi você entrar. Divertiu-se? Que cheiro bom você está! Um presente?” “Uns raminhos de amora que colhi para você. Cor bonita.” “Oh, lindos, Robert! Dennis e Beaty vêm para a ceia.” Ceia — rosbife frio, batatas com casca, clarete, pão caseiro. Estão alegres — todos riem. “Oh, todos nós conhecemos Robert”, diz Dennis, soprando nas lentes e polindo-as. “A propósito, Dennis, encontrei uma ediçãozinha muito simpática de...”
Um relógio bateu. Ele se virou bruscamente. Que horas eram? Cinco? Quinze? De volta, de volta pelo caminho por onde viera. Ao passar pelos portões, viu-a de vigia. Ela se levantou, acenou e, devagar, veio encontrá-lo, arrastando a capa pesada. Na mão, trazia um ramo de heliotrópio.
— Você está atrasado — exclamou alegremente. — Está três minutos atrasado. Aqui está seu relógio, ele se comportou muito bem enquanto você esteve longe. Divertiu-se? Foi lindo? Conte-me. Aonde você foi?
— Digo — vista isto — disse ele, pegando a capa dela.
— Sim, vou vestir. Sim, está começando a esfriar. Vamos subir para o nosso quarto?
Quando chegaram ao elevador, ela estava tossindo. Ele franziu a testa.
— Não é nada. Não fiquei fora até tarde demais. Não fique zangado.
Ela se sentou numa das cadeiras de pelúcia vermelha enquanto ele tocava e tocava a campainha e, como não obtivesse resposta, mantinha o dedo sobre o botão.
— Oh, Robert, você acha que deve?
— Devo o quê?
A porta do salon se abriu.
— O que é isso? Quem está fazendo esse barulho? — soou lá de dentro.
Klaymongso começou a ganir.
— Caw! Caw! Caw! — veio do General.
Uma das Duas de Coque disparou para fora com uma das mãos na orelha, abriu a porta do pessoal.
— Mr. Queet! Mr. Queet! — berrou.
Isso trouxe o gerente correndo.
— É o senhor tocando a campainha, Mr. Salesby? Quer o elevador? Muito bem, Sir. Eu mesmo o levo. Antonio não demoraria nem um minuto, ele estava apenas tirando o avental...
E, depois de fazê-los entrar, o oleoso gerente foi até a porta do salon.
— Muito lamento que tenham sido incomodados, senhoras e senhores.
Salesby ficou de pé na gaiola, chupando as faces, olhando para o teto e girando o anel, girando o anel de sinete no dedo mínimo...
Chegando ao quarto, foi rapidamente até o lavatório, sacudiu a garrafa, despejou uma dose para ela e a trouxe.
— Sente-se. Beba. E não fale.
E ficou de pé sobre ela enquanto obedecia. Depois pegou o copo, enxaguou-o e o colocou de volta no estojo.
— Quer uma almofada?
— Não, estou perfeitamente bem. Venha aqui. Sente-se junto de mim só um minuto, quer, Robert? Ah, isso é muito bom.
Ela se virou e enfiou o ramo de heliotrópio na lapela do casaco dele.
— Isto — disse ela — lhe cai muito bem.
E então recostou a cabeça em seu ombro, e ele pôs o braço em torno dela.
— Robert... — a voz como um suspiro — como uma respiração.
— Sim...
Ficaram sentados ali por muito tempo. O céu flamejou, empalideceu; as duas camas brancas pareciam dois navios... Por fim, ele ouviu a criada correndo pelo corredor com as latas de água quente, e suavemente se soltou dela e acendeu a luz.
— Oh, que horas são? Oh, que noite celestial. Oh, Robert, eu estava pensando enquanto você esteve fora esta tarde...
Foram o último casal a entrar na sala de jantar. A Condessa estava ali com seu lorgnon e seu leque, o General estava ali com sua cadeira especial, a almofada de ar e a mantinha sobre os joelhos. A Mulher Americana estava ali mostrando a Klaymongso um exemplar do Saturday Evening Post... “Estamos tendo um banquete da razão e uma efusão da alma.” As Duas de Coque estavam ali apalpando os pêssegos e as peras em seu prato de frutas e pondo de lado todos os que consideravam verdes demais ou maduros demais para mostrar ao gerente, e o Casal em Lua de Mel se inclinava por cima da mesa, sussurrando, tentando não cair na risada.
Mr. Queet, em roupas comuns e sapatos brancos de lona, servia a sopa, e Antonio, de traje de gala completo, a distribuía.
— Não — disse a Mulher Americana —, leve embora, Antonio. Não podemos comer sopa. Não podemos comer nada pastoso, podemos, Klaymongso?
— Leve-as de volta e encha até a borda! — disseram as Duas de Coque, e se viraram para observar enquanto Antonio entregava o recado.
— O que é? Arroz? Está cozido?
A Condessa espiou pelo lorgnon.
— Mr. Queet, o General pode tomar um pouco desta sopa se ela estiver cozida.
— Muito bem, Condessa.
O Casal em Lua de Mel ficou com seu peixe em vez disso.
— Dê-me aquele. Esse é o que eu pesquei. Não é, não. É, sim. Não é, não. Bem, está olhando para mim com o olho, então deve ser. Ti! Hi! Hi!
Seus pés estavam trancados juntos debaixo da mesa.
— Robert, você não está comendo de novo. Há alguma coisa errada?
— Não. Sem apetite, só isso.
— Oh, que aborrecimento. Vêm ovos e espinafre. Você não gosta de espinafre, gosta? Preciso avisá-los no futuro...
Um ovo e purê de batatas para o General.
— Mr. Queet! Mr. Queet!
— Sim, Condessa.
— O ovo do General está duro demais outra vez.
— Caw! Caw! Caw!
— Muito lamento, Condessa. Quer que eu mande cozinhar outro, General?
...São os primeiros a deixar a sala de jantar. Ela se levanta, recolhendo o xale, e ele se põe de lado, esperando que ela passe, girando o anel, girando o anel de sinete no dedo mínimo. No vestíbulo, Mr. Queet paira.
— Pensei que talvez não quisessem esperar pelo elevador. Antonio está servindo as lavandas agora. E lamento que a campainha não toque, está fora de ordem. Não imagino o que aconteceu.
— Oh, espero que... — começa ela.
— Entre — diz ele.
Mr. Queet entra depois deles e bate a porta...
...— Robert, você se importa se eu for para a cama muito cedo? Não quer descer ao salon ou sair para o jardim? Ou talvez pudesse fumar um charuto na sacada. Está adorável lá fora. E eu gosto de fumaça de charuto. Sempre gostei. Mas, se você preferir...
— Não, vou ficar aqui.
Ele pega uma cadeira e se senta na sacada. Ouve-a mover-se pelo quarto, leve, leve, movendo-se e farfalhando. Então ela vem até ele.
— Boa noite, Robert.
— Boa noite.
Ele toma a mão dela e beija a palma.
— Não pegue frio.
O céu tem a cor de jade. Há muitíssimas estrelas; uma enorme lua branca paira sobre o jardim. Ao longe, relâmpagos tremulam — tremulam como uma asa — tremulam como um pássaro quebrado que tenta voar e afunda, e de novo luta.
As luzes do salon brilham através do caminho do jardim, e há o som de um piano. E uma vez a Mulher Americana, abrindo a porta-janela para deixar Klaymongso entrar no jardim, grita:
— Vocês viram esta lua?
Mas ninguém responde.
Ele fica com muito frio sentado ali, olhando fixamente para o gradil da sacada. Por fim entra. A lua — o quarto está pintado de branco pela luz da lua. A luz treme nos espelhos; as duas camas parecem flutuar. Ela dorme. Ele a vê através das redes, meio sentada, escorada em travesseiros, as mãos brancas cruzadas sobre o lençol. Suas faces brancas, seus cabelos claros pressionados contra o travesseiro, estão prateados. Ele se despe rapidamente, furtivamente, e entra na cama. Deitado ali, as mãos entrelaçadas atrás da cabeça...
...Em seu escritório. Fim de verão. A vinha-da-virgínia começando a mudar de cor...
— Bem, meu caro, essa é toda a história. Em poucas palavras, é isso. Se ela não puder se afastar pelos próximos dois anos e dar a um clima decente uma chance, não tem a menor — hm — possibilidade. Melhor ser franco nessas coisas.
— Oh, certamente...
— E, ora essa, meu velho, o que impede você de ir com ela? Não é como se tivesse um emprego regular, como nós, assalariados. Você pode fazer o que faz onde quer que esteja...
— Dois anos.
— Sim, eu daria dois anos. Você não terá dificuldade nenhuma em alugar esta casa, sabe. Na verdade...
...Ele está com ela.
— Robert, o terrível é que — suponho que seja minha doença — sinto simplesmente que não poderia ir sozinha. Veja — você é tudo. Você é pão e vinho, Robert, pão e vinho. Oh, meu querido — o que estou dizendo? É claro que eu poderia, é claro que não vou arrancar você daqui...
Ele a ouve se mexer. Ela quer alguma coisa?
— Boogles?
Meu Deus! Ela está falando dormindo. Não usam esse nome há anos.
— Boogles. Você está acordado?
— Sim, você quer alguma coisa?
— Oh, vou ser um incômodo. Sinto tanto. Você se importa? Há um mosquito miserável dentro da minha rede — posso ouvi-lo cantando. Você o pegaria? Não quero me mexer por causa do meu coração.
— Não, não se mexa. Fique onde está.
Ele acende a luz, levanta a rede.
— Onde está o pequeno canalha? Você o viu?
— Sim, ali, no canto. Oh, sinto-me tão maléfica por ter tirado você da cama. Você se importa terrivelmente?
— Não, claro que não.
Por um momento ele paira em seu pijama azul e branco. Então:
— Peguei — disse.
— Oh, que bom. Ele estava suculento?
— Nojento.
Foi até o lavatório e mergulhou os dedos na água.
— Você está bem agora? Posso apagar a luz?
— Sim, por favor. Não. Boogles! Volte aqui um instante. Sente-se junto de mim. Dê-me sua mão.
Ela gira o anel de sinete dele.
— Por que você não estava dormindo? Boogles, escute. Chegue mais perto. Às vezes me pergunto — você se importa terrivelmente de estar aqui fora comigo?
Ele se inclina. Beija-a. Ajeita as cobertas em torno dela, alisa o travesseiro.
— Bobagem! — sussurra.