A fuga
Foi culpa dele, inteira e exclusivamente culpa dele, terem perdido o trem. E daí que aqueles idiotas do hotel se recusaram a apresentar a conta? Não fora simplesmente porque ele não insistira com o garçom, no almoço, que precisavam dela às duas horas? Qualquer outro homem teria ficado sentado ali e se recusado a sair até que a entregassem. Mas não! Sua requintada crença na natureza humana lhe permitira levantar-se e esperar que um daqueles idiotas a levasse ao quarto deles... E depois, quando a voiture afinal chegou, enquanto ainda estavam (Oh, Céus!) esperando o troco, por que ele não cuidara da disposição das malas, para que pudessem ao menos partir no instante em que o dinheiro viesse? Esperava que ela saísse, que ficasse em pé sob o toldo, no calor, apontando com a sombrinha? Um quadro divertidíssimo da vida doméstica inglesa. Mesmo quando se disse ao cocheiro o quanto precisava correr, ele não prestou atenção alguma — apenas sorriu. “Oh”, gemeu ela, “se ela fosse cocheiro, não teria conseguido deixar de sorrir também diante do modo absurdo, ridículo, como o apressavam.” E ela se recostou e imitou a voz dele: “Allez, vite, vite” — e pediu desculpas ao cocheiro por incomodá-lo...
E depois a estação — inesquecível — com a visão do trenzinho petulante se arrastando para longe e aquelas crianças horrendas acenando das janelas. “Oh, por que sou feita para suportar essas coisas? Por que sou exposta a elas?...” A claridade ofuscante, as moscas, enquanto esperavam, e ele e o chefe da estação juntavam as cabeças sobre o horário, tentando encontrar aquele outro trem, que, é claro, eles não alcançariam. As pessoas que se reuniram em volta, e a mulher que ergueu aquele bebê com aquela cabeça pavorosa, pavorosa... “Oh, importar-se como eu me importo — sentir como eu sinto, e nunca ser poupada de nada — nunca saber, por um momento, o que é... o que é...”
Sua voz mudara. Agora tremia — agora chorava. Ela remexeu na bolsa e tirou de sua pequena goela um lenço perfumado. Levantou o véu e, como se fizesse aquilo por outra pessoa, com piedade, como se dissesse a outra pessoa: “Eu sei, minha querida”, comprimiu o lenço contra os olhos.
A bolsinha, com suas mandíbulas brilhantes, prateadas, abertas, jazia em seu colo. Ele podia ver sua esponja de pó, o bastão de ruge, um maço de cartas, um frasquinho de minúsculas pílulas negras como sementes, um cigarro quebrado, um espelho, plaquinhas de marfim branco com listas nelas, pesadamente riscadas. Ele pensou: “No Egito, ela seria enterrada com essas coisas.”
Tinham deixado para trás as últimas casas, aquelas casinhas dispersas, com pedaços de vaso quebrado jogados entre os canteiros de flores e galinhas meio nuas ciscando em torno das soleiras. Agora subiam uma longa estrada íngreme que serpenteava ao redor da colina e passava para a enseada seguinte. Os cavalos tropeçavam, puxando com esforço. A cada cinco minutos, a cada dois minutos, o cocheiro arrastava o chicote sobre eles. Suas costas largas eram sólidas como madeira; havia furúnculos em seu pescoço avermelhado, e ele usava um chapéu de palha novo, reluzentemente novo...
Havia um ventinho, apenas o bastante para dar um brilho de cetim às folhas novas das árvores frutíferas, para acariciar a relva fina, para tornar prateadas as oliveiras esfumaçadas — apenas o bastante para levantar diante da carruagem um fiapo de poeira que girava e rodopiava e pousava sobre as roupas deles como a cinza mais fina. Quando ela tirou a esponja de pó, o pó voou sobre ambos.
— Oh, a poeira — respirou ela —, a poeira nojenta, revoltante.
E baixou o véu e se recostou como se estivesse vencida.
— Por que não abre sua sombrinha? — sugeriu ele.
Ela estava no assento da frente, e ele se inclinou para entregá-la. Com isso ela de repente se sentou ereta e tornou a flamejar.
— Por favor, deixe minha sombrinha em paz! Não quero minha sombrinha! E qualquer pessoa que não fosse inteiramente insensível saberia que estou longe, longe demais de minhas forças para segurar uma sombrinha. E com um vento destes puxando-a... Largue-a imediatamente — fulminou ela, e então arrancou-lhe a sombrinha, atirou-a para dentro da capota amarrotada atrás deles e afundou de novo, ofegante.
Outra curva da estrada, e descia a colina um bando de criancinhas, guinchando e rindo, menininhas de cabelos desbotados pelo sol, menininhos com quepes de soldados desbotados. Nas mãos traziam flores — flores quaisquer — agarradas pela cabeça, e as ofereciam, correndo ao lado da carruagem. Lilás, lilás murcho, bolas-de-neve branco-esverdeadas, um copo-de-leite, um punhado de jacintos. Enfiavam as flores e seus rostinhos diabretes para dentro da carruagem; uma delas chegou a atirar no colo dela um ramo de malmequeres. Pobres ratinhos! Ele já estava com a mão no bolso das calças antes dela.
— Pelo amor de Deus, não lhes dê nada. Oh, tão típico de você! Macaquinhos horríveis! Agora vão nos seguir o caminho inteiro. Não os encoraje; você tinha mesmo que encorajar mendigos — e ela lançou o ramo para fora da carruagem com: — Bem, faça isso quando eu não estiver por perto, por favor.
Ele viu o estranho choque no rosto das crianças. Pararam de correr, ficaram para trás, e então começaram a gritar alguma coisa, e continuaram gritando até que a carruagem dobrasse ainda outra curva.
— Oh, quantas mais ainda faltam antes de chegarmos ao alto da colina? Os cavalos não trotam uma única vez. Certamente não é necessário que andem a passo o tempo todo.
— Chegaremos lá dentro de um minuto — disse ele, e tirou a cigarreira.
Com isso ela se voltou para ele. Entrelaçou as mãos e as apertou contra o peito; seus olhos escuros pareciam imensos, suplicantes, atrás do véu; as narinas estremeceram, ela mordeu o lábio, e sua cabeça sacudiu com um pequeno espasmo nervoso. Mas, quando falou, sua voz era bastante fraca e muito, muito calma.
— Quero lhe pedir uma coisa. Quero lhe implorar uma coisa — disse ela. — Já lhe pedi centenas e centenas de vezes antes, mas você esqueceu. É uma coisa tão pequena, mas se você soubesse o que significa para mim... — Ela comprimiu as mãos uma contra a outra. — Mas você não pode saber. Nenhuma criatura humana poderia saber e ser tão cruel. — E então, devagar, deliberadamente, fitando-o com aqueles olhos enormes, sombrios: — Eu lhe peço e imploro pela última vez que, quando estivermos passeando juntos de carruagem, você não fume. Se pudesse imaginar — disse ela — a angústia que sofro quando essa fumaça vem flutuando pelo meu rosto...
— Muito bem — disse ele. — Não fumarei. Esqueci.
E guardou a cigarreira.
— Oh, não — disse ela, e quase começou a rir, e levou o dorso da mão aos olhos. — Você não poderia ter esquecido. Isso, não.
O vento veio, soprando mais forte. Estavam no alto da colina.
— Hoy-yip-yip-yip — gritou o cocheiro.
Desceram velozes pela estrada que caía num pequeno vale, contornava a costa do mar ao fundo e depois se enrolava sobre uma suave crista do outro lado. Agora havia casas novamente, de venezianas azuis fechadas contra o calor, com jardins brilhantes, ardentes, com tapetes de gerânios lançados sobre os muros rosados. A linha da costa era escura; à beira do mar, uma franja branca e sedosa mal se movia. A carruagem desceu a colina, sacolejou, balançou.
— Yi-ip! — gritou o cocheiro.
Ela agarrou as laterais do assento, fechou os olhos, e ele soube que ela sentia que aquilo acontecia de propósito; aquele balanço e aqueles solavancos, tudo aquilo era feito — e ele era responsável, de algum modo — para contrariá-la porque perguntara se não poderiam ir um pouco mais depressa. Mas, quando chegaram ao fundo do vale, houve um solavanco tremendo. A carruagem quase virou, e ele viu os olhos dela flamejarem para ele, e ela positivamente silvou:
— Imagino que você esteja se divertindo com isto?
Prosseguiram. Chegaram ao fundo do vale. De repente ela se pôs de pé.
— Cocher! Cocher! Arrêtez-vous!
Virou-se e olhou para dentro da capota amarrotada atrás deles.
— Eu sabia — exclamou. — Eu sabia. Ouvi cair, e você também, naquele último solavanco.
— O quê? Onde?
— Minha sombrinha. Ela desapareceu. A sombrinha que pertenceu à minha mãe. A sombrinha que prezo mais do que — mais do que...
Estava simplesmente fora de si. O cocheiro se virou, o rosto largo e alegre sorrindo.
— Eu também ouvi alguma coisa — disse ele, simples e alegremente. — Mas pensei que, como Monsieur e Madame não diziam nada...
— Está vendo. Ouviu isso. Então você também deve ter ouvido. É isso que explica o sorriso extraordinário no seu rosto...
— Olhe aqui — disse ele —, ela não pode ter desaparecido. Se caiu, ainda estará lá. Fique onde está. Eu vou buscá-la.
Mas ela via através daquilo. Oh, como via através daquilo!
— Não, obrigada.
E cravou nele seus olhos rancorosos, sorridentes, sem se importar com o cocheiro.
— Eu mesma irei. Voltarei a pé e a encontrarei, e confio que você não me siga. Pois — sabendo que o cocheiro não compreendia, falou baixo, suavemente —, se eu não escapar de você por um minuto, vou enlouquecer.
Desceu da carruagem.
— Minha bolsa.
Ele a entregou.
— Madame prefere...
Mas o cocheiro já havia saltado de seu assento e estava sentado no parapeito, lendo um pequeno jornal. Os cavalos permaneciam de cabeça baixa. Estava quieto. O homem na carruagem se estendeu, cruzou os braços. Sentiu o sol bater em seus joelhos. A cabeça afundara sobre o peito. “Xiu, xiu”, vinha do mar. O vento suspirou no vale e se calou. Ele se sentiu, deitado ali, um homem vazio, um homem ressequido, murcho, por assim dizer, feito de cinzas. E o mar fazia “xiu, xiu”.
Foi então que viu a árvore, que tomou consciência de sua presença logo além do portão de um jardim. Era uma árvore imensa, com um tronco redondo, grosso, prateado, e um grande arco de folhas de cobre que devolviam a luz e, no entanto, eram sombrias. Havia alguma coisa além da árvore — uma brancura, uma maciez, uma massa opaca, meio oculta — com colunas delicadas. Ao olhar para a árvore, sentiu a respiração se extinguir e tornou-se parte do silêncio. Ela parecia crescer, parecia expandir-se no calor trêmulo até que as grandes folhas entalhadas ocultassem o céu, e no entanto estava imóvel. Então, de dentro de suas profundezas, ou de além, veio o som de uma voz de mulher. Uma mulher cantava. A voz quente, serena, flutuava no ar, e tudo fazia parte do silêncio, assim como ele fazia parte dele. De repente, quando a voz se ergueu, suave, sonhadora, delicada, ele soube que ela viria flutuando até ele desde as folhas ocultas, e sua paz se despedaçou. O que estava acontecendo com ele? Algo se moveu em seu peito. Algo escuro, algo insuportável e terrível empurrou-lhe o seio, e como uma grande erva daninha flutuou, balançou... era quente, sufocante. Ele tentou lutar, arrancá-la, e no mesmo instante — tudo acabou. Fundo, fundo, mergulhou no silêncio, fitando a árvore e esperando a voz que vinha flutuando, caindo, até ele sentir-se envolto.
. . . . .
No corredor sacolejante do trem. Era noite. O trem corria e rugia através da escuridão. Ele se segurava com as duas mãos no corrimão de latão. A porta do compartimento deles estava aberta.
— Não se incomode, Monsieur. Ele entrará e se sentará quando quiser. Ele gosta — ele gosta — é o costume dele... Oui, Madame, je suis un peu souffrante... Mes nerfs. Oh, mas meu marido nunca é tão feliz quanto quando viaja. Ele gosta de passar por desconfortos... Meu marido... Meu marido...
As vozes murmuravam, murmuravam. Nunca ficavam quietas. Mas tão grande era sua felicidade celestial, ali de pé, que ele desejou poder viver para sempre.