Sol e Lua Êxtase e outros contos · Capítulo 9 de 14
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Sol e Lua

À tarde chegaram as cadeiras, um carrão enorme cheio de cadeirinhas douradas, com as pernas para o ar. E depois chegaram as flores. Quando se olhava da sacada para as pessoas que as carregavam, os vasos pareciam chapéus engraçados, terrivelmente bonitos, acenando pelo caminho.

Lua pensou que fossem chapéus. Disse:

— Olhe. Tem um homem usando uma palmeira na cabeça.

Mas ela nunca sabia a diferença entre as coisas de verdade e as que não eram de verdade.

Não havia ninguém para cuidar de Sol e Lua. Babá estava ajudando Annie a alterar o vestido de Mamãe, que estava comprido-demais-e-apertado-debaixo-dos-braços, e Mamãe corria pela casa inteira e telefonava para Papai para se certificar de que ele não esqueceria as coisas. Só tinha tempo de dizer:

— Saiam do meu caminho, crianças!

Eles saíam do caminho dela — pelo menos Sol saía. Ele detestava tanto ser mandado de volta, pisando duro, para o quarto das crianças. Com Lua não tinha importância. Se ela se enroscasse nas pernas das pessoas, elas apenas a erguiam no ar e a sacudiam até ela soltar gritinhos. Mas Sol era pesado demais para isso. Era tão pesado que o homem gordo que vinha jantar aos domingos costumava dizer:

— Vamos lá, rapazinho, deixe-me tentar levantar você.

E então punha os polegares debaixo dos braços de Sol, gemia e tentava, e por fim desistia, dizendo:

— Ele é uma perfeita toneladinha de tijolos!

Quase todos os móveis foram retirados da sala de jantar. O piano grande foi posto num canto, e depois veio uma fileira de vasos de flores, e depois vieram as cadeiras douradinhas. Aquilo era para o concerto. Quando Sol espiou, um homem de rosto branco estava sentado ao piano — não tocando, mas batendo nele e depois olhando lá dentro. Tinha uma bolsa de ferramentas sobre o piano e enfiara o chapéu numa estátua encostada à parede. Às vezes começava simplesmente a tocar e então tornava a se levantar de um salto e olhava lá dentro. Sol esperava que ele não fosse o concerto.

Mas, é claro, o lugar para estar era a cozinha. Havia um homem ajudando, com um gorro que parecia um manjar-branco, e a cozinheira deles de verdade, Minnie, estava toda vermelha no rosto e rindo. Nada zangada. Deu a cada um deles um biscoito compridinho de amêndoa e os ergueu para cima do caixote de farinha, para que pudessem ver as coisas maravilhosas que ela e o homem estavam fazendo para a ceia. A cozinheira trazia as coisas, e ele as punha em travessas e as enfeitava. Peixes inteiros, ainda com cabeça, olhos e rabo, ele salpicava de pedacinhos vermelhos, verdes e amarelos; fazia arabescos por cima das gelatinas, enfiava uma gola num presunto e punha nele uma espécie de garfo muito fino; pontilhava os cremes com amêndoas e biscoitinhos redondos. E mais e mais coisas vinham chegando.

— Ah, mas vocês ainda não viram o pudim gelado — disse a cozinheira. — Venham.

Por que ela estava sendo tão boazinha?, pensou Sol, enquanto ela dava a mão a cada um deles. E eles olharam dentro da geladeira.

Oh! Oh! Oh! Era uma casinha. Era uma casinha cor-de-rosa, com neve branca no telhado, janelas verdes e uma porta marrom, e presa à porta havia uma noz fazendo as vezes de maçaneta.

Quando Sol viu a noz, sentiu-se inteiramente cansado e teve de se apoiar na cozinheira.

— Deixe eu tocar. Só deixe eu pôr o dedo no telhado — disse Lua, dançando.

Ela sempre queria tocar em toda a comida. Sol não.

— Agora, minha menina, trate de se apressar com a mesa — disse a cozinheira quando a arrumadeira entrou.

— Está uma pintura, Min — disse Nellie. — Venha dar uma olhada.

Então foram todos para a sala de jantar. Sol e Lua ficaram quase assustados. A princípio, não quiseram se aproximar da mesa; ficaram apenas à porta, fazendo olhos para ela.

Ainda não era noite de verdade, mas as persianas estavam baixadas na sala de jantar e as luzes acesas — e todas as luzes eram rosas vermelhas. Fitas vermelhas e ramos de rosas prendiam a mesa nos cantos. No meio havia um lago com pétalas de rosa boiando.

— É ali que vai ficar o pudim gelado — disse a cozinheira.

Dois leões prateados com asas levavam frutas nas costas, e os saleiros eram passarinhos minúsculos bebendo em bacias.

E todos os copos piscantes, os pratos brilhantes, as facas e garfos cintilantes — e toda a comida. E os guardanapos vermelhinhos transformados em rosas...

— As pessoas vão comer a comida? — perguntou Sol.

— Eu diria que sim — riu a cozinheira, rindo com Nellie.

Lua riu também; ela sempre fazia igual às outras pessoas. Mas Sol não quis rir. Deu voltas e voltas, com as mãos atrás das costas. Talvez nunca tivesse parado se Babá não chamasse de repente:

— Vamos, crianças. Já passou da hora de serem lavadas e vestidas.

E foram marchando para o quarto das crianças.

Enquanto os desabotoavam, Mamãe apareceu à porta com uma coisa branca sobre os ombros; esfregava uma substância no rosto.

— Eu toco a campainha quando quiser que eles venham, Babá, e então eles podem simplesmente descer, ser vistos e voltar outra vez — disse ela.

Sol foi despido, primeiro quase até ficar em pele, e vestido de novo com uma camisa branca salpicada de margaridas vermelhas e brancas, calções com cordões nas laterais e suspensórios que passavam por cima, meias brancas e sapatos vermelhos.

— Agora você está com sua fantasia russa — disse Babá, achatando sua franja.

— Estou? — disse Sol.

— Está. Sente quieto nessa cadeira e olhe sua irmãzinha.

Lua levou séculos. Quando puseram suas meias, ela fingiu cair de costas na cama e sacudiu as pernas para Babá, como sempre fazia, e toda vez que Babá tentava fazer seus cachos com o dedo e uma escova molhada, ela se virava e pedia a Babá que lhe mostrasse a fotografia de seu broche ou alguma coisa assim. Mas afinal ela também ficou pronta. Seu vestido armava para fora, com pele nele, todo branco; havia até uma coisa felpuda nas pernas de suas calçolas. Seus sapatos eram brancos, com grandes bolas neles.

— Pronto, minha cordeirinha — disse Babá. — E você parece um doce querubinzinho de pintura de almofadinha de pó?

Babá correu para a porta.

— Senhora, um momento.

Mamãe entrou outra vez com metade dos cabelos soltos.

— Oh! — exclamou. — Que pintura!

— Não é mesmo? — disse Babá.

E Lua segurou as saias pelas pontinhas e arrastou um dos pés. Sol não se importava que as pessoas não reparassem nele — muito...

Depois disso, brincaram de jogos limpos e comportados à mesa, enquanto Babá ficava à porta, e quando as carruagens começaram a chegar e o som de risos, vozes e suaves farfalhares veio lá de baixo, ela sussurrou:

— Agora, crianças, fiquem onde estão.

Lua continuava puxando a toalha da mesa, de modo que ela ficasse toda pendurada do lado dela e Sol não tivesse nenhuma — e depois fingia que não fazia de propósito.

Por fim a campainha tocou. Babá caiu sobre eles com a escova de cabelo, achatou a franja dele, fez o laço dela ficar em pé e uniu as mãos dos dois.

— Lá para baixo! — sussurrou.

E lá desceram eles. Sol se sentia mesmo tolo segurando a mão de Lua daquele jeito, mas Lua parecia gostar. Ela balançava o braço, e o sininho em sua pulseira de coral tilintava.

À porta da sala de visitas, Mamãe estava de pé, abanando-se com um leque preto. A sala estava cheia de senhoras cheirosas, sedosas e farfalhantes, e de homens de preto com caudas engraçadas em seus casacos — como besouros. Papai estava entre eles, falando muito alto e chacoalhando alguma coisa no bolso.

— Que pintura! — gritaram as senhoras. — Oh, que patinhos! Oh, que cordeirinhos! Oh, que doçuras! Oh, que amores!

Todas as pessoas que não conseguiam chegar até Lua beijavam Sol, e uma velha magra com dentes que estalavam disse:

— Que bonequinho sério.

E lhe bateu na cabeça com alguma coisa dura.

Sol procurou ver se o mesmo concerto estava ali, mas ele tinha ido embora. Em seu lugar, um homem gordo de cabeça rosada se inclinava sobre o piano, falando com uma moça que segurava um violino junto ao ouvido.

Havia apenas um homem de quem Sol gostou de verdade. Era um homenzinho cinzento, com longas suíças cinzentas, que andava por ali sozinho. Aproximou-se de Sol, revirou os olhos de um modo muito simpático e disse:

— Olá, meu rapaz.

Depois foi embora. Mas logo voltou outra vez e disse:

— Gosta de cachorros?

Sol disse:

— Sim.

Mas então ele foi embora outra vez, e embora Sol o procurasse por toda parte, não conseguiu encontrá-lo. Pensou que talvez ele tivesse ido lá fora buscar um filhote.

— Boa noite, meus preciosos bebês — disse Mamãe, envolvendo-os em seus braços nus. — Voem para seu ninhozinho.

Então Lua foi e tornou a fazer papel de boba. Levantou os braços diante de todo mundo e disse:

— Meu Papai tem que me carregar.

Mas eles pareceram gostar disso, e Papai mergulhou para baixo e a pegou no colo, como sempre fazia.

Babá estava com tanta pressa de pô-los na cama que até interrompeu Sol em suas orações e disse:

— Continue com isso, menino, ande.

E um instante depois estavam na cama e no escuro, exceto pela luzinha de noite em seu pequeno pires.

— Você está dormindo? — perguntou Lua.

— Não — disse Sol. — E você?

— Não — disse Lua.

Muito tempo depois, Sol acordou outra vez. Havia um barulho alto, muito alto, de palmas vindo lá de baixo, como quando chove. Ouviu Lua se virar.

— Lua, você está acordada?

— Estou, e você?

— Estou. Bem, vamos olhar por cima da escada.

Tinham acabado de se acomodar no degrau de cima quando a porta da sala de visitas se abriu, e eles ouviram a festa atravessar o vestíbulo rumo à sala de jantar. Então aquela porta se fechou; houve um ruído de “pops” e risadas. Depois aquilo parou, e Sol viu todos caminhando em voltas e voltas ao redor da mesa adorável, com as mãos atrás das costas, como ele fizera... Em voltas e voltas caminhavam, olhando e encarando. O homem das suíças cinzentas gostou mais da casinha. Quando viu a noz fazendo as vezes de maçaneta, revirou os olhos como antes e disse a Sol:

— Viu a noz?

— Não fique balançando a cabeça assim, Lua.

— Não estou balançando. É você.

— Não sou. Eu nunca balanço a cabeça.

— O-oh, balança, sim. Está balançando agora.

— Não estou. Só estou mostrando a você como não fazer.

Quando acordaram outra vez, só conseguiam ouvir a voz de Papai, muito alta, e Mamãe rindo sem parar. Papai saiu da sala de jantar, saltou escada acima e quase caiu por cima deles.

— Olá! — disse ele. — Por Júpiter, Kitty, venha ver isto.

Mamãe saiu.

— Oh, suas crianças malcriadas — disse ela do vestíbulo.

— Vamos levá-los para baixo e dar um osso a eles — disse Papai.

Sol nunca o vira tão alegre.

— Não, de modo nenhum — disse Mamãe.

— Oh, meu Papai, leve! Leve a gente para baixo — disse Lua.

— Pois que me enforquem se eu não levo — gritou Papai. — Não vou ser mandado. Kitty — abre caminho.

E pegou os dois, um debaixo de cada braço.

Sol pensou que Mamãe ficaria terrivelmente zangada. Mas não ficou. Continuou rindo de Papai.

— Oh, seu menino terrível! — disse ela.

Mas não queria dizer Sol.

— Vamos, crianças. Venham comer uns restinhos — disse esse Papai alegre.

Mas Lua parou um instante.

— Mamãe, seu vestido saiu todo de um lado.

— Saiu? — disse Mamãe.

E Papai disse “Sim” e fingiu morder o ombro branco dela, mas ela o empurrou.

E assim voltaram à bela sala de jantar.

Mas — oh! oh! o que havia acontecido. As fitas e as rosas estavam todas desamarradas. Os guardanapos vermelhinhos jaziam no chão, todos os pratos brilhantes estavam sujos e todos os copos piscantes. A comida adorável que o homem tinha enfeitado estava toda espalhada, e havia ossos, pedaços, cascas de fruta e conchas por toda parte. Havia até uma garrafa deitada, com alguma coisa escorrendo dela para a toalha, e ninguém a punha de pé outra vez.

E a casinha cor-de-rosa, com o telhado de neve e as janelas verdes, estava quebrada — quebrada — meio derretida no centro da mesa.

— Venha, Sol — disse Papai, fingindo não perceber.

Lua levantou as pernas do pijama, arrastou-se até a mesa, subiu numa cadeira e ficou dando gritinhos.

— Coma um pouco deste gelo — disse Papai, quebrando mais um pedaço do telhado.

Mamãe pegou um pratinho e o segurou para ele; pôs o outro braço em volta de seu pescoço.

— Papai. Papai — guinchou Lua. — A maçanetinha ficou. A nozinha. Posso comer?

E estendeu a mão, arrancou-a da porta e a mastigou, mordendo forte e piscando.

— Aqui, meu rapaz — disse Papai.

Mas Sol não se moveu da porta. De repente, ergueu a cabeça e soltou um lamento alto.

— Acho horrível — horrível — horrível! — soluçou.

— Está vendo! — disse Mamãe. — Está vendo!

— Vá embora — disse Papai, já não alegre. — Neste instante. Vá!

E, chorando alto, Sol voltou pisando duro para o quarto das crianças.

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