Brasília, DF Bergmann · Capítulo 6 de 63
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Brasília, DF

Eu estava certa sobre os meus colegas da nova unidade, eles não aceitaram nada bem a minha partida no dia do motoqueiro maluco. As pessoas eram mesmo previsíveis. Sussurravam suas críticas pelos cantos, tentando disfarçar quando eu me aproximava, mas não era como se quisessem realmente esconder sua insatisfação. Conforme eu demonstrava indiferença, os cochichos aumentavam, subiam um tom. Eles queriam me atingir. Não sabiam ainda que precisariam de muito mais para que eu me importasse. Passei a vida toda evitando esse tipo de gente, que parecia ganhar alguma coisa com a miséria alheia. Não me intimidavam nem um pouco, se não parassem por conta própria, acabariam passando vergonha.Fazia semanas, mas ali estavam eles, com sua infantilidade. Tinham o direito de não gostar do meu comportamento antissocial, muito pouco empático, nem um pouco sensível, mas seria interessante ver um comportamento mais maduro, para variar.Às vezes, era mais fácil entender alguns crimes do que o veneno destilado aos pouquinhos, no dia a dia, por pessoas supostamente boas, cristãs, responsáveis. Tão boas que envenenavam os outros com doses homeopáticas porque é muita maldade matar com um único golpe. Amizade, lealdade e amor pareciam coisas mais fáceis de encontrar entre criminosos.

Todos os dias, eu mantinha a mesma rotina: chegava sorridente, desejava um bom dia a todos, colocava um copo de café quentinho na mesa do meu estagiário, que trabalhava como se fosse meu secretário porque me recusei a contratar outra pessoa, então seguia para o meu escritório, logo atrás da mesa dele. Tudo isso eu fazia sob olhares escrutinadores. Eu exercia um pequeno cargo de chefia, era responsável por um número bem reduzido de pessoas, havia outros dois cargos como o meu, ocupados pelos meus colegas Fernando e Camila, respondíamos ao diretor da unidade. Juntos coordenávamos a equipe que trabalhava nas baias, localizadas no centro daquela sala comercial.Nossos escritórios, localizados nas extremidades do espaço, embora fechados, não ofereciam muita privacidade: as paredes eram todas de vidro. Então, para acessar meu escritório, eu precisava necessariamente passar pela equipe nas baias, e como as paredes de meu escritório não podia escondê-los, eu frequentemente os via sussurrando ao olharem para mim.

Daquele grupo de pessoas, apenas três respondiam a mim, além do meu estagiário. Outras seis respondiam ao Fernando e cinco respondiam à Camila. Ele, que havia completado trinta e cinco anos semana passada, ainda vivia nas baladas da cidade, dormindo com uma mulher diferente toda noite, segundo as fofocas do escritório que eu não pude evitar. Camila, mãe de três crianças pequenas, trabalhava muito para conseguir chegar em casa mais cedo. Ela não conseguia contar com a ajuda do marido com frequência, ele sempre viajava a trabalho.

Geralmente, nós três nos dávamos muito bem, conseguíamos manter um ambiente de trabalho harmonioso. O único problema daquele lugar era a fofoca, que eu tanto detestava.Tinha dias em que eu entrava na sala e as baias estavam num verdadeiro estado de efervescência. Falavam da vida privada dos outros como se fosse pública, discutiam tudo em grupo como se fosse pauta de uma reunião importante. Notei isso no primeiro dia em que cheguei, portanto decidi não me aproximar muito de ninguém. Normalmente, era assim que eu agia em qualquer lugar a qual chegava, mas um estado de alerta maior me dominou quando cheguei neste lugar, sobretudo, porque viera substituir alguém aparentemente amado pelos colegas, mas destituído do cargo por acusações de racismo. Também sei o motivo pelo qual o ministério aprovou minha nomeação: dentre todos os outros candidatos, a minha pele era a mais escura.

“Laura”, chamou Dudu, meu estagiário e secretário, espiando dentro do escritório, “você está pronta?”, pergunta.

Levo alguns segundos tentando compreender sua pergunta, então me lembro da reunião agendada para aquela manhã.

“Claro!”, minto.“Eu não esqueci completamente dessa reunião, nem um pouco.”

Dudu entra no meu escritório e fecha a porta.

“Eu preparei umas anotações para você, com base no que conversamos no outro dia”, ele sorri.

Meu rosto se ilumina.

“Você nem precisa de uma armadura ou cavalo branco, Dudu”, brinco.

Ele parece feliz com minha resposta.

“Acho que eles vão anunciar logo a novidade”, Dudu comenta. “Começaram a preparar o novo escritório ontem à tarde”, ele aponta para o escritório de frente ao meu, que até anteontem servia como arquivo.

Dias atrás, o diretor da unidade anunciou que o novo projeto na Ceilândia contaria com ajuda externa. Ele disse que receberíamos uma espécie de consultoria até a conclusão dos trâmites burocráticos e início da implementação do projeto, disse que nossa unidade também seria avaliada por essa comissão consultiva extraordinária. Fernando e Camila receberam o anúncio com receio, acreditavam que estávamos sendo colocados sob vigilância, temiam que pudéssemos estar sendo fiscalizados ao invés de apoiados.Eu resolvi esperar para ver o que acontecia, detestava sofrer por antecipação.

“Devem anunciar para a equipe toda após nossa reunião de hoje”, digo, apanhando alguns papéis em cima da mesa. “Você quer me acompanhar na reunião?”, pergunto.

Dudu faz uma cara de surpresa.

“Eu posso mesmo?”, pergunta empolgado.

“Claro que pode, você estará comigo”, asseguro. “Não se preocupe com os comentários maldosos.”

Dudu também vinha sendo alvo de alguns ataques, porque é o único estagiário da unidade que trabalha como um servidor, tendo acesso a reuniões e a documentos internos. Quando estabelecemos sua carga horária e obrigações, pensamos numa possível efetivação após a conclusão de seu estágio. Para o cargo que ele pretendia, não seria necessária aprovação em concurso público. Ele também estava muito interessado em aprender mais sobre o funcionamento de alguns dos processos de que cuidávamos, para isso, precisava de acesso a eles.Eu podia oferecer a oportunidade, então resolvi não contratar outra pessoa, reduzindo custos do meu escritório. No entanto, como eu não podia pagá-lo com o dinheiro público, retirava do meu próprio salário o que lhe era devido. Dudu não sabia disso, acredito que não teria aceitado se soubesse. Ele estava no quarto ano da faculdade de Direito, tinha despesas para pagar, e não podia contar com a ajuda de familiares, situação que eu entendia muito bem, por isso propus o acordo.

Mesmo assim, ele ainda era vítima das fofocas, as pessoas estranhavam sua posição. Não nos importávamos com isso, ambos nos beneficiamos do acordo, o trabalho era feito com excelência, então os incomodados podiam falar o tanto que desejassem.

“Eu vou!”, anuncia alegre.

Seguimos para o corredor para pegar o elevador, compartilhado por todos os servidores e prestadores daquele andar. A sala de reuniões ficava no piso superior.Nosso prédio era um colosso de vinte e quatro andares, lugar onde funcionavam inúmeras subpastas, secretarias e outras unidades da administração pública.

“Laura, eu esqueci o meu bloquinho!”, Dudu se dá conta assustado, bem no momento em que o elevador para no nosso andar.

Eu seguro a porta, enquanto lhe respondo: “Não se preocupe”, garanto. “Pode voltar para pegar, depois você me encontra lá, tudo bem?”

Ele hesitou.

“O que foi?”, pergunto, mas percebo que tem alguém no elevador e estou claramente atrapalhando.

Olho rapidamente na direção dessa pessoa e peço desculpas, sem graça. Em seguida, peço só mais um instante do seu tempo. É um homem, acho que não o conheço, não consigo prestar muita atenção. Só vejo que ele concorda, talvez um pouco a contragosto.

“Você vai ficar sem graça de me encontrar lá depois?”, insisto com Dudu. “Quer que eu te espere?”

“Não!”, Dudu grita o protesto.

Eu seguro o riso, entrando no elevador.

“Então me encontre lá”, digo.“Seja rápido, Dudu.”

Antes das portas do elevador fecharem, posso vê-lo correndo de volta à nossa unidade. Reprimo o riso novamente, achando graça do meu pobre estagiário.

“Obrigada”, agradeço ao estranho, mas antes de poder ouvir qualquer comentário de sua parte, meu telefone toca. Atendo a chamada.

“Oi, Fernando”, ele quer saber se já estou a caminho. “Sim, estou no elevador. Quase chegando.”

Desligo o telefone, ao mesmo tempo em que as portas do elevador se abrem novamente. Eu sigo para a sala de reuniões, já estou quase alcançando a entrada quando percebo que o homem do elevador está logo atrás de mim. Paro por um instante e lhe encaro. Dessa forma, faço com que ele também se interrompa.

Quando finalmente cravo os meus olhos nele, a imagem do motoqueiro maluco, que tanto me atormentou em meus pesadelos, vem à tona com violência. Levo alguns instantes para desfazer essa imagem na minha cabeça. Não podia ser a mesma pessoa.O homem diante de mim agora não parecia uma besta, usava uma camisa social branca apertada e cheirava muito bem, o cabelo quase na altura dos ombros, ainda que levemente desgrenhado, estava bem mais comportado, não estava molhado, dava-lhe um aspecto quase elegante. Ele não podia ser aquele motoqueiro louco. Entretanto, seu tamanho lembrava demais o homem dos meus pesadelos.

Acho que estou lhe observando demais, porque ele sorri. Então eu acordo.

“Desculpe”, peço. “Você está me seguindo?”, lanço em seguida, quase com raiva. Mas eu me arrependo da pergunta estúpida assim que ele ergue uma de suas sobrancelhas grossas e me encara com curiosidade.

“Depende”, ele responde numa voz grave. “Você está a caminho da sala 316?”

Um pouco chocada com sua resposta, tento lembrar rapidamente o número da nossa sala de reuniões.Concluo que é a sala em que nos reunimos com frequência, tanta que eu já nem me lembrava seu número direito.

“Sim, estou a caminho dela”, confirmo.

“Então eu estou seguindo você”, ele reponde sarcástico.

Meio atordoada, eu retomo meu caminho, com ele em meus calcanhares. Quase podia sentir seu olhar e sorriso de deboche nas minhas costas. Tentei me controlar para não deixar meu rosto pegar fogo.

Fernando nos esperava na entrada, segurava um lugar para mim perto de Camila. Ao que parece, só faltávamos eu e o estranho para que a reunião começasse. O diretor da nossa unidade, um homem na casa dos sessenta anos que fizera carreira no serviço público após largar a empresa na qual era sócio à beira da falência, recebe o convidado como se ele fosse uma celebridade. Intercepto uma troca de olhares preocupada entre Fernando e Camila, então começo a desconfiar de tudo aquilo. Analisando rapidamente a mesa, vejo que tem muitas pessoas sentadas ali.Consigo identificar pelo menos dois diretores de outras unidades, alguns membros do time jurídico e chefes de outras células da organização.

Nesse momento, enquanto os diretores recebiam o convidado, Dudu entra na sala. Eu não percebi que a porta já estava fechada, então por um instante todos os olhos se voltam para o meu estagiário que não conseguiu entrar sem fazer barulho. Posso ver Dudu se petrificando lentamente sob o monte de olhos. Eu me levanto, reclamando a atenção para mim, enquanto isso aponto uma cadeira no canto da sala para Dudu, mesmo lugar ocupado por outros secretários.

Eu me sento em seguida, e todos voltam ao que faziam antes.

Em pouco tempo, nosso diretor chama a atenção de todos e apresenta o homem ao seu lado. Confirmando a suspeita, ele diz que o estranho será o consultor externo, aquele tão temido antes mesmo de sua chegada. A sala aplaude, mas consigo ver muita gente preocupada.

Bernardo.

O estranho chama-se Bernardo.

Analisando sua figura muito sorridente para o meu gosto, percebo que o nome lhe cai muito bem.Ele lembra perfeitamente um urso, mas também poderia ser um cachorro. Infelizmente, tudo indica que serei forçada a descobrir com qual dos dois ele mais se parece. Urso ou cachorro, acho que preciso tomar cuidado para não virar comida.

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