Minas Gerais, Interior Bergmann · Capítulo 43 de 63
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Minas Gerais, Interior

“Oi, Gabe, eu voltei, de novo, dessa vez para me despedir. Estou indo embora

da cidade, pela terceira vez para sempre. Não queria te deixar aqui sozinho, mas se eu

não continuar, acho que vou acabar pedindo um espacinho aí embaixo, para eu

finalmente ficar com você. Decidi te chamar de Gabe de agora em diante, porque Gabe

rima com baby, e eu sempre quis te chamar dessas coisas. Gabe, baby, amor, essas

coisas, sabe? Eu trouxe um pouco de vodca, vou servir você, como fazem os sul

coreanos com seus entes queridos quando partem. Pelo menos foi o que eu vi nos

doramas. Você conhecia os doramas, Gabe? Eu estou viciada neles, acho que vou até

aprender coreano. Não reclame sobre a vodca, eu não quis trazer tequila. Queria

obrigar você a beber vodca, já que foi você quem me apresentou essa coisa horrorosa.

Esses dias, num desses doramas, eu ouvi uma coisa interessante, Gabe. Eu ouvi que

aos vinte anos nós nos desvinculamos da influência e controle exercido em nós pelos

nossos pais e aos trinta não somos capazes de culpar mais ninguém pelos nossos

fracassos. Acho que foi isso que disseram. Não me lembro direito, só sei que achei

muito interessante. Eu estou com quase trinta, Gabe, mas ainda quero culpar muita

gente, não estou pronta para crescer, não estou pronta para aceitar que tudo é

responsabilidade minha. E você, Gabe? Será que não podemos culpar ninguém por

tudo que aconteceu com você? Será que foi realmente tudo culpa sua? Foram só suas

escolhas? É tão difícil achar uma resposta! Minha cabeça dói quando penso sobre

essas coisas. No final, sempre tento me lembrar que as respostas também não mudarão

muita coisa. Mesmo que possamos encontrar um culpado por tudo o que aconteceu

com você, de que adiantaria? Não podemos trazer você de volta, Gabe. Naquele dia,

quando nos despedimos do Caio, eu fiquei preocupada com você. Você parecia um

zumbi, Gabe. Era como se você já tivesse morrido. Eu vi isso, eu percebi, mas não fiz

nada. Será que sou culpada também, Gabe? Eu me lembro dos pais do Caio

questionarem a existência de Deus, eles eram pastores, Gabe, eles eram pastores.

Quando eles começaram a acreditar que Deus não existe eu fiquei com muita vergonha

de mim mesma, porque eu me questionei a mesma coisa, anos antes, mas só estava

com raiva da minha vida, só estava triste porque eu não tinha você. Eu quero agradecer

você, Gabe. Quero agradecer você por ter sido o meu primeiro amor. Quero pedir

desculpas por não ter entendido você, por ter te odiado por um tempo. Quando a Manu

soube sobre a sua morte, estávamos num luau na Bahia, eu me afastei de todo mundo

e fui me deitar na praia pensando em você. Tomara que de alguma forma você possa

ter sentido o meu amor por você, enquanto partia para outro mundo. A Manu não me

contou imediatamente, não contou para ninguém. Ela só conseguiu falar comigo, com

a Rafa e o Beto quando já estávamos em casa, no dia seguinte. Quase não conseguimos

chegar a tempo para despedir de você. Mas não fique com raiva dela, promete? Ela

gostava de você, do jeito dela. Naquela época, só estava preocupada comigo. Ela

achava que você despedaçaria meu coração, Gabe. E ela estava certa, você realmente

estragou tudo. Mas eu consigo entender você melhor agora. Agora, penso que

podemos nos perdoar. Eu perdoo você por ter me afastado se você puder me perdoar

por não ter insistido. O que acha? Eu acho que é um bom acordo. Está ficando difícil

ir embora, Gabe, então me deixa dizer, um pouco atrasada, que eu te amo. E se

tivermos outra chance, vamos nos encontrar, combinado? Só não parta meu coração

de novo, porque coração partido é um saco! Tomara que na sua nova vida você tenha

um pouco de felicidade, um pouco não, que você tenha muita! Muita! Muita! Muita,

muita mesmo, ouviu?! Eu prometo que vou fazer o meu melhor para ser feliz também.

Um beijo, Gabe. Durma com Deus.”

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