Brasília, DF Bergmann · Capítulo 62 de 63
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Brasília, DF

Estou quase terminando meu café quando Pablo entra na cozinha. Estamos só nós dois, então percebo que ele fica desconfortável. Eu continuo bebendo meu café, sem pressa, está quase terminando, logo poderei nos liberar da situação embaraçosa. Embora não tenhamos tido qualquer outro conflito como o de antes, e tenhamos seguido trabalhando com o respeito necessário, todas as vezes em que nos encontrávamos em ambientes como esse, era quase palpável o seu desconforto. Hoje, no entanto, ele não está só desconfortável, parece que quer me dizer algo. Ele tem o tempo que durar o restante do meu café.“Laura, a minha esposa espera uma menina”, ele começa, quase me assustando. “Descobrimos o sexo meses atrás.”

Eu penso um pouco, tentando tomar cuidado com minhas palavras.

“Parabéns, Pablo”, digo. “Tomara que ela venha com muita saúde.”

Ele assente levemente.

“Eu fiquei perdido quando descobri que era uma menina”, continua.“Fiquei com medo de não conseguir cuidar dela direito.”

“Mas você já tem dois meninos, não tem?”, questiono, recebendo um olhar de surpresa, porque ele não esperava que eu soubesse muita coisa sobre a sua vida.

“Sim, eu tenho”, continua, quando se recupera. “Só que ser pai de menino é diferente, os pirralhos se criam meio que sozinhos, se você deixar eles no quintal com os cachorros, eles dão um jeito de se virar.”

Eu rio, ele me acompanha, ainda envergonhado.

“Então eu estive pensando que se a minha filha estiver um dia na mesma posição da Bibi, eu gostaria que ela tivesse alguém como você por perto, para defendê-la”, a voz dele falha um pouco, mas Pablo continua. “Laura, eu quero me desculpar com você por aquela vez.Sei que já devia ter feito isso há muito tempo, espero que não seja muito tarde.”

Eu analiso a sinceridade das suas palavras por alguns instantes e acabo escolhendo acreditar nelas.

“Pablo, você sabe a diferença entre igualdade e equidade, não sabe?”, questiono, num tom ameno.

Ele fica confuso com minha pergunta, mas acaba balançando a cabeça num gesto de afirmação.

“No futuro, se você for responsável por uma equipe, você será capaz de entender que nem todos possuem as mesmas condições?”, prossigo. “Você será capaz de frear um comportamento inaceitável como o que arrasou a Abigail na época, principalmente se ocorrer num ambiente pelo qual você precisa zelar?”

“Laura, eu não entendo”, diz confuso.

“Eu sei que você trabalhou mais do que todos aqui para assumir o meu cargo”, explico, vendo mais vergonha brotar de seu rosto. “Sei que você se sentiu injustiçado, mas também sei que você continuou trabalhando muito, mesmo depois de todos os nossos problemas.”

Ele concorda, ainda perdido, ainda envergonhado.Eu analiso suas reações por um momento.

“É por isso que estou indicando você ao meu cargo, Pablo”, continuo. “Como você já deve saber, o diretor da nossa unidade pediu exoneração, então eu fui nomeada para o seu cargo. Com isso, preciso indicar alguém para o meu, e minha indicação é você.”

Pablo começa a chorar incontrolavelmente. Eu aguardo um pouco, quando ele se recupera, eu prossigo:

“Você ainda vai precisar encarar algumas etapas chatas desse processo, mas tenho certeza de que o cargo é seu, se você quiser.”

Ele continua emocionado, não sabe o que dizer. Acho que ainda não consegue falar. Dessa forma, eu prossigo mais uma vez:

“Quanto à sua menina, tente ser o homem que ela gostaria de conhecer no futuro, essa balela freudiana faz sentido algumas vezes”, brinco. “Se ela tiver bons exemplos em casa, se ela for amada por sua família, ela deve reconhecer o amor quando chegar a hora, e talvez assim ela seja capaz de amar sem se machucar.”

Pablo volta a soluçar, eu espero um pouco.Quando ele se acalma, eu finalizo:

“Cuide da minha equipe, por favor, eles são muito bons no que fazem”, caminho em direção à porta. “Eu só não consigo deixar o Dudu, então ele vai comigo, entendido?”

Pablo ri, mas antes que eu possa cruzar a porta, ele consegue me chamar com sua voz embargada.

“Muito obrigado.”

Eu aceno com a cabeça, então parto. Ele ainda permanece na cozinha por alguns minutos, tentando se recuperar.

Eu continuava enfrentando o mesmo ambiente hostil, bastou minha nomeação para o cargo de diretora da unidade que começaram os mexericos outra vez, com os retoques e ajustes necessários. Andavam dizendo que eu só conseguira o cargo por causa do Bernardo, que eu só conseguira o cargo por causa da cor da minha pele, que eu só conseguira o cargo porque eles precisavam de uma mulher para melhorar a imagem da instituição. Inventavam as desculpas mais esdrúxulas, que podiam até ter um pouco de sentido, mas minha competência nunca era ressaltada. Mais uma vez, eu teria que esperar para fazê-los engolir o que falavam.Pelo menos, não estava com pressa, podia fazer isso devagar, saboreando cada momento. Enquanto o mundo em que as mulheres não precisam se provar sob tamanha pressão não chega, eu vou continuar fazendo tudo do jeito que bem entender. Eu ainda não tenho nada a perder, porque o status e o poder que vêm com o novo cargo não podem me dominar, porque aqueles que me amam, o fazem incondicionalmente, e porque se no futuro eu me encontrar novamente sozinha no chão, eu consigo me levantar. Eu posso confiar em mim mesma, essa é a única certeza que eu tenho.

Hoje é o último dia de Bernardo no ministério, ele está muito feliz, não via a hora de correr daqui para sempre. Ele finalmente vai tirar alguns dias para descansar, depois de trabalhar à exaustão. Nosso projeto segue para a fase de implementação, então outra unidade ficará responsável por verificar a destinação dos recursos.Mesmo assim, eu e Bernardo nos comprometemos a fiscalizar o processo, então não é como se o nosso trabalho estivesse de fato acabado.

Enquanto subo para seu escritório no piso superior, reexamino mentalmente a surpresa que preparei para ele no meu apartamento. Não é nada demais, só um jantar mais romântico. Espero que possamos conversar um pouco e que eu possa enfim explicar algumas coisas. Bernardo tem sido muito paciente comigo, eu precisava reconhecer isso. Eu ainda sentia medo, mas não quero mais ficar tão perdida, por isso decido caminhar com medo mesmo. Ainda que eu não possa confiar nas pessoas, confiarei em mim mesma, a única pessoa que conheço o suficiente.

Quando entro na sua sala vejo os rastros de uma despedida que deve ter acontecido há muito pouco tempo. Há garrafas de espumante abertas em cima da sua mesa, taças usadas espalhadas pelo caminho e serpentinas no chão. Ele tem um sorriso enorme, acho que mal pode esperar pelo fim do dia.Seguro o riso, enquanto sigo na sua direção para abraçá-lo.

“Essa merda acabou!”, ele grita, enquanto gira comigo em seus braços.

Quando ele me coloca no chão estou um pouco zonza, mas recupero meu equilíbrio.

“Deve ter sido horrível mesmo a experiência”, eu debocho.

Ele beija minha testa.

“A única coisa boa desse lugar é você, meu amor.”

Eu seguro suas mãos, beijo cada uma delas, então o encaro.

“Nós vamos comemorar sua liberdade na minha casa hoje à noite”, digo. “E você não tem a opção de declinar o meu convite.”

Bernardo me beija.

“Eu seria louco se recusasse um convite desses”, ele responde, logo depois. “Eu já disse um milhão de vezes, meu amor, mas vou repetir: você tem o que quiser de mim.”

Eu sabia que ele ainda estava esperando minha resposta, tanto para a sua ideia de morarmos juntos quanto para sua declaração. Eu pensei que ficaríamos num clima estranho depois daquela noite, porque eu não consegui dizer nada, porém, ele continuou paciente, me surpreendendo muito.Hoje, finalmente serei capaz de respondê-lo.

“Eu não me importo em ouvir outro milhão de vezes”, brinco.

Ele não se aguenta, então me beija de novo.

Hoje, vamos embora daqui juntos, sairemos de mãos dadas e recordaremos nossa história enquanto cruzamos cada ambiente. Elevador, cozinha, corredores, saguão, porta, rua. Tudo isso vai nos lembrar do caminho que percorremos até montarmos essa nossa coleção de instantes que eu não quero que acabem.

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