Brasília, DF Bergmann · Capítulo 54 de 63
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Brasília, DF

Finalmente, estou em casa, depois de dias longe daqui, parece que falta alguma coisa, e eu sei bem o que é, mas não quero pensar nisso agora. Eu nem desfaço as malas, vou logo tomar meu vinho na sacada, admirando as luzes da cidade. É uma noite bonita, posso encontrar um pouco de paz nesse cenário. Em breve, tudo mudaria no trabalho, então eu escolhi o momento certo para tirar uns dias de folga. Minha viagem foi muito boa, eu consegui esquecer brevemente os meus problemas, mas foi só chegar que tudo recomeçou.Uma chuva fina começa a cair de novo, eu quero chorar. Será que Bernardo me achava um monstro, assim como minha família? Será que algum dia vou conseguir superar a minha vontade de destruir animais asquerosos? Eu não estava arrependida do que fiz, como nunca estive antes, mas dessa vez eu me importava com o julgamento de alguém. Quando minha família me tratou como se eu fosse uma aberração, eu fiquei feliz, porque pensei que eles se livrariam mais rápido de mim, facilitando a minha emancipação tão sonhada.Desta vez, com Bernardo, eu estou insegura. Tivesse acontecido meses atrás, eu não me importaria nem um pouco, mas agora alguma coisa estava diferente. Eu detestava me sentir exposta e vulnerável diante dele, eu odiava esse turbilhão de emoções sem sentido que me confundiam e desorientavam tanto. Essa não sou eu, quantas vezes preciso repetir?

No dia seguinte, o meu telefone tocou sem parar, eu sabia que era Bernardo. Ele provavelmente estava na minha porta, mas eu já tinha partido há muito tempo. Eu não quis encontrá-lo até colocar minhas emoções no lugar, coisa que infelizmente não aconteceu. Eu mandei uma mensagem de texto para ele, explicando que precisava de um tempo sozinha, novamente, disse que ele podia me ligar se precisasse de mim para algum depoimento, mas se esse não fosse o caso, ele precisava parar de me ligar. Bernardo parou de me ligar, então eu pude ficar a sós com minhas recordações, dúvidas e emoções intensas.

Eu começo a chorar, assim como a chuva mais cedo, o meu choro começa devagar, mas logo se torna convulsivo.Estou fazendo o melhor que eu posso, mas eu cometi um erro, eu me enganei quando pensei que podia ganhar esse jogo. Eu não devia ter me envolvido, eu não devia ter sucumbido ao conforto dos braços dele, eu não devia ter aceitado seu carinho. E agora, o que eu vou fazer?

Ouço o barulho de uma chave girando na minha maçaneta, eu me assusto um pouco, mas entro na sala e agarro o meu vaso de flores, o primeiro objeto que encontro. Espero preparada para atacar, uma dúvida surge na minha cabeça, mas eu espero, preparada.

Confirmando minhas suspeitas, quem entra no meu apartamento é Bernardo. Ele me olha cansado, não se assusta com o que vê. Ele suspira, então caminha até mim devagar, joga suas chaves e carteira em cima da bancada da cozinha e retira o vaso da minha mão. Ele devolve o vaso ao seu lugar de origem, então me encara. Parece analisar cada centímetro do meu rosto.

Quando Bernardo avança um passo na minha direção, eu recuo outro. Ele se detém.Seu semblante parece cansado, provavelmente como o meu deve lhe parecer.

“Como sabia que eu estava aqui?”, questiono.

“Pedi ao seu porteiro pra me avisar quando você chegasse”, ele diz, sem tirar os olhos de mim.

“O meu porteiro não pode passar esse tipo de informação”, rebato, amarga.

“Acha mesmo que eu não poderia convencê-lo?”

Claro que ele podia, eu não tinha a menor dúvida disso. Nem quero saber o que combinaram, mas eu precisava ficar esperta nas próximas vezes.

“Laura, por que você está fugindo de mim?”, Bernardo pergunta, exausto.

“Eu não estou fugindo de você”, minto, sabendo que em vão.

Bernardo aproxima um passo, eu recuo outro novamente.

“Então o que você está fazendo agora, Laura?”

Eu tento disfarçar, perguntando num sussurro:

“Como você lidou com tudo?”

“Não importa, está resolvido”, ele responde, encerrando a questão.

“Eu não preciso que você lide com as minhas merdas, Bernardo”, minha voz sai ríspida.

Bernardo perde a paciência e me alcança. Num instante, estou sufocando no seu abraço.Eu não consigo respirar direito, mas não reclamo. Outra vez, as lágrimas começam a cair. Estou desesperada, tentando ser forte, mas não consigo evitar.

“Laura, você pode me perdoar?”, ele implora, acho que também segura o choro. “Por favor, me perdoa, meu amor! Eu não consegui perceber a merda que estava acontecendo! Eu deixei você sozinha com aquele filho da puta dos infernos! Eu sinto tanto, meu amor! Por favor, me perdoa! Você pode me perdoar?”

Eu não consigo responder, meu choro se intensifica. Então Bernardo me pega em seu colo e se senta comigo ali na sala. Eu não consigo nem olhar nos seus olhos, enterro meu rosto em seu ombro e choro como uma criança.

Ele solta alguns palavrões, não sei a quem são dirigidos, mas percebo que ele ainda controla o choro, deixa escapar apenas algumas lágrimas, que molham minhas costas.

Não tenho certeza por quanto tempo ficamos assim, mas aos poucos vamos nos acalmando. E com essa calma, vem o sono, pelo qual tanto esperei.Rapidamente, estou sonolenta em seu colo, então ele me ajeita no sofá e se deita ao meu lado, ainda me abraça. Bernardo cheira o meu cabelo e beija meu rosto inchado, fazendo com que eu queira dormir ainda mais profundamente para não precisar encarar seus olhos tão cedo.

Quando eu desperto, estou na minha cama, vestindo uma camisa muito larga que não me pertence. Procuro pelo cômodo, mas não encontro seu dono. Ouço barulho na cozinha, então tomo coragem para ir até lá. Enquanto reúno coragem, passo no banheiro para verificar a situação do meu rosto, não está nada boa, mas não há muito o que fazer.

Na cozinha, Bernardo finaliza alguma coisa que me parece omeletes. Eu entro no cômodo devagar, incerta, insegura. Quando me vê, ele me avalia por um instante, volta sua atenção para o que prepara e logo desliga o fogo. Então ele me olha de novo, sorri e me abraça mais uma vez.

“Eu estava morrendo de saudades de você, meu amor”, diz, então me solta.“Você está melhor?”

Eu balanço a cabeça, concordando.

Nesse momento, ele percebe que desvio o olhar, então ele toma meu rosto em suas mãos e me obriga a encará-lo.

“Fala comigo, meu amor”, implora, me desconcertando.

Eu não tenho mesmo como fugir, então inclino meus lábios em direção aos dele e lhe beijo. Bernardo parece perdido por um momento, mas logo entende o que estou fazendo. Eu pulo em sua cintura, cruzo minhas pernas ali. Ele caminha conosco e se senta novamente no sofá, me apertando contra seu membro enrijecido. Estou desesperada por ele, estou desesperada para que ele não me faça perguntas que não quero responder. Eu me movimento em seu colo, sabendo exatamente o que estou fazendo. Ele não se controla, então eu consigo o que eu quero, pelo menos por um tempo.

Bernardo beija minha testa, beija meu pescoço e beija meu ombro, então volta a me encarar. Estamos deitados no meu sofá novamente, completamente nus.No entanto, não é essa a nudez que me preocupa.

“E agora, nós já podemos conversar?”, ele brinca.

Eu tento sorrir.

“Laura, você está me assustando”, ele faz carinho no meu rosto.

“Bernardo, nós podemos falar disso noutra hora?”, eu tento.

Ele pensa um pouco, ainda me avalia com cuidado.

“Tenho a impressão de que se eu deixar você nunca vai me falar nada, Laura.”

Ele tinha razão, eu só esperava que ele pudesse cair nessa. Infelizmente, parece que não tem mais como eu fugir do assunto.

“O que você quer saber, Bernardo?”, questiono, tentando acertar o tom para não parecer ríspida de novo. “Quer saber por que eu agredi aquele porco?”

Bernardo me abraça, suspira em meu cabelo.

“Eu sei por que você fez aquilo, Laura”, diz, novamente evitando o choro. “Eu sei o que ele tentou fazer com você e eu sinto muito mesmo que você tenha passado por isso, meu amor.”

Eu limpo uma lágrima que me escapa.

“Não foi culpa sua, Bernardo”, finalmente confesso.“Eu não quis culpar você, eu só estava com muita raiva naquele momento.”

Ele balança a cabeça, dizendo que não, volta a me olhar.

“Você tinha razão sim, meu amor”, diz. “Eu devia ter pensado melhor naquela porra toda. Sei lá, eu estava tão animado por ter você ali comigo, eu não pensei que o filho da puta do Chico fosse fazer uma merda daquelas.”

“Eles são realmente seus amigos, Bernardo?”, questiono, com cuidado.

Ele toma um instante pensando na resposta.

“Tem os caras pra beber e os parceiros de verdade, meu amor”, finalmente responde. “Eu não devia ter chamado toda a galera, eu vacilei feio. Por favor, me perdoa. Foi você quem acabou pagando pelo meu deslize”, Bernardo beija minha testa. “O que eu tenho que fazer pra você me perdoar, Laura?”

Eu beijo seu queixo, consigo sorrir.

“Está tudo bem, Bernardo”, afirmo.“Só tome mais cuidado com o ambiente em que seu filho cresce.”

Ele enterra seu rosto no meu pescoço, eu sinto cócegas.

Quando ele interrompe seu ataque, volta a me olhar sério.

“Eu prometo que vou construir um lugar onde você vai poder se sentir segura, meu amor”, diz. “Prometo que não vai precisar se preocupar com você ou com o Joaquim de novo.”

Eu lhe abraço, é um agradecimento. Eu gostaria de ver o Joaquim num lugar seguro, mesmo se eu não estiver ao seu lado. E com esse pensamento, fico triste outra vez, tentando entender o que eu quero de verdade. Eu estava pronta para encerrar o meu acordo com Bernardo? Eu estava disposta a continuar me sentindo cada vez mais vulnerável ao seu lado? Se eu não tomasse uma decisão em breve, provavelmente correria o risco de não me decidir jamais, mas essa seria uma situação insustentável.Eu precisava fazer uma escolha em breve, só não seria nesta noite, porque eu ainda preciso do corpo dele para dormir.

“Laura, você ainda não se decidiu sobre morar comigo, não é?”, ele pergunta, como se adivinhasse meus pensamentos. “Se você quiser, nós podemos nos mudar para outro lugar.”

Eu o encaro novamente, surpresa.

“Bernardo, por favor...”

“Eu só quero ficar com você, meu amor, não importa onde”, ele me interrompe. “Eu faço o que você quiser, Laura.”

Meu coração se parte, eu não sei o que dizer, então para sair do embaraço eu lhe lanço um sorriso e digo:

“Você vem tomar banho comigo?”

Bernardo leva um instante para se recuperar, mas quando entende o que estou dizendo, me devora com olhos e boca, depois me leva para o chuveiro.

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