Sobre as Bodas de um Sexagenário Sarças de Fogo · Capítulo 3 de 29
Obra Menu

Sobre as Bodas de um Sexagenário

Amas. Um novo sol apontou no horizonte,

E ofuscou-te a pupila e iluminou-te a fronte...

Lívido, o olhar sem luz, roto o manto, caída

Sobre o peito, a tremer, a barba encanecida,

Descias, cambaleando, a encosta pedregosa

Da velhice. Que mão te ofereceu, piedosa,

Um piedoso bordão para amparar teus passos?

Quem te estendeu a vida, estendendo-te os braços?

Ias desamparado, em sangue os pés, sozinho...

E era horrendo o arredor, torvo o espaço, o caminho

Sinistro, acidentado... Uivava perto o vento

E rodavam bulcões no torvo firmamento.

Entrado de terror, a cada passo o rosto

Voltavas, perscrutando o caminho transposto,

E volvias o olhar: e o olhar alucinado

Via de um lado a treva, a treva de outro lado,

E assombrosas visões, vultos extraordinários,

Desdobrando a correr os trêmulos sudários.

E ouvias o rumor de uma enxada, cavando

Longe a terra... E paraste exânime.

Foi quando

Te pareceu ouvir, pelo caminho escuro,

Soar de instante a instante um passo mal seguro

Como o teu. E atentando, entre alegria e espanto,

Viste que vinha alguém compartindo o teu pranto,

Trilhando a mesma estrada horrível que trilhavas,

E ensangüentando os pés onde os ensangüentavas.

E sorriste. No céu fulgurava uma estrela...

E sentiste falar subitamente, ao vê-la,

Teu velho coração dentro do peito, como

Desperto muita vez, no derradeiro assomo

Da bravura, - sem voz, decrépito, impotente,

Trôpego, sem vigor, sem vista, - de repente

Riça a juba, e, abalando a solidão noturna,

Urra um velho leão numa apartada furna.

1/1
Menu

Fazer anotação