A Tentação de Xenócrates Sarças de Fogo · Capítulo 29 de 29
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A Tentação de Xenócrates

I

Nada turbava aquela vida austera:

Calmo, traçada a túnica severa,

Impassível, cruzando a passos lentos

As aléias de plátanos, - dizia

Das faculdades da alma e da teoria

De Platão aos discípulos atentos.

Ora o viam perder-se, concentrado,

No labirinto escuso de intricado,

Controverso e sofístico problema,

Ora os pontos obscuros explicando

Do Timeu, e seguro manejando

A lâmina bigúmea do dilema.

Muitas vezes, nas mãos pousando a fronte,

Com o vago olhar perdido no horizonte,

Em pertinaz meditação ficava.

Assim, junto às sagradas oliveiras,

Era imoto seu corpo horas inteiras,

Mas longe dele o espírito pairava.

Longe, acima do humano fervedouro,

Sobre as nuvens radiantes,

Sobre a planície das estrelas de ouro;

Na alta esfera, no páramo profundo

Onde não vão, errantes,

Bramir as vozes das paixões do mundo:

Aí, na eterna calma,

Na eterna luz dos céus silenciosos,

Voa, abrindo, sua alma

As asas invisíveis,

E interrogando os vultos majestosos

Dos deuses impassíveis...

E a noite desce, afuma o firmamento...

Soa somente, a espaços,

O prolongado sussurrar do vento...

E expira, às luzes últimas do dia,

Todo o rumor de passos

Pelos ermos jardins da Academia.

E, longe, luz mais pura

Que a extinta luz daquele dia morto

Xenócrates procura:

- Imortal claridade,

Que é proteção e amor, vida e conforto,

Porque é a luz da verdade.

II

Ora Laís, a siciliana escrava

Que Apeles seduzira, amada e bela

Por esse tempo Atenas dominava...

Nem o frio Demóstenes altivo

Lhe foge o império: dos encantos dela

Curva-se o próprio Diógenes cativo.

Não é maior que a sua a encantadora

Graça das formas nítidas e puras

Da irresistível Diana caçadora;

Há nos seus olhos um poder divino;

Há venenos e pérfidas doçuras

Na fita de seu lábio purpurino;

Tem nos seios - dois pássaros que pulam

Ao contacto de um beijo, - nos pequenos

Pés, que as sandálias sôfregas osculam.

Na coxa, no quadril, no torso airoso,

Todo o primor da calipígia Vênus

- Estátua viva e esplêndida do Gozo.

Caem-lhe aos pés as pérolas e as flores,

As dracmas de ouro, as almas e os presentes,

Por uma noite de febris ardores.

Heliastes e Eupátridas sagrados,

Artistas e Oradores eloqüentes

Leva ao carro de glória acorrentados...

E os generais indômitos, vencidos,

Vendo-a, sentem por baixo das couraças

Os corações de súbito feridos.

III

Certa noite, ao clamor da festa, em gala,

Ao som contínuo das lavradas taças

Tinindo cheias na espaçosa sala,

Vozeava o Ceramico, repleto

De cortesãs e flores. As mais belas

Das heteras de Samos e Mileto

Eram todas na orgia. Estas bebiam,

Nuas, à deusa Ceres. Longe, aquelas

Em animados grupos discutiam.

Pendentes no ar, em nuvens densas, vários

Quentes incensos índicos queimando,

Oscilavam de leve os incensários.

Tíbios flautins finíssimos gritavam;

E, as curvas harpas de ouro acompanhando,

Crótalos claros de metal cantavam...

O espúmeo Chipre as faces dos convivas

Acendia. Soavam desvairados

Febris acentos de canções lascivas.

Via-se a um lado a pálida Frinéia,

Provocando os olhares deslumbrados

E os sensuais desejos da assembléia.

Laís além falava: e, de seus lábios

Suspensos, a beber-lhe a voz maviosa,

Cercavam-na Filósofos e Sábios.

Nisto, entre a turba, ouviu-se a zombeteira

Voz de Aristipo: "És bela e poderosa,

Laís! mas, por que sejas a primeira,

A mais irresistível das mulheres,

Cumpre domar Xenócrates! És bela...

Poderás fasciná-lo se o quiseres!

Doma-o, e serás rainha!" Ela sorria.

E apostou que, submisso e vil, naquela

Mesma noite a seus pés o prostraria.

Apostou e partiu...

IV

Na alcova muda e quieta,

Apenas se escutava

Leve, a areia, a cair no vidro da ampulheta...

Xenócrates velava.

Mas que harmonia estranha,

Que sussurro lá fora! Agita-se o arvoredo

Que o límpido luar serenamente banha:

Treme, fala em segredo...

As estrelas, que o céu cobrem de lado a lado,

A água ondeante dos lagos

Fitam, nela espalhando o seu clarão dourado,

Em timidos afagos.

Solta um pássaro o canto.

Há um cheiro de carne à beira dos caminhos...

E acordam ao luar, como que por encanto,

Estremecendo, os ninhos...

Que indistinto rumor! Vibram na voz do vento

Crebros, vivos arpejos.

E vai da terra e vem do curvo firmamento

Um murmurar de beijos.

Com as asas de ouro, em roda

Do céu, naquela noite úmida e clara, voa

Alguém que a tudo acorda e a natureza toda

De desejos povoa:

É a Volúpia que passa e no ar desliza; passa,

E os coraçóes inflama...

Lá vai! E, sobre a terra, o amor, da curva taça

Que traz às mãos, derrama.

E entretanto, deixando

A alva barba espalhar-se em rolos sobre o leito,

Xenócrates medita, as magras mãos cruzando

Sobre o escamado peito.

Cisma. E tão aturada é a cisma em que flutua

Sua alma, e que a regiões ignotas o transporta,

- Que não sente Lais, que surge seminua

Da muda alcova à porta.

V

É bela assim! Desprende a clâmide! Revolta,

Ondeante, a cabeleira, aos níveos ombros solta,

Cobre-lhe os seios nus e a curva dos quadris,

Num louco turbilhão de áureos fios subtis.

Que fogo em seu olhar! Vê-lo é a seus pés prostrada

A alma ter suplicante, em lágrimas banhada,

Em desejos acesa! Olhar divino! Olhar

Que encadeia, e domina, e arrasta ao seu altar

Os que morrem por ela, e ao céu pedem mais vida,

Para tê-la por ela inda uma vez perdida!

Mas Xenócrates cisma...

É em vão que, a prumo, o sol

Desse olhar abre a luz num radiante arrebol...

Em vão! Vem tarde o sol! Jaz extinta a cratera,

Não há vida, nem ar, nem luz, nem primavera:

Gelo apenas! E, em gelo envolto, ergue o vulcão

Os flancos, entre a névoa e a opaca cerração...

Cisma o sábio. Que importa aquele corpo ardente

Que o envolve, e enlaça, e prende, e aperta loucamente?

Fosse cadáver frio o mundo ancião! talvez

Mais sentisse o calor daquela ebúrnea tez!...

Em vão Laís o abraça, e o nacarado lábio

Chega-lhe ao lábio frio... Em vão! Medita o sábio,

E nem sente o calor desse corpo que o atrai,

Nem o aroma febril que dessa boca sai.

E ela: "Vivo não és! Jurei domar um homem,

Mas de beijos não sei que a pedra fria domem!"

Xenócrates, então, do leito levantou

O corpo, e o olhar no olhar da cortesã cravou:

"Pode rugir a carne... Embora! Dela acima

Paira o espírito ideal que a purifica e anima:

Cobrem nuvens o espaço, e, acima do atro véu

Das nuvens, brilha a estrela iluminando o céu!"

Disse. E outra vez, deixando

A alva barba espalhar-se em rolos sobre o leito,

Quedou-se a meditar, as magras mãos cruzando

Sobre o escamado peito.

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