Milagre Sarças de Fogo · Capítulo 6 de 29
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Milagre

É nestas noites sossegadas,

Em que o luar aponta, e a fina,

Móbil e trêmula cortina

Rompe das nuvens espalhadas;

Em que no azul espaço, vago,

Cindindo o céu, o alado bando,

Vai das estrelas caminhando

Aves de prata à flor de um lago;

E nestas noites - que, perdida,

Louca de amor, minh'alma voa

Para teu lado, e te abençoa,

Ó minha aurora! ó minha vida!

No horrendo pântano profundo

Em que vivemos, és o cisne

Que o cruza, sem que a alvura tisne

Da asa no limo infecto e imundo.

Anjo exilado das risonhas

Regiões sagradas das alturas,

Que passas puro, entre as impuras

Humanas cóleras medonhas!

Estrela de ouro calma e bela,

Que, abrindo a lúcida pupila,

Brilhas assim clara e tranqüila

Nas torvas nuvens da procela!

Raio de sol dourando a esfera

Entre as neblinas deste inverno,

E nas regiões do gelo eterno

Fazendo rir a primavera!

Lírio de pétalas formosas,

Erguendo à luz o níveo seio,

Entre estes cardos, e no meio

Destas eufórbias venenosas!

Oásis verde no deserto!

Pássaro voando descuidado

Por sobre um solo ensangüentado

E de cadáveres coberto!

Eu que homem sou, eu que a miséria

Dos homens tenho, - eu, verme obscuro,

Amei-te, flor! e, lodo impuro,

Tentei roubar-te a luz sidérea...

Vaidade insana! Amar ao dia

A treva horrenda que negreja!

Pedir a serpe, que rasteja,

Amor à nuvem fugidia!

Insano amor! vaidade insana!

Unir num beijo o aroma à peste!

Vazar, num jorro, a luz celeste

Na escuridão da noite humana!

Mas, ah! quiseste a ponta da asa,

Da pluma trêmula de neve

Descer a mim, roçar de leve

A superfície desta vasa...

E tanto pôde essa piedade,

E tanto pôde o amor, que o lodo

Agora é céu, é flores todo,

E a noite escura é claridade!

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