Um Trecho de Th. Gautier Sarças de Fogo · Capítulo 14 de 29
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Um Trecho de Th. Gautier

(Mile de Maupin.)

É porque eu sou assim que o mundo me repele,

E é por isso também que eu nada quero dele

Minh'alma é uma região ridente e esplendorosa,

Na aparência; porém pútrida e pantanosa,

Cheia de emanações mefíticas, repleta

De imundos vibriões, como a região infecta

Da Batávia, de um ar pestífero e nocivo.

Olha a vegetação: tulipas de ouro vivo,

Fulvos nagassaris de ampla coroa, flores

De angsoka, pompeando a opulência das cores,

Viçam; viçam rosais de púrpura, sorrindo

Sob o límpido azul de um céu sereno e infindo...

Mas a flórea cortina entreabre, e vê: - no fundo,

Sobre os trôpegos pés movendo o corpo imundo,

Vai de rastos um sapo hidrópico e nojento...

Olha esta fonte agora: o claro firmamento

Traz no puro cristal, puro como um diamante.

Viajor! de longe vens, ardendo em sede? Adiante!

Segue! Fora melhor, ao cabo da jornada,

De um pântano beber a água que, estagnada

Entre os podres juncais, em meio da floresta

Dorme... Fora melhor beber dessa água! Nesta

Se acaso a incauta mão mergulha um dia a gente,

Ao sentir-lhe a frescura ao mesmo tempo sente

As picadas mortais das peçonhentas cobras,

Que coleiam, torcendo e destorcendo as dobras

Da escama, e da atra boca expelindo o veneno...

Segue! porque é maldito e ingrato este terreno:

Quando, cheio de fé na colheita futura,

Antegozando o bem da próxima fartura,

Na terra, que fecunda e boa te parece,

Semeares trigo, - em vez da ambicionada messe,

Em vez da espiga de ouro a cintilar, - apenas

Colherás o meimendro, e as cabeludas penas

Que, como serpes, brande a mandrágora bruta,

Entre vegetações de asfódelo e cicuta...

Ninguém logrou jamais atravessar em vida

A floresta sem fim, negra e desconhecida,

Que eu tenho dentro d'alma. É uma floresta enorme,

Onde, virgem intacta, a natureza dorme,

Como nos matagais da América e de Java:

Cresce, crespa e cerrada, a laçaria brava

Dos fléxiles cipós, curvos e resistentes,

As árvores atando em voltas de serpentes;

Lá dentro, na espessura, entre o esplendor selvagem

Da flora tropical, nos arcos de folhagem

Balançam-se animais fantásticos, suspensos:

Morcegos de uma forma extraordinária, e imensos

Escaravelhos que o ar pesado e morno agitam.

Monstros de horrendo aspecto estas furnas habitam:

- Elefantes brutais, brutais rinocerontes,

Esfregando ao passar contra os rugosos montes

A rugosa couraça, e espedaçando os troncos

Das árvores, lá vão; e hipopótamos broncos

De túmido focinho e orelhas eriçadas,

Batem pausadamente as patas compassadas.

Na clareira, onde o sol penetra ao meio-dia

O auriverde dossel das ramagens, e enfia

Como uma cunha de ouro um raio luminoso,

E onde um calmo retiro achar contaste ansioso,

- Transido de pavor encontrarás, piscando

Os olhos verdes, e o ar, sôfrego, respirando,

Um tigre a dormitar, com a língua rubra o pêlo

De veludo lustrando, ou, em calma, um novelo

De boas, digerindo o touro devorado...

Tem receio de tudo! O céu puro e azulado,

A erva, o fruto maduro, o sol, o ambiente mudo,

Tudo aquilo é mortal... Tem receio de tudo!

E é porque eu sou assim que o mundo me repele,

E é por isso também que eu nada quero dele!

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