I. Prodigio Primeiros Cantos · Capítulo 22 de 45
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I. Prodigio

I. Prodigio

N’aquelle instante em que vacilla a mente

Do somno ao despertar, quando pejada

Vem doutros mundos de visões ethereas:

Quando sobre a manhã surge brilhante

A luz da madrugada,-eu vi!... nem sonhos

Era a minha visão, real não era;

Mas tinha d’ambos o talvez.-Quem sabe?

Foi caprixo fallaz da phantasia,

Ou foi certo aventar d’eras venturas?

A ira do Senhor baixou tremenda

Sobre uma vasta capital!-em pedra

Tomou-se a gente impura. Muitos homens

As portas ferreas, largas, vi sentados.

Melhor do que um pintor ou statuario

A morte, que de subito os colhera

No ardor, no afan da vida, conservou-lhes

A acção-partida em meio, com tal força,

Que a mente seo máo grado a completava.

Um tinha os labios entre-abertos; outro

Parecia sorrir; mais longe aquelle

Derramava um segredo, baixo, á medo,

Nos ouvidos do amigo; austero o guarda

Com rosto carregado e barba hirsuta

Nas mãos callosas sopesava a lança.

Dos mercadores na comprida rua

Passavão muitos compradores;-este

Contava montes d’oiro;-á luz aquelle

Expunha a seda do Indostão, de Tyro

A purpura brilhante, a damasquina

Custosa tela entretecida d’oiro.

Cortez sorrindo, o mercador gabava

As cores vivas, o tecido, o corpo

Do estofo que vendia. Nos serralhos

Era o Eunucho imperfeito; das Mesquitas

Bradava á prece o Muezzin...

-N’um largo,

Fofo e vasto divan sentado, um velho

Os versos lia do Alcorão;-só elle

D’entre tanto punir ficára illeso.

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