I. Prodigio
I. Prodigio
N’aquelle instante em que vacilla a mente
Do somno ao despertar, quando pejada
Vem doutros mundos de visões ethereas:
Quando sobre a manhã surge brilhante
A luz da madrugada,-eu vi!... nem sonhos
Era a minha visão, real não era;
Mas tinha d’ambos o talvez.-Quem sabe?
Foi caprixo fallaz da phantasia,
Ou foi certo aventar d’eras venturas?
A ira do Senhor baixou tremenda
Sobre uma vasta capital!-em pedra
Tomou-se a gente impura. Muitos homens
As portas ferreas, largas, vi sentados.
Melhor do que um pintor ou statuario
A morte, que de subito os colhera
No ardor, no afan da vida, conservou-lhes
A acção-partida em meio, com tal força,
Que a mente seo máo grado a completava.
Um tinha os labios entre-abertos; outro
Parecia sorrir; mais longe aquelle
Derramava um segredo, baixo, á medo,
Nos ouvidos do amigo; austero o guarda
Com rosto carregado e barba hirsuta
Nas mãos callosas sopesava a lança.
Dos mercadores na comprida rua
Passavão muitos compradores;-este
Contava montes d’oiro;-á luz aquelle
Expunha a seda do Indostão, de Tyro
A purpura brilhante, a damasquina
Custosa tela entretecida d’oiro.
Cortez sorrindo, o mercador gabava
As cores vivas, o tecido, o corpo
Do estofo que vendia. Nos serralhos
Era o Eunucho imperfeito; das Mesquitas
Bradava á prece o Muezzin...
-N’um largo,
Fofo e vasto divan sentado, um velho
Os versos lia do Alcorão;-só elle
D’entre tanto punir ficára illeso.