O Oiro
O Oiro
Oiro,-poder, encanto ou maravilha
Da nossa idade,-regedor da terra,
Que dás honra e valor, virtude e força,
Que tens offertas, oblações e altares,-
Embora teo louvor cante na lyra
Vendido Menestrel que pôde insano
Do grande á porta renegar seo genio!
Outro, sim, que não eu.-Bardo sem nome,
Com pouco vivo;-sobre a terra, á noite,
Meo corpo lanço, descançando a fronte
N’um tronco ou pedra ou mal nascido arbusto.
Sou mais que um rei co’o meo docel de nuvens
Que tem gravados scintillantes mundos!
Com a vista no céo percorro os astros,
Vagueia a minha mente além das nuvens,
Vagueia o meo pensar-alto, arrojado
Além de quanto o olhar nos céos alcança.
Então do meo Senhor me calão n’alma
D’amor ardente enlevos indiziveis;
Se tento ás gentes redizer seo nome,
Queimadoras palavras se atropellão
Nos meos labios;-prophetica harmonia
Meo peito anceia, e em borbotões se expande.
Grandes, Senhor, são tuas obras, grandes
Tens prodigios, teo poder immenso:
O pae ao filho o diz, um sec’lo a outro,
A terra ao céo, o tempo á eternidade!
Do mundo as illusões, vaidade, engano,
Da vida a mesquinhez-prazer ou pranto-
Tudo esse nome arrastra, prostra e some;
Como aos raios do sol desfeito o gelo,
Que em ondas corre no pendor do monte,
Precipite e ruidoso,-arbustos, troncos
Comsigo no passar rompidos leva.