O Oiro Primeiros Cantos · Capítulo 35 de 45
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O Oiro

O Oiro

Oiro,-poder, encanto ou maravilha

Da nossa idade,-regedor da terra,

Que dás honra e valor, virtude e força,

Que tens offertas, oblações e altares,-

Embora teo louvor cante na lyra

Vendido Menestrel que pôde insano

Do grande á porta renegar seo genio!

Outro, sim, que não eu.-Bardo sem nome,

Com pouco vivo;-sobre a terra, á noite,

Meo corpo lanço, descançando a fronte

N’um tronco ou pedra ou mal nascido arbusto.

Sou mais que um rei co’o meo docel de nuvens

Que tem gravados scintillantes mundos!

Com a vista no céo percorro os astros,

Vagueia a minha mente além das nuvens,

Vagueia o meo pensar-alto, arrojado

Além de quanto o olhar nos céos alcança.

Então do meo Senhor me calão n’alma

D’amor ardente enlevos indiziveis;

Se tento ás gentes redizer seo nome,

Queimadoras palavras se atropellão

Nos meos labios;-prophetica harmonia

Meo peito anceia, e em borbotões se expande.

Grandes, Senhor, são tuas obras, grandes

Tens prodigios, teo poder immenso:

O pae ao filho o diz, um sec’lo a outro,

A terra ao céo, o tempo á eternidade!

Do mundo as illusões, vaidade, engano,

Da vida a mesquinhez-prazer ou pranto-

Tudo esse nome arrastra, prostra e some;

Como aos raios do sol desfeito o gelo,

Que em ondas corre no pendor do monte,

Precipite e ruidoso,-arbustos, troncos

Comsigo no passar rompidos leva.

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