Ao Dr. João Duarte Lisboa Serra Primeiros Cantos · Capítulo 31 de 45
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Ao Dr. João Duarte Lisboa Serra

Ao Dr. João Duarte Lisboa Serra

23 de Agosto.

Mais um pungir de acerrima saudade,

Mais um canto de lagrimas ardentes,

Oh! minha Harpa,-oh! minha Harpa desditosa.

Escuta, ó meu amigo: da minha alma

Foi uma lyra outr’ora o instrumento;

Cantava n’ella amor, prazer, venturas,

Até que um dia a morte inexoravel

Triste pranto de irmão veio arrancar-te!

As lagrimas dos olhos me cahirão,

E a minha lyra emmudeceo de magoa!

Então aventei eu que a vida inteira

Do bardo, era um perenne sacerdocio

De lagrimas e dôr;-tomei uma Harpa:

Na corda da afflicção gemeo minha alma,

Foi meo primeiro canto um epicedio;

Minha alma baptizou-se em pranto amargo,

Na fragoa do soffrer purificou-se!

Lancei depois meos olhos sobre o mundo,

Cantor do soffrimento e da amargura;

E vi que a dôr aos homens circumdava,

Como em roda da terra o mar se estreita;

Que apenas desfructamos,-miserandos!

Desbotado prazer entre mil dôres,

-Uma rosa entre espinhos aguçados,

Um ramo entre mil vagas combatido.

Voltou-se então p’ra Deos o meo esp’rito,

E a minha voz queixosa perguntou-lhe:

-Senhor, porque do nada me tiraste,

Ou porque a tua voz omnipotente

Não fez seccar da minha vida a seve,

Quando eu era principio e feto apenas?

Outra voz respondeo-me dentro d’alma:

-Ardão teos dias como o feno,-ou durem

Como o fogo de tocha resinosa,

-Como rosa em jardim sejão brilhantes,

Ou baços como o cardo montesinho,

Não deixes de cantar, ó triste bardo.-

E as cordas da minha harpa-da primeira

Á extrema-da maior á mais pequena,

Nas azas do tufão-entre perfumes,

Um cantico de amores exaltárão

Ao throno do Senhor;-e eu disse ás turbas:

-Elle nos faz gemer porque nos ama;

Vem o perdão nas lagrimas contritas,

Nas azas do soffrer desce a clemencia;

Sobre quem chora mais elle mais vela!

Seo amor divinal é como a lampada,

Na abobada d’um templo pendurada,

Mais luz filtrando em mais opácas trevas.

Eu o conheço:-o cantico do bardo

É balsamo ao que morre,-é lenitivo,

Mas doloroso, mas funereo e triste

A quem lhe carpe infausto a morte crúa.

Mas quando a alma do justo, espedaçando

O envolucre de lodo, aos céos remonta,

Como estrada de luz correndo os astros,

Seguindo o som dos canticos dos anjos

Que na presença do Senhor se elevão;

Choro ... tão bem Jesus chorou a Lazaro!

Mas na excelsa visão que se me antolha

Bebo consolações,-minha alma anceia

A hora em que tão bem ha de asilar-se

No seio immenso do perdão do Eterno.

Chora amigo; porém quando sentires

O pranto nos teos olhos condensar-se,

Que já não póde mais banhar-te as faces,

Ergue os olhos ao céo, onde a luz móra,

Onde o orvalho se cria, onde parece

Que a timida esperança nasce e habita.

E se eu-feliz!-poder inda algum dia

Ferir por teo respeito na minha harpa

A leda corda onde o prazer palpita,

A corda do prazer que ainda inteira,

Que virgem de emoção inda conservo,

Suspenderei minha harpa d’algum tronco

Em off’renda á fortuna;-alli sosinha,

Tangida pelo sopro só do vento,

Ha de mysterios conversar co’a noite,

De acorde extreme perfumando as brisas;

Qual Harpa de Sião presa aos salgueiros

Que não ha de cantar a desventura,

Tendo cantos gentis vibrado n’ella.

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