Á Morte Prematura Da Ilma. Sra. D Primeiros Cantos · Capítulo 28 de 45
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Á Morte Prematura Da Ilma. Sra. D

Á Morte Prematura Da Ilma. Sra. D

(No album de seo Irmão Dr. J. D. Lisboa Serra.)

Il semble que le ciel aux coeurs les plus magnanimes

Mesure plus de maux.

LAMARTINE.

Perfeita formosura em tenra idade

Qual flôr, que anticipada foi colhida,

Murchada está da mão da sorte dura.

CAMÕES , Soneto .

Lá, bem longe d’aqui, em tarde amena,

Gozando a viração das frescas auras,

Que do Brazil os bosques brandamente

Fazião balançar,-e que espalhavão

No ether encantado odor, pureza-

Do que a rosa mais bella,-meiga e casta,

Como as virgens do sol,

Que de vezes não foi ella pendente

Dos braços fraternaes em meigo abraço;

Como mimosa flôr presa, enlaçada

A tenro arbusto que a vergontea debil

Lhe ampara docemente!...

E o Irmão que só n’ella se revia,

O Irmão que a adorava, qual se adora

Um mimo do Senhor;

Que a tinha por pharol, conforto e guia,

Os seos dias contava por encantos;

E as virtudes co’os dias pleiteavão.

E ella morreo no viço de seos annos!...

E a lagem fria e muda dos sepulchros

Se fechou sobre o ente esmorecido

Ao despontar de vida

Tão rica de esperanças e tão cheia

De formosura e graças!...

Campa! campa! que de terror incutes!

Quanto esse teo silencio me horrorisa!

E quanto se assemelha a tua calma

A do cruel malvado que impassivel

Contempla a sua victima torcer-se

Em convulsões horriveis, desesp’radas;

Crúas vascas da morte!...

Quem tão má te creou?

Tu que tragas o ente que esmorece

Ao despontar de vida

Tão rica de esperanças e tão cheia

De formosura e graças?!

O pharol se apagou! a luz sumio-se!

Como o fugaz clarão do meteóro,

Extinguio-se a esperança;-e o mal-fadado

Sobre a terra deserta em vão procura

Traços d’essa que amou, que tanto o amára;

Da joven companheira de seos brincos,

Pezares e alegrias.

Elle a procura!... o viajor pasmado

Nos campos de Pompéia, alonga a vista

Pela amplidão do praino,

Destroços e ruinas encontrando,

Onde esperava movimento e vida.

Não poder eu a troco de meu sangue

Poupar-te dessas lagrimas metade!

Oh! poder que eu podesse!-e almo sorriso,

Que tanto me compraz ver-te nos labios,

Inda uma vez brilhasse!

E essa existencia,

Que tão cara me é, t’a visse eu leda,

E feliz como a vida dos Archanjos!

Infeliz é quem chora: ella finou-se,

Porque os anjos á terra não pertencem;

Mas lá dos immortaes sobre os teos dias

A suspirada irmã vela incessante.

Vinde, candidas rosas, açucenas,

Vinde, roxas saudades;

Orvalhai, tristes lagrimas, as c’roas,

Que hão de a campa adornar por mim depostas

Em holocausto á victima da morte.

Innocencia, pudor, belleza e graça

Com ella n’essa campa adormecêrão.

Anjo no coração, anjo no rosto,

Devera o amor chorar sobre o teo seio,

Que não grinaldas funebres tecer-te;

Devera voz d’esposo acalentar-te

O somno da innocencia,-não grosseira

Canção de trovador não conhecido.

COIMBRA , Junho de 1841.

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