Quadras Da Minha Vida. Recordação E Desejo
Quadras Da Minha Vida. Recordação E Desejo
AO MEO BOM AMIGO O DR. A. REGO.
Sol chi non lascia eredità d’affetti
Poca gioia ha dell’urna.
FOSCOLO.
I.
Houve tempo em que os meos olhos
Gostavão do sol brilhante,
E do negro véo da noite,
E da aurora scintillante.
Gostavão da branca nuvem
Em céo de azul espraiada,
Do terno gemer da fonte
Sobre pedras despenhada.
Gostavão das vivas côres
De bella flôr vicejante,
E da voz immensa e forte
Do verde bosque ondeante.
Inteira a natureza me sorria!
A luz brilhante, o susurrar da brisa,
O verde bosque, o rosicler d’aurora,
Estrellas, céos, e mar, e sol, e terra,
D’esperança e d’amor minha alma ardente,
De luz e de calor meu peito enchião.
Inteira a natureza parecia
Meos mais fundos, mais intimos desejos
Perscrutar e cumprir;-almo sorriso
Parecia enfeitar co’os seos encantos,
Com todo o seo amor compor, doiral-o,
Porque os meos olhos deslumbrados vissem-no,
Porque minha alma de o sentir folgasse.
Oh! quadra tão feliz!-Se ouvia a brisa
Nas folhas susurrando, o som das agoas,
Dos bosques o rugir;-se os desejava,
-O bosque, a brisa, a folha, o trepidante
Das agoas murmurar prestes ouvia.
Se o sol doirava os céos, se a lua casta,
Se as timidas estrellas scintillavão,
Se a flôr desabrochava involta em musgo,
-Era a flôr que eu amava,-erão estrellas
Meos amores sómente, o sol brilhante,
A lua merencoria-os meos amores!
Oh! quadra tão feliz!-doce harmonia,
Acordo extreme de vontade e força,
Que atava minha vida á natureza!
Ella era para mim bem como a esposa
Recem-casada, pudica sorrindo;
Alma de noiva-coração de virgem,
Que a minha vida inteira abrilhantava!
Quando um desejo me brotava n’alma.
Ella o desejo meo satisfazia;
E o quer que ella fizesse ou me dissesse,
Esse era o meo desejo, essa a voz minha,
Esse era o meo sentir do fundo d’alma,
Expresso pela voz que eu mais amava.
II.
Agora a flôr que m’importa,
Ou a brisa perfumada,
Ou o som d’amiga fonte
Sobre pedras despenhada?
Que me importa a voz confusa
Do bosque verde-frondoso.
Que m’importa a branca lua,
Que m’importa o sol formoso?
Que m’importa a nova aurora,
Quando se pinta no céo;
Que m’importa a feia noite,
Quando desdobra o seo véo?
Estas scenas, que amei, já me não causão
Nem dôr e nem prazer!-Indifferente,
Minha alma um só desejo não concebe,
Nem vontade já tem!... Oh! Deos! quem pôde
Do meo imaginar as puras azas
Cercear, desprender-lhe as niveas plumas,
Roja-las sobre o pó, calca-las tristes?
Perante a creação tão vasta e bella
Minha alma é como a flôr que pende murcha;
E qual profundo abysmo:-embalde estrellas
Brilhão no azul dos céos, embalde a noite
Estende sobre a terra o negro manto:
Não póde a luz chegar ao fundo abysmo,
Nem póde a noite ennegrecer-lhe a face;
Não póde a luz á flôr prestar mais brilho,
Nem viço e nem frescor prestar-lhe a noite!
III.
Houve tempo em que os meos olhos
Se extasiavão de ver
Agil donzella formosa
Por entre flôres correr.
Gostavão de um gesto brando,
Que revelasse pudor;
Gostavão de uns olhos negros,
Que rutilassem de amor.
E gostavão meus ouvidos
De uma voz-toda harmonia,-
Quer pesares exprimisse,
Quer exprimisse alegria.
Era um prazer, que eu tinha, ver a virgem
Indolente ou fugaz-alegre ou triste,
Da vida a estreita senda desflorando
Com pé ligeiro e animo tranquillo;
Improvida e brilhante parecendo
Seos dias desfolhar, uns após outros,
Como folhas de rosa;-e no futuro-
Ver luzir-lhe sómente a luz d’aurora.
Era deleite e dôr vê-la tão leda
Do mundo as afflicções, angustias, prantos
Affrontar co’um sorriso; era um descanso
Interno e fundo, que sentia a mente,
Um quadro em que os meos olhos repousavão,
Ver tanta formosura e tal pureza
Em rosto de mulher com alma d’anjo!
IV.
Houve tempo em que os meos olhos
Gostavão de lindo infante,
Com a candura e sorriso
Que adorna infantil semblante.
Gostavão do grave aspecto
De magestoso ancião,
Tendo nos labios conselhos,
Tendo amor no coração.
Um representa a innocencia,
Outro a verdade sem véo;
Ambos tão puros, tão graves,
Ambos tão perto do céo!
Infante e velho!-principio e fim da vida!-
Um entra neste mundo, outro sae delle,
Gozando ambos da aurora;-um sobre a terra,
E o outro lá nos céos.-O Deos, que é grande,
Do pobre velho compensando as dôres,
O chama para si; o Deos clemente
Sobre a innocencia de continuo vela.
Amei do velho o magestoso aspecto,
Amei o infante que não tem segredos,
Nem cobre o coração co’os folhos d’alma.
Amei as doces vozes da innocencia,
A rispida franqueza amei do velho,
E as rigidas verdades mal sabidas.
Só por labios senis pronunciadas.
V.
Houve tempo, em que possivel
Eu julguei no mundo achar
Dois amigos extremosos,
Dois irmãos do meu pensar;
Amigos que compr’hendessem
Meo prazer e minha dôr,
Dos meos labios o sorriso,
Da minha alma o dissabor;
Amigos, cuja existencia
Vivesse eu co’o meo viver:
Unidos sempre na vida,
Unidos-té no morrer.
Amizade!-união, virtude, encanto-
Consorcio do querer, de força e d’alma-
Dos grandes sentimentos cá da terra
Talvez o mais reciproco, o mais fundo!
Quem ha que diga: Eu sou feliz!-se acaso
Um amigo lhe falta?-um doce amigo,
Que sinta o seo prazer como elle o sente,
Que soffra a sua dôr como elle a soffre?
Quando a ventura lhes sorri na vida,
Um a par d’outro-ei-los lá vão felizes;
Quando um sente afflicção, nos braços do outro
A afflicção, que é só d’um, carpindo juntos,
Encontra doce alivio o desditoso
No thesouro que encerra um peito amigo.
Candido par de cysnes, vão roçando
A face azul do mar co’as niveas azas
Em deleite amoroso;-acalentados
Pelo sereno espreguiçar das ondas,
Aspirando perfumes mal sentidos,
Por vesperina arajem bafejados,
É jogo o seo viver;-porém se o vento
No frondoso arvoredo ruge ao longe,
Se o mar, batendo irado as ermas praias,
Crusadas vagas em novello enrola,
Com grito de terror o par candente
Sacode as niveas azas, bate-as,-fogem.
VI.
Houve tempo em que eu pedia
Uma mulher ao meo Deos,
Uma mulher que eu amasse,
Um dos bellos anjos seos.
Em que eu a Deos só pedia
Com fervorosa oração
Um amor sincero e fundo,
Um amor do coração.
Qu’eu sentisse um peito amante
Contra o meu peito bater,
Sómente um dia ... sómente!
E depois delle morrer.
Amei! e o meo amor foi vida insana!
Um ardente anhelar, cauterio vivo,
Posto no coração, a remorde-lo.
Não tinha uma harmonia a natureza
Comparada a sua voz; não tinha côres
Formosas como as della,-nem perfumes
Como esse puro odor qu’ella esparzia
D’angelica dureza.-Meos ouvidos
O feiticeiro som dos meigos labios
Ouvião com prazer; meos olhos vagos
De a ver não se cansavão; labios d’homens
Não poderão dizer como eu a amava!
E achei que o amor mentia, e que o meo anjo
Era apenas mulher! chorei! deixei-a!
E aquelles, que eu amei co’o amor d’amigo,
A sorte, boa ou má, levou-m’os longe,
Bem longe quando eu perto os carecia.
Conclui que a amizade era um phantasma,
Na velhice prudente-habito apenas,
No joven-doudejar; em mim lembrança;
Lembrança!-porém tal que a não trocára
Pelos gozos da terra,-meos prazeres
Forão só meos amigos,-meos amores
Hão de ser neste mundo elles sómente.
VII.
Houve tempo em que eu sentia
Grave e solemne afflicção,
Quando ouvia junto ao morto
Cantar-se a triste oração.
Quando ouvia o sino escuro
Em sons pesados dobrar,
E os cantos do sacerdote
Erguidos junto do altar.
Quando via sobre um corpo
A fria lousa cahir;
Silencio debaixo della,
Sonhos talvez-e dormir.
Feliz quem dorme sob a lousa amiga,
Tepida talvez com o pranto amargo
Dos olhos da afflicção;-se os mortos sentem,
Ou se almas tem amor aos seos despojos,
Certo dos pés do Eterno, entre a alleluia,
E o gozo lá dos céos, e os córos d’anjos,
Hão de lembrar-se com prazer dos vivos,
Que chorão sobre a campa, onde já brota
O denso musgo, e já desponta a relva.
Lagem fria dos mortos! quem me dera
Gozar do teo descanço, ir asilar-me
Sob o teo sancto horror, e nessas trevas
Do bulicio do mundo ir esconder-me!
Oh! lagem dos sepulchros! quem me désse
No teo silencio fundo asilo eterno!
Ahi não pulsa o coração, nem sente
Martyrios de viver quem já não vive.