V. A Morte Primeiros Cantos · Capítulo 26 de 45
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V. A Morte

V. A Morte

Dans sa douleur elle se trouvait malheureuse d’être immortelle.

FÉNÉLON.

Da aurora vinha nascendo

O grato e bello clarão;

Eu sonhava! já mais brandos

Erão meos sonhos então.

Condensou-se o ar n’um ponto,

Cresceo o subtil vapor;

Vi formada uma belleza,

Cheia de encantos, de amor.

Mas na candura do rosto

Não se pintava o carmim;

Tinha um quê de cera juncto

Á nitidez do marfim.

-Quem es tu, visão celeste,

Bello Archanjo do Senhor?

Respondeo-me:-Sou a Morte,

Cru phantasma de terror!

-Ah! lhe tornei: Es a morte,

Tão formosa e tão cruel!

-Correndo o mundo sósinha

No meo pallido corsel, [3] -

Assim dizia-«Tu julgas

Que não tenho coração,

Que executo os meos deveres

Sem pesar, sem afflicção?

-Que inda em flôr da vida arranco

Ao joven, sem compaixão,

Á donzella pudibunda

Ou ao longévo ancião?

-Oh! não, que eu soffro martyrios

Do que faço aos mais soffrer,

Soffro dôr de que outros morrem,

De que eu não posso morrer;

-Mas em parte a dôr me cura

Um pensamento, que é meo,-

Lembro aos humanos que a terra

É só passagem pr’a o céo.

-Faço ao triste erguer os olhos

Para a celeste mansão;

Em labios que nunca orárão

Derramo pia oração.

-É meo poder quem apura

Os vicios que a mente encerra,

Ao fogo da minha dôr;

Sou quem prendo aos céos a terra,

Sou quem prendo aos céos a terra,

Ao ser do seo Creador.

-Mas qu’importa? Sem descanço

É-me forçoso marchar,

Abater impías frontes,

Regias frontes decepar.

-Passar ao travez dos homens

Como um vento abrasador;

Como entre o feno maduro

A foice do segador.

-E prostrar uma após outra

Geração e geração,

Como peste que só reina

Em meio da solidão.»-

Desponta o sol radioso

Entre nuvens de carmim;

Cessa o canto pesaroso,

Como corda aurea de Lyra;

Que se parte, que suspira

Dando um gemido sem fim.

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