V. A Morte
V. A Morte
Dans sa douleur elle se trouvait malheureuse d’être immortelle.
FÉNÉLON.
Da aurora vinha nascendo
O grato e bello clarão;
Eu sonhava! já mais brandos
Erão meos sonhos então.
Condensou-se o ar n’um ponto,
Cresceo o subtil vapor;
Vi formada uma belleza,
Cheia de encantos, de amor.
Mas na candura do rosto
Não se pintava o carmim;
Tinha um quê de cera juncto
Á nitidez do marfim.
-Quem es tu, visão celeste,
Bello Archanjo do Senhor?
Respondeo-me:-Sou a Morte,
Cru phantasma de terror!
-Ah! lhe tornei: Es a morte,
Tão formosa e tão cruel!
-Correndo o mundo sósinha
No meo pallido corsel, [3] -
Assim dizia-«Tu julgas
Que não tenho coração,
Que executo os meos deveres
Sem pesar, sem afflicção?
-Que inda em flôr da vida arranco
Ao joven, sem compaixão,
Á donzella pudibunda
Ou ao longévo ancião?
-Oh! não, que eu soffro martyrios
Do que faço aos mais soffrer,
Soffro dôr de que outros morrem,
De que eu não posso morrer;
-Mas em parte a dôr me cura
Um pensamento, que é meo,-
Lembro aos humanos que a terra
É só passagem pr’a o céo.
-Faço ao triste erguer os olhos
Para a celeste mansão;
Em labios que nunca orárão
Derramo pia oração.
-É meo poder quem apura
Os vicios que a mente encerra,
Ao fogo da minha dôr;
Sou quem prendo aos céos a terra,
Sou quem prendo aos céos a terra,
Ao ser do seo Creador.
-Mas qu’importa? Sem descanço
É-me forçoso marchar,
Abater impías frontes,
Regias frontes decepar.
-Passar ao travez dos homens
Como um vento abrasador;
Como entre o feno maduro
A foice do segador.
-E prostrar uma após outra
Geração e geração,
Como peste que só reina
Em meio da solidão.»-
Desponta o sol radioso
Entre nuvens de carmim;
Cessa o canto pesaroso,
Como corda aurea de Lyra;
Que se parte, que suspira
Dando um gemido sem fim.