Ideia De Deos Primeiros Cantos · Capítulo 41 de 45
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Ideia De Deos

Ideia De Deos

Gross ist der Herr! Die Himmel ohne Zahl

Sind seine Wohnungen!

Seine Wagen die donnernden Gewölke,

Und Blitze sein Gespann.

KLEIST.

I.

Á voz de Jehovah infindos mundos

Se formárão do nada;

Rasgou-se o horror das trevas, fez-se o dia,

E a noite foi creada.

Luzio no espaço a lua! sobre a terra

Rouqueja o mar raivoso,

E as espheras nos céos erguerão hymnos

Ao Deos prodigioso.

Hymno de amor a creação, que sôa

Eternal, incessante,

Da noite no remanso, no ruido

Do dia scintillante!

A morte, as afflicções, o espaço, o tempo,

O que é para o Senhor?

Eterno, immenso, que lh’importa a sanha

Do tempo roedor?

Como um raio de luz, percorre o espaço,

E tudo nota e vê-

O argueiro, os mundos, o universo, o justo;

E o homem que não crê.

E elle que póde anniquilar os mundos,

Tão forte como elle é,

E vê e passa, e não castiga o crime,

Nem o impio sem fé!

Porém quando corrupto um povo inteiro

O Nome seo maldiz,

Quando só vive de vingança e roubos,

Julgando-se feliz;

Quando o impio commanda, quando o justo

Soffre as penas do mal,

E as virgens sem pudor, e as mães sem honra,

E a justiça venal;

Ai da perversa, da nação maldicta,

Cheia de ingratidão,

Que ha de ella mesma sugeitar seo collo

Á justa punição.

Ou já terrivel peste expande as azas,

Bem lenta a esvoaçar;

Vai de uns a outros, dos festins conviva,

Hospede em todo o lar!

Ou já torvo rugir da guerra accesa

Espalha a confusão;

E a esposa, e a filha, de terror oppressa,

Não sente o coração.

E o pae, e o esposo, no morrer cruento,

Vomita o fel raivoso;

-Milhões de insectos vis que um pé gigante

Enterra em chão lodoso.

E do povo corrupto um povo nasce

Esperançoso e crente,

Como do podre e carunchoso tronco

Hastea forte e virente.

II.

Oh! como é grande o Senhor Deos, que os mundos

Equilibra nos ares;

Que vai do abysmo aos céos, que susta as iras

Do pelago fremente,

A cujo sopro a maquina estrellada

Vacilla nos seos eixos,

A cujo aceno os cherubins se movem

Humildes, respeitosos,

Cujo poder, que é sem igual, excede

A hyperbole arrojada!

Oh! como é grande o Senhor Deos dos mundos,

O Senhor dos prodigios.

III.

Elle mandou que o sol fosse principio,

E razão de existencia,

Que fosse a luz dos homens-olho eterno

Da sua providencia.

Mandou que a chuva refrescasse os membros,

Refizesse o vigor

Da terra hiante, do animal cançado

Em praino abrasador.

Mandou que a brisa susurrasse amiga,

Roubando aroma á flôr;

Que os rochedos tivessem longa vida,

E os homens grato amor!

Oh! como é grande e bom o Deos que manda

Um sonho ao desgraçado,

Que vive agro viver entre miserias,

De ferros rodeado;

O Deos que manda ao infeliz que espere

Na sua providencia;

Que o justo durma, descançado e forte

Na sua consciencia!

Que o assassino de continuo vele,

Que trema de morrer;

Em quanto lá nos céos, o que foi morto,

Desfructa outro viver!

Oh! como é grande o Senhor Deos, que rege

A maquina estrellada,

Que ao triste dá prazer; descanço e vida

Á mente atribulada!

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