Iv. -- Primeiros Cantos · Capítulo 25 de 45
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Era o vulto de um homem morto que afastando o sudario se hia erguer

do tumulo para revelar alguns dos temerosos mysterios, que encerra a

apparente quietação dos sepulchros.

O PRESBYTERO.

O negrume da noite avulta; e cresce

Mais feia a escuridão

Á luz da sacra pyra que derrama

Frouxo e tibio clarão.

Calou-se o canto, a prece,-é mudo o templo;

Apenas fraco sôa

Da torre o bronze, que a nocturna brisa

De rumores povôa.

Mas eis que de um sepulchro a pedra fria

S’ergue e sobre outras cáe.

Não se escuta rumor!-da campa livre

Medroso espectro sáe.

O rosto ossificado em torno volve,

Volve a suja caveira;

Do liso craneo os longos dedos varrem

A funebre poeira.

Mas inda inteiro o coração se via

Do peito nas cavernas,

Inda sangrento lagrimas chorava

De negro sangue eternas.

E caminhando, qual se move a sombra,

Ao orgão e assentou!

Já não dormem os sons, não dormem echos...

-O triste assim cantou:

«Onde estás, meo amor, meos encantos

Por quem só me pezava morrer,

Doce encanto que a vida me prendes,

Que inda em morto me fazes soffrer?

«Doce amor, minha vida no mundo,

Desse mundo em que parte serás;

Em que scismas, que pensas, que fazes,

Onde estás, meo amor, onde estás?

«Ah! debalde na campa gelada

Fria morte me poude deitar!

Foi debalde,-que eu sinto, que eu ardo;

Foi debalde, que eu amo a penar.

«Ah! si eu triste no mundo podesse

Como outr’ora viver, respirar....

Não soubera dizer-te os ardores

Que o sepulchro não poude apagar.

«Onde estás?-Já da morte o bafejo

Por teo rosto divino roçou;

Já na campa descanças finada,

Que o teo corpo sem vida tragou?

«Mas a morte não poude impiedosa

Crua foice vibrar contra ti!

Ah! tu vives, que eu sinto, que eu soffro

Crús ardores quaes sempre soffri.

«E eu não posso o teo nome á noitinha

Entre as folhas saudoso cantar,

Nem seguir-te nas azas da brisa,

Nem teo somno de sonhos doirar.

«Nem lembrar-te os queridos instantes

Que a teo lado arroubado passei,

Sem cuidados de incerto futuro,

Só cuidoso da vida que amei.

«Não te lembras da noite homicida

Em que um ferro meo peito varou,

Quando a facil conversa de amores

Teo marido cioso quebrou?!

«Desde então hei penado sósinho,

Verte sangue meo peito-de então;

Poude a morte acabar-me a existencia,

Mas delir-me não poude a paixão!

«Nosso adultero affecto no mundo

Não se acaba;-assim quiz o Senhor!

Não se acaba...-qu’importa?-hei gozado

Teos encantos gentis, teo amor.

«Por te amar outras fragoas soffrera,

Outros transes e dôr e penar;

Oh! poder que eu podesse outra vida

E outro inferno soffrer por te amar!»

Mas da aurora ja raiava

Macio e brando clarão;

Macia e branda a canção

Do negro espectro soava.

E medroso se collava

Ao orgão seo negro véo,

Que imiga não se ajuntava

Ao seo vulto a luz do céo.

Pouco a pouco se perdia

O negro espectro; a canção

Pouco a pouco enfraquecia:

Do dia ao tenue clarão,

Era o cantar um soído

Fraco, incerto e duvidoso;

Era o vulto pavoroso

D’uma sombra vão tremido.

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