O Gato Preso Poesia Satírica e Versos de Circunstância · Capítulo 14 de 19
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O Gato Preso

1 Malvado Gato, Gato irreverente,

Que sem pena os políticos arranhas,

Que enches de medo da polícia a gente

Com as tuas endiabradas gatimanhas.

5 A polícia persegue-te inclemente

E uma reclame estardalhante apanhas.

Aumentas a edição galhardamente

E, com os aplausos, mais trame ganhas.

9 Escaldados, não temes água fria;

De unhas de fora, investes com coragem

Contra a bajulação e a hipocrisia.

12 Elas, sentindo os arranhões, reagem;

Mete a polícia o Gato na enxovia, Deixando em liberdade... a gatunagem.

"Um guarda civil proibiu que vendedores de jornais, descalços, exerçam a sua profissão."

1 Guarda civil desastrado.

Que agiste de tal maneira!

Vês agora o resultado-

S'tás por causa do calçado

Levando descalçadeira.

ZANGÃO

A Imprensa, Rio de Janeiro, n 1554, 15 dez. 1911, p. 1.

1 Aquele negro capacho

Caiu de uma escada abaixo

Em noite de carraspana...

4 Mentiu, depois, que a bicheira,

Que rareou-lhe a cabeleira,

Fora uma bala certeira

Da pífia gente solana.

1 Empertigado malandrin pachola,

De polainas, monóculo e bombachas,

Mandou pôr na botinas meia sola

E abandonou de vez Porto das Caixas.

5 Traz registradas na caraminhola

Marcas de pontapés e de bolachas;

Faz versos; nos lundus ao tom da viola

É o Conde Monsaraz das classes baixas.

9 De Senha-Flor na rabadilha, ansioso, De focinho no ar e ereto rabo

Tem estesias de cachorro gozo.

12 Come sardinha e dois vinténs de nabo; Bufa num quebra-queixo pavoroso

E arrota petisqueiras de nababo.

"Arrancado às hortas e capinzais de Catumbi, no primeiro dia da florescência dos agriões, aniversário de Sinhá Flor."

1 Como passas, B. Lopes- - Eu- Maluco!

Julguei um dia possuir princesas...

- E arranjaste este tipo mameluco-

- Que anda me pondo cá lampas acesas

5 - Mas eu te vejo sempre em tais proezas

- "Era a mais bela flor de Pernambuco"

- E hoje- perdeu acaso tais belezas-

É o mais feio canhão de Chacabuco.

9 Mas coragem! que a rima se derive

Pelo reguinho do meu verso, à toa,

Murmurando, ao passar, rimas em ive.

12 Vejo-te magro, espinafrado...

- É boa! Pois tu não sabes que comigo vive D. Adelaide de Mendonça Uchoa-

1 Meu caro Nico. Eu sei que tu compreendes, Da vida, o que há de menos ou demais

E não ralhas, castigas ou repreendes,

A não ser por motivos imorais.

5 Trazes apenso ao nome teu de Mendes O plural da moral, sendo Morais.

Com tais nomes de ataques te defendes

E podes atacar com nomes tais...

9 E que esses nomes são a bela herança Da honestidade atávica, ancestral

Que dá aos teus atos força e segurança.

12 Deixa pois que esta musa amiga e leal Aqui te oferte a humílima lembrança

Deste soneto sobre o teu natal.

1 Meu caro Silva Araújo,

Júlio forte, alegre e nédio.

Eu de tão "limpo" ando sujo,

Por causa de um tal remédio.

5 Aí tenho uma receita

Que fica, por meus tormentos,

Depois da conta já feita,

Em treze mil e quinhentos...

9 Se algum crédito mereço

Este fiado não disfarço,

Pagarei logo ao começo

Do próximo mês de março

12 O pedir-te me desgosta,

Porém, como de outras vezes,

Sê bom mandando a resposta

Ao Emílio de Menezes.

MEU CARO PIRES BRANDÃO: Menos Brandão que brandura,

Pois de "Brandão" tens a cera

Ao lhe dar molde e feição

Fecho o parênteses, mau!

Não me sai isto a contento,

A frase é banal, sem jeito,

E se és amigo do peito,

Dá com o que peço um quinau,

Pois hoje sofro o tormento

De não ter um "nicolau"!

Como os tempos são cruéis

Para mim por estes meses,

Eu já não sei o que faça,

A não ser que na desgraça,

Me valham amigos fiéis!

Salva o Emílio de Menezes,

Brandão, com vinte mil-réis.

A pobreza.

De acordo.

A necessidade.

E eu que o diga.

AO QUERIDO PIRES BRANDÃO:

1 Não te perpassa pela mente a troça

(Pois é troça o pensar-se na velhice),

De que se a idade, em anos, se te engrossa, Já deixaste a garrida meninice.

5 A bondade imortal, que a alma te adoça, Dá-te um cunho infantil, e essa meiguice Que é nosso encanto e que é alegria nossa, Chora entre risos e, entre prantos, ri-se.

9 Se no espírito tens a madureza

E no caráter tens a anciã virtude

Dos remotos varões da sã nobreza,

12 Quem de ti se aproxima, não se ilude: No coração plantou-te a natureza

O viço em flor da eterna juventude.

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