Saturnino Barbosa
(Retrato)
1 Pedagogo pernóstico e pedante
Com vastas pretensões a literato;
Barrigudinho, cético, insensato,
Portador de uma cara extravagante.
5 Eis o poetastro trêfego e barato Que o chicote da crítica ululante
A zero reduziu, no mesmo instante
Em que passou a residir no mato.
9 Hoje não vibra mais, é letra morta, Nem sonetos, nem livros maltrapilhos:
Passa o tempo a pedir, de porta em porta 12 Há de acabar assassinando os seus,
Como Saturno a devorar seus filhos,
O matador sacrílego de Deus.
PYRUS CYDONIA
Ipsis ego cana legam tenere lenugine mala.
VIRGÍLIO
1 Áureo-glauca, ora a casca desta fruta Se veste de sutil, ligeiro velo,
Ora aparece nítida e impoluta,
No brilho vegetal, cetíneo e belo.
5 Qual carne virgem, sua polpa enxuta, Levemente tocada de amarelo,
A humana gula em ânsias a disputa;
Abre a cobiça o sápido marmelo.
9 Nem a fama dos pomos de Atalanta
Ou de maçã de Newton que, num tombo,
Criou lei nova, o nome lhe suplanta!
12 O que, entretanto, em épico ribombo, Mais o enaltece e o traz em glória tanta É a marmelada esplêndida Colombo.
1 Não é um simples cachorro o Menelik.
É um ser que raciocina, um ser que pensa, Que detesta o que é mau, que ama o que é chique, E que é dotado de uma sorte imensa!
5 Somente abana a cauda por debique
E trata com suprema indiferença
Certos amigos como o Rocha, - o Henrique, Com quem vive em constante desavença.
9 Conhece toda a atual vida mundana
E o segredo de todos os amores
Desde a Tijuca até Copacabana.
12 Ele é um cão que não morde, meus senhores, Mas quando mordem o Lebrão, a gana
Então lhe chega, e morde... os mordedores!
REQUERIMENTO ENGROSSATIVO MAS
SINCERO - HINO À DENTADA
1 Lebrão! Tu sabes que a Confeitaria
Colombo é verdadeira sucursal
Da nossa muito douta Academia
Mas sem cheiro de empréstimo oficial.
5 Cerca-te sempre a grande simpatia
De todo o literato honesto e leal,
E tu te vais tornando dia a dia
O mecenas de todo esse pessoal.
9 Nisto mostras que és homem de talento, Que não cuidas somente de pastéis
Nem de lucros tirar cento por cento.
12 Atende, pois, a um dos amigos fiéis,
Que está passando por um mau momento
E anda doido a cavar trinta mil-réis!...
1 Isto é um caso de estética mineira,
De que o Brasil, por certo, não se ufana.
Há um armário que, em cada prateleira,
Ostenta mimos de arte soberana.
5 Bronzes, cristais, em suma, a verdadeira Ciência do gozo e da delícia humana.
Há o ouro burilado e a alma altaneira
De um vaso esguio em rara porcelana.
9 Tal vaso (do que os homens são capazes!) Foi tirado do móvel por mandinga
Dos mil politicões e seus sequazes,
12 E, em vez dele, hoje ali, malposto, ginga, Na cerâmica alvar dos goitacases,
Um moringue de réles tabatinga.