Primeira Parte — II Maternidade · Capítulo 3 de 22
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Primeira Parte — II

Que importa a um moço marinheiro de corpo são e mente dada á aventura, que a mãi o quizesse para lavrar a terra á sua beira, se o que o seduz a ele é a imensidade do mar e o balouço da onda vária? Ao desejo que ela manifesta de o reter a seu lado, responde-lhe o filho com os seus ideais. Tem imaginação, tem ambições, anseios de independencia. Quer viver a vida da sua vontade.

Para isso o Destino o fez homem. Que ha de fazer a mãi, senão submeter-se? Submete-se, e ele parte; e torna a vir, e torna a partir, e cada vez que parte leva uma esperança nova a luzir-lhe na mente e melhor traduz no olhar o gozo irrequieto de quem sai a percorrer novas estradas do mundo... Lá chega, porém, um dia em que o alvoroço das outras viagens é substituido por uma certa tristeza, por um constrangimento de deixar o porto familiar, que assume agora aos seus olhos uma expressão mais carinhosa. Percebe, que, ao partir, deixará o coração ancorado á praia amiga, e chora...

São as lágrimas do amor, as lágrimas da saudade pela noiva que fica. E nela que pensa, é ela que o prende, é dela a imagem que leva no coração e não a da mãi. Esta, logo que se lhe apresentou na vida a figura de outra mulher ioi insensivelmente, suavemente afastada para um plano secundario. Não ha nisso abandono, ha expressões da natureza. Vida quer dizer: — criação! — e o homem que ama a mulher que o seu abraço fecundará, concentra nela todo o entusiasmo do seu pensamento, toda a razão de ser da sua existência.

Aparta-se o marinheiro absorvido pelos seus sonhos de futuro, pela visão radiosa do seu amor. O mar é cerúleo, o céo de um anil ainda mais vivo e mais alacre, vôam as gaivotas em adejantes adeuses brancos, até que, pouco a pouco, desaparecem no horizonte os contornos da terra amada e o seu barco navega sosinho na superficie imensa do Oceano. Começa então a contagem das horas de separação, e, nesses minutos de impaciência, é sempre a lembrança de uma outra mocidade, ainda mais linda e mais primaveril do que a sua que o chama para a patria, como um farol. Então o seu senti 

timento empresta a tudo que o rodeia e para que olhava antes com indiferença, uma voz que em segredo lhe sabe dizer cousas deliciosas. A espuma das ondas revolvidas, a aragem larga que lhe acaricia o rosto, a luz que desabrocha no céo desfolhando pétalas de luz nas águas trémulas, enchem-no de emoções novas, saudades felizes e esperanças num porvir admiravel. Mas, lá vem um dia em que no horizonte distante surge uma núvem negra... oh, não é nada, um pontinho apenas, pairando no espaço infinito como uma insignificante asa de corvo. Em poucos minutos, porém, essa

asa insignificante se distende, cresce, empluma-se, e á sua roda outras aparecem em turbilhão com a mesma côr sinistra. É a tempestade. O vento engrossa, cavam-se abismos n'agua taciturna ou se alteiam ondas como montanhas vivas, e a cada rajada, a cada relâmpago, a cada movimento, o navio sacudido se desequilibra e desarticula e geme! Oh, como as cousas mortas têm voz no sofrimento! Sobre o madeiramento que soluça em' estalos consecutivos lutam os homens com a heroicidade na ânsia de vencer a tormenta, mas o mar é mais forte e, num repente, engole-lhes o navio. Então... então o nome que numa suplica pas 

sa por entre os lábios do marinheiro moribundo, não é o da noiva amada, é o outro, é aquele que em pequenino ele dizia a cada pisadela, a cada necessidade ou a cada susto: — mamã! O instinto da criança não se perde no homem. Por mais forte, por menos sentimental ou mais independente que ele seja, carrega sempre no fundo inconsciente do seu ser, o temor do desconhecido, qualquer cousa de perturbadora significação que o faz apelar para a fonte da Vida, de que emanou.

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