Primeira Parte — X Maternidade · Capítulo 11 de 22
Obra Menu

Primeira Parte — X

Em todos os animais o instinto do amor materno produz heroismos, mas em nenhum ele se anuncia como na mulher com tanta antecedência. Mal começa a falar, a abrir os olhos com inteligencia para a observação das coisas e já a menina acalenta nos braços a sua boneca, aconchegando-a ao peito, como para a aleitar. Ás vezes, quando se é pobrezi 

nha, á falta de boneca, qualquer botija ou travesseirinho póde servir para as funções representativas de um bebê... A realidade é nesse caso a ficção. Toda a beleza está na espiritualidade do amor. Um velho médico clínico no interior do pais, ao passar um; dia pela porta de um casebre vio, sentadinha á sua soleira, uma menina de uns tres ou quatro anos com uma criancinha ao colo. «As mulheres do campo têm confianças singulares. Alguma delas certamente encarregara aquela pequenita de zelar pela irmã recem- nascida...» Como esta lhe parecesse mal

entrouxada, o médico aproximou-se para arranja-la melhor. Ao ve-lo perto, a menina cingio ao peito com mais força o seu tesouro, opondo-se a que ele lhe tocasse. Foi nesse esforço caritativo que o doutor reconheceu, no que julgava ser uma criança, uma pequena abóbora macilenta com feições humanas cortadas a canivete. E não rio, olhou ainda com mais ternura para aquela mãizinha de tres anos a quem a filha parecia, pelo menos tão linda, como á curuja da fábula os seus filhotes... A prodigiosa imaginação infantil dava calor e vida á irrealidade de um ser tão prematuramente anunciado pelo seu instinto de futura mulher, de futura mãi!

Nos outros animais 'este instinto deixa de merecer a classificação de — amor — desde que as mãis vêem os filhos criados e independentes. As relações que passam a existir entre elas e as suas próprias criaturas são desde então como as dos individuos extranhos entre si, quer pelo sangue quer pela consciencia. No espaço livre ou nas furnas do deserto, a mãi ave, ou a mãi féra, não reconhecerá depois de algum tempo de separação em outra ave ou em outra féra, o filho pelo qual se sacrificou antes. Só para a mulher o filho é, desde a hora dos seus primeiros vagidos até ao do ultimo suspiro, motivo do mesmo cuidado e da mesma crescente preocupação.

Póde ele tornar-se grande, célebre, respeitado pelas multidões ou temido pelo mundo, ela sentirá sempre dentro do peito a necessidade de o proteger, de o defender, de olhar por ele com' a mesma ternura do tempo em que pequenino ele se lhe pendurava das saias pedindo-lhe o agasalho do seio. Não ha filhos grandes, nem ha mãis pequeninas. O amor materno olha sempre de cima para os filhos, como o Sol para as arvores e para as pedras do Planeta. Inspirado neste amor, que tudo perdôa, o poeta frances Jean Richepin escreveu um dia a célebre canção do bom rapaz que, por exigência da

amante, corre a buscar o coração da mãi para o seu cão: Como corresse tropeçou, Tiró lá li, tiró li lé, Como corresse tropeçou, E o coração no chão rolou. E o coração .quando rolava, Tiró la lj tiró li lé, E o coração quando rolava Ouvira o filho que assim falava E lhe dizia em pranto e dór, Tiró la li, tiró li lé, E lhe dízia em pranto e dôr: — Tu te magoaste meu amor? (1) À arte faz perdoar a monstruosidade da concepção porque realça (1) Traducção de Valentim Magalhães.

a verdade eterna de que um: coração de mãi, mesmo maltratado pelo filho, ainda todo estremece e se comove á idéia do que ele possa sofrer... E nessa abnegação, nesse desprendimento de si propria está toda a eloquência, toda a suprema beleza da Maternidade!

1/1
Menu

Fazer anotação