Primeira Parte — VI
A mulher começa a querer intervir no movimento político e social dos povos, e é nela que se póde incarnar a esperança de um' trabalho assíduo em prol da Paz Permanente. O homem encarnará sempre esse problema como a miaior das utopias, ainda não desenganado, como devêra estar, de que uma guerra não resolve situações e só serve para engendrar outras guerras.
À triste hora em que escrevo, após a terminação de uma das maiores, quiçá da maior guerra que tem havicic no mundo desde que lhe conhecemos a história, em quantos laboratorios estudam já os sábios da quimica a fabricação de novos gazes osfixiantes ainda mais mortíferos do que os já conhecidos, e em quantas oficinas se preocupam mecanicos em construir maquinas de guerra, decisivas e de acção fulgurante! Os vencidos sonham com a — revanche — em vez de labutarem com' todo o ardor da sua alma para a consolidação da paz... Olhemos para os paises scandinavos e para a Holanda, para a In
glaterra, para os Estados Unidos, para a Argentina, onde os protestos da mulher contra a guerra já passaram do domínio da queixa sentimental para os brados dos congressos e das associações femininas, que pouco a pouco se estenderão por toda a parte como verdadeiras maçonarias de mulheres, e pensemos tambem nós no que devemos fazer. O que parece hoje a muita gente chuvisqueiro quasi ridículo, para o qual nem vale a pena abrir o guardachuva da precaução, tornar-se-ha amanhã em regato, com poder bastante para pouco a pouco se ir infiltrando nos terrenos mais duros, até chegar a ser uma onda caudalosa que 6
por todo o globo alastre a sua agua fertilizadora. (Quem, com maior convicção e mais puro ardor do que as mãis, trabalhará para a realização desse sonho? Não só as mulheres de grande fulgor mental ou competência educativa adquirida pelo estudo, que podem ser classificadas de — mãis superiores — mas todas aquelas cuja bondade e cujo amor saibam, em
bora inconscientemente, insuflar virtudes na alma dos filhos. Ninguem sabe quem foi a mãi de Dante; ninguem sabe quem foi a mãi de Schakspeare. É espantoso que, em' toda a obra deste poeta, entre todos o maior conhecedor do coração humano, e quem melhor soube encarnar em personagens eternas os sentimentos mais activos do homem de todos os tempos, não figure nenhuma representação sequer do amor maternal! Áo contrário; na galeria maravilhosa e tão profundamente verdadeira de Schakspeare, se ainda ha molduras de veneração para os pais, para as mãis não ha nada, porque elas ou
são más, ou são nulas e muitas vezes a necessidade da sua acção é preenchida por aias ou por madrastas. Hamlet, fala á sombra do pai e não perdôa á mãi, criminosa. Ophelia venera Polónio, como Cordélia adora o Rei Lear. Miranda repousa em Próspero; Jessíca obedece a Schylock; Desdemona refere-se ao Senador Brabantio, Marina é filha de Péricles; Branca, de Affonso, Rei de Castella; e Margarida, de Reignier, Duque de Anjou. O exemplo poderia ser mais extenso: Lavinia, Créssida, Thaisa, Lady Mortimer, não me lembra tel-as visto jámais acompanhadas pelo vulto amoroso da mãi As outras figuras do
peregrino poeta ou têm madrastas ou mãis insignificantes. E é comtudo mais velho do que o maravilhoso poeta inglez, o aforisma que diz que «A Vida e os livros ensinam muita cousa ao homem, mas as mais belas e profundas que ele sabe são ainda as que aprendeu no regaço materno». Se Raphael, se Murillo, se Miguel Angelo, e outros pintores e escultores da antiguidade não tivessem guardado na memoria o olhar com que as mãis os viam em pequeninos, não encontrariam na fluidez das tintas ou na dureza do mármore depois de homens grandes e grandes homens, a expressão de ternura das suas madonas imortais. Desde as Vir
gens da Renascença suspensas entre novelos de nuvens, até ás mãis modernas de Carriére, como se sente a sinceridade do artista e a sua veneração pela mulher criadora!