Primeira Parte — VII Maternidade · Capítulo 8 de 22
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Primeira Parte — VII

Que voz é esta que me está perguntando se todas as mãis pensam do mesmo modo? Seria isso possiVER” a Algumas não terão mais vaga idéia do que as incumbe a maternidade. Sei. As futeis recebem um filho nos braços como poucos anos antes teriam recebido uma boneca, sem maio: preocupação que a da graça

do seu rostinho e a das roupas com que o haverá de envolver. As desgraçadas, essas cujos filhos não estão sob o influxo tranquilizador de uma paternidade, essas que afinal'são tantas, recebem-n'o como um fardo, um estorvo para a acquisição do pão amargo, o escasso pão que o seu suor angaria com humilhações e duro esforço. Tudo se deve perdoar aos infelizes. À essas, se as tivessem antes, de algum modo, educado € esclarecido, nenhuma executaria jámais o gesto alucinado de abandonar seu filho, e ás criminosas, que ainda vão mais longe, só uma cousa as justifica: — a loucura. Esses casos são tanto mais absurdos quanto a mulher

B9 começa a amar o filho mal o sente palpitar em seu seio! Se o amor aumenta com a convivência dos filhos, ele já existia em germen inda antes da sua anunciação. O amor materno vive nas próprias virgens pela inconsciente aspiração de perpetuidade, em que toda a natureza se glorifica. Ha casos, porém, em que, por circumstâncias especialmente dolorosas, ou por enfermidade ou originalidade de temperamento, esse amor não desabrocha com a mesma antecipação, mas só depois do nascimento do filho, conforme o amor paterno, de muito mais lenta evolução porque talvez não seja formado pelo instinto, como o da mãi.

Ha nesse sentido uma página francesa de carinhosa observação: uma mulher pobre c abandonada vai, dias antes de dar á luz, confessarse a um padre e pedir-lhe absolvição prévia para uma grave culpa que tinha em mente cometer. O sacerdote escuta-a comovido, tal a expressão ae sinceridade e o desesperado estrangulamento daquela voz. O que ela premeditava era abandonar o filho mal o visse nascido. Estava sosinha na vida, era fraca, era miseravei, precizava dos braços livres para angariar o seu sustento. Que ventura poderia o filho encontrar no seu regaço magro e desagazalhado? O Padre meditava. Percebeu que

seriam inúteis os conselhos de resignação e de coragem com que tentasse fortalecer aquele espirito desnorteado; mas apiedado, evangelisou sobre os deveres da maternidade. A penitente era uma obstinada. A desgraça tinha-lhe martelado tão duramente o coração que o tornára impenetravel e como inerte. De resto, ela já se confessára exausta para qualquer esforço. Foi então, que iluminado por uma idéia, o sacerdote consentio: — Sim, poderá engeitar o seu filho, mas com uma condição: a de lhe dar o seio antes de o pôr na roda. Venha depois á minha presença, só então lhe darei a absolvição em nome de Deus!

O que o arguto sacerdote imaginou, ou que sugestionou, foi o que sucedeu. À vista da criança, o calor do seu corpo palpitante, o contacto da sua boquinha ávida de vida, a sugar-lhe a carne triste, de desiludida, fizeram renascer no espírito abatido da mãi o milagre do amor e da esperança! A maternidade iluminou como uma aurora as trevas da sua consciência perturbada, e foi com o filho nos braços, já corajosos, que ela voltou a pedir ao mesmo confessor, que a absolvesse da abominavel idéia que lhe tinha passado pela cabeça, de abandonar aquele amor de menino, o seu filho, a sua melhor gloria de mulher!

O mesmo aconteceria a todas as desgraçadas a quem a miseria e O abandono arrastam a todos os desvaríos. Para essas, nós atiramos as pearas dos caminhos sem pensar na heroicidade que é necessária a uma mulher enganada e abandonada, para assumir sosinha a tremenda responsabilidade de criar, defender e educar um filho... um homem!

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