A mulher e a guerra
A MULHER E A GUERRA A grande guerra europeia, que ha tanto tempo terminada ainda tão singularmente convulsiona o mundo, teria feito ruir pela base toda a civilização se não fôra o modo por que nela interveio a mulher, embora essa intervenção tivesse sido apenas um balbúcio, um leve estremecimento de consciencia que desperta mas
ainda não se sente perfeitamente lúcida. Agora que ela vio com' os seus olhos as scenas trágicas dos hospitais de sangue e respirou os miasmas fétidos das immundices das trincheiras, melhor póde compreender que o seu papel de ente humano não se póde limitar á consolação de tais desatinos mas ao esforço de as combater para que se não tornem a praticar... No desespero em que a vida social se desarticulou e extrebuxou desde os primeiros dias da ingente luta, foi ainda assim na mulher que se sentio evolução espiritual, só ela ascendeu para um ideal, só ela, pela sua acção eficiente, a sua bondade
energica e bem orientada, realizou alguma coisa do muito que sonhou o século XIX para o aperfeiçoamento moral da humanidade e que este ha de continuar a sonhar com fé mais viva, quando acalmado desta crise de loucura que o está sacudindo. Oh, é preciso não perder a esperança... Em quasi nada póde residir a salvação do mundo, basta um pensamento. Pasteur, o santo da humanidade nova, no formidavel esforço de tornar a vida do homem melhor e mais larga, consumio a sua existência num labor: profundo, único,
até que a sua ideia, realizada se irradiou, revestindo-o de glória. Um defensor é um criador, porque da vida que ele protege ou preserva se desdobram outras vidas ás vezes mais perfeitas. Porque não ha de agora, sob o mesmo influxo que iluminou o sábio, trabalhar alguem' para imunizar o homem de um mal pior, que mata mais que a hidrofobia e que as cpidemias, o furor belicoso? Como, para um tal combate é precizo mais coração do que cérebro, mais tenacidade do que violência, mais doçura do que valor scientífico, quem poderá ser esse alguem? Para que responder, se já o adivinhastes?