Primeira Parte — III
A criança não tem medo da Morte, mas tem medo das trevas. Se acorda á noite a altas horas, e algum rumor lhe faz crer que andem ladrões em casa, cla chama pela mãi na certeza de que a sua simples presença espancará para longe todos os riscos terriveis de que se sente ameaçada! Na sua ideia, bastará que o frágil vulto dela apareça a seu lado para que a horda medonha que o seu pa
vor faz imaginar já no seu quarto, já rente á sua cama, se suma espavorida... A mãi é assim como que um ramo bento a esparzir pela casa bençãos e tranquillidade... Em que repousa, porém, essa confiança? Na certeza, na adivinhação da prodigiosa força do amor materno, esse amor criador de prodígios, afrontador de sacrifícios... Sim, os maiores! Ha filhos que cs esquecem, se os compreenderam; outros que não chegam mesmo a percebe-los e muitos que depois de tecerem pelas suas próprias mãos as malhas da sua vida particular, com a organização de um novo lar, dei
xam no isolamento aquela para quem, desde que nasceram, eles resumiram sempre — tudo! E a mãi não protesta, não pede alívios de compaixão alheia para a tristeza do seu abandono, antes o recalca no coração, procurando esconde-lo do olhar de toda a gente... A maternidade é abnegada, sabe perdoar e transformar em' flôres os próprios espinhos com que a dilacera a indiferença dos filhos. Se voz extranha os censura por esse desamor, ela ainda os desculpa, alegando causas em sua defeza, chamando a si a responsabilidade de faltas que não cometeu. Não é só esta capacidade de sacrifício que faz
com que do amor das mãis se irradie felicidade sobre o mundo. A maternidade gloriosa não é unicamente a da mulher procreadora, mas sobretudo a da que, dando ao mundo homens da sua carne e do seu sangue, procura pelo influxo do seu amor e do seu conselho, dar á pátria homens dignos e bons. A mãi que não se preocupa com a individualidade intelectual e moral do filho, não tem outra significação além da que têm os animais inferiores, nos quais o amor materno não deixa tambem de se revelar e em cuidados muito expressivos. Ninguem ignora que a maternidade inspira, mesmo aos bichos, os mais intimos
heroismos de que muitos guerreiros, dos mais atrevidos e considerados do mundo, não seriam capazes nunca! Se nos irracionais ela é abundante em exemplos de intrepidez, na da humanidade esses exemplos, se têm na aparência uma feição menos trágica, são no fundo de muito mais terno e longo sacrifício... Os animais só se preocupam com os filhos emquanto estes são pequenos. A mulher, até á morte...