A irmã Gabriela
A IRMÃ GABRIELA Tendo as tropas francesas de abandonar a cidade de Thermont d'Argonnes sob pressão do inimigo, foram avisar a Superiora de um asilo de velhos da localidade a que fugisse emquanto era tempo. As ruas estavam desertas, a população tinha partido, espavorida. Em resposta perguntou a freira se seria possivel fazer sair tambem os seus asilados. Infelizmente isso
não fôra previsto e assim a Superiora, sem nenhum! alvoroço afirmou que, nesse caso, ficaria no seu posto ao lado dos velhinhos. À pouco e pouco fez-se silêncio em torno. Dir-se-hia ter morrido o mundo. Passando entre os dedos trémulos as contas do seu rosário, saío a Irmã Gabriela a dar urna volta pelas ruas a ver se teria ficado na cidade algum velhinho trôpego e abandonado. Não encontrou nenhum velho, mas um moço soldado, pálido, exânime, caído nas pedras de uma calçada. Curvando-se para ele a Superiora procurou reanima-lo, dizendo-lhe que
se esforçasse por caminhar e seguir os seus camaradas. Era urgente. O inimigo não tardaria a chegar e o matariam, por certo! Mas o pobre estava esgotado e respondeu num soluço: — Pois que me matem, eu não posso mais! Comovida, a Irmã Gabriela, arrastou-o como pôde até ao seu asilo. Mas, onde esconde-lo lá dentro? O seu lindo rosto de adolescente não lhe permitiria po-lo entre os velhos. Que fazer, Santo Deus?! lHluminou-a de repente uma lembrança. Acomodou o doente em um quarto em cuja porta pôz um letreiro
com estas palávras em letras garrafais: Moléstia contagiosa Que o Senhor lhe perdoasse a mentira! Eis que explodem os primeiros obuzes. Os velhos tremem de medo. Acostumaram-se muito á vida, para quererem morrer. Para acudir-lhes a Irmã desce-os ao subterrâneo e instala-os como póde sobre colchões. Já quasi não póde comsigo de cansaço, entretanto, não pára, anima a todos com a sua presença e o seu conselho. «Coragem, coragem». Ás cinco horas da manhã ouve os passos dos
soldados que entram no convento. Como a Irmã Gabriela não sabe patavina de alemão, lembrou-se de escrever com a sua letra a mais pacientemente bem traçada e legivel mais ou menos isto: «Senhores, eu e minhas irmãs ficamos de guarda aos nossos velhinhos doentes pelos quais somos responsaveis. Como ordenam as leis da guerra e os preceitos da minha religião, tratarei dos vossos feridos com absoluta dedicação. Poupai, tambem vós o meu convento. Confio na vossa dignidade de soldados». Era mais que tempo. Violentas pancadas abalam' a porta, que céde e a Irmã se encontra em face de tres
officiais que apontam para ela os seus revólveres. Sem perder a calma, ela levanta para o do centro o seu escrito, que ele lê com atenção atravéz do cristal do monóculo, emquanto os outros continuam na mesma atitude agressiva. — O Prefeito? perguntou o oficial. — Partiu. — O capelão? — Partiu. — Todo o mundo partiu! A sua casa será respeitada porque a senhora ficou e não teve medo. — Preciso, replicou a religiosa, que me dê tambem a sua palávra de honra de que respeitará a cidade. Ao
que ele acedeu, pedindo-lhe, ao mesmo tempo, para ver a casa. Não teria ela escondido algum soldado francês? Respondeu-lhe a Irmã que sim; tinha ali um moço soldado; e, para que o vissem conduzio os tres oficiais ao quarto em' cuja porta colocara O letreiro com as palavras: moléstia contagiosa. “Os militares, entreolharamise e não insistiram, e, entretanto, ela foi explicando sem terror aparente que se tratava de um tifo, «oh, um caso muito grave».. Como chegassem alguns inimigos feridos correu a instala-los nas salas livres.
Parecia tudo remediado, quando subitamente irrompe o fogo na cidade. E o fogo alastra-se, e já rodeia o convento de chamas altas. O calor é de tal modo intenso que os vidros das janelas estalam. Os velhos erguem para O céo as mãos mirradas e tremulas. Desesperada a Irmã Gabriela toda a tremer de indignação, sob a doce brancura de sua touca de São Vicente de Paula, corre ao comandante e exclama: — Senhor! a palavra de honra de um oficial é sagrada. Que valerá a sua? Impressionado com aquela atitude corajosa, o comandante dá or
dens para que os sapadores isolem o convento do fogo que o rodeia. E assim a Irmã Gabriela, sem alarde, só pela sua dedicação e a sua coragem, salvou da morte os seus velhinhos, a sua casa, e um soldado da França... Em todas as esferas sociais a mulher interveio como pôde na luta imensa, reagio contra o abatimento e ofereceu o seu coração á patria e a Deus. E ninguem foi tão sublime
no sacrifício, porque a mulher detesta a guerra, detesta-a com toda a energia, com toda a veemencia, com todas as celulas do seu ser!