Canto I
Canto I
CANTO I
Que formosos são os teus pavilhões, oh, Jacó!
Que belas as tuas tendas, oh! Israel!
... O seu rei será rejeitado por causa de Agag, e o reino lhe será tirado!
Eu o verei, mas não agora eu o contemplarei, mas não de perto. Nascerá uma estrela de Jacó!
(NÚMEROS XXIV, v. 5, 17).
2 de Dezembro de 1871.
I
Árvore negra, pérfida, execranda!
Árvore infausta, cujos lisos pomos,
Loirejando no fundo aveludado
De macia espessura, seduziram
A nobre essência dos primeiros seres!
Cuja sombra sinistra e deletéria
Cobriu de luto e dor o leito ameno
Dos mais castos amores do universo!
Cuja seiva compõe-se das mais fortes
Peçonhas conhecidas! Cujos galhos
Representam os símbolos tremendos
Dos mais cruéis e lugubres suplícios,
Que hão inventado as tiranias todas!...
Árvore negra, pérfida, execranda,
Árvore abrigo do maldito gênio!
Não! Não és tu, que vejo nos meus sonhos,
Abrindo os vastos, protetores ramos,
Por essas regiões azuis, serenas,
Onde o nome de Deus fulgura escrito
Em rutilantes, assombrosas letras!
Não és tu, não és tu, em cujas frondes
Brincam os querubins de plumas de ouro,
Ora ledos descendo, ora subindo,
Tais como vira em sonho milagroso
O neto de Abraão, adormecido
Sobre uma dura pedra no deserto!
Não és tu, que nos tempos de desgraça,
De cruas provações, os povos buscam
Qual asilo de paz e de justiça!
Árvore da ciência e do infortúnio,
Tu não nos dás os frutos da Esperança,
E nem da Fé o bálsamo suave,
E nem o puro mel da Caridade!
Junto de ti a morte ergueu seu trono,
Em teus galhos fatais, em teus raminhos
Não geme a rola, — colibri não brinca,
Não pousa a abelha, — o rouxinol não canta,
Nem adejam travessas borboletas!
Amam-te, apenas, lutuosos mochos,
Larvas imundas, sanguinários corvos:
Visco de maldição transpiras toda!
Não; não entoarei meus pobres hinos
À sombra tua que Satã protege!
Nunca! Nunca!...
Mas, ai! como propicia,
Rodeada de glórias e esplendores,
Estendes no infinito os almos braços,
Oh árvore do bem e da verdade!
Oh árvore da vida e do futuro!
Como ao redor de ti revivem belos
Os justos que passaram, — as risonhas
Chusmas de loiros anjos, e as falanges
De claríssimas virgens, que a inocência
De grinaldas cingiu, imarcescíveis!
Quantos gratos idílios, quantas odes,
Repassadas de amor e de ternura,
Quanta excelsa harmonia, não repete
Tudo o que existe, oh Cruz, três vezes Santa,
À sombra de teu vulto abençoado!
II
Auriflama divina! Insígnia eterna!
Tu, que espancando as sombras da mentira
Ao grande imperador mostraste outrora
Do verdadeiro Deus o santuário;
Tu que do luso chefe às hostes bravas
Apontaste a vitória contra os servos
Dos mouriscos heptarcas, e formosa
Nos céus ocidentais, entre as estrelas
Brilhaste aos olhos do argonauta ilustre,
Mostrando a terra que tomou teu nome;
Tu, que proteges na soidão dos mares
A triste nau batida pelos ventos;
E dos átrios de pobres presbitérios,
Dos campanários de pomposos templos,
Consolas o cansado peregrino,
Quando os montes da pátria avista ao longe;
Tu, que nos descampados santificas
O leito do infeliz, que mão traidora
Feriu em noite escura, e o ermo sítio
Onde caiu exausto o viageiro;
Que da rósea criança o berço guardas,
E o seio da donzela, — e a régia fronte;
O catre do operário, e a dura enxerga
Do mísero cativo!... Oh! Cruz suprema!
Permite que o mais rude entre os cantores,
O mais rasteiro ser que te há beijado,
Dobre o joelho junto de teu soco,
E travando de mísero instrumento
Celebre a vinda suspirada, e os atos
Grandiosos, sublimes, — e os milagres,
As egrégias doutrinas, — os martírios
Atrozes, inauditos, — e a sagrada
Ressurreição de Jesus Cristo, o Filho
Do Onipotente Deus! E contemplando
O longo espaço que separa o berço
Humilde de Belém, do escuro cimo
Do pavoroso Gólgota, relate
As maravilhas que aprendeu, criança,
Dos santos lábios de ministro santo,
Nas amplas solidões do Novo Mundo!
Que volva aos belos tempos que passaram,
E desvende o painel das matas virgens,
E mostre as multidões das grandes praças,
O ajuntamento de selvagens tribos
Do maná do Evangelho sequiosas,
Em frente da cabana hospitaleira
De sábio missionário, em idas eras,
Quando o colosso — América — sorria,
Apertando feliz nos meigos braços
A imagem de Jesus — o Mestre, e a Bíblia.
III
E tu, mimosa flor dos santuários!
Celeste Musa! Sócia imaculada
Dos profetas hebreus! Vem, corre asinha!
Rasga o pesado véu que a luz empírea
Furta a meus olhos ávidos de glória!
Liberta meu espírito medroso
Das cadeias do tempo e da matéria;
Leva meu gênio além... além da terra...
Além das nuvens e dos sóis ardentes...
Além, além... onde o pensar apenas
Pode chegar, com milagroso auxílio!
Oh! de Milton e Dante augustas sombras!
Gênio de Kempis!... governai meu estro!
IV
Sobre os verdes outeiros, sobre os campos
Meridionais das regiões brasílias,
A noite estende vagarosa e muda
O brando véu de estreitas salpicado.
Bela como a princesa do Levante
Quando ao cair do dia ergue-se fresca
Das marmóreas banheiras de seus paços,
E para em meio dos degraus lustrosos,
Sacudindo da fronte peregrina
Um chuveiro de líquidos brilhantes
Sobre os finos tapetes que a circundam:
Assim das alvas névoas do horizonte
Vem assomando a lua; e triste e bela,
Nas portas do Oriente equilibrada,
Derrama sobre as úmidas campinas
A feiticeira luz. Nas lisas pedras,
Onde murmura trêmula e sentida
A fonte do sertão, brinca e suspira
Alinhando os cabelos perfumados
A tímida mãe d’água, semi-nua,
A náiade das terras de Colombo.
Dormem na selva as aves descuidosas
Do dia de amanhã, que a Providência
Por elas velará; lentas volteiam
As aragens do estio sabre os vales
Da próspera e feliz Piratininga.
V
Onde vão esses livres caminheiros,
Adustos filhos dos sertões? Que buscam
Por estas horas, tantos e tão fortes,
Deixando as tabas, as aldeias mudas,
E as cabanas desertas? Que desejam?
Novo céu? Outro clima? Ares mais puros?
Campos mais férteis? Mais alegres prados?...
Não. A terra querida em que repousam
Os restos de seus pais é vasta e rica!
Nela nasceram, vivem, se conservam,
E nela hão de dormir o último sono.
O que procuram, pois, que assim caminham?
Que pensamento os guia? Porventura,
Dirigem-se às cabanas inimigas
Sequiosos de sangue, dominados
Pelo sombrio gênio da vingança?
Meditam planos de combate? Levam
A desordem, a ruina, o horror a morte,
Aos calados abrigos, onde o povo
Dorme, de seus trabalhos esquecido,
Entregue aos sonhos de um melhor destino?
VI
Oh não! a rude maça, o arco infenso,
O grosseiro carcás prenhe de setas,
Não lhes pendem dos ombros; em seus peitos
Não cai feio colar de humanos dentes,
Nem talismãs de estólido prestígio,
Mas o divino emblema do Calvário,
A Cruz da Redenção, a imagem santa,
Meu Deus, do lenho em que expirou teu Filho,
Dando aos homens em troca do martírio
A liberdade, a salvação e a glória.
VII
Caminha ao lado do marido a esposa,
A esposa, que a palavra do Evangelho
Tirou da condição cruel de escrava;
Ampara o moço forte o velho enfermo;
Marcha silenciosa a criancinha
Seguindo de seus pais os lentos passos.
VIII
À esquerda margem de profundo rio,
Em sitio ameno e plácido, coberto
De transparente areia, matizado
De formosas ilhotas de verdura,
Entre acácias virentes, moles palmas,
Alveja solitária e pobre ermida.
Silvestres flores dos portais aos lados,
Úmidas de sereno, abrem medrosas
À luz da lua as cândidas corolas,
Onde as brisas do estio ávidas libam
Suavíssimos bálsamos; na frente
Cercada de jasmins e maravilhas,
Mimos das mariposas forasteiras,
Qual um padrão da pátria em terra estranha,
Ela ainda! Ela sempre! Sempre bela!
A Cruz da Redenção protege os ermos!
IX
Detém-se os caminheiros e respirara,
Sobre a relva descansam as mulheres,
E as crianças alegres se espreguiçam;
Está finda a romagem: um velho chefe,
De voz autorizada e grave porte,
Chama os da sua idade e se dirigem
Para o modesto e venerando asilo.
Batem, pronunciando o santo nome,
O nome augusto de Jesus, e logo
Abre-se a estreita porta, e como outrora,
Nos belos tempos em que a fé suprema
Prodígios operava, aos olhos ávidos
Dos filhos das florestas, aparece
Formoso santuário, iluminado
De brancos círios da mais fina cera
Que as abelhas silvestres produziram,
Adornado de flores delicadas
E alfaias preciosas, nunca vistas
Das tribos do deserto. O grato fumo
De odorosas resinas sobe em rolos
Dos braseiros de argila, e pouco e pouco
Cerca o sagrado altar, onde pousada
Aimagem do Senhor, lívida e magra,
Coberta de feridas rubro-ardentes
Pende de negra cruz. — Louvado seja
O Redentor do mundo! — exclamam todos,
Homens, mulheres, velhos e crianças,
Unindo as grossas mãos, baixando as frontes.
— Louvado seja o Redentor do mundo!
Por todas as nações, povos e séculos! —
Responde então no limiar da porta,
Súbito aparecendo, o nobre vulto
De austero missionário, moço e belo,
Mas triste como a estátua macilenta
De um mártir d'outras eras, esquecida
Em vasta catedral da meia idade.
X
Alma inspirada de Anchieta ilustre,
Espírito do apóstolo das selvas!
Sábio e cantor, luzeiro do futuro!
Tu, que nas solidões do Novo Mundo
Sobre as alvas areias, borrifadas
Das escumas do mar, traçaste os versos
Do — poema da Virgem — e ensinaste
Aos povos do deserto a lei sublime
Que ao reino do Senhor conduz os seres;
Ensina à minha musa timorata
A linguagem celeste que falavas!
Dá-lhe a doce expressão, a graça infinda,
A força, a eloquência e a verdade
Dessas singelas narrações, que à noite
Fazias nos outeiros, nas florestas,
Às multidões que ouvindo-te choravam,
E pediam as águas do baptismo!
E tu, oh! desditoso, exímio bardo,
Cujo leito final buscam debalde
As abelhas das verdes espessuras,
Para seu mel depor, como as do Himeto,
Do divino Platão sobre o moimento,
— E cada novo estio o mar procuram,
E zumbem sobre as águas mugidoras
Que furtaram teu corpo ao pátrio solo!
Grande Gonçalves Dias! Desses páramos,
Onde viver sonhava, e vive agora
Tua alma gloriosa, envia, oh! mestre,
Envia-me o segredo da harmonia
Que levaste contigo!... Assim, apenas,
Meu santo empenho vencerei contente.
XI
Reina fundo silêncio. Passo e passo,
O homem do Evangelho se encaminha
Para o meio das gentes reunidas;
Qual o astro que as veigas ilumina
E faz abrir a flor, saltar o inseto,
Romper-se a bela e nítida crisálida,
Cantar o passarinho, e a leve corça
Pular pelas campinas orvalhadas,
Assim rebenta a vida e o movimento
À medida que o mestre se aproxima.
Sobre grande fogueira a chama brilha,
Robustas mãos arrastam duros cepos;
Outras mais frágeis pelo chão estendem
Lisas, moles esteiras, ramas frescas;
Ajoelham por fim, e o missionário
Para a imagem de Cristo se voltando
Repete as santas orações da noite.
Da noite as orações já terminadas,
As gentes abençoa, e então começa
Da Redenção a história sacrossanta,
Que a musa do poeta ornou de flores,
Tristes flores sem viço e sem perfumes.
XII
Oh! não! não morrereis, meus pobres cantos!
Não passarás nas trevas, deslembrada,
Musa Cristã, que peregrina foste
Pedir a inspiração ao frio solo
Do sombrio jardim das Oliveiras!
E do suor de sangue te molhaste!
Que subiste contrita, de joelhos,
Beijando as pedras, inundando a terra
De lágrimas de amor e de piedade,
A terrível montanha do Calvário!
Que entre os negrumes de sinistra noite,
Rotas as vestes, os cabelos negros
Soltos aos frios ventos do infinito,
Junto às santas mulheres pranteaste
Sobre a lousa do Deus supliciado!
Que o viste erguer-se vencedor da morte,
Buscar o mundo, consolar os tristes,
Prometer-lhes voltar no fim das eras,
E remontar aos céus em nuvens d'ouro!
Hão de te honrar os homens e as idades,
Senão por ti, por Esse, cujo nome
Santifica teus cantos maviosos!
Passarás ao porvir, oh! casta Musa!
XIII
Feitura do Senhor, senhor dos seres
Que os vergéis sempre verdes habitavam
Da região da paz e das delícias:
Irmão, dos anjos, como os anjos puro,
Jovem, feliz, imortalmente belo,
O rei da creação, — o esposo de Eva,
A glória, a vida, a luz da etérea corte,
Contra as ordens de Deus voltou-se ingrato,
Rendeu preito a Satã! — Tudo perdeu-se!
Os anjos, seus iguais, horrorizados
Apartaram-se dele: o Paraíso
Tornou-se mudo e se cobriu de sombras;
Apagaram-se os astros: convulsiva
A natureza estremeceu nas ânsias
De doloroso parto!... A fria morte
Apareceu na face do universo!...
Lavrando a justa e rígida sentença
O Juiz sossegou: o Pai clemente
Sentiu, porém, a queda de seus filhos,
E prometeu-lhes libertar um dia
Das cadeias da morte e do pecado.
XIV
Punidos os revéis, seus descendentes
Pelo mundo espalharam-se, assombrando
As eras e as idades com seus crimes!
Uma lágrima, então, não de tristeza,
Mas de indignação, brilhou nas nuvens;
Cresceu, cresceu, ganhou o firmamento,
Caiu com surdo estrondo sobre a terra,
Juntou-se ao mar, vingou os descampados,
Selvas cobriu, avassalou montanhas,
Tudo, tudo arrasara, se entre os homens,
Um homem justo não vivesse! O Eterno
Inda uma vez mostrou-se compassivo
Preservando Noé e mais seus filhos.
Passada a horrenda convulsão das águas,
Pelas imensas regiões, que ainda
Exalavam os úmidos vapores
Do sol brilhante aos protetores raios,
Se espalharam de novo!... — Mas, desgraça!
Os filhos de Noé continuaram
O que os filhos de Adão haviam feito!
E seu curso fatal seguia o tempo,
Volvendo ao nada séculos e séculos,
E nem santos avisos, nem promessas,
Milagres de clemência, atros castigos,
Pragas medonhas, servidões cruentas,
E horrores sobre horrores, atalharam
A progressão de abomináveis crimes!
XV
Já tremenda sentença, e a derradeira,
Ia lavrar o Eterno. Sobre o globo
Em vez da imensa lágrima d'outrora,
Imenso olhar fitou!... Raio seria
Que a terra fulminara, se, pousando,
Depois de atravessar os mundos todos,
Dos continentes na mais pobre nesga,
Não caísse bondoso e compassivo
No casto seio de formosa virgem!
Olhar onipotente! Olhar bendito!
Manancial de luz, vívida e pura!
Raio da salvação, não da vingança!
Tu levaste a verdade, o verbo santo,
A invisível essência do incriado,
Às entranhas puríssimas da esposa!
XVI
Era ao sol posto: no modesto asilo,
Prostrada, humilde, o pensamento entregue
Ao Deus de seus maiores, meditava
A mais pura, a mais bela entre as mulheres.
Mas, estremece de repente e cora,
Ergue os formosos olhos radiantes
De inefáveis delícias, e, surpresa
Vi um anjo do céu, todo esplendores,
Do pé a poucos passos; — enleada,
Cruza os braços, suspira, a fronte abaixa.
O etéreo mensageiro se aproxima
E fala deste modo: — Ave, Maria!
Virgem cheia du graça, é Deus contigo!
Bendita és tu, entre as mulheres todas,
Bendito o fruto de teu santo ventre.
E como a virgem pávida mirasse,
Continuou assim: — Sobre teu seio
Há descido do Altíssimo a virtude,
Terás um filho poderoso e forte,
E que — Filho de Deus — será chamado.
— Eis a serva de Deus, — faça-se nela
Sua santa vontade, — diz a virgem.
E o celeste enviado abrindo as asas
Volta, entre nuvens de brilhantes cores,
À sidérea mansão. — Salvo era o mundo:
Tinha se feito a luz que alumiava
A matéria fecunda, ia fazer-se
A viva luz que alumiar devera
As almas imortais em seu caminho;
Ia chegar ao mundo o Prometido,
Aquele que esperava que viesse,
Que trouxesse um consolo aos que chorassem,
Que desse ao pobre um lar, ao triste um gozo,
Ao romeiro um bordão, ao nauta um leme,
Ao cego a luz, ao moribundo a vida,
Aos povos a verdade! — Era já tempo.
XVII
Da clara estirpe de Davi o grande,
A glória de Israel, o rei-profeta,
O ungido do Senhor, o herói, o sábio,
O mais nobre cantor que há visto o mundo,
Era a eleita de Deus, dos céus princesa,
Dos homens esperança, — era Maria,
Filha de Ana e de Joaquim, esposa
Do operário José. A nódoa infausta
Do vício original não maculava
A esplêndida candura de seu rosto,
Norma sublime, divinal modelo
Da perfeição dos anjos. A inocência,
A bondade infinitas, radiavam
Iguais a duas fúlgidas estreitas,
Em seu laurel de excelsa virgindade.
Seus gestos graciosos, os seus passos
Mais leves e sutis, eram medidos
Por suave harmonia. Um — que — de etéreo,
De indefinido e vago, derramavam
Por toda a parte seus olhares. — Almas
Tinham as rosas dos sarçais selvagens,
Se as tocavam seus dedos: as palavras
Que murmuravam seus divinos lábios
Eram guardadas pelos anjos, — nunca
Tão grata havia sido a voz humana!
Tanta consolação jamais vertera!
Jamais tantas promessas traduzira!
— Bela e terrível! Ao mirar-lhe o rosto,
A espada flamejante, que guardava
Do Paraíso a porta, cairia
Das mãos de austero arcanjo, fulminando
A fronte mãe de um pensamento impuro!
Neta de um rei, mulher de um jornaleiro,
Pobre, singela, humilde, mas senhora
De toda a humanidade: desprezada
Dos escravos dos Césares nefandos,
Mas forte, gloriosa, triunfante
Ao lado de seu Filho e de quem sofre;
Eis a mulher que soergueu os homens
Do fundo abismo onde os lançara o erro!
Eis a predestinada, a quem o Eterno
Enviara seu lúcido ministro
Anunciando a encarnação do Verbo.
XVIII
Província escrava do Romano Império
Era a Judeia, então, a pobre pátria
Da formosa Maria; outrora forte,
Afamado, opulento e grande reino,
Berço de heróis, de iluminados sábios,
De inspirados profetas, e, ora, triste,
Miserável quinhão de servos torpes
Do mais torpes senhores. Entretanto,
Dos estandartes das nações, seus chefes
As tendas dos soldados fabricaram;
Seus reis ergueram majestosos templos,
Onde as riquezas todas do Oriente
Brilhavam misturadas; seus cantores
Não tiveram iguais, nem nesses tempos,
Nem hoje ainda, que saltério hebraico
Jaz desmontado à sombra funerária
Das brenhas de Sião. — Ai! nessa idade,
Todos os povos e nações do mundo
Tinham os olhos fitos sobre a terra,
Onde corre o Jordão, e rumorejam
Os altos cedros do soberbo Líbano!...
Alguma cousa de sinistro e grande
Agitava-se então naquelas plagas!
XIX
Por decreto fatal da Onipotência
O sólio de Davi desfez-se em cinzas;
A hera fria, a vil parietária,
Estenderam-se então nos velhos muros,
Onde o veludo e a seda, recamados
De ouro e pedrarias, encantavam
Os olhos do estrangeiro! As vastas praças
Tornaram-se ervaçais, e as belas fontes,
Onde ao sol posto a filha do operário
Ia o cântaro encher, onde os mancebos
As noivas escolhiam, correm turvas
Em turvo leito de sombrio lodo!
Assim estava escrito! — Roma! Roma!
Foste fiel verdugo! Executaste
Horrivelmente bem o mando eterno!
Só tu, pátria cruel das Messalinas,
Dos Neros e Tibérios, tu somente,
Tão nefário papel representaras!
Tu corrompida até vender teus filhos!
XX
Já de guerras inúteis enojado,
Soberano do mundo, o grande império,
Não no seio da paz, senão do gozo,
Buscava repousar. Desde as planícies,
Onde desliza o Eufrates venerando,
Até da Lusitânia os verdes campos;
Desde as ilhas remotas do Levante
Até da Mauritânia as rudes serras,
Tudo às águias romanas se curvara.
— Era senhor então César Augusto:
Volvendo um dia os olhos sobre o mapa
Das nações que vencera e dominava,
Quis conhecer o número das gentes
Que pagavam tributo à sua espada.
Determinou então que o povo todo,
Cada qual procurando a pátria terra,
Se apresentasse logo ao magistrado,
Cujo dever e ofício era notar-lhes
As moradas, os nomes e a família.
Governava os judeus Cirino: logo
Fez publicar o insólito mandado
Que recebera de seu amo augusto.
XXII
Pálido, em pleno inverno, raras vezes
Rasgando os mantos de alvacentas névoas,
Deixava o sol cair furtivo raio
Sobre os cimos do Hermon, ou sobre os lagos
Azuis da Galileia; frios ventos
Sopravam dos desertos, sacudindo
Os retorcidos galhos da videira,
E lançando por terra as folhas murchas
Dos densos olivedos; as campinas,
Onde sobre macia e verde relva
No doce estio, os cordeirinhos brancos
Saltitavam contentes, se cobriam
De camadas de neve; os passarinhos
Tinham buscado novo céu; as árvores
Nem gratos frutos, nem cheirosas flores
Ostentavam à vista tediosa
Dos viandantes trêmulos; — apenas
O grasnar dos abutres esfaimados,
O ruído das lívidas queixadas
Do chacal temeroso, remoendo
De mortos animais os ossos frescos;
A luz medonha dos fuzis do inverno
Correndo sobre o gelo; o silvo agudo
Das serpentes vorazes se agitando
Danadas sobre o chão, — interrompiam
A triste cena do infecundo quadro!
XXII
Nem uma voz humana pelo espaço!
De angústia ao menos!... Porém, não, aos pouco,
Tropel confuso fez-se ouvir nos ermos;
Gritos, clamores, tresloucados cantos,
Imprecações tremendas, acordaram
Os ecos dissonantes; surdo estrondo
De duras patas, de pesadas rodas
Abalaram o solo: dir-se-ia
Que um poderoso exército voltava
De prolongadas, férvidas pelejas,
Vencedor, mas cansado. Em pouco tempo,
Grandes estradas, tortuosas sendas,
Atalhos desiguais, eram cobertos
Do buliçosas, palradoras turbas;
Velhos, mancebos, grandes e pequenos,
Trajando vestes das mais vivas cores,
Uns a pé, carregando ao ombro os filhos,
Outros graves, sisudos, cavalgando
Tardos jumentos; prazenteiros outros
Sobre pesados carros, atulhados
De negras arcas, de grosseiros sacos;
Estes rindo e cantando os doces cantos
De seu país natal, narrando aqueles
Lendas singelas, inocentes casos
Às lindas companheiras de jornada.
Os anciãos silentes, as crianças
Pulando alegres, sem sentir ao menos
Os rigores do inverno, caminhavam
Ao longo do deserto.
Atrás, bem longe
Da multidão ruidosa, lentamente,
Do bom marido aos ombros arrimada,
Maria viajava. — Melindroso
Era então seu estado, já na quadra
Em que o tempo decreta a angustiosa
Dor da maternidade; mas seu rosto,
Pálido como a nívea magnólia
Que desbrocha ao luar; os lábios meigos,
Onde um riso, mais doce do que a aurora
Da sazão estival, constante estava;
E os olhos mais formosos que as estreitas
Do céu meridional, reproduzidas
Na face das lagoas do deserto;
A cabeça mais linda e graciosa
Que da virgem primeira, que da terra
Subiu aos pés de Deus, ganhando a palma
Da bem-aventurança — ao pensamento
Acordavam ideias de outra vida,
Delícias de uma pátria que perdemos,
Vagas saudades do infinito, e ainda...
Oh! não posso explicar, mas creio e sinto
— A presença de um Deus clemente e justo! —
XXIII
Segundo a era nova que seguimos,
Onze meses e dias vinte e quatro
Tinha marcado no quadrante imenso
O flamejante sol, desde o momento
Em que o santo enviado anunciara
A glória de Maria; seis jornadas,
Seis jornadas apenas, esperava
A mão cruel e rábida do tempo
Para a lousa abaixar do ano extinto,
Plantar um novo marco!... — Ingente marco!
Padrão sagrado! Hão de passar os séculos,
Hão de perder-se as gerações futuras
Do esquecimento nos profundos mares;
Há de abalar-se o globo nos seus eixos,
Sacudindo os colossos de granito
E os mausoléus das dinastias todas,
E os povos e as nações! Um outro mundo
O Senhor criará!... Mas, sobranceiro
Ao tempo, ao mundo, e aos povos, — os felizes
Desse mundo melhor hão de saudar-te
— Padrão da eternidade! E penetrados
De respeito e de amor, dirão piedosos:
— Até ali a sombra, a barbaria,
E dali até nós a luz, a glória!
XXIV
As multidões hebreias caminhavam,
O triste véu da noite inda mais triste
Tornava as soledades; pavorosa
A viagem seria, se a esperança
De próximo descanso e abrigo próximo
Não alentasse os ânimos e as forças.
Alguns passos ainda, e além dos campos
Frios, desabrigados, a cidade
Querida de Davi, a hospitaleira
E singela Belém, por entre as sombras,
Ia mostrar-se com seus gratos fogos,
Consoladora como um porto amigo,
Que do meio do pérfido oceano
Lobriga esmorecido, pobre nauta.
Tinha cessado a vozeria e os cantos;
De quando em quando, apenas, um suspiro,
Um grito de mulher ou de criança,
Cujos mofinos pés, intumescidos
Do muito caminhar, ou lacerados
Dos espinhos e pedras do deserto,
A neve entorpecia, ou brado forte
De impaciente, ríspido carreiro
Os vagarosos brutos incitando,
Erguiam-se dos ranchos abatidos
Daquele povo ilustre e desgraçado.
Depois... fundo silêncio. — Oh! quantas vezes
Nesse jornadear penoso e duro,
Se lembrariam de Israel os filhos
Da longa escravidão de seus maiores?
Das estiadas do Egito e Babilônia?
E das promessas de seu Deus?... Quem sabe?
XXV
Já de Belém as luzes bruxuleiam
Pálidas através dos nevoeiros,
Qual turbilhão de tênues vagalumes
Sobre as sarças escuras lampejando....
Um grito apenas, expansivo e forte
Pelos ares ressoa — o passo dobram;
Superam a fadiga. Estavam findas
As penas desse dia trabalhoso.
Chegam por fim. Das estalagens vastas
Os grosseiros portões rangem nos gonzos:
Gritam os amos; os serventes correm
De um lado e de outro; os viageiros entram
Nos largos palcos, insistentes estes
Pedindo de comer, — fracos aqueles
Suplicando um abrigo, um leito ao menos,
Chora a criança; o ancião tolhido
Implora brando lume a que se aqueça;
Acalentam as mães os filhos; bradam
Os condutores alijando os carros;
Ressoam na calçada as duras patas
Das mulas pacientes: — a desordem
Reina e a confusão por toda a parte.
Para tão grande número são poucas
As pousadas, e poucos os alvergues;
O que chegou primeiro, o mais esperto,
Ou traz mais cheio o cinto, ou prenhe a bolsa,
Tem o lugar melhor; ficam os outros
Na cozinha ou no alpendre; outros, apenas,
Acham mesquinha enxerga em que dormirem
No frio pátio ao lume das fogueiras.
Porém, José o pobre carpinteiro,
Porém, Maria a santa, a imaculada,
Só encontraram por abrigo — o teto
Do escura estrebaria, ou vil presepe!
Por leito — feixes de cevada e feno!
Por companheiros de hospedage — os brutos!
Nem um velho candil de frouxo lume,
Nem ligeiros gravetos acendidos
Entre grosseiras pedras clareavam
O miserável, negro pardieiro!
Em breve o sono amigo as gratas asas
Estendeu sobre os pobres viandantes.
XXVI
— Calou-se o narrador, ergueu os olhos
Para a celeste abóbada, crivada
De estrelas rutilantes, depois triste
Abaixou a cabeça suspirando.
Todo o auditório contemplava mudo
Aquela bela imagem do profeta;
Todo o auditório respirava a medo,
Temendo interromper-lhe os pensamentos.
Por fim continuou:
— Nas vastas terras
Que no centro da Ásia se dilatam,
Tendo ao Setentrião tribos ferozes,
Povos sem lei, sem crenças, sem governo,
E ao Meio-dia a Pérsia, a índia adusta;
Ao Oriente a China impenetrável,
Ao Ocidente a áspera Tartária,
Um poderoso império florescia,
Grande no meio de inimigas hordas,
Opulento entre reinos lacerados
Por discórdias e guerras, deslumbrava
Com seu fulgor os povos do Levante.
Nunca, segundo a tradição nos conta,
Mais altos torreões, mais ricos templos,
Mais vistosos eirados, levantaram
Braços humanos. Seus reais senhores
Tinham acumulado nas cidades
Esplêndidas, soberbas, os prodígios
Das artes, das ciências, dos trabalhos
Em que mil gerações se afadigaram.
Mas, desgraça! loucura! Os habitantes
De tão brilhante e opulento império
Não guardavam de Deus e da verdade
A mínima noção! Monstros horrendos,
Áureas, mas broncas, colossais estátuas,
A lua, o sol, as abusões falazes
Da louca fantasia, eram seus deuses!
Uma classe, contudo, ilustre classe,
Classe temida, professava, é certo,
De vedada ciência os exercícios;
Ela escrevia a lei, ela dispunha
Dos homens e das cousas, dominava
O rei e o povo, o exército e o comércio:
Era a classe dos Magos. O seu livro
Tinha por folhas os azuis espaços,
As estreitas por letras. Longas noites,
De enormes torreões sobro os eirados,
Olhos fitos no céu, acompanhavam
Dos claros astros os extensos giros.
Liam da natureza as maravilhas,
Os flagelos do tempo, a sina, o fado
Do mais rasteiro ser que a terra habita,
Na poeira dos mundos cintilantes
Que à noite argenta o Armamento escuro.
A pedido do rei, que feias lutas,
Iminentes perigos assombravam,
Reuniram-se os Magos: rubros fogos
Brilharam logo nos torrados todos
Dessas erguidas fábricas de pedra,
Glória dos grandes e terror do vulgo;
Rolos de espesso, de odoroso fumo
Por um momento espalham-se nos ares;
Estranhos cantos, harmonias vagas,
Como as de um sonho de alma enamorada
Passam nas asas dos noturnos ventos.
Amedrontado o povo, em vozes baixas
Repete então maravilhosos contos,
Fala de aparições de etéreos gênios
Habitantes dos astros, de colóquios
Com as sombras errantes, que das nuvens,
Sentadas descem sobre carros de ouro;
De espantosas visões, negros sigilos,
Revelações de pavorosos seres:
O segredo, porem, dessas alturas,
Os arcanos profundos que decifram
Os magos reunidos — ninguém sabe,
Ninguém tenta saber! Desventurado
Aquele que, de longe, procurasse
Perscrutar os mistérios dessas horas!
À meia noite, o tempo do preceito,
Eram findos os mágicos trabalhos,
Eram sabidos os futuros casos;
Guardam-se os tenebrosos instrumentos,
As lâmpadas apagam-se, os braseiros,
Onde a mirra e o incenso há pouco ardiam,
Deixam de fumegar; os Magos descem,
Mudos, severos, arrastando os mantos
Pelas escadarias de granito.
Não se fecha, contudo, a grande porta,
Ficam alguns serventes, que três sábios,
Doutos conhecedores das estrelas,
Aguardam a manhã: o mais provecto
Chama-se Baltazar, nobre, opulento,
Governa a terra onde abundantes brilham
As auríferas minas: o segundo
Domina a região das tamareiras
E das árvores altas que destilam
A cânfora saudável; o seu rosto
Tem do ébano a cor lustrosa e negra,
É Melquior o seu nome: o derradeiro,
Gaspar, vive entre as tribos do deserto,
D'onde a suave mirra, o brando incenso,
O grato beijoim descem, se espalham
Pelos grandes mercados do Oriente.
XXVII
Retirados os mais, os três sentados
No derradeiro andar da imensa torre,
Despertos, porem mudos, e absortos,
Buscam as horas iludir da noite,
Cada qual se entregando aos pensamentos
Ledos ou tristes, graves ou ligeiros,
Que o silêncio, o lugar, o acaso, o tempo,
Soem chamar à inteligência humana.
Este, talvez, recorda-se da esposa,
Ou da amante, dos filhos, dos amigos,
Da lareira querida que deixara;
Aquele de negócios complicados.
Ou dos pátrios destinos; aqueloutro
Nesse futuro que entrevira há pouco
Na face das estrelas... Mas, oh! numes!
Repentino clarão percorre o espaço!
Jorro de luz rebenta do infinito,
Seguido de um horríssono estampido!
O enorme torreão todo estremece.
Depois um coro de celestes vozes,
De instrumentos divinos, docemente
Nas nuvens faz-se ouvir, e aos olhos turvos
Dos Magos assustados aparece
De um querubim a esplêndida figura:
Mais alvas, mais brilhantes do que a neve
Incólume dos Andes, refletindo
A luz do sol nascente, eram as vestes
Que as formas lhe envolviam; mais festivas
Do que as faixas do íris, quando abraça
Depois da tempestade o céu e a terra,
Eram as longas asas. Da cabeça,
Prodígio de beleza, uma torrente
De fúlgidas madeixas desprendia-se,
Vinha tocar-lhe os pés; a eternidade
Terrível, mas sublime; a glória excelsa,
Mas assombrosa, das celestes cortes,
Dominavam-lhe os gestos e a postura.
— Não tenhais medo, murmurou, erguei-vos,
Ajuntai as mais grátulas ofertas
E parti, caminhai: a mão do Eterno
Vai desvendar-vos os terrestres olhos.
Ide a Belém, o Salvador do mundo
Entre os homens está. — Disse, e agitando
As asas vigorosas, afastou-se,
Deixando os Magos trêmulos, atônitos.
XXVIII
Belém... Onde Belém? Quais os caminhos'.'
Quais os guias seguros? Quem pudera
Nessas horas caladas ensinar-lhes
Da romaria o norte? Quantos povos
Bárbaros de permeio, ou quanto tempo
De penosas jornadas e labores?
Depois quais os sinais? Quais os indícios,
E o nome do que buscam? Como achá-lo?
Em vão tentavam, ponderando o caso,
Resolver estas dúvidas tremendas.
Nada explicara o mensageiro augusto,
Nenhum rumo apontara, de que modo
Obedecer às ordens soberanas?
Porém — milagre!... nos sidéreos climas
Uma formosa estrela, nunca vista
Nas eras que passaram, fulgurante
Apareceu de súbito, inundando
O rio, os campos, os vergéis frondosos,
Os extensos jardins, e os elevados
Coruchéus dos palácios, da mais pura,
Da mais serena luz, que haja caído
Das empíreas alturas! Tristes, pálidas,
As mil constelações se tresmalharam
Quais errantes lucíolas: a láctea
Banda que o firmamento em dois divide,
Como um cinto de frágeis filigranas
Na vastidão perdeu-se! Os grandes lagos,
Os tanques primorosos, as colinas
Coroadas de vinhas e oliveiras,
Transformaram-se em mares encantados,
Ilhas de nácar, mágicos pomares,
Grutas de fadas e amorosos gênios.
XXIX
— Eis o sinal divino, caminhemos!
Exclamaram os Magos, — o luzeiro
Que aparece no céu, à terra santa
Guiará nossos passos, faro amigo
Nos mostrará propício o asilo, o berço,
Onde repousa o Salvador! — E logo
Buscam os cofres de valores prenhes.
As áureas bolsas, os compridos mantos,
E fitando os olhares penetrantes
Na portentosa estreita, a torre deixam.
XXX
As horas passam como alados gênios.
O deserto medonho se ilumina
De rutilantes fogos; as montanhas
Aplainadas, transformam-se em caminhos
Orlados de jasmins e heliotrópios,
Lírios e rosas, dálias e tulipas.
Os rouxinóis despertos preludiam
Suavíssimos cantos; a floresta,
O campo, a fonte, o rio, a sarça, a relva,
O pequenino inseto que se aninha
No seio de uma flor, tremem, tocados
Pelo sopro de Deus! Hinos celestes,
Melodiosos cânticos, percorrem,
Nas asas leves de chorosas brisas,
A vastidão dos ares, e... lá em cima,
Lá em cima, além das nuvens e dos astros,
Abrem-se do Infinito os santuários,
E os querubins de alvíssimas roupagens
Junto ao trono do Eterno se debruçam,
Derramando felizes sobre o mundo
Um dilúvio de flores — Glória! Glória!
Glória ao Senhor supremo nas alturas,
E paz aos homens sobre a terra! — cantam
Ao inefável som de etéreas harpas.
XXXI
A luz tudo avassala. A festa imensa
Da natureza nessa noite santa
Dá vida às soledades; mas, ao longe,
Das bandas do Ocidente, em nuvem negra,
Um turbilhão de espectros macilentos,
Cobertos de farrapos purpurinos,
Lentamente atravessa o céu sereno;
Sibila o vento, e as ondas agitadas
Atiram contra a sombra que projetam
A baba salitrosa. Um grande brado
De polo a polo faz-se ouvir; — são mortos!..
São mortos os mil deuses, — é nascido
O Filho de um só Deus! — E lentamente
Desaparece a nuvem tenebrosa.
XXXII
Jubilosos, porém, cientes e firmes,
Fitos os olhos na propícia estrela,
Os três magos caminham pelos ermos,
Voam as horas; as manhãs e as noites
Em celeste consórcio se confundem:
À voz do Eterno estreitam-se as distâncias,
E chegam sem cansaço à nobre, à antiga,
Real Jerusalém. Seu grito estranho,
Seus estranhos vestidos e seus modos,
Dão pasto ao ócio e ao gênio curioso
De um povo estulto e vão. — D'onde vieram
Estes homens tisnados? Que procuram?
Trazem felicidade, ou semelhantes
Aos pássaros sinistros, pressagiam
Desgraças, infortúnios? — A notícia
Chega aos ouvidos do vaidoso Herodes,
Rei, então, e senhor. Chama-os e indaga:
— De que terra saístes? Que negócio
Vos traz aqui? — Partimos do Oriente,
Os Magos lhe respondem, — habitamos
Além do Eufrates e do Tigre, e somos
Senhores, como vós, em nossos reinos.
Procuramos o pouso abençoado,
Onde o Rei dos judeus, recém-nascido,
Descansa agora: se o sabeis, dizei-nos;
Se não, deixai-nos ir, que sua estrela
Nos clareia o caminho. Isto escutando
Turba-se Herodes, seus ministros chama,
Convoca os anciãos, consulta augúrios,
Faz estudar das aves as entranhas,
As águas dos arroios, e a fumaça
Das ardentes fogueiras. Os prudentes
Anciãos venerandos lhe repetem
Dos antigos profetas as palavras:
— Está escrito, dizem-lhe, que o Cristo
Em Belém nascerá, — estais contente?
— Ide! — Herodes exclama, ide depressa,
Buscai o rei anunciado, e quando
Souberdes o lugar onde se abriga,
Vinde dizer-mo: pequenina oferta
Quero também depor junto a seu berço;
Ide depressa, os deuses vos protejam.
XXXIII
Os romeiros prosseguem; mas o bárbaro,
O apavorado rei logo reúne
Mil soldados cruéis, e lhes ordena
De invadir as cabanas e as herdades,
A casa do abastado e o vil tugúrio
Do infeliz, miserável proletário;
De derramar a morte onde encontrassem
Fecundos seios, puerícia inerme!
XXXIV
Então um grito uníssono, terrível,
Retroou pelo espaço! Aflitas, cegas,
Olhos sanguentos, desnudado o corpo,
As jovens mães as praças percorriam,
Como as leoas da abrasada Núbia,
Defendendo os filhinhos! O heroísmo
Do maternal amor fez-se loucura.
Renques de algozes recuaram frios,
Perante uma mulher! Rudes atletas,
Afeitos aos mais ásperos trabalhos,
Se estorceram no pó, aniquilados
Por delicadas mãos, destras apenas
No suave lidar de brandas sedas!
Mais de uma vez os lúgubres verdugos
Viram o ente frágil, timorato,
Objeto de luxo e de vaidade,
Tornar-se horrível, espumar de raiva,
Às feras disputar o antro escuro
Para esconder a prole ameaçada!...
— Um coração de mãe produz milagres.
XXXV
Enquanto estas cruezas assombravam
Aldeias e cidades, descuidosos
Caminhavam os Magos, precedidos
Do luminoso guia, — e alfim chegando
Às portas de Belém, sobre o telhado
De mísero presepe, úmido e negro,
Viram-na se deter. — Vozes suaves
Ledos hinos cantavam, — brando lume
Clareava o recinto. — Entremos, vamos,
Dizem, volvendo para o céu os olhos:
Já não brilhava a fulgurante estrela.
XXXVI
Sobre grosseira, escura manjedoura,
Em alvos panos envolvida estava
Rósea criança; — à cabeceira um anjo
Mudo e severo, — aos pés Maria a santa.
Predileta do Eterno, o esposo ao lado,
À roda pobres, tímidos pastores.
Quando o indeciso olhar, porém, fitaram
No anjo que velava à cabeceira,
Reconheceram pasmos — o enviado
Que os visitara na sombria torre!
XXXVII
Prostremo-nos! — bradaram, e adoremos
Do Rei dos reis o sacrossanto Filho!
Louvemos o Senhor que nossa vida
Encheu de glórias, e espancou as sombras
Dos erros infernais que nos cercavam!
Glória ao único Deus, onipotente!
E abrem os cofres recheados de ouro,
Que aos pés colocam da criança augusta.
Derramam das navetas primorosas
Sobre o fogo vivaz o incenso e a mirra;
Lançam por terra os mantos e os adornos,
Curvam-se e adoram cheios de humildade
O filho de Maria. Os pegureiros
E os rudes camponeses que cercavam
A negra estala do divino Infante,
Como se a voz de Deus soasse perto,
Ajoelham-se trêmulos e entoam
Religiosos cantos — Ah! não foram
Os sátrapas das cortes do Oriente,
Cobertos de veludo e finas sedas,
Nem do Ocidente os príncipes soberbos
Seguidos de pomposa comitiva,
Os que desceram de seus áureos paços,
E saudaram de Cristo o nascimento!
Oh! não! Foram os pobres e os humildes,
Os simples corações, os gênios simples,
Aqueles que ele amou, que procurava,
E sempre defendeu contra a injustiça,
E a tirania indômita dos grandes!
XXXVIII
Mas o tempo voraz que não descansa,
Que embala os berços, que os sepulcros abre
Em um relance d'olhos, implacável
Seu giro continua. Aconselhados
Por celeste visão, voltam os Magos
Às regiões natais, menosprezando
O astuto aviso e o pérfido conselho
Do tenebroso Herodes, que esbraveja
Vendo-se deste modo postergado.
Para o Deus criador, justo, infinito,
Não existe passado nem futuro:
Tudo é — hoje, hoje sempre. — A eternidade
Forma o dia divino, mas o dia
Que não teve alvorada e não tem noite.
Era chegado o Salvador, — o Verbo,
A fecunda e suprema Inteligência,
A verdadeira luz: — de novo o mundo
Ia sair das trevas que o cercavam.
O santo mensageiro se apresenta
Novamente a José: — Toma a criança,
Ampara a virgem mãe, busca o caminho
Do hospitaleiro Egito; os dias negros
Do malfazejo Herodes são contados.
Quando a terra cobrir seus frios ossos.
Voltarás ao país de teus maiores;
Parte. — E dizendo assim, volta de novo
Aos paços do Senhor, d'onde baixara.
XXXIX
À segunda vigília de atra noite
Calça as sandálias de jornada, empunha
O bordão de romeiro o santo esposo,
Une ao seio o menino, e acompanhado
Da virtuosa, cândida consorte.
Busca dos Faraós o vasto reino.
XL
.........................................................................
Calou-se o pio Mestre. A madrugada
Vinha nascendo lúcida e serena,
Bela como a ilusão de um belo tempo,
Como um sonho da infância entre as tristezas
De frios desenganos. O deserto,
Que a noite povoara de duendes.
Festivo despertava. Um oceano
De purpurina luz, enxameado
De milhares de nuvens multicores
Ganhava o firmamento. A mata virgem,
Enamorada do clarão celeste,
As primícias das flores orvalhadas
Parecia ofertar-lhe. A loira abelha,
O colibri mimoso, a borboleta.
Ligeira amiga das silvestres flores,
Cruzavam-se volúveis, adejando
Sobre as folhagens úmidas de orvalho.
Mais longe, à margem de pequeno lago,
A garça branca, o tímido flamingo,
A travessa narceja, se banhavam,
Brincando entre as lustrosas espadanas.
XLI
— Irmãos, é dia! — o missionário exclama,
— Adoremos o Eterno! — Obedientes
Curvam-se os filhos do deserto e oram,
Repetindo em voz alta as santas rezas
Que lhes ensina o venerando mestre.
Levantam-se depois, e aos ecos soltam
A saudação Cristã. — Ide tranquilos,
Ide em paz, meus irmãos, lhes diz afável
O amigo, o benfeitor, — finda a semana,
No dia do Senhor voltai de novo:
Guardai no coração e na memória
O nome de Jesus, — pronunciai-o
Quando a aurora raiar, quando mais alto
Brilhar o sol no imenso firmamento,
E quando a noite entristecer os vales!
Que este nome divino vos console,
Vossos atos inspire e vos proteja!
XLII
A multidão retira-se. Entretanto,
Uma singela filha das florestas,
Uma criança tímida, mimosa,
Bela como a inocência, pensativa
Senta-se à porta da tristonha ermida,
E considera atenta e longamente
A imagem do Senhor, onde repousa,
Como um olhar de amor e de piedade,
O suave clarão da madrugada.
— Naída! — Padre, vos espero, vamos.
— O que fazias, filha? — Me lembrava
Dessa criança que saudaram anjos
No pobre, escuro berço, e considero
Esta imagem sanguenta, descarnada,
Coberta de feridas horrorosas!
Responde a ingênua, cândida menina,
Ao caridoso mestre. — Oh! que bem fazes!
Diz este amargamente, — os sábios todos
Se assim pensassem quando os livros volvem,
E buscam monumentos no passado,
E perdem-se em audazes conjecturas,
Mais felizes seriam!... Vamos, filha.
Levanta-se Naída, e ambos caminham
Para a afastada, mísera choupana,
Onde a mãe da inocente, cuidadosa,
Grosseira refeição prepara, e espera
A delicada filha e o sábio mestre.
— O sol nascente as selvas ilumina.