Canto IV
Canto IV
CANTO IV
Lembra-te de teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venha o tempo da aflição e cheguem os anos, de que tu digas: — esta idade não me agrada:
Antes que se escureça o sol, e a luz, e a lua, e as estrelas, e tornem a vir as nuvens depois da chuva:
Antes que se rompa o cordão de prata, e se retire a fita de ouro, e se quebre o cântaro sobre a fonte, e se desfaça a roda sobre a cisterna.
ECLESIASTES XII, v. 1, 2, 6).
I
Quão aprazíveis são teus frescos vales,
Terra de Santa Cruz! Quão majestosos
São os teus altos cerros e teus montes!
Quão belos os teus rios, e os alpestres.
Fragosos alcantis das ribanceiras!
Quais os painéis de um sonho fugitivo,
Os diviso entre pálidos vapores,
E revolvo a memória enfraquecida
Buscando, o que... não sei! Alguma cousa
Que talvez existisse, ou inda exista,
Aqui, além, na terra, ou no infinito,
No seio impenetrável do futuro!
Vi! sim, alguma cousa que me falta,
Alguma cousa que minh'alma espera
Como certa, infalível, necessária.
E debalde procura e não encontra,
E tenta dar um nome, e os frios lábios
Não sabem que dizer! Meu Deus, acaso
Serás tu?... — Como a nau incendiada
Que, meia oculta em turbilhões de fumo,
De vermelho clarão as ondas tinge,
Tal das nuvens purpúreas do Ocidente
Dardeja o sol os raios derradeiros
Nas soledades dos sertões brasílios.
As campinas e as selvas clareadas
Pela mágica luz do cíntio globo
Arreiam-se de galas, e parecem
Cobertas de ouro em pó, e finas pedras.
II
Sentado sobre um céspede, no monte,
Contempla o solitário pensativo
Os vastos descampados, resplendentes
De cambiantes fogos; porém, quando
Desaparece além a ígnea esfera
A outras regiões levando a vida,
Ajoelha-se e ora; depois toma
O nodoso bordão que ao lado estava,
E desce da montanha. A seu encontro
Corre a formosa e tímida Naída.
Uma ligeira nuvem de tristeza
Empana os olhos da gentil menina.
— Mestre, dizei-me, balbucia, os sonhos
Alguma vez traduzem a verdade?
Guardam algum sentido? — O que perguntas,
Insensata criança! Porventura,
Podem as ilusões loucas, falazes,
Da solta fantasia, apresentar-nos
Alguma cousa mais do que mentiras? —
— Assim também o creio, porém, tremo!
Esta noite sonhei, sim, foi um sonho,
Mas um sonho terrível!... — Vamos, conta
Esse terrível sonho. — Não... mais tarde. —
O padre não insiste. Vagarosos
Caminham para o novo eremitério,
Onde os espera o povo impaciente.
III
Chegam. Um longo e jubiloso brado
Saúda o pio e venerando mestre,
Correm os velhos, e os robustos moços.
As jovens mais e os cândidos filhinhos
A receberem a paterna benção;
Os enfermos arrastam-se tardios
E as orlas beijam da sombria veste,
— Salve! — todos exclamam prazenteiros.
Um momento depois reina o silêncio,
E o santo narrador assim lhes fala;
— No passado serão, quando assomava
No céu azul a estrela matutina,
Eu acabava, irmãos, de relatar-vos
O milagroso caso da tormenta,
O terror dos barqueiros, e a mudança
Operada no espaço à voz de Cristo;
Eu vos dizia como alegres, salvos,
Saltavam no país dos Gerasenos.
Prestai ouvidos: mais pasmosos fatos,
Cheios de assombro, sabereis agora.
IV
Oh! meus irmãos, por certo nunca vistes,
Nem Deus permita que vejais um dia
A figura sinistra de um possesso!
Se a tivésseis mirado, a vida inteira
Tremeríeis de horror!... — Apenas descera
O Salvador e os seus à lisa praia,
Quando um grito estridente e pavoroso,
Como rugir de fera em antro escuro,
De imigo sangue pressentindo o cheiro,
Abala o espaço e chega a seus ouvidos.
— Céus! — Não temais, olhai à nossa destra;
Vedes aqueles densos ciparissos? —
Diz o Senhor, — é um cemitério, tristes,
Entre a espessura os túmulos alvejam;
Não distinguis?... — Senhor! — Olhai de novo.
Então da mesta sombra do arvoredo,
Sanguentos membros, retorcida boca,
Lábios cobertos de espumosa baba,
Cheios de lodo e cinzas os cabelos,
Um homem seminu surdiu, bramindo;
Lançou-se às plantas, arrancando as folhas,
Lançou-se às tumbas, levantando as lousas,
Arrojou-se no chão mordendo as pedras,
E nas convulsas mãos esfarelando
Torrões calcários, carcomidos ossos!
Depois ergueu-se; gotejava o sangue
Dos pés, do peito, do inflamado rosto;
Volveu à roda as hórridas pupilas
Onde o fogo do inferno chamejava,
Rangeu com fúria os dentes, e avistando
A poucos passos o Senhor: — Oh! vai-te,
Jesus, Filho do Deus, não me atormentes —
Gritou torcendo os braços macerados.
— Qual é teu nome? — o Salvador pergunta:
Responde, que te ordeno! — Uma voz rouca,
Feia e destemperada, não dos lábios,
Mas das entranhas fez-se ouvir, e disse:
— Chamo-me — Legião — tua virtude
Reconheço, bem vês, e teu império;
Mas não me obrigues a voltar, te rogo,
À negra estância das eternas dores!
Era uma multidão de infensos gênios
Que assim falavam numa voz apenas!
Ora, a pouca distância, na planície,
Suja manada de animais imundos
Grunhia revolvendo a verde relva,
Vendo-a, Jesus, dirige-se aos demônios:
— Deixai meu pobre servo, ido alojar-vos
Daqueles brutos nos nojentos corpos! —
No mesmo instante a cáfila tartária
Ganha, silvando, a sórdida manada,
Que enfurecida e cega, salta e corre,
Se encaracola, morde-se, esbraveja,
E galgando um rochedo íngreme, bronco,
No mais fundo das águas se despenha.
V
Tinha baixado a noite. Alguns pastores
Que soíam dormir em pleno campo,
Junto de grandes fogos; rudes servos,
Fugidos dos casais da vizinhança;
Vários barqueiros que arrastado haviam
Para a funda calheta os frágeis lenhos,
Foram deste prodígio testemunhas.
Tomados de terror, erguem-se, partem,
E vão contar à gente da cidade
O sucesso inaudito. O povo simples,
Amigo das legendas milagrosas,
E os semi-sábios, que de tudo zombam,
Cobardes fanfarrões que um nada espanta,
Ajuntam-se em magotes, tomam fachos,
Descem à margem do sereno lago
E vão verificar o estranho caso.
VI
Quadro sublime! Sobre dura pedra,
Qual primorosa estátua levantada
Por mãos agradecidas, radiava
Do divino Jesus a bela imagem;
Prosternado a seus pés, tranquilo, humilde,
Em muda adoração, fitos os olhos
Nos olhos do Senhor, d'onde caíra
A luz da salvação sobre su'alma,
O possesso de outrora descansava.
Aqui, ali, silentes, os discípulos,
Irmãos amados que uma ideia anima,
De inefável amor embevecidos.
Contemplavam sorrindo o grande Mestre.
VII
A chusma curiosa para e treme,
Não crê nos próprios olhos; entretanto,
Ele ali está, sereno, manso, afável,
No olhar a fé, nos gestos a humildade,
Nos lábios a oração, o torvo escravo
Dos gênios infernais, o horror das praças,
A pantera indomável, cujos pulsos
Grilhões partiam, rebentavam grades,
Derribavam fortíssimas muralhas!...
— Não sabemos quem és, mas o que vemos,
Quanto és temível nos revela! O sangue
Gela-se em nossas veias, ai! a morte
Nossas pobres cabeças ameaça! —
Fala em nome do povo um homem velho:
— Perdoa-nos, mas deixa estes lugares,
Deixa esta triste gente, em cujos peitos
Lançaste o medo, a inquietação e a febre!
Perdoa-nos e vai-te! — Desgraçado!
O Salvador exclama, tranquiliza
Esse povo infeliz que o bem assusta,
E a palavra de Deus enche de assombro!
Eu partirei, retira-te, não temas! —
Ao alvejar d'aurora do outro dia
Pisa Jesus, de volta, as flóreas ribas
Da bela Galileia, onde saudoso
O rebanho fiel há muito o espera.
VIII
Da vinda do Senhor, logo a notícia
Voa de casa em casa; num momento
Correm de toda parte, pressurosos,
Milhares de doentes, implorando
A cura de seus males. Nesse dia
Salva pobre mulher, que abandonada
De práticos e médicos, gastara
Toda a fortuna em vão, e em vão, chorava
Há doze largos anos; ressuscita
Uma filha de Jairo, hebreu potente,
Chefe da Sinagoga; fala às turbas,
Explicando os preceitos do Evangelho,
E depois, entre os seus, põe-se a caminho
Para os cerros azuis da pátria terra.
IX
Ave, Maria! — Como um templo imenso
Depois das pompas de solene ofício,
Majestoso, severo, inda fremente
De cânticos divinos, quando tristes
Nos candelabros de ouro os círios dormem,
E a lâmpada sagrada a medo brilha
Entre nuvens de incenso, derramadas
Pelas naves sombrias; horas graves
Em que muita oração, muito soluço,
Soam atrás dos dóricos pilares,
Tal nos parece a terra, quando ao longe
Fenece o dia, e a noite se apropinqua...
— Ave Maria!... O pavilhão celeste
Sobre nossas cabeças se arredonda,
Puro como a ilusão de uma criança!
No pórtico sublime do Oriente
Surge fagueira a estrela vespertina,
E, além, de nossas pobres freguesias
Nos altos, alvejantes campanários,
Soa, pausado e lento, o velho bronze
Dobrando: — Ave Maria! — O viajante
Que vem de terra estranha, e a pátria busca,
Se ajoelha na beira do caminho,
— Ave Maria — suspiroso fala.
O cabreiro que desce das montanhas,
Ao redil conduzindo a grei singela.
Para, levanta para os céus os olhos,
E diz: — Ave Maria! — A mãe querida
Chama zelosa a prole abençoada,
Junto à lareira da tranquila choça,
E lhes repete a saudação divina.
— Ave Maria!... na soidão dos mares
Murmura o navegante. — Ave Maria!
Reza o triste mendigo nos alpendres
Dos paços festivais! — O rico e o pobre,
O poderoso, o humilde, o rei e o povo,
— Ave Maria! — nessas horas dizem!...
— Ave Maria! — Pálida e chorosa,
Ela medita à porta da cabana,
A mais formosa e pura entre as mulheres.
Quando, volvendo à estrada os belos olhos,
À luz incerta e frouxa do crepúsculo
Avista o Filho amado e seus amigos,
X
Cala-se o narrador. Alguns momentos
Conserva-se indeciso e pensativo
Como buscando um fio, que aproxime
Dois afastados, diferentes fatos.
O penoso labor do entendimento
Nas austeras feições se manifesta.
— Espírito dos tempos que passaram!
Diz, inclinando ao peito a nobre fronte.
Tu que aviventas o cansado gênio
Dos bardos hodiernos, e propício,
Espancando das eras os negrumes,
Os mistérios da história nos desvendas,
Inspira minha voz, minh'alma inspira!...
— No doce clima da risonha estância,
Onde correram da primeira idade
As belas estações e os belos dias,
Deixemos o Senhor, abençoando
Do honrado carpinteiro a pobre casa.
Volvamos ao Batista o pensamento.
XI
Sobre os tetos dos míseros tugúrios,
Dos palácios reais sobre os eirados,
Estende a noite escura a sombra imensa,
Que nem sempre derrama a paz e o sono.
Aves de Deus, as virgens e as crianças,
Adormecem risonhas, ocultando
Nas asas da inocência as frontes santas.
Voltam os velhos ao passado, em sonhos,
Em sonhos o futuro os moços galgam.
Mas os ímpios não dormem! Fulgurantes
Ardam embora perfumados círios
Junto dos leitos de ouro: embora brilhem
Dos estucados tetos penduradas
Alâmpadas riquíssimas! Embora!
Não há luz que afugente as trevas d'alma!
Nos vapores do vinho e nos banquetes,
Nas orgias febris, nos jogos loucos,
Um momento se abranda e se entorpece
O verme dos remorsos... — Mais faminto
Acordará nas horas do silêncio.
XII
Os primores da Europa, o luxo d'Ásia,
O fausto desta, a profusão daquela
De Herodes o palácio aformoseiam.
Mil candeeiros, transparentes tochas,
Argênteos lampadários, iluminam
As vastas arcarias, marchetadas
Dos mais lindos mosaicos do Oriente,
E as colunas de mármore, as pilastras,
Cobertos de lavores, e as paredes
Ornamentadas de brasões pomposos.
Os gratos sons das harpas e doçainas,
Dos cítolos e frautas, repercutem
Fora na larga praça, onde confusa
Cochicha a multidão maravilhada.
Celebra o rei vaidoso e dissoluto
Seu dia natalício. As salas todas
Estão cheias de amigos e convivas:
Ricos hebreus, latinos cavaleiros,
Senhores do Ocidente e do Levante.
As mais belas romanas da soberba,
Mas depravada corte do tirano,
As mais airosas filhas da Circássia,
E as ninfas mais gentis das ilhas Gregas,
À lauta mesa reclinadas ouvem
Os torpes, desonestos galanteios
Dos escravos de César. Petulante,
De louro coroado, e verde mirto,
Do amor emblema, e símbolo da glória,
Em macia camilha repimpado,
Excita à ebriedade o rei da festa
Seus libertinos, cínicos parceiros.
Bela, apesar do vicio, a fronte esbelta
Aos joelhos do amante repousando,
Herodias sorri. De espaço a espaço,
Gracioso escanção, ágil, travesso,
Demônio de malícia em tenra idade,
As taças de ouro que a seus pés reluzem,
De excitante falerno enche, dizendo
Imodestos gracejos. Nenhum pajem
Do mais devasso camarim do império
O vencera em audácia e desvergonha!
Entretanto, meu Deus! é uma menina,
No albor da adolescência, rósea, loira,
Olhos azuis brilhantes, lábios de anjo!
E esta menina é filha de Herodias!...
XIII
Mas, pouco e pouco, se entibia e passa
O ardor da saturnal. Ébrios e fartos,
Estiram-se e bocejam sonolentos,
Os heróis do festim: a vil preguiça
Vence a voraz e crassa intemperança...
Então, como entendendo os pensamentos
Que da mãe tediosa a fronte nublam,
Corre a menina astuta, a sala deixa,
Deixa os vestidos leves que trajava,
Cinge de rosas a gentil cabeça,
Desnuda os seios, a cintura enfeita
De perfumadas e vistosas faixas,
Toma um ebúrneo tamboril, coberto
Dos mais finos e artísticos lavores.
E do espelho fiel se despedindo,
Volta faceira à sala do banquete.
XIV
Os tangedores, avisados, rompem
Nas mais doces e ternas harmonias;
Os convivas levantam-se surpresos:
Derramam servos nos braseiros ricos
Perfumes sem iguais. Senta-se Herodes,
Estremece Herodias. Entretanto,
Escrava da cadência, mas senhora
Das requebrados, lânguidos meneios,
Sobre as flores dos séricos tapetes,
Mais ligeira que a leve borboleta,
Mais bela que os espíritos errantes.
Que à noite brincam nos rosais cheirosos,
Ela volteia — a doida bailadeira!
Na dança figurada, aos ágeis passos
Mistura os mais garridos movimentos,
Os gestos mais lascivos. Arquejante,
Às vezes para do salão no centro,
Suspira e cerra os olhos... vai, quem sabe,
Sucumbir de cansaço! Mas engano!
Reanima-se, ri, levanta os braços,
Flexível como a serpe encurva o corpo,
E num rápido giro se aproxima
Do fascinado Herodes, sacudindo
Sobre seus pés as rosas da grinalda,
Entre os aplausos mil dos assistentes.
Depois, qual passarinho caprichoso,
Que das nuvens descendo, em tarde estiva,
Modera o voo, quando a terra avista,
Ela os passos afrouxa, e segue a medo,
O mais lento tanger dos instrumentos.
Imita a corça, quando alegre salta,
Quando corre veloz; é viva abelha
Sobre os lírios dos vales adejando;
Mimoso colibri, quando descansa,
Tão leve, que não dobra das alfombras
A mais delgada flor! Por largo tempo,
Assim deleita a vista dos convivas;
Ofegante por fim, extenuada,
Faz um último esforço, e mansamente
Cai, pétala de rosa, aos pés de Herodes.
XV
— Oh!... Pede o que quiseres, não vaciles!
Inda que sejam meu governo e erário,
Juro que tos darei! — grita enlevado
O romano senhor, — eia, responde! —.
Então do ódio escuro o escuro gênio
Aos ouvidos murmura de Herodias:
— Lembra-te do Batista! — Estranho lume.
Da régia libertina inflama os olhos,
Vivo rubor lhe sobe ao lindo rosto;
Chama a filha imprudente, ao colo a estreita,
E um conselho cruel lhe dá baixinho.
XVI
— Oh rei! diz a volúvel dançarina,
Se a promessa que parte de teus lábios
Um gracejo não fosse... — Pelos deuses,
E deusas imortais! — Herodes brada,
Seja eu ludíbrio do plebeu mais rude
Se alguma cousa te negar! — Desculpa,
Se duvidei de ti, — pois bem, atende:
Sabes quantas afrontas recebemos
Do protervo Batista, — diz a moça, —
Que punição lhe deste? Descuidoso
Nos terrados de vasta fortaleza,
Em risonha colina levantada,
Escarnece de ti!... Agora escuta,
E cumpre como um rei o que juraste:
— Dá-me a cabeça do Batista! — Herodes
Treme, os olhos abaixa, e não responde.
— Hesitas?... E da mesa do banquete
A filha de Herodias se aproxima,
Lança mão de uma salva primorosa
Que ao tirano apresenta: — Nesta salva
Quero a cabeça do Batista — O bárbaro
Chama o chefe da guarda que o servia:
— Escutaste? — Escutei. — Parte, e obedece!
Eis meu anel, te servirá de senha. —
O sinistro emissário a sala deixa.
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XVII
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Vai alta a noite. Os ventos do deserto
Engolfam-se, gemendo, nas seteiras
De Macaur, o lúgubre castelo
Onde pena o Batista. As névoas passam
Sobre as grossas ameias, semelhantes
A soltos flocos de algodão silvestre,
Dispersos pelo espaço. Nas cimalhas,
Que as borrascas e o tempo enegreceram,
Agitam-se as estriges agoireiras,
As videntes da sombra. Ao lado ruge
Feia torrente em broncas penedias.
XVIII
Carregado de ferros, junto às grades,
Amortecido o olhar, lívido o rosto,
João comtempla uma estrela solitária,
Que pouco a pouco apaga-se e se afunda
Nos véus caliginosos do Ocidente.
Nem um amigo, um sócio de infortúnio,
Nem uma voz humana, as longas horas
Amenizam do pobre encarcerado!..
Do teto escuro e baixo, gota a gota,
Ressuma, estala e cai no chão lodoso
Condensada humidade; nos recantos
Da cripta tenebrosa, livremente
Passeia o escorpião, a osga brinca,
Arrasta-se tranquila a treda víbora.
Que pungentes lembranças, que saudades
Amargas e cruéis, que pensamentos
Sinistros e aflitivos não torturam
Do filho de Isabel a mente e o peito!
Quem pudera saber o que se passa
Naquela fronte heroica? — Porventura,
À luz da bela estrela que cintila,
Qual uma gota de amoroso pranto,
No triste véu da noite, ao longe avista
As montanhas natais, frescas e umbrosas,
O vale do Jordão, e os verdes bosques
Das encostas do Hermon? Os lindos campos
Dos terrenos de Dan, cheios de flores,
Cobertos de rebanhos? — Porventura,
Lembra-se de Jesus e seus amigos?
Das santas penitências do deserto?
Dos primeiros milagres do batismo?
Chora os tempos felizes que passaram?
Ou, tomado de horror, mede o futuro,
E só vê dissabores e amarguras,
E talvez o suplício?... — Oh! não! a morte
Não amedronta o rígido profeta!
O martírio... não teme, antes o aspira
E aguarda, como a prova gloriosa
De seu zelo e fervor; o mais... que importa!..
XIX
Qual, entre os nevoeiros do Oceano
Some-se a vela que a remotas praias
Leva nossos amores e esperanças,
Tal, entre a cerração desaparece
A solitária estrela, a casta amiga
Das noites do profeta. Quebrantado
Pela longa vigília, João descansa
Sobre a gélida mão a fronte ardente,
E cerra, suspirando, os turvos olhos....
Mas, uma luz esplêndida, divina,
Da sombria prisão clareia os muros,
E um anjo do Senhor pousa tranquilo
Entre os grilhões do pálido cativo.
João estremece; a imagem do verdugo
Ao pensamento acode-lhe. — Estou pronto,
São horas de partir? — severo indaga
Sem levantar o rosto. — Sim! — responde
O celeste enviado, ergue-te, e vamos
Para o seio de Deus! João abre os braços....
O anjo do Senhor desaparece.
XX
Um profundo rumor, triste, confuso,
Pelas negras abóbadas retumba;
Rangem as chaves e as pesadas portas
Movera-se sobre os quícios, vagarosas;
Surdo tropel e vozes misturadas
Espalham-se nos longos corredores;
Vivo clarão derrama-se nos cantos
E esverdeados, úmidos pilares,
De sanguinosa cor tingindo as lájeas;
Um magote de esquálidos esbirros
E sequazes de Herodes se aproxima,
E rodeia o profeta. — Ilustre mestre,
Grita um ébrio soldado, motejando,
Rende graças à amásia de teu amo,
Está findo o teu triste cativeiro!
.............................................................................
Ai! O que então seguiu-se, a língua humana
Não pôde descrever! Meus lábios tremem,
E minha voz não passa da garganta!...
XXI
A rósea luz, porém, da madrugada
Furtiva e triste ganha os aposentos
Do régulo cruel: mais receoso
Não entra olhar de virgem timorata
De vil bordel no sórdido recinto.
Por novas libações estimulados,
Cantam loas nefandas, tripudiam,
Como tomados de delírio insano,
Cavaleiros e damas; quanto a Herodes,
Ébrio, despido, a bacanal preside!...
XXII
Mas.... Silêncio! Um sussurro temeroso
Soa nas ante-salas, tinem armas,
Batem pesados, numerosos passos
Sobre o sonoro chão; os cantos cessam,
Cessam as danças e os clamores loucos,
Voltam-se todos para a grande porta.
— Vossas ordens, senhor, estão cumpridas! —
Diz o chefe da guarda aparecendo
À frente de seus lúgubres sicários,
— Eis aqui a cabeça do Batista! —
XXIII
Horror!... Horror!... Um grito de surpresa
Parte dos lábios todos. Boquiabertos,
Deixam alguns cair as áureas taças
Das esquecidas mãos; outros se agitam
E saltam sobre a mesa, espedaçando
Os vasos de cristal, os belos pratos,
As ânforas e jarras preciosas;
Outros se precipitam cegos, tontos,
Tropeçando nos bancos e almofadas,
E à roda do tirano se aglomeram.
XXIV
Esplêndida e festiva, a luz d’aurora
Clareia a sala, então, e cai suave,
Carinhosa, talvez, na argêntea salva,
Onde, serena e calma, semelhante
À fronte de uma estátua alabastrina,
Jaz do Batista a pálida cabeça.
As artérias e veias pouco sangue
Sobre a luzida prata derramaram
Nem uma contração, nem uma ruga
Desfiguram o cândido semblante,
Onde, em vez do terror, deixou a morte
A placidez do sono da inocência!
Ligeira sombra lhe circula as pálpebras,
Docemente cerradas; meigo riso
Parece lhe animar os frios lábios!...
É, que, no triste instante, a alma divina
Contemplava o infinito! Ouvia as harpas
Dos anjos do Senhor, preludiando
De sua exaltação os belos hinos!
Folgava, e os lábios riam!... — 'Stás contente?
Pergunta o rei à filha de Herodias.
Mas a jovem pantera não responde:
Como a pantera que uma luz espanta,
Olhos parados, suarento o rosto,
Presa a voz no laringe, anseia e treme;
Recua aos saltos; quer falar, não pode;
Quer afastar a vista fascinada
Do pavoroso quadro, e em vão se esforça!
Por fim, erguendo os braços convulsivos,
Solta um grito pungente e angustioso,
E cai sobre os coxins desfalecida.
.............................................................................
Esta inaudita atrocidade assombra
Os discípulos de João. Mudos, errantes,
Chorando a ausência do inspirado mestre,
E prevendo, talvez, igual destino,
Buscam as mais remotas soledades,
E depois de trabalhos excessivos,
De amargos sofrimentos, se dirigem
Da Galileia às plácidas campinas,
Procurando Jesus e seus amigos.
XXV
Na terceira jornada, à hora sexta,
Chegam por fim ao desejado termo;
De um lago à borda o Salvador encontram,
E antes ainda de o saudar, assistem
A pasmoso milagre. O Mestre excelso,
Compadecido do esfaimado povo,
Que o seguira escutando as santas prédicas,
Com cinco pães apenas, e dois peixes,
Sacia a fome a cinco mil pessoas,
E restos deixa, sobre a relva esparsos,
Que doze cestos volumosos enchem.
Mas os pobres amigos do Batista,
Depois da refeição, tristes, humildes,
Baixos os olhos, a expressão dorida,
Se aproximam de Cristo; copioso
O pranto, lhes alaga o branco rosto.
— Oh! não choreis, o Salvador lhes fala.
Mais feliz do que vós, eterno vive
Aos pés do Onipotente o amado mestre! —
— Pois que! Senhor, sabeis?... — Ah! sei de tudo,
Responde o Salvador, — ficai comigo.
XXVI
As multidões, porém, maravilhadas
Por tão altos prodígios, novo plano
Formam, ventilam, rápidas resolvem.
— Jesus de Nazaré! logo exclamam,
Tu és forte, potente, sábio e justo,
Sê nosso rei. Liberta-nos do jugo
Pesado e férreo do pagão Romano!... —
O Salvador sorri, afaga o povo,
Mas depois mansamente se retira
E entrega-se à oração em ermo sítio.
XXVII
Meia-noite!... Hora lúgubre e sinistra,
Quando entre a luz e a sombra, vacilante,
Junto ao marco de bronze, para o tempo,
Fazendo à noite e ao dia esgares turvos!...
Meia-noite!... no seio das florestas
Repousa o passarinho, a fera dorme,
Suspira a viração. É mudo o campo.
A lua desvendada, e mais formosa
Do que o nácar marinho, o céu percorre,
Como um cisne alvejante em manso lago.
Sobre o tapiz da relva, sonolentos,
Os companheiros de Jesus descansam;
A poucos passos, entre verdes balsas,
Ora e medita o Mestre. Longas horas
De silêncio e terror sobre eles passam.
— Irmãos, diz um baixinho, — porventura
Dorme o Senhor? — Talvez, outro responde.
— Vejamos, fala Pedro, os outros chama,
Erguem-se e cautelosos se aproximam
Do perfumado, verdejante abrigo:
Mas, ofuscados param, débil grito
Em seus lábios fenece; apavorados,
Uns contra os outros cerram-se, tremendo...
Que viva luz feriu-lhes as retinas?
Que flamejante gládio ergueu-se à frente
Dos servos do Senhor? Que ferro em brasa
Lhes roçou pelas carnes?... Pobres seres!
É que o meigo Jesus, o lhano amigo,
O modesto e singelo companheiro,
Pela primeira vez se revelava
Em toda a glória da divina essência!...
Oh! não há duvidar! É ele o Cristo!
Mas seu corpo, seu rosto, os belos olhos,
O sorriso, a expressão, não são terrestres!
Da humanidade o sangue não anima
Aquelas formas lúcidas, etéreas,
Onde a celeste perfeição fulgura,
Não à corpórea vista, mas à vista
Sublime da razão!... Loucos poetas!
De límpido cristal, de neve fúlgida,
À luz do sol nascente refletindo
As pompas mil do primitivo mundo,
Diríeis as brilhantes vestimentas;
Diríeis, das mais nítidas estrelas,
Nos primores do íris, semeadas,
Formado o resplandor da fronte augusta!
Fontes de luz, auroras do infinito,
Oceanos de graças inefáveis,
Seus olhares diríeis!... Vãs palavras!
Frias imagens de precário sonho!
Afadigoso esforço!... Aves da terra,
Águias das brenhas, rasgareis o espaço,
E o sol contemplareis na imensidade;
Copiareis do prisma as lindas cores;
Da aurora boreal a refulgência
A vossos quadros passareis; dos astros
Dareis a claridade a vossas obras...
Mas a grandeza do Senhor... Loucura!...
— Aos pés do Salvador, em áurea nuvem,
Mais leda que o arrebol da madrugada
Os páramos polares clareando,
À destra, humilde e majestoso a um tempo,
O nobre vulto de Moisés descansa,
Como outrora no cimo da montanha,
Sobre as tábuas da lei, ouvindo o Eterno;
À sinistra, o colosso dos profetas,
O espanto de Israel, grave e severo,
Como em seu ígneo carro triunfante,
Repousa o ilustre e venerando Elias!...
Uma luz implacável tudo envolve.
Qual imenso bulcão, em cujo bojo
Ruge e circula a férvida matéria
D'onde procede o raio, a terra treme,
E funda, e surdamente brama e ronca!
— O espírito de Deus abala o espaço.
XXVIII
Os companheiros de Jesus recuam,
Voltam os olhos, nada mais enxergam!
Possuídos de medo, e refletindo
Que a cegueira os tocara, ao chão se arrojam,
E nas úmidas mãos o rosto ocultam.
Quais infantes que sonham, quais enfermos
Cujo cérebro vário a febre escalda,
Soltam palavras ermas de sentido,
Assim falam na relva debruçados:
— Senhor! Senhor! contigo ficaremos!
Exclama o velho Pedro, — cumpre agora
Levantarmos três tendas que protejam
A vós, a Elias e a Moisés!...
Apenas
Estas estultas expressões dissera,
Que uma nuvem medonha se desdobra
Tudo envolvendo no trevoso seio,
E da nuvem terrífica rebenta
Um brado atroador: — Este é meu Filho
Amado e predileto, hei posto nele
Toda a minha infinita complacência!..
— Erguem-se então os trêmulos amigos
Mas Jesus está só, e tudo é lindo.
XXIX
Descai a noite santa, a fulva aurora
Dos umbrais do Levante expele as sombras.
Lança um chuveiro de ouro nas campinas;
Cantam as aves; sobre os mansos lagos
Brincam os martinetes e as cegonhas,
E os búfalos robustos se refrescam
Nas ondas transparentes; sobre os vales,
Sobre os prados e bosques, desce a vida,
Leda filha da luz, da luz nos raios.
Busca o Senhor os campos orvalhados,
E detendo-se à margem de um ribeiro,
Dos discípulos os doze que elegera
Chama junto de si, e assim lhes falta:
— Como a luz que rebenta do Oriente
E alumia as nações e os povos todos,
São da Lei os preceitos imutáveis,
São as grandes verdades do Evangelho.
Vai começar vossa missão penosa:
Ide por esse mundo, e ao pobre, ao rico,
Ao senhor e ao escravo, ao forte e ao fraco,
Anunciai de Deus o eterno reino.
O poder dos milagres vos transmito;
Curai o enfermo, esclarecei o indouto,
E tríplice farol que vos inspire
Sejam as mais sublimes das virtudes:
— A Esperança, — a Fé, e a Caridade!
Caminhai sem cuidados, nem receios,
Não leveis sobre vós pelas jornadas,
Pão, vitualhas, roupas, mantimento,
Nem valores em prata, ouro, ou dinheiro;
Mas tomai um bordão, calçai sandálias,
Trajai apenas uma pobre túnica.
Na casa hospitaleira onde parardes,
Nas aldeias, nas vilas, ou cidades,
Demorai-vos aí, não busqueis outra,
Até o instante de marchar de novo.
Se entre os homens alguns vos despedirem,
Negando-vos repouso em seus albergues,
Se zombarem de vós, menosprezando
Os sagrados preceitos que ora ensino,
Retirai-vos sem ódio e sem queixumes;
E quando longe fordes de seus tetos,
Sacudi a poeira das sandálias,
Que vos há de servir de testemunha.
Ide, e sede fiéis ao que vos manda!
— Cheios de santo ardor e santas crenças,
Afastam-se os discípulos de Cristo,
Buscando opostos rumos, e espalhando,
Por toda parte onde seus passos levam,
As promessas divinas do Evangelho.
Alguns dias depois, entre os que restam,
Setenta e dois o Salvador convoca,
Dá-lhes as mesmas instruções que aos outros,
E, pobres de moeda, porém ricos
De ciência e virtude, os abençoa,
E os envia a pregar a Lei divina.
XXX
Cala-se neste ponto o missionário,
E como sói fazer, despede as gentes,
Deixando para a próxima semana
O seguimento da Sagrada História.