Canto VIII
Canto VIII
CANTO VIII
I
Longe, na vastidão dos descampados
Que se perdem no vago do horizonte,
Onde os almargeais e os frescos vales
A luz crepuscular que envolve os ermos
Tomam do firmamento a cor cerúlea,
Longe, desaparece a última turma
Dos filhos do sertão, que as alvas praias
Buscam da Guanabara. A pátria os chama,
Correm a defender a pátria aflita.
Foram-se. No fastígio dos rochedos,
Triste e sozinha, a virgem do deserto
Chora a partida do guerreiro amado.
As virações da tarde, ásperas, frias,
Sacodem-lhe os vestidos, o sereno
Umedece-lhe o rosto e as tranças negras,
Mas a febre a consome, — o hálito ardente
Queima-lhe os lábios secos, descorados,
E nas brilhantes, áridas pupilas,
Cruzam-se estranhos lumes. Muitas vezes,
De convulso ofegar ao vivo esforço,
Levando a débil mão à linda boca,
Volve-a manchada de purpúreo sangue!
E a vida que vai-se lentamente,
Que foge a pouco e pouco, desfolhando
As grinaldas louçãs da juventude,
As ilusões do amor, os sonhos de ouro,
E as esperanças todas do futuro!...
Oh morte! Amas os lentos sacrifícios
Saboreias as longas agonias,
Divindade cruel! — No horror lasciva,
Arrochas vagarosa a pobre presa,
Molhas-lhe o corpo de nojenta baba,
Como a boa-constrictor dos fraguedos,
Depois lambes-lhe as carnes laceradas
E a devoras com lúbricos requebros!...
Porém, sumiu-se o dia, a plúmbea noite
Domina as solidões; dos altos cerros
E das brenhas do Sul partem rugidos
De feras erradias, e entre as junças
Das profundas charnecas, agourentos
Gritam os jacarés. Horas sinistras
De indizível terror! — Ergue-te, e volta
Para junto dos teus, anjo das selvas!
Não escutas ao longe a voz materna
Que ansiosa te chama? Não distingues
Entre as folhas dos plátanos lustrosos
A ondulação das tremulas fogueiras!
Vê, teus irmãos esperam-te, teu mestre
Aguarda-te silente e pensativo.
Ergue-te, pois, criança, enxuga o pranto,
E busca teu lugar junto do sábio,
Junto do amigo e protetor, Naída!...
A virgem se levanta, suspirando,
E deixa o alpestre sítio; no caminho
Encontra a pobre mãe, corre a seus braços,
Beija-lhe o frio rosto e se dirigem
Ao piedoso serão do eremitério.
Um momento, depois, o exímio padre,
Alçando a voz sonora, continua
A gloriosa história do Evangelho.
II
Fora ocioso relembrar ainda
Os passos principais e as ocorrências
Da narração passada; estou bem certo
Que fiéis os guardais no pensamento,
Como vos disse então, os sacerdotes
Escribas e doutores, procuravam
Propícia ocasião, meios propícios
De condenar Jesus, e ao mesmo tempo
Temiam-se da cólera do povo.
O espírito do mal veio em auxílio
De seus nefários planos. Congregados
Alta noite na sala mais secreta
Dos paços pontifícios, discorriam
Sobre o bárbaro alvitre e a crua empresa,
Quando um servente anunciou da escada
A presença de Judas. Resolvido
Estava o tredo e pérfido problema:
Satã lhes dera a chave. Alguns instantes
Sucederam de lúgubre silêncio,
Depois abriu-se novamente a porta,
E o sombrio Judeu entrou na sala
Com serenas feições, olhar sereno,
Modos corteses, e um sorrir tartáreo!
Viram-lhe fundo na alma os sacerdotes.
— Sabemos ao que vens, — fala e não temas.
Rejeitas os preceitos e as doutrinas
Do Mestre nazareno? — Sim!... rejeito,
Judas responde com sinistro gesto
Ao perverso doutor que o interroga.
— Reconheces teu erro e te arrependes?
Voltas à santa lei? — Porém, não bastam
Simples afirmações — queremos obras! —
— E quais são elas? O traidor pergunta,
Mostrai-mas, por quem sois!... Aqui tristonho,
Aqui turbado, o narrador calou-se:
Aqui também suspiras e emudeces,
Pobre, singela musa! Onde acharias,
Anjo da solidão, formosa filha
Das florestas da terra do Cruzeiro,
Robustas expressões, fiéis palavras,
Para externar o horror do atroz conluio,
Da intriga infame, do nefando ajuste?
Da ingratidão de Judas? Por ventura
Poderias baixar ao negro inferno,
Molhar a pena no fervente pranto
Que blasfemando os réprobos derramam?
Talvez assim... Ao alvejar da aurora,
Servo de Satanás em corpo e alma,
Judas deixava os ímpios sacerdotes,
Tendo vendido o amigo, o sábio Mestre,
O santo benfeitor! — Trinta dinheiros,
Fora da perdição o justo prêmio!
Trinta dinheiros! E devera o monstro
Assinalar Jesus a seus verdugos,
Dando-lhe um beijo no divino rosto!
A saudação fraterna! O meigo indício
De inalterável, cândida amizade!
Carícia d'alma, que feliz, resume
Quanto a humana linguagem desconhece
De afetuoso, de eloquente e puro!
III
Era chegado o dia dos pães asmos,
O dia em que os judeus principiavam,
Segundo as tradições e a lei antiga,
Do pão não levedado a fazer uso:
Era o dia da Páscoa. O povo e os grandes
Soíam celebrar a velha data,
Reunindo os amigos e os parentes
Em uma alegre ceia, santa regra
De memorandas eras respeitada
Plácida e bela nos tranquilos campos
Estendia-se a tarde, e as lindas flores
Que se inclinavam murchas, abatidas,
Nas bordas dos arroios, levantavam-se
Rescendentes de aromas aos bafejos
Das aragens sutis; os passarinhos
Despediam-se ao longe, nos silvados,
Do dia que passava. — Sobre um monte
Distante da cidade estava Cristo,
Rodeado dos seus: funda tristeza
Do claro rosto lhe alterava os traços.
Então, quebrando o místico silêncio
Das reflexões divinas, perguntaram
Seus singelos amigos: — Onde queres
A Páscoa celebrar? Correm as horas
Sem pensarmos no santo cumprimento
Deste antigo preceito. — O que resolves?
Onde iremos, Senhor? — É tempo ainda
De atendermos à lei — Jesus responde.
Depois chamando João e o velho Pedro:
— Parti, lhes disse, às portas da cidade,
Virá ao vosso encontro um homem pobre,
Carregando uma bilha; acompanhai-o.
Na casa onde ele entrar, entrai vós outros,
Falai ao morador: — ordena o Mestre
Que nos mostres a sala destinada
Ao banquete da Páscoa. Oficioso
Logo vos abrirá claro aposento
De alfaias adornado, lindos quadros,
E guirlandas de flores; bem no centro
Mesa patriarcal vereis coberta
De fina louça e ânforas lustrosas;
É o lugar da ceia. Ide depressa,
Procurai os manjares necessários,
A tenra carne do pascoal cordeiro,
O vinho generoso e o pão macio;
Esperai-nos depois. — Partiram logo
Os dois ingênuos, cândidos amigos,
Levando as instruções do augusto Mestre.
IV
Bendizei o Senhor, filhos das selvas,
Homens da natureza! Como as águas
Que desusam em límpidos meandros
Sobre as loiras areias da planície,
Vossos dias sucedem-se risonhos
E vossos pensamentos sempre calmos.
Bendizei o Senhor! Nunca sentistes,
Nem jamais sentireis, o enorme peso
Desse cismar incerto e angustioso,
Desse indizível borbulhar de ideias,
Que a mente escaldam por sinistras horas
Ao sábio lidador, que arrosta os erros
Que as gerações e o tempo consagraram!...
Que sucessão de atrozes pesadelos!
Que tecido de acerbos desenganos!...
Levar aos lábios do sedento enfermo
O suave elixir que a febre aplaca,
E entre os lábios e a taça o bafo impuro
Da morte pressentir! Lançar às ondas
Propícia corda ao náufrago cansado,
E um cutelo fatal cortar ligeiro
A corda salvadora! Ouvir ao longe
Os cânticos angélicos, as preces
Que aos pés do Criador erguem os justos,
Repeti-las ao mundo, e em recompensa
Mostrar ao mundo o cedro que falqueja
Para formar a Cruz! O ferro em brasa
Para formar os cravos!... e atrevido
No pórtico do templo, em vez do arcanjo
Que derrama laureis, bênçãos e glórias,
A figura do algoz lúgubre e horrenda!...
A ingratidão, mais dura que o suplício,
Varava o imenso coração de Cristo!
Por isso, levantou-se, triste, mudo,
E acenando aos amigos que o cercavam,
Caminhou lentamente! — Alma divina!
Era a última vez que te expandias
Como a efêmera flor do dolente cactos
No silêncio da noite, às auras livres
Nesses amados campos! Expirara
Das cenas pastoris a bela quadra,
A estação das jornadas milagrosas,
Dos prodígios da fé: cumpria agora
Realizar as predições tremendas,
Que desde as margens do Jordão sagrado
Até Jerusalém troavam roucas,
Como o remoto marulhar das vagas!
V
Iluminada estava a bela sala,
A sala do festim; servida a mesa:
Adornadas de palmas as pilastras,
Quando Jesus chegou. Mágico efeito
Produzia o clarão dos brancos círios
Sobre as ricas alfaias e cortinas
Das mais vistosas sedas, que mudavam
As vivas cores sob a luz imprópria.
Suave aroma de resinas brandas
Embalsamava o ar; — vago mistério,
Secreto encanto que os altares cerca,
E banha os santuários, quando mudos
No silêncio da noite refletimos
No templo do Senhor, e nosso espírito
Julga presente Aquele que invocamos:
Os dilúvios, talvez, de um outro mundo,
O claro espaço enchiam, consagrado
Da liberdade aos últimos momentos,
Da caridade às práticas sublimes,
E da esperança às vívidas promessas!"
Convidando os humildes companheiros,
Sentou-se à mesa o Salvador; à destra
Tomou lugar o cândido discípulo,
Filho de Zebedeu, à esquerda... Judas!
Ocuparam os mais ambos os lados.
Como não fosse o gosto dos banquetes,
Nem a paixão das tinas iguarias
Que os reunira ali, mas o respeito
Das priscas tradições e os atrativos
Da fraterna união, passava o tempo,
E os felizes consócios discorriam
Sobre as divinas leis. Silencioso
Até então Jesus se conservava,
Mas elevando a voz grave e solene
Deste modo falou: — Oh meus amigos!
Desejei com afã, entre vós outros
A Páscoa celebrar antes da morte;
E crede, vos afirmo, doravante
Nenhum sustento levarei à boca
Até que ela se cumpra gloriosa
No reino de meu Pai! — Houve uma pausa
De curta duração, o amado Mestre
Tomou então um cálice de prata,
Em cujas faces primoroso artista
Insculpira o sublime sacrifício
Do pio e manso Isaac, e lentamente
O encheu de rubro e generoso vinho.
— Bebei — disse entregando-o aos companheiros,
Que não mais provarei da vide o fruto,
Enquanto não vier o Reino eterno! —
Depois ergueu-se e se afastou da mesa,
Despiu as vestiduras, e cingiu-se
De alva toalha do mais fino linho,
Tomou uma bacia, encheu-a d'agua,
E voltando de novo, mudo e humilde,
Pôs-se a lavar os pés a seus discípulos.
Esta insólita e nova cerimonia
Lançou a confusão nas almas simples
Dos simples aldeões: surpreendidos
Olhavam para Cristo e não ousavam
Um gesto aventurar; porém, tranquilo
Prosseguia Jesus: nas finas dobras
Da macia toalha os pés molhados
Enxugava ao penúltimo. Entretanto,
O velho Pedro esquivo se escondera,
E chegando-lhe a vez, o grande Mestre
Chamava-o com instância. — Em tal não penses,
O lhano galileu gritou medroso;
— Lavar-me os pés, Senhor, a mim, teu servo,
Tu, meu Mestre, meu Pai, meu Deus! não quero
Nem o deves querer! — Se te recusas,
Responde o Salvador, — não és comigo;
Da santa comunhão não fazes parte!
— Não! não me negarei, atalha Pedro,
Lava-me os pés, Senhor, as mãos... o rosto,
Lava-me o coração! Torna-me puro
Como a luz, como o céu, como a verdade!
— Porém, disse Jesus, o que está limpo
Só deve os pés lavar, os pés somente,
E vós outros sois limpos... ah! não todos!...
Se os sócios do Senhor não conhecessem
A Índole de Judas, bastaria
Para entender a dúbia referencia
Olhar para o traidor! — Tinha no rosto,
Na fealdade horrenda de um demônio,
A sinistra expressão de um condenado.
Findo o humilde serviço, o Mestre exímio
Pôs de lado a toalha, e satisfeito,
Tomando as vestiduras, assentou-se
No lugar que deixara junto à mesa,
E assim continuou: — Pobres amigos!
Senhor e Mestre me chamais, é certo
Que sou Mestre e Senhor; — julgai agora,
Quando eu, Senhor e Mestre, os pés vos lavo,
O que deveis fazer? Seguir-me o exemplo,
Lavar os pés também, mas uns aos outros. —
Então, tomou o pão, lançou-lhe a benção
Em nome de seu Pai, e erguendo o rosto
Nesse momento esplêndido de graças,
Distribuiu aos mansos companheiros
O sagrado alimento. — Eis o meu corpo,
Dado por vosso amor; depois, enchendo
O cálice de vinho, apresentou-lhes:
— Eis o meu sangue, o sangue da inocência,
O da Nova Aliança ardente sangue,
Que por vossa intenção será vertido:
Comei, pois, e bebei!... Entre os convivas
Este festim divino, entre os eleitos
Que o maná verdadeiro, a hóstia santa,
O vinho milagroso recebiam,
Achava-se o preceito que vendera
A carne e o sangue do celeste amigo!...
Cristo suspirou baixando os olhos,
Depois assim falou: — Sombrio arcano!
Desgraça inevitável! No futuro
Sem que a suprema lei domine os atos
Da liberdade humana, eu vejo claro
O que há de suceder! Mesquinhos seres!
Sentados junto a mim, tratais-me agora
Com respeitoso amor, vossas palavras
São da fidelidade a viva cópia...
E, contudo, um de vós há de trair-me!
E, contudo, um de vós, pérfido, ingrato,
Ha de entregar-me aos bárbaros verdugos
Que meu sangue reclamam, como a herança
De seus perversos pais! — Senhor, que dizes!
— Serei eu?... Serei eu?... logo perguntam
Os pobres, aterrados. — Ora, vede,
Prossegue o Redentor — dos que me cercam,
O que a meu prato leva a mão comigo,
Aquele a quem eu der o pão molhado,
É ele o delator. — Junto de Cristo,
À destra, estava João, o mais discreto,
O mais moço também, e o mais formoso
Da caridosa grei; entristecido
Ao ouvir estas lúgubres palavras,
Escondera a cabeça graciosa
No seio de Jesus, e as loiras ondas
Dos lustrosos cabelos anelados,
Como um véu de áureos fios, lhe ocultavam
As abundantes lágrimas. Bem cedo
Cumpria-se o mistério: várias vezes,
Por simples distração ou grosseria,
No prato do Senhor tocara o ímpio,
Mais claro ainda o caso ia tornar-se;
Já ninguém conversava: então o Mestre
Cortou o pão, molhou-o, e deu a Judas!
— Senhor! Senhor, que fazes!... porventura
Me julgas o traidor? — Tu o disseste,
Tu o disseste, Judas! — lhe responde
Cristo magoado. — O que receias?
Vai, as horas escoam-se ligeiras,
E o que tens de fazer, faze-o depressa! —
Um momento depois em vão buscavam
Na sala do banquete o fementido:
Ele os tinha deixado, e estava longe.
VI
Meia noite! Nos altos candelabros
Desmaiavam as luzes, a tristeza
Cerrava os corações. — Éramos doze,
Murmura um dos amigos assombrado,
Éramos doze, sem contar o Mestre, —
Judas se retirou e... doze somos! —
Nesse momento um trêmulo gemido
Soou junto da mesa, o santo cálice
Oscilou lentamente, desprendendo
Aguda vibração... branca figura,
Como a de Samuel na negra furna
Da sibila de Endor, bela e horrível,
Ergueu-se vagarosa junto a Cristo.
— Senhor! falou, — Senhor, em idos tempos,
Por vossa vinda suspirei debalde!
Entre rudes pagãos, fui o primeiro
Que a divina unidade expôs ao mundo,
Que do Deus Uno e Trino a glória viu!
Mártir da fé, baixei à sepultura
Sem receber as águas do Batismo!...
Hoje, que dás a salvação e a vida
À humanidade escrava do pecado,
Quebrei da morte o fúnebre sigilo,
Vim o sangue beber, comer a carne,
A carne e o sangue do Cordeiro eterno!
Glória! Glória ao Senhor! abertas vejo
Do Paraíso as portas luminosas! —
— Piedoso varão, exímio Sócrates,
Sábio como Moisés, íntegro e justo
Como o grande Abraão — Jesus exclama,
Voa ao seio de Deus! Recebe o prêmio
De teu sublime, heroico sacrifício! —
Um fulgido clarão de alva celeste
Iluminou a sala, e a sombra ilustre,
Como outrora o Senhor, transfigurada,
Deixou a terra, os homens, e perdeu-se
Nas regiões do éter!... — Levantai-vos,
Disse Jesus aos frios companheiros,
As horas do martírio se aproximam!...
Simão! Simão! continuou, fitando
O velho pescador, — bem como o trigo
Satã pediu que joeirasse a todos,
Mas eu roguei por ti, que não vacile
E nem te falte a fé — Senhor, descansa,
Pedro lhe respondeu, onde estiveres
Eu estarei também constante e firme,
E onde penares, meu divino Mestre,
Eu penarei também: qual nesta vida,
Também na morte me verás contigo!
— Ah! entretanto, o Salvador prossegue,
Antes que solte a voz o galo esperto,
Me negarás três vezes, e hoje mesmo!
E voltando-se aos outros companheiros,
— Quando vos disse: viajai sem bolsa,
Sem sandálias e alforjes, por ventura
Alguma cousa vos faltou? — Não, Mestre,
Lhe responderam todos. — Pois, agora,
Tome, quem os tiver, bolsa e alforjes,
E quem não os tiver, venda os vestidos,
Compre logo uma espada!... — Uma não basta,
Temos duas — disseram-lhe. — Calai-vos!
Continuou Jesus: não se alvorocem
Os vossos corações, as vossas almas;
Credes no Deus eterno e omnipotente?
Pois crede em mim também. Antes de todos,
Na casa de meu Pai vou preparar-vos
Deliciosos cômodos, mais tarde
Voltarei a buscar-vos — Oh desgraça!
Apropinquam-se as horas do martírio!
Vão cumprir-se as palavras dos profetas! —
Calou-se Cristo, e lento retirou-se.
VII
Senhor! Lavaste os pés a teus amigos,
Deste-lhes força e ânimo e virtude
Para seguirem da verdade as trilhas!
Quem meus pés lavará? Quem a meu gênio
Dará brilho e vigor? Quem da vertigem
Preservará meu cérebro? Eis-me fraco,
Sem estro, sem saber, sem guia e mestre,
Meu Deus! Acompanhando-te nos transes,
Desse penar imenso, onde empenhada
A eternidade abraça-se à matéria!
Jesus! Dá-me valor! Lava minha alma,
Lava-me a lira, a inspiração, a pena,
Como lavaste os pés a teus amigos!
Faze que eu não fraqueje, não tropece!
Mas, se, embora de rastros, arquejante,
Vencido pela dor e pela febre,
Eu tenha de seguir-te, oh! seja feita
A vontade de Deus, bendita sempre!...
.............................................................................
No monte das antigas Oliveiras,
Não longe do Cedron, em ermo sítio,
Rude e saibroso como o frio leito
De passada torrente, onde bravejam
Das chuvas hibernais as águas turvas,
Parou Jesus, e disse aos companheiros:
— Ficai aqui, não caminheis mais longe,
Contrito, a sós comigo, ali na sombra
Quero elevar minha alma atribulada
Ao Padre Omnipotente, e vós, amigos,
Orai, orai também!... Sinto no peito
As angústias da morte e seus horrores! —
Nunca tanta tristeza revelara
A voz suave do divino Mestre!
As angústias da morte!... Por ventura
Podemos nós medir a dor imensa
Das angústias de um Deus? Nós, miseráveis,
Que o mais leve sofrer nos aniquila?
Porém, deixando os mudos companheiros
Embrenhou-se Jesus pelos silvados
Então cobertos de odorosas flores,
Chegando perto de uma lapa escura,
Lançou o manto às urzes, e prostrou-se
Cozido o rosto ao chão, áspero, seco,
Orando com fervor. Desde esse instante
O mistério sangrento começava.
VIII
Turva-se o Armamento, os frios euros
Silvam nos espinhais — Velai, amigos! —
A fronte de Jesus no duro solo,
É o céu que se abaixa, e atento escuta
A confissão do mundo! A terra treme,
E fende-se, talvez, ao sacro fogo
Do respirar de Cristo: a voz dos mortos,
Que as eras condensadas abafaram,
Dos negrumes do limbo se levanta,
E pede a Redenção, pede o Batismo!
Tu os batizarás, Senhor! Teu sangue
Os lavará das manchas do passado,
Eles que não te viram, nem ouviram,
E esperavam por Ti; — menos felizes,
Mais dignos do que nós, ingratas serpes!
Grande Deus!... um terror fundo e secreto
Se apodera de Cristo, ânsias atrozes
O coração lhe apertam! — Padre! Padre!
Clama com voz aflita e mal segura,
Oh! se te apraz, afasta-me dos lábios
Este medonho cálice!... Entretanto,
Não a minha vontade prevaleça,
Mas a tua Senhor! — E as mãos unidas,
Arrasados de pranto os belos olhos,
Soluçava, beijando a terra fria.
Erguendo-se depois, voltou-se a Pedro,
— Simão! tu dormes! Não pudeste ao menos
Um momento velar! Orar comigo!
Vela, e ora, que a força te não falte,
Que a tentação não entre no teu seio! —
E sentindo outra vez a dor acerba
Subir-lhe ao coração, pediu de novo
A seu eterno Pai que retirasse
O cálice das sevas agonias!
IX
Oh! do infinito amor alto prodígio!
Uma etérea frescura, um sopro ameno,
Doce e consolador, de auras celestes,
Roçou de manso as trêmulas folhagens,
Perpassou pela fronte suarenta
Do Filho de Maria — e mais suave,
Mais brando ainda, que as bafagens frescas
Das auroras do estio, que volteiam
Entre jasmins e rosas, distraindo
No tênue voo os leves beija-flores
Passou, volveu de novo, lento e manso,
Agitando-lhe os úmidos cabelos!
Jesus! eram as asas auri-brancas
Dos anjos de teu Pai, que visitavam
Teu sombrio retiro! Mensageiros
Que desciam do céu para servir-te,
E contigo sofrer, se assim quisesses!
Criaturas divinas! Se a desídia
Prendendo os companheiros sonolentos
Furtou-lhes a visão desse milagre,
Meu Deus! Meu Deus! eu sinto que minha alma
Guiada pela fé... — Triste vaidade!
X
Porém, corria o tempo; duas vezes
Já o Senhor chamara seus amigos,
E os míseros dormiam! Pouco e pouco
Se aproximava o instante pavoroso.
À medida que a areia se escoava
No relógio fatal, recrudesciam
As agonias dessa noite horrenda.
O íntimo lutar cansara o peito
Do Redentor do mundo, esmorecido
Inclinou a cabeça, com os belos anjos
De alvinitentes vestes, que o cercavam,
Amparavam-lhe o corpo. Um suor frio
Como o suor da morte, — copioso,
Como o do padecente que se estorce
Nas mais feias torturas, que inventaram
Sábios cogitadores de suplícios,
Correu-lhe pelos membros doloridos!
Os próprios imortais estremeceram
Cheios de dó profundo, vendo o sangue,
E as grossas gotas d'agua que manavam
Dos poros de seu Deus, e lhes tingiam
De purpura sombria as alvas plumas,
E que regava a terra, a terra ingrata,
Partilha de Satã, cujas misérias
Só reclamam eternos sacrifícios!
— Alma, sopro do céu! Clara centelha
Do espírito infinito da verdade!
Vives, e eterna viverás! Sê forte!
O caminho do bem é teu caminho,
Teu barco a Igreja, teu piloto o Cristo!
Levanta-te e não temas, se caíres
Ele te estenderá segura destra!
Se nada foras, não viera ao mundo,
Se nada foras, não sofrera os transes
Dessa noite cruel! Se nada foras,
Não assombrara o mundo e a imensidade
Com seu trágico exemplo o seu martírio!
XI
Era, porém, bem tarde. As torvas horas
Da negra provação tinham passado;
O mistério do Horto se cumprira,
E como o lavrador que os prados rega,
Onde deve lançar vivas sementes,
Jesus regara a terra; então, ergueu-se,
Dizendo aos sonolentos companheiros:
— Tudo está preparado! E, pois, agora
Podeis dormir em paz; mas, vos afirmo
Que não tarda o momento da vergonha!
O traidor anda perto, o Filho do Homem
Vai ser entregue aos Ímpios! — Vede, amigos! -
Dolorosa verdade! As largas folhas
Das viçosas solâneas refletiram,
Como em noites de fúnebres agouros,
Mil vacilantes fogos; os arbustos
Estalaram ao peso das passadas
De cautelosos, pérfidos magotes;
E assustados os tenros passarinhos
Por tão estranhos lumes, se arrancaram
Tomados de pavor dos ninhos quentes,
Sacudindo das frondes do arvoredo
Uma chuva de orvalho. A curto espaço
Assomavam por entre os leves ramos
As finas pontas das lustrosas lanças.
Compridas alabardas, longas varas,
E rubros fogaréus; depois... opróbrio!
A figura satânica de Judas
Apareceu à frente dos sequazes,
Dos inimigos pérfidos de Cristo!
Manso como um irmão, como um amigo,
Aproximou-se o monstro, as mãos impuras
Da vítima infeliz lançou aos ombros,
Beijou-lhe o branco rosto, e com voz firme
Disse, e afastou-se: — Deus te salve, Mestre:
— Judas! — exclama o Salvador, — não basta
Que me houvesses traído? E é por um beijo
É por um beijo que me entregas, ímpio! —
E voltando-se ao povo que o cercava:
Quem procurais? — Jesus o Nazareno,
Responde o chefe da sinistra escolta.
— Eu sou! — diz o Senhor. A malta infame
Recuou assombrada. Então, de novo
Interrogou Jesus com voz severa:
— Quem procurais aqui? — Jesus o Cristo,
Repete a multidão. — Sou eu, prendei-me,
Conheço vosso intento e vossos planos;
Livres, porém, deixai meus companheiros,
Que nenhum seduzi, nem fiz culpado! —
Calou-se o Redentor; mas, Simão Pedro,
Simão Pedro o singelo e franco amigo,
O lhano sócio, o dedicado servo,
As afrontas prevendo e os vis insultos
Que o Mestre ameaçavam, se enfurece,
Puxa da espada que trazia, e lesto,
Como a chispa sutil da pederneira,
Corta uma orelha a desgraçado assecla
Dos sanhudos tiranos. — Pedro, Pedro,
Exclama o Salvador triste e sentido,
— Cumpre esgotar o cálice de angústias
Que me ofertou meu Pai! Guarda essa espada,
Que o sangue me horroriza! — E a mão levando
Ao lugar da ferida, uniu a orelha,
E o servo ficou são qual dantes era.
Então, feroz tribuno e vil coorte,
Rudes e miseráveis quadrilheiros,
Bando voraz de pérfidos abutres,
Lançaram-se ao Senhor, — com duras cordas
Arrocharam-lhe os pulsos. Seus amigos
Tomados de terror se dispersaram....
XII
Silêncio, Musa! Um grito angustioso,
Um grito de suprema despedida,
Neste lugar da narração divina
Interrompeu a voz do missionário.
Os mancebos ergueram-se de um salto,
Os anciãos olharam-se aterrados.
Quem deste modo os corações abala?
Quem brada assim? Correi, homens das selvas,
Naída, a virgem dos sertões, expira!
— Oh minha filha! Oh minha pobre filha!...
Esta viva expressão da dor materna
Vibrou na alma do mestre, como o fogo
De elétrica centelha. — Quero vê-la!
Quero vê-la! onde está? — diz ansioso,
Volvendo à roda os lacrimosos olhos.
— Aqui! — aqui, senhor! — vinde depressa,
Responde a pobre mãe banhada em pranto.
Então, já piedoso sertanejo
Tinha acendido um resinoso facho,
E aclarava o terreno. O peito aflito,
Pálido o rosto, aproximou-se o padre
Do lugar onde a moça agonizava.
XIII
Sobre um leito de folhas de verbena
E agreste rosmaninho, triste e bela,
Como um anjo terrestre que adormece
Para acordar no céu; a fronte airosa
No materno regaço descansada,
A donzela esquecia-se da vida
Como o inocente colibri das matas,
Que em mole alburno de viçosa planta
Crava o leve biquinho, os olhos fecha,
Deixando em meio o lírico poema
Do risonho existir. Nunca tão puro
Seu gracioso rosto se mostrara!
Entretanto, a brancura de outra vida,
Esse triste — luar — que altera as formas,
E regela a expressão, dava-lhe o aspecto
De uma pálida estátua da piedade
Em pobre cemitério. Ao ver o mestre,
Um clarão de alegria e de esperança
Iluminou-lhe os olhos, belos olhos,
Onde o túrbido véu do passamento,
Como um fino sendal sobre alva imagem
Na penumbra de um templo solitário,
Começava a estender-se pouco a pouco.
Tentou falar.... a lívida doença
Lhe arrebatara a voz. Outro recurso
Para saudar o mestre inda restava:
Em vez de frases vãs e vãs palavras,
Um radiante, esplêndido sorriso
Reanimou-lhe os lábios descorados.
Junto da bela virgem do deserto
Ajoelhou-se o padre soluçando,
Tomou-lhe as magras mãos, porém já frias,
E tirando do peito a santa efígie,
A efígie de Jesus hirta e sangrenta,
Apresentou-a à mísera indiana.
Vendo prostrar-se o pio sacerdote
A multidão prostrou-se, livre o pranto
Correu dos olhos desses homens livres,
Que o maior dos suplícios não curvara!
Também nas selvas, nos sertões bravios,
Entre gentes boçais, tribos grosseiras,
Tem a virtude altares. A inocência
Quando sucumbe ao sopro da desgraça,
Também recebe lágrimas sentidas!
Nas matas virgens, nas cidades cultas,
Nas choças negras, nos salões dourados,
É uma a Natureza e sempre a mesma!
XIV
Como a sedosa flor dos verdes campos,
Que pendente da haste, em áureos fios,
Flutua ao bafejar das auras mansas,
Esperando o clarão do sol brilhante
Para deixar o plácido envoltório,
E voar pelo espaço em soltos flocos,
Ou, semelhante à nítida crisálida
Que a luz faz rebentar: a pura essência
Da mais pura das filhas das florestas
Parecia esperar o alvor da aurora
Para subir ao seio do infinito,
Como o perfume de um formoso lírio,
Como um eflúvio dos serenos prados,
Como a canção de um pássaro mimoso,
O voo de uma abelha, o alegre riso
De uma loira criança que desperta....
Raiou a madrugada. O santo mestre
Tomou a mão da cândida donzela,
A mão era gelada. A alma divina
Tinha voado aos pés do Onipotente!