Canto VIII Anchieta ou o Evangelho nas selvas · Capítulo 9 de 11
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Canto VIII

Canto VIII

CANTO VIII

I

Longe, na vastidão dos descampados

Que se perdem no vago do horizonte,

Onde os almargeais e os frescos vales

A luz crepuscular que envolve os ermos

Tomam do firmamento a cor cerúlea,

Longe, desaparece a última turma

Dos filhos do sertão, que as alvas praias

Buscam da Guanabara. A pátria os chama,

Correm a defender a pátria aflita.

Foram-se. No fastígio dos rochedos,

Triste e sozinha, a virgem do deserto

Chora a partida do guerreiro amado.

As virações da tarde, ásperas, frias,

Sacodem-lhe os vestidos, o sereno

Umedece-lhe o rosto e as tranças negras,

Mas a febre a consome, — o hálito ardente

Queima-lhe os lábios secos, descorados,

E nas brilhantes, áridas pupilas,

Cruzam-se estranhos lumes. Muitas vezes,

De convulso ofegar ao vivo esforço,

Levando a débil mão à linda boca,

Volve-a manchada de purpúreo sangue!

E a vida que vai-se lentamente,

Que foge a pouco e pouco, desfolhando

As grinaldas louçãs da juventude,

As ilusões do amor, os sonhos de ouro,

E as esperanças todas do futuro!...

Oh morte! Amas os lentos sacrifícios

Saboreias as longas agonias,

Divindade cruel! — No horror lasciva,

Arrochas vagarosa a pobre presa,

Molhas-lhe o corpo de nojenta baba,

Como a boa-constrictor dos fraguedos,

Depois lambes-lhe as carnes laceradas

E a devoras com lúbricos requebros!...

Porém, sumiu-se o dia, a plúmbea noite

Domina as solidões; dos altos cerros

E das brenhas do Sul partem rugidos

De feras erradias, e entre as junças

Das profundas charnecas, agourentos

Gritam os jacarés. Horas sinistras

De indizível terror! — Ergue-te, e volta

Para junto dos teus, anjo das selvas!

Não escutas ao longe a voz materna

Que ansiosa te chama? Não distingues

Entre as folhas dos plátanos lustrosos

A ondulação das tremulas fogueiras!

Vê, teus irmãos esperam-te, teu mestre

Aguarda-te silente e pensativo.

Ergue-te, pois, criança, enxuga o pranto,

E busca teu lugar junto do sábio,

Junto do amigo e protetor, Naída!...

A virgem se levanta, suspirando,

E deixa o alpestre sítio; no caminho

Encontra a pobre mãe, corre a seus braços,

Beija-lhe o frio rosto e se dirigem

Ao piedoso serão do eremitério.

Um momento, depois, o exímio padre,

Alçando a voz sonora, continua

A gloriosa história do Evangelho.

II

Fora ocioso relembrar ainda

Os passos principais e as ocorrências

Da narração passada; estou bem certo

Que fiéis os guardais no pensamento,

Como vos disse então, os sacerdotes

Escribas e doutores, procuravam

Propícia ocasião, meios propícios

De condenar Jesus, e ao mesmo tempo

Temiam-se da cólera do povo.

O espírito do mal veio em auxílio

De seus nefários planos. Congregados

Alta noite na sala mais secreta

Dos paços pontifícios, discorriam

Sobre o bárbaro alvitre e a crua empresa,

Quando um servente anunciou da escada

A presença de Judas. Resolvido

Estava o tredo e pérfido problema:

Satã lhes dera a chave. Alguns instantes

Sucederam de lúgubre silêncio,

Depois abriu-se novamente a porta,

E o sombrio Judeu entrou na sala

Com serenas feições, olhar sereno,

Modos corteses, e um sorrir tartáreo!

Viram-lhe fundo na alma os sacerdotes.

— Sabemos ao que vens, — fala e não temas.

Rejeitas os preceitos e as doutrinas

Do Mestre nazareno? — Sim!... rejeito,

Judas responde com sinistro gesto

Ao perverso doutor que o interroga.

— Reconheces teu erro e te arrependes?

Voltas à santa lei? — Porém, não bastam

Simples afirmações — queremos obras! —

— E quais são elas? O traidor pergunta,

Mostrai-mas, por quem sois!... Aqui tristonho,

Aqui turbado, o narrador calou-se:

Aqui também suspiras e emudeces,

Pobre, singela musa! Onde acharias,

Anjo da solidão, formosa filha

Das florestas da terra do Cruzeiro,

Robustas expressões, fiéis palavras,

Para externar o horror do atroz conluio,

Da intriga infame, do nefando ajuste?

Da ingratidão de Judas? Por ventura

Poderias baixar ao negro inferno,

Molhar a pena no fervente pranto

Que blasfemando os réprobos derramam?

Talvez assim... Ao alvejar da aurora,

Servo de Satanás em corpo e alma,

Judas deixava os ímpios sacerdotes,

Tendo vendido o amigo, o sábio Mestre,

O santo benfeitor! — Trinta dinheiros,

Fora da perdição o justo prêmio!

Trinta dinheiros! E devera o monstro

Assinalar Jesus a seus verdugos,

Dando-lhe um beijo no divino rosto!

A saudação fraterna! O meigo indício

De inalterável, cândida amizade!

Carícia d'alma, que feliz, resume

Quanto a humana linguagem desconhece

De afetuoso, de eloquente e puro!

III

Era chegado o dia dos pães asmos,

O dia em que os judeus principiavam,

Segundo as tradições e a lei antiga,

Do pão não levedado a fazer uso:

Era o dia da Páscoa. O povo e os grandes

Soíam celebrar a velha data,

Reunindo os amigos e os parentes

Em uma alegre ceia, santa regra

De memorandas eras respeitada

Plácida e bela nos tranquilos campos

Estendia-se a tarde, e as lindas flores

Que se inclinavam murchas, abatidas,

Nas bordas dos arroios, levantavam-se

Rescendentes de aromas aos bafejos

Das aragens sutis; os passarinhos

Despediam-se ao longe, nos silvados,

Do dia que passava. — Sobre um monte

Distante da cidade estava Cristo,

Rodeado dos seus: funda tristeza

Do claro rosto lhe alterava os traços.

Então, quebrando o místico silêncio

Das reflexões divinas, perguntaram

Seus singelos amigos: — Onde queres

A Páscoa celebrar? Correm as horas

Sem pensarmos no santo cumprimento

Deste antigo preceito. — O que resolves?

Onde iremos, Senhor? — É tempo ainda

De atendermos à lei — Jesus responde.

Depois chamando João e o velho Pedro:

— Parti, lhes disse, às portas da cidade,

Virá ao vosso encontro um homem pobre,

Carregando uma bilha; acompanhai-o.

Na casa onde ele entrar, entrai vós outros,

Falai ao morador: — ordena o Mestre

Que nos mostres a sala destinada

Ao banquete da Páscoa. Oficioso

Logo vos abrirá claro aposento

De alfaias adornado, lindos quadros,

E guirlandas de flores; bem no centro

Mesa patriarcal vereis coberta

De fina louça e ânforas lustrosas;

É o lugar da ceia. Ide depressa,

Procurai os manjares necessários,

A tenra carne do pascoal cordeiro,

O vinho generoso e o pão macio;

Esperai-nos depois. — Partiram logo

Os dois ingênuos, cândidos amigos,

Levando as instruções do augusto Mestre.

IV

Bendizei o Senhor, filhos das selvas,

Homens da natureza! Como as águas

Que desusam em límpidos meandros

Sobre as loiras areias da planície,

Vossos dias sucedem-se risonhos

E vossos pensamentos sempre calmos.

Bendizei o Senhor! Nunca sentistes,

Nem jamais sentireis, o enorme peso

Desse cismar incerto e angustioso,

Desse indizível borbulhar de ideias,

Que a mente escaldam por sinistras horas

Ao sábio lidador, que arrosta os erros

Que as gerações e o tempo consagraram!...

Que sucessão de atrozes pesadelos!

Que tecido de acerbos desenganos!...

Levar aos lábios do sedento enfermo

O suave elixir que a febre aplaca,

E entre os lábios e a taça o bafo impuro

Da morte pressentir! Lançar às ondas

Propícia corda ao náufrago cansado,

E um cutelo fatal cortar ligeiro

A corda salvadora! Ouvir ao longe

Os cânticos angélicos, as preces

Que aos pés do Criador erguem os justos,

Repeti-las ao mundo, e em recompensa

Mostrar ao mundo o cedro que falqueja

Para formar a Cruz! O ferro em brasa

Para formar os cravos!... e atrevido

No pórtico do templo, em vez do arcanjo

Que derrama laureis, bênçãos e glórias,

A figura do algoz lúgubre e horrenda!...

A ingratidão, mais dura que o suplício,

Varava o imenso coração de Cristo!

Por isso, levantou-se, triste, mudo,

E acenando aos amigos que o cercavam,

Caminhou lentamente! — Alma divina!

Era a última vez que te expandias

Como a efêmera flor do dolente cactos

No silêncio da noite, às auras livres

Nesses amados campos! Expirara

Das cenas pastoris a bela quadra,

A estação das jornadas milagrosas,

Dos prodígios da fé: cumpria agora

Realizar as predições tremendas,

Que desde as margens do Jordão sagrado

Até Jerusalém troavam roucas,

Como o remoto marulhar das vagas!

V

Iluminada estava a bela sala,

A sala do festim; servida a mesa:

Adornadas de palmas as pilastras,

Quando Jesus chegou. Mágico efeito

Produzia o clarão dos brancos círios

Sobre as ricas alfaias e cortinas

Das mais vistosas sedas, que mudavam

As vivas cores sob a luz imprópria.

Suave aroma de resinas brandas

Embalsamava o ar; — vago mistério,

Secreto encanto que os altares cerca,

E banha os santuários, quando mudos

No silêncio da noite refletimos

No templo do Senhor, e nosso espírito

Julga presente Aquele que invocamos:

Os dilúvios, talvez, de um outro mundo,

O claro espaço enchiam, consagrado

Da liberdade aos últimos momentos,

Da caridade às práticas sublimes,

E da esperança às vívidas promessas!"

Convidando os humildes companheiros,

Sentou-se à mesa o Salvador; à destra

Tomou lugar o cândido discípulo,

Filho de Zebedeu, à esquerda... Judas!

Ocuparam os mais ambos os lados.

Como não fosse o gosto dos banquetes,

Nem a paixão das tinas iguarias

Que os reunira ali, mas o respeito

Das priscas tradições e os atrativos

Da fraterna união, passava o tempo,

E os felizes consócios discorriam

Sobre as divinas leis. Silencioso

Até então Jesus se conservava,

Mas elevando a voz grave e solene

Deste modo falou: — Oh meus amigos!

Desejei com afã, entre vós outros

A Páscoa celebrar antes da morte;

E crede, vos afirmo, doravante

Nenhum sustento levarei à boca

Até que ela se cumpra gloriosa

No reino de meu Pai! — Houve uma pausa

De curta duração, o amado Mestre

Tomou então um cálice de prata,

Em cujas faces primoroso artista

Insculpira o sublime sacrifício

Do pio e manso Isaac, e lentamente

O encheu de rubro e generoso vinho.

— Bebei — disse entregando-o aos companheiros,

Que não mais provarei da vide o fruto,

Enquanto não vier o Reino eterno! —

Depois ergueu-se e se afastou da mesa,

Despiu as vestiduras, e cingiu-se

De alva toalha do mais fino linho,

Tomou uma bacia, encheu-a d'agua,

E voltando de novo, mudo e humilde,

Pôs-se a lavar os pés a seus discípulos.

Esta insólita e nova cerimonia

Lançou a confusão nas almas simples

Dos simples aldeões: surpreendidos

Olhavam para Cristo e não ousavam

Um gesto aventurar; porém, tranquilo

Prosseguia Jesus: nas finas dobras

Da macia toalha os pés molhados

Enxugava ao penúltimo. Entretanto,

O velho Pedro esquivo se escondera,

E chegando-lhe a vez, o grande Mestre

Chamava-o com instância. — Em tal não penses,

O lhano galileu gritou medroso;

— Lavar-me os pés, Senhor, a mim, teu servo,

Tu, meu Mestre, meu Pai, meu Deus! não quero

Nem o deves querer! — Se te recusas,

Responde o Salvador, — não és comigo;

Da santa comunhão não fazes parte!

— Não! não me negarei, atalha Pedro,

Lava-me os pés, Senhor, as mãos... o rosto,

Lava-me o coração! Torna-me puro

Como a luz, como o céu, como a verdade!

— Porém, disse Jesus, o que está limpo

Só deve os pés lavar, os pés somente,

E vós outros sois limpos... ah! não todos!...

Se os sócios do Senhor não conhecessem

A Índole de Judas, bastaria

Para entender a dúbia referencia

Olhar para o traidor! — Tinha no rosto,

Na fealdade horrenda de um demônio,

A sinistra expressão de um condenado.

Findo o humilde serviço, o Mestre exímio

Pôs de lado a toalha, e satisfeito,

Tomando as vestiduras, assentou-se

No lugar que deixara junto à mesa,

E assim continuou: — Pobres amigos!

Senhor e Mestre me chamais, é certo

Que sou Mestre e Senhor; — julgai agora,

Quando eu, Senhor e Mestre, os pés vos lavo,

O que deveis fazer? Seguir-me o exemplo,

Lavar os pés também, mas uns aos outros. —

Então, tomou o pão, lançou-lhe a benção

Em nome de seu Pai, e erguendo o rosto

Nesse momento esplêndido de graças,

Distribuiu aos mansos companheiros

O sagrado alimento. — Eis o meu corpo,

Dado por vosso amor; depois, enchendo

O cálice de vinho, apresentou-lhes:

— Eis o meu sangue, o sangue da inocência,

O da Nova Aliança ardente sangue,

Que por vossa intenção será vertido:

Comei, pois, e bebei!... Entre os convivas

Este festim divino, entre os eleitos

Que o maná verdadeiro, a hóstia santa,

O vinho milagroso recebiam,

Achava-se o preceito que vendera

A carne e o sangue do celeste amigo!...

Cristo suspirou baixando os olhos,

Depois assim falou: — Sombrio arcano!

Desgraça inevitável! No futuro

Sem que a suprema lei domine os atos

Da liberdade humana, eu vejo claro

O que há de suceder! Mesquinhos seres!

Sentados junto a mim, tratais-me agora

Com respeitoso amor, vossas palavras

São da fidelidade a viva cópia...

E, contudo, um de vós há de trair-me!

E, contudo, um de vós, pérfido, ingrato,

Ha de entregar-me aos bárbaros verdugos

Que meu sangue reclamam, como a herança

De seus perversos pais! — Senhor, que dizes!

— Serei eu?... Serei eu?... logo perguntam

Os pobres, aterrados. — Ora, vede,

Prossegue o Redentor — dos que me cercam,

O que a meu prato leva a mão comigo,

Aquele a quem eu der o pão molhado,

É ele o delator. — Junto de Cristo,

À destra, estava João, o mais discreto,

O mais moço também, e o mais formoso

Da caridosa grei; entristecido

Ao ouvir estas lúgubres palavras,

Escondera a cabeça graciosa

No seio de Jesus, e as loiras ondas

Dos lustrosos cabelos anelados,

Como um véu de áureos fios, lhe ocultavam

As abundantes lágrimas. Bem cedo

Cumpria-se o mistério: várias vezes,

Por simples distração ou grosseria,

No prato do Senhor tocara o ímpio,

Mais claro ainda o caso ia tornar-se;

Já ninguém conversava: então o Mestre

Cortou o pão, molhou-o, e deu a Judas!

— Senhor! Senhor, que fazes!... porventura

Me julgas o traidor? — Tu o disseste,

Tu o disseste, Judas! — lhe responde

Cristo magoado. — O que receias?

Vai, as horas escoam-se ligeiras,

E o que tens de fazer, faze-o depressa! —

Um momento depois em vão buscavam

Na sala do banquete o fementido:

Ele os tinha deixado, e estava longe.

VI

Meia noite! Nos altos candelabros

Desmaiavam as luzes, a tristeza

Cerrava os corações. — Éramos doze,

Murmura um dos amigos assombrado,

Éramos doze, sem contar o Mestre, —

Judas se retirou e... doze somos! —

Nesse momento um trêmulo gemido

Soou junto da mesa, o santo cálice

Oscilou lentamente, desprendendo

Aguda vibração... branca figura,

Como a de Samuel na negra furna

Da sibila de Endor, bela e horrível,

Ergueu-se vagarosa junto a Cristo.

— Senhor! falou, — Senhor, em idos tempos,

Por vossa vinda suspirei debalde!

Entre rudes pagãos, fui o primeiro

Que a divina unidade expôs ao mundo,

Que do Deus Uno e Trino a glória viu!

Mártir da fé, baixei à sepultura

Sem receber as águas do Batismo!...

Hoje, que dás a salvação e a vida

À humanidade escrava do pecado,

Quebrei da morte o fúnebre sigilo,

Vim o sangue beber, comer a carne,

A carne e o sangue do Cordeiro eterno!

Glória! Glória ao Senhor! abertas vejo

Do Paraíso as portas luminosas! —

— Piedoso varão, exímio Sócrates,

Sábio como Moisés, íntegro e justo

Como o grande Abraão — Jesus exclama,

Voa ao seio de Deus! Recebe o prêmio

De teu sublime, heroico sacrifício! —

Um fulgido clarão de alva celeste

Iluminou a sala, e a sombra ilustre,

Como outrora o Senhor, transfigurada,

Deixou a terra, os homens, e perdeu-se

Nas regiões do éter!... — Levantai-vos,

Disse Jesus aos frios companheiros,

As horas do martírio se aproximam!...

Simão! Simão! continuou, fitando

O velho pescador, — bem como o trigo

Satã pediu que joeirasse a todos,

Mas eu roguei por ti, que não vacile

E nem te falte a fé — Senhor, descansa,

Pedro lhe respondeu, onde estiveres

Eu estarei também constante e firme,

E onde penares, meu divino Mestre,

Eu penarei também: qual nesta vida,

Também na morte me verás contigo!

— Ah! entretanto, o Salvador prossegue,

Antes que solte a voz o galo esperto,

Me negarás três vezes, e hoje mesmo!

E voltando-se aos outros companheiros,

— Quando vos disse: viajai sem bolsa,

Sem sandálias e alforjes, por ventura

Alguma cousa vos faltou? — Não, Mestre,

Lhe responderam todos. — Pois, agora,

Tome, quem os tiver, bolsa e alforjes,

E quem não os tiver, venda os vestidos,

Compre logo uma espada!... — Uma não basta,

Temos duas — disseram-lhe. — Calai-vos!

Continuou Jesus: não se alvorocem

Os vossos corações, as vossas almas;

Credes no Deus eterno e omnipotente?

Pois crede em mim também. Antes de todos,

Na casa de meu Pai vou preparar-vos

Deliciosos cômodos, mais tarde

Voltarei a buscar-vos — Oh desgraça!

Apropinquam-se as horas do martírio!

Vão cumprir-se as palavras dos profetas! —

Calou-se Cristo, e lento retirou-se.

VII

Senhor! Lavaste os pés a teus amigos,

Deste-lhes força e ânimo e virtude

Para seguirem da verdade as trilhas!

Quem meus pés lavará? Quem a meu gênio

Dará brilho e vigor? Quem da vertigem

Preservará meu cérebro? Eis-me fraco,

Sem estro, sem saber, sem guia e mestre,

Meu Deus! Acompanhando-te nos transes,

Desse penar imenso, onde empenhada

A eternidade abraça-se à matéria!

Jesus! Dá-me valor! Lava minha alma,

Lava-me a lira, a inspiração, a pena,

Como lavaste os pés a teus amigos!

Faze que eu não fraqueje, não tropece!

Mas, se, embora de rastros, arquejante,

Vencido pela dor e pela febre,

Eu tenha de seguir-te, oh! seja feita

A vontade de Deus, bendita sempre!...

.............................................................................

No monte das antigas Oliveiras,

Não longe do Cedron, em ermo sítio,

Rude e saibroso como o frio leito

De passada torrente, onde bravejam

Das chuvas hibernais as águas turvas,

Parou Jesus, e disse aos companheiros:

— Ficai aqui, não caminheis mais longe,

Contrito, a sós comigo, ali na sombra

Quero elevar minha alma atribulada

Ao Padre Omnipotente, e vós, amigos,

Orai, orai também!... Sinto no peito

As angústias da morte e seus horrores! —

Nunca tanta tristeza revelara

A voz suave do divino Mestre!

As angústias da morte!... Por ventura

Podemos nós medir a dor imensa

Das angústias de um Deus? Nós, miseráveis,

Que o mais leve sofrer nos aniquila?

Porém, deixando os mudos companheiros

Embrenhou-se Jesus pelos silvados

Então cobertos de odorosas flores,

Chegando perto de uma lapa escura,

Lançou o manto às urzes, e prostrou-se

Cozido o rosto ao chão, áspero, seco,

Orando com fervor. Desde esse instante

O mistério sangrento começava.

VIII

Turva-se o Armamento, os frios euros

Silvam nos espinhais — Velai, amigos! —

A fronte de Jesus no duro solo,

É o céu que se abaixa, e atento escuta

A confissão do mundo! A terra treme,

E fende-se, talvez, ao sacro fogo

Do respirar de Cristo: a voz dos mortos,

Que as eras condensadas abafaram,

Dos negrumes do limbo se levanta,

E pede a Redenção, pede o Batismo!

Tu os batizarás, Senhor! Teu sangue

Os lavará das manchas do passado,

Eles que não te viram, nem ouviram,

E esperavam por Ti; — menos felizes,

Mais dignos do que nós, ingratas serpes!

Grande Deus!... um terror fundo e secreto

Se apodera de Cristo, ânsias atrozes

O coração lhe apertam! — Padre! Padre!

Clama com voz aflita e mal segura,

Oh! se te apraz, afasta-me dos lábios

Este medonho cálice!... Entretanto,

Não a minha vontade prevaleça,

Mas a tua Senhor! — E as mãos unidas,

Arrasados de pranto os belos olhos,

Soluçava, beijando a terra fria.

Erguendo-se depois, voltou-se a Pedro,

— Simão! tu dormes! Não pudeste ao menos

Um momento velar! Orar comigo!

Vela, e ora, que a força te não falte,

Que a tentação não entre no teu seio! —

E sentindo outra vez a dor acerba

Subir-lhe ao coração, pediu de novo

A seu eterno Pai que retirasse

O cálice das sevas agonias!

IX

Oh! do infinito amor alto prodígio!

Uma etérea frescura, um sopro ameno,

Doce e consolador, de auras celestes,

Roçou de manso as trêmulas folhagens,

Perpassou pela fronte suarenta

Do Filho de Maria — e mais suave,

Mais brando ainda, que as bafagens frescas

Das auroras do estio, que volteiam

Entre jasmins e rosas, distraindo

No tênue voo os leves beija-flores

Passou, volveu de novo, lento e manso,

Agitando-lhe os úmidos cabelos!

Jesus! eram as asas auri-brancas

Dos anjos de teu Pai, que visitavam

Teu sombrio retiro! Mensageiros

Que desciam do céu para servir-te,

E contigo sofrer, se assim quisesses!

Criaturas divinas! Se a desídia

Prendendo os companheiros sonolentos

Furtou-lhes a visão desse milagre,

Meu Deus! Meu Deus! eu sinto que minha alma

Guiada pela fé... — Triste vaidade!

X

Porém, corria o tempo; duas vezes

Já o Senhor chamara seus amigos,

E os míseros dormiam! Pouco e pouco

Se aproximava o instante pavoroso.

À medida que a areia se escoava

No relógio fatal, recrudesciam

As agonias dessa noite horrenda.

O íntimo lutar cansara o peito

Do Redentor do mundo, esmorecido

Inclinou a cabeça, com os belos anjos

De alvinitentes vestes, que o cercavam,

Amparavam-lhe o corpo. Um suor frio

Como o suor da morte, — copioso,

Como o do padecente que se estorce

Nas mais feias torturas, que inventaram

Sábios cogitadores de suplícios,

Correu-lhe pelos membros doloridos!

Os próprios imortais estremeceram

Cheios de dó profundo, vendo o sangue,

E as grossas gotas d'agua que manavam

Dos poros de seu Deus, e lhes tingiam

De purpura sombria as alvas plumas,

E que regava a terra, a terra ingrata,

Partilha de Satã, cujas misérias

Só reclamam eternos sacrifícios!

— Alma, sopro do céu! Clara centelha

Do espírito infinito da verdade!

Vives, e eterna viverás! Sê forte!

O caminho do bem é teu caminho,

Teu barco a Igreja, teu piloto o Cristo!

Levanta-te e não temas, se caíres

Ele te estenderá segura destra!

Se nada foras, não viera ao mundo,

Se nada foras, não sofrera os transes

Dessa noite cruel! Se nada foras,

Não assombrara o mundo e a imensidade

Com seu trágico exemplo o seu martírio!

XI

Era, porém, bem tarde. As torvas horas

Da negra provação tinham passado;

O mistério do Horto se cumprira,

E como o lavrador que os prados rega,

Onde deve lançar vivas sementes,

Jesus regara a terra; então, ergueu-se,

Dizendo aos sonolentos companheiros:

— Tudo está preparado! E, pois, agora

Podeis dormir em paz; mas, vos afirmo

Que não tarda o momento da vergonha!

O traidor anda perto, o Filho do Homem

Vai ser entregue aos Ímpios! — Vede, amigos! -

Dolorosa verdade! As largas folhas

Das viçosas solâneas refletiram,

Como em noites de fúnebres agouros,

Mil vacilantes fogos; os arbustos

Estalaram ao peso das passadas

De cautelosos, pérfidos magotes;

E assustados os tenros passarinhos

Por tão estranhos lumes, se arrancaram

Tomados de pavor dos ninhos quentes,

Sacudindo das frondes do arvoredo

Uma chuva de orvalho. A curto espaço

Assomavam por entre os leves ramos

As finas pontas das lustrosas lanças.

Compridas alabardas, longas varas,

E rubros fogaréus; depois... opróbrio!

A figura satânica de Judas

Apareceu à frente dos sequazes,

Dos inimigos pérfidos de Cristo!

Manso como um irmão, como um amigo,

Aproximou-se o monstro, as mãos impuras

Da vítima infeliz lançou aos ombros,

Beijou-lhe o branco rosto, e com voz firme

Disse, e afastou-se: — Deus te salve, Mestre:

— Judas! — exclama o Salvador, — não basta

Que me houvesses traído? E é por um beijo

É por um beijo que me entregas, ímpio! —

E voltando-se ao povo que o cercava:

Quem procurais? — Jesus o Nazareno,

Responde o chefe da sinistra escolta.

— Eu sou! — diz o Senhor. A malta infame

Recuou assombrada. Então, de novo

Interrogou Jesus com voz severa:

— Quem procurais aqui? — Jesus o Cristo,

Repete a multidão. — Sou eu, prendei-me,

Conheço vosso intento e vossos planos;

Livres, porém, deixai meus companheiros,

Que nenhum seduzi, nem fiz culpado! —

Calou-se o Redentor; mas, Simão Pedro,

Simão Pedro o singelo e franco amigo,

O lhano sócio, o dedicado servo,

As afrontas prevendo e os vis insultos

Que o Mestre ameaçavam, se enfurece,

Puxa da espada que trazia, e lesto,

Como a chispa sutil da pederneira,

Corta uma orelha a desgraçado assecla

Dos sanhudos tiranos. — Pedro, Pedro,

Exclama o Salvador triste e sentido,

— Cumpre esgotar o cálice de angústias

Que me ofertou meu Pai! Guarda essa espada,

Que o sangue me horroriza! — E a mão levando

Ao lugar da ferida, uniu a orelha,

E o servo ficou são qual dantes era.

Então, feroz tribuno e vil coorte,

Rudes e miseráveis quadrilheiros,

Bando voraz de pérfidos abutres,

Lançaram-se ao Senhor, — com duras cordas

Arrocharam-lhe os pulsos. Seus amigos

Tomados de terror se dispersaram....

XII

Silêncio, Musa! Um grito angustioso,

Um grito de suprema despedida,

Neste lugar da narração divina

Interrompeu a voz do missionário.

Os mancebos ergueram-se de um salto,

Os anciãos olharam-se aterrados.

Quem deste modo os corações abala?

Quem brada assim? Correi, homens das selvas,

Naída, a virgem dos sertões, expira!

— Oh minha filha! Oh minha pobre filha!...

Esta viva expressão da dor materna

Vibrou na alma do mestre, como o fogo

De elétrica centelha. — Quero vê-la!

Quero vê-la! onde está? — diz ansioso,

Volvendo à roda os lacrimosos olhos.

— Aqui! — aqui, senhor! — vinde depressa,

Responde a pobre mãe banhada em pranto.

Então, já piedoso sertanejo

Tinha acendido um resinoso facho,

E aclarava o terreno. O peito aflito,

Pálido o rosto, aproximou-se o padre

Do lugar onde a moça agonizava.

XIII

Sobre um leito de folhas de verbena

E agreste rosmaninho, triste e bela,

Como um anjo terrestre que adormece

Para acordar no céu; a fronte airosa

No materno regaço descansada,

A donzela esquecia-se da vida

Como o inocente colibri das matas,

Que em mole alburno de viçosa planta

Crava o leve biquinho, os olhos fecha,

Deixando em meio o lírico poema

Do risonho existir. Nunca tão puro

Seu gracioso rosto se mostrara!

Entretanto, a brancura de outra vida,

Esse triste — luar — que altera as formas,

E regela a expressão, dava-lhe o aspecto

De uma pálida estátua da piedade

Em pobre cemitério. Ao ver o mestre,

Um clarão de alegria e de esperança

Iluminou-lhe os olhos, belos olhos,

Onde o túrbido véu do passamento,

Como um fino sendal sobre alva imagem

Na penumbra de um templo solitário,

Começava a estender-se pouco a pouco.

Tentou falar.... a lívida doença

Lhe arrebatara a voz. Outro recurso

Para saudar o mestre inda restava:

Em vez de frases vãs e vãs palavras,

Um radiante, esplêndido sorriso

Reanimou-lhe os lábios descorados.

Junto da bela virgem do deserto

Ajoelhou-se o padre soluçando,

Tomou-lhe as magras mãos, porém já frias,

E tirando do peito a santa efígie,

A efígie de Jesus hirta e sangrenta,

Apresentou-a à mísera indiana.

Vendo prostrar-se o pio sacerdote

A multidão prostrou-se, livre o pranto

Correu dos olhos desses homens livres,

Que o maior dos suplícios não curvara!

Também nas selvas, nos sertões bravios,

Entre gentes boçais, tribos grosseiras,

Tem a virtude altares. A inocência

Quando sucumbe ao sopro da desgraça,

Também recebe lágrimas sentidas!

Nas matas virgens, nas cidades cultas,

Nas choças negras, nos salões dourados,

É uma a Natureza e sempre a mesma!

XIV

Como a sedosa flor dos verdes campos,

Que pendente da haste, em áureos fios,

Flutua ao bafejar das auras mansas,

Esperando o clarão do sol brilhante

Para deixar o plácido envoltório,

E voar pelo espaço em soltos flocos,

Ou, semelhante à nítida crisálida

Que a luz faz rebentar: a pura essência

Da mais pura das filhas das florestas

Parecia esperar o alvor da aurora

Para subir ao seio do infinito,

Como o perfume de um formoso lírio,

Como um eflúvio dos serenos prados,

Como a canção de um pássaro mimoso,

O voo de uma abelha, o alegre riso

De uma loira criança que desperta....

Raiou a madrugada. O santo mestre

Tomou a mão da cândida donzela,

A mão era gelada. A alma divina

Tinha voado aos pés do Onipotente!

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