Canto X - Epílogo
Canto X - Epílogo
CANTO X
EPÍLOGO
I
A idolatria expira entre os gentios.
O Oriente, o Ocidente, o Sul e o Norte,
Exultam repetindo os hinos sacros
Dos bardos de Sião. Calam-se os ódios,
Consagram-se as nações; cessam as guerras;
Surge o mundo civil do caos profundo
Da velha barbárie! A lei triunfa,
As montanhas coroam-se de altares;
A cruz domina os campos e o Evangelho
Avassala os sertões! Desde as ribeiras
Do majestoso e plácido Amazonas
Até às margens do opulento Prata,
Ressoam pelo espaço os belos cantos
Da Igreja Universal! Sobre os desertos
Abre o Cristianismo o pálio augusto.
II
Porém, depois dos últimos sucessos
Desta História de acérrimos labores
Decorreram dez anos. As planícies
Cobrem-se de abundantes sementeiras,
Muge o gado no campo, as ovelhinhas
Brincam nos ervaçais, e sobre o monte,
No sítio ameno da saudosa ermida
Do servo do Senhor, alveja agora
Entre as pobres cabanas dos conversos
A torre estreita de um singelo templo.
Põe-se o sol. Os clarões finais do dia
Morrem ao longe nas remotas serras;
Voltam os lavradores do serviço,
E chamando os filhinhos, se dirigem
À casa do Senhor; os sons do sino
Pela primeira vez ressoam crebros
Naquelas solidões. Um pobre padre,
De venerando rosto, ergue-se e canta
As preces melancólicas da tarde.
Oh! não é ele o Apóstolo das selvas!
Musa dos ermos, o profeta é morto!...
Não! inda brilha, descorado embora,
O astro das missões! Inda derrama,
Bela estrela da Fé, a luz propícia
Que às trevas espancou do Novo Mundo!
Espírito do amor e da saudade,
Leva o gênio do bardo aos longes climas,
Onde os ecos acorda maviosa,
A doce voz que clama no deserto!
Onde vagueia convertendo os povos
O sucessor egrégio do Batista!
III
Ao norte das ubérrimas campinas
Onde desliza o Nilo Brasileiro,
O grande Paraíba, a quinze léguas
Da florescente aldeia consagrada
Ao Espírito Santo, e aquém das selvas
Banhadas pelas águas do Rio Doce,
Estendem-se as choupanas pitorescas
De um arraial cristão. Formosa estância!
Rerigbá feliz! Almo retiro,
Onde das lidas repousou do mundo
O sublime Anchieta! Eu te estou vendo
Com teus argênteos, lúcidos arroios,
Orlados de palmeiras, com teus vales,
Cobertos de baunilha e passifloras,
Com teu modesto e alegre Presbitério
Circundado de choças e de apriscos,
Com teu sábio pastor! — Idade de ouro!
Eras de singeleza e de inocência,
Que jamais voltarão, senão nos sonhos
E nas visões poéticas do bardo!...
IV
A noite passa. O astro da saudade
Atufa-se nos mares. O Oriente
Arreia-se de flores purpurinas.
Surge, filha da luz! Última aurora
Da estação da inocência e da esperança!
Oh! vem! Clareia o céu, anima os bosques,
Aviventa os sertões e as cordilheiras!...
Mas, à beira do rio, deslembradas
As canoas estão dos pescadores;
Das cabanas abertas não se expande
O fumo que anuncia a paz e a vida!
Os cantos virginais não se misturam
Ao burburinho trépido das fontes,
Nem as vozes vibrantes dos mancebos
Ao golpear sonoro dos machados
Nos grossos troncos dos ipês frondosos!
Entretanto, ao redor do pobre templo
As mulheres soluçam; tristes padres,
Sócios e amigos do inspirado Mestre,
Chegam de longes terras, incansáveis,
E param nos degraus do Presbitério,
Receosos de entrar; falam baixinho
Aos humildes conversos que os rodeiam,
E penetram, por fim, no santo asilo,
Onde o ilustre varão, prostrado aguarda
O momento supremo. Quão serenas
— São as feições do lúcido profeta!
Quão meigos seus olhares! Quão suaves.
As palavras e os votos que dirige
Aos lacrimosos velhos companheiros!...
Homens que ledes estes rudes cantos,
Viandantes de um vale de infortúnios
Onde cada progresso deixa um marco
Salpicado de sangue, e cada esforço
Do gênio e da virtude uma coroa
Férrea, crivada de aguçados cravos!
Não busqueis nas lições dos grandes sábios,
Nem nos padrões da história, a luz brilhante
Que desvenda os mistérios de além mundo!
Vede o justo morrer! Fitai os olhos
Nesses olhos, que os páramos celestes
Radiantes devassam! Nesses lábios,
Onde seguro e plácido sorriso
Anuncia a certeza do Infinito!
O próximo descanso, — a glória excelsa
No seio de Abraão! — Deus se revela,
Brando e terrível, justiceiro e forte,
Nas lívidas feições do moribundo.
Melhor que no bramir das tempestades,
Nas faces torvas dos revoltos mares,
Ou no zimbório azul do Firmamento
Semeado de fúlgidas esferas!
V
O bronze flébil do sagrado templo
Derrama pelo espaço os lentos dobres,
Os dobres de agonia. Os sacerdotes
Prostrados ao redor do pobre leito,
Onde definha o sábio, o herói, o justo,
Repetem, pranteando, os belos trenos,
Os belos trenos do Saltério antigo,
E as orações da soberana Igreja,
Depositária eterna da verdade,
Fonte da salvação. — Calmo e tranquilo,
Como Cristo entre as rábidas lufadas
Do temporal insano, o moribundo
Acompanha as endechas dolorosas
Dos aflitos irmãos. Sobre seu peito,
Entre as pálidas mãos, a cruz descansa,
A mesma cruz bendita, que há dez anos
Levara aos lábios trêmulos e frios
Da desditosa virgem do deserto.
Prostrado aos pés do leito um moço adusto,
Soluça e beija as vestes do profeta.
Jadir! É ele o lidador das selvas!...
Como se ostenta altivo o cedro umbroso
No seio da floresta! A massa enorme
De pesado granito nas montanhas!
O crocodilo dos juncais espessos
Das charnecas da Líbia, equiparados
Ao ente racional! Uma só noite
De mudo desespero e angústias fundas
Devora a mocidade, apaga os risos,
Consome as forças, e abrevia o espaço
Que se estende entre o berço e a sepultura!
Desgraçado Jadir! Mísera sombra
De guerreiro valente, quando a tarde
Nos campos desdobrar o véu suave,
Borrifado de lágrimas celestes,
Sozinho te acharás nas soledades
De um árido existir! Lascado tronco
Que o lavrador deixou no escuro vale
Sobre os restos de esplêndida floresta
VI
O sol oriental vence as alturas,
E dissipa das úmidas colinas
Os véus do nevoeiro; os loiros raios,
Atravessando as frestas das janelas,
Penetram no aposento lutuoso
Do sábio agonizante, onde crepitam
Dois pardacentos, funerários círios.
— Esta importuna claridade ofendo
As pupilas do Mestre, — alguém murmura,
Cumpre tolhe-la, e já. — Não, meus amigos! —
Exclama vivamente o moribundo.
— Não me furteis o gozo derradeiro
De ver a luz brilhante que aviventa
Estes belos sertões! Pura e festiva
Deixai-a refletir sobre meus olhos,
E sustar um momento o frio sopro
Que em minha veias infiltrou a morte!
Arredai estas tochas pavorosas,
Abri depressa as portas e as janelas,
Quero ver as campinas dilatadas,
Os silvados em flor, os céus profundos,
A luz, a luz, a imagem da esperança!
A condição suprema da beleza!
A vida do universo, o gênio, a glória
Desse grande poema arremessado
Pelo Deus Criador e Onipotente
Nos mistérios sublimes do Infinito!
A luz! A luz no berço e no ataúde!
A luz no coração, na inteligência!
A luz no céu, na terra, no mais fundo
Da consciência humana! — Assim dizendo,
Senta-se, a custo, o pálido profeta
Sobre o leito mesquinho. Os seus desejos
São decretos sagrados nessas horas.
Num volver de olhos erguem-se os amigos
E franqueiam à luz e às auras mansas
O tristonho e paupérrimo aposento.
— Como é límpido o céu! Como refulge,
Ao dourado clarão do sol do estio,
Ao longe o vasto mar! Como cintilam
As pérolas do orvalho, penduradas
Das verdes folhas dos murtais viçosos! —
Exclama o venerando missionário.
— Oh! não choreis, irmãos, que sinto na alma
A paz divina que precede a aurora
Da verdadeira vida! Alva sublime,
Alva celestial de eternos raios
Cobre os campos, os prados e as florestas
De riquezas e pompas inefáveis!...
Gênio da natureza, eu te estou vendo!
Pensas, e teu pensar sustenta os orbes,
Conduz os ventos, equilibra os mares,
Alenta a humanidade sofredora,
E a matéria sujeita à inteligência
Dos levitas felizes que te servem!
Sentes, e geme a rola na espessura,
Chora o mastim à porta de seu dono,
A leoa e a pantera dos desertos
Sucumbem, defendendo os tenros filhos,
E a mulher do pastor esquece as mágoas
Da trabalhosa vida, acalentando,
Pródiga de sorrisos e meiguices,
O fruto de seus cândidos amores!...
Mandas, e o vendaval sacode as brenhas,
Abre-se a terra, somem-se as cidades,
O oceano se afasta, e deixa as praias,
E vai rugir além!... Oh Natureza!
Ninguém te viu como te vejo agora! —
Seguem-se alguns momentos de repouso
Depois destas palavras. O profeta
Contempla extasiado os vastos campos,
Os céus serenos, os palmares frescos,
E a cinta azul dos mares sossegados.
Nas solidões imensas do horizonte
Reina fundo silêncio, ao longe apenas
Canta à beira do rio a patativa,
E as aragens sussurram mansamente
Nas balsas odorosas. Nem um brado
De errante caçador nos ermos campos!
Nem um riso infantil, um débil grito,
O latido de um cão junto das sarças;
Tudo é mudo. Nas rústicas varandas
Do triste Presbitério, o povo chora;
No retiro do sábio os sacerdotes,
E os anciãos da aldeia, possuídos
Dessa fascinação da Eternidade,
Que paralisa as forças da matéria
E purifica o espírito, contemplam
O semblante tranquilo e venerando
Do exímio lidador, em cujos traços
A beleza da estátua consagrada
Sucede à cor enferma, às feias rugas,
Herdadas do trabalho e das vigílias.
VII
— Pátria querida, pátria gloriosa!
Continua fitando os horizontes,
— Se meu berço não foi teu grêmio ilustre,
As primícias te dei da mocidade,
Os labores do estudo, as flores da alma,
O sentimento e a vida! Abre-me o seio,
Tu, que foste a visão de meu futuro;
Tu, que serás o templo onde meu nome
Triunfará do frio esquecimento!...
E através do tempo enxergo longe! —
Mas, um suspiro trêmulo e sentido
Interrompeu-lhe a voz. — Oh! santo Mestre
O que tendes? Perguntam seus confrades,
Erguendo-se assustados. — Nada. É cedo!
Responde-lhes sorrindo; — é cedo ainda. —
Depois, volvendo os olhos às campinas,
Belas campinas que prezava tanto,
Assim continuou. — Não tarda o dia
Que estes amplos sertões, estes desertos
Se cobrirão de granjas e herdades,
De férteis plantações. Um povo livre
Será senhor das terras planturosas,
Onde, pobres romeiros, levantamos
Nossas precárias, miseráveis tendas.
Não importa! Lançamos, os primeiros,
As sementes da fé por estes ermos!
Hasteamos o lábaro divino
Sobre estes verdes montes, conquistamos
Em nome de Jesus estes desertos,
E o deserto maior das consciências
Desta raça feliz! Oh! meus amigos!
Não ouvis um rumor festivo e ledo
No perpassar dos zéfiros suaves
Que sopram do Ocidente? Nos vapores,
Que o sol tinge de púrpura brilhante,
Não vedes o painel de um novo mundo.
Coberto, não de aldeias belicosas,
Porém de vastos templos e castelos,
Ginásios e arsenais, belas estatuas,
E aquedutos cobertos? — Salve! oh gênios
Que afastais as cortinas do futuro!
O Senhor permitiu que antes das sombras
Pavorosas da morte, se aclarassem
Os olhos de seu servo! Hora suprema!
Hora da liberdade, sê bem-vindal —
VIII
— Quão formosa e louçã, quão prazenteira,
Reclina-se entre fortes baluartes
E risonhos vergéis, a nobre filha
Do argonauta Cristão, a soberana
Dos encantados mares do Ocidente!
Ao gesto criador do herói preclaro
Os broncos alcantis estremeceram.
E os gigantes horríficos do abismo
Rasgaram, praguejando, as penedias
Para dar-lhe um asilo! As verdes ondas
Engolfaram-se alegres petos vales,
Osculando as colunas florescentes,
Que sobre as águas plácidas avultam,
Hoje amenos jardins, leitos de fadas,
Ninhos de amores e mimosos berços
Enfeitados de lúcida escumilha.
Porém, cópia fiel, fiel transunto
Das tradições escuras dos Helenos,
Os titãs atrevidos se amontoam
Ao redor do meandro cristalino
Erguendo as negras frontes, requeimadas
Pelo fogo do céu, e as mãos tremendas,
Armadas de rochedos monstruosos,
Procurando escalar o vasto Olimpo!...
Na larga entrada do soberbo empório
O Adamastor da América repousa
À luz do sol brilhante, que lhe aquece
A cabeça medonha, escaveirada,
E o dorso horrendo, onde resvala o raio
Nos dias de tormenta: audaz colosso,
Robusto velador, que ao longe assombra
Os gênios do Oceano, e brada ao mundo:
— Em nome do direito e da justiça,
Podeis entrar no templo do futuro,
Sacrificar ao Deus da liberdade! —
Oh! como brinca mansamente o vento
Nos leves galhardetes dos navios
Das mais longes nações, que ávidas pedem
À terra da abundância e da riqueza:
— A pedra irmã da estreita radiante,
O ouro que do sol o brilho imita;
A madeira que a púrpura rebaixa;
O fruto que alimenta e que deleita;
A raiz que entorpece os sofrimentos;
O mamífero, o inseto, a flor, a folha,
O pássaro de voz melodiosa,
De penas multicores; novos seres,
Novos primores que os tesouros formam
Das artes, da ciência e do comércio,
E também da vaidade tantas vezes!...
Ah! não é tudo, não é tudo ainda!
O que minha alma de delícias enche
Nesta divina previsão da glória,
É o império da lei, — a majestade
Suprema da justiça; a luz serena
E firme da verdade, clareando
A escola, os templos e os degraus do trono!
A beleza moral! Que importam festas,
Pompas, folguedos, mentirosas galas,
Quando as instituições precárias brilham
Como as estátuas frias de Pompéia,
Que desfazem-se ao sopro das aragens!
Mas, entre o solo e o povo resplandece
O sinal da aliança, a nívea pomba,
Sustendo o verde ramo de oliveira,
Descansa aos pés do soberano ilustre
Que há de elevar o templo do futuro,
Arca sublime das grandezas pátrias,
E reviver o século de Augusto
No ciclo de ouro da brasília história!...
Oh! meus irmãos! A senha da partida,
O grito de Asrael, soa tremendo
A meus frágeis ouvidos! Vejo as sombras
Gloriosas dos justos que passaram!
Ouço a voz de meus santos companheiros
Que do empíreo me chamam, jubilosos!
Francisco Xavier, mártir das índias,
Nóbrega exímio, cândido Aspicuelta,
Paiva incansável, maioral querido
Do rebanho Cristão de São Vicente,
Luiz da Grã, Braz Lourenço, Antônio Pires,
Todos belos e fortes, animados
De zelo fervoroso, e tão depressa
Arrebatados pela fria morte
Às tabas convertidas que os pranteiam!
Oh! que felizes são! Que luz divina
Circunda-lhes as frontes, enastradas
De rosas imortais e lírios pulcros!
Que celestes amigos os rodeiam
Na suprema mansão! Eis o Batista,
O Cristo precursor do Cristo eterno,
Pedro, a pedra angular da santa Igreja!
Paulo, vencido pelo grande arcanjo!
Quantos outros, meu Deus!... — A voz sumiu-se
No seio enfraquecido do profeta.
As pálpebras cerraram-se tranquilas,
Os lábios entreabriram-se, e um sorriso
Ditoso, da criança que adormece,
Deixou passar o alento derradeiro
IX
Volve a teu negro exílio de amarguras,
Oh! desgraçada musa às turvas ondas
Do temeroso mar, onde rebramam
As fúrias das procelas populares,
Entrega o pobre esquife, onde guardaste
Teus mais formosos e adorados sonhos!...
Adeus! Nossa missão está completa!
[1] De fato, a citação correta de Dante é:
Vuolsi così colà dove si puote
ciò che si vuole, e più non dimandare.
[2] Muito provavelmente, esse verso deveria ser — Está ali Babilônia, — além a Pártia, para chegar ao decassílabo.