Canto VII
Canto VII
CANTO VII
I
Branca vestal do templo da saudade!
Musa da ausência, compassiva musa,
Que desfolhas nos páramos do exílio
As rosas da esperança, borrifadas
De lágrimas de amor, e suavizar
As vigílias do bardo forasteiro,
Repetindo as canções dos pátrios lares!
Biênio das tradições! Que pensamentos
Inspiras nestas horas de tristeza
Ao pastor do deserto? Quão serena,
Das altas cordilheiras do Ocidente,
Vem a noite ganhando os fundos vales!
Quão suspirosa a viração dos ermos
Passa no seio escuro dos silvados!
Quão gemedoras rolam das montanhas
Por entre os véus de espuma as cachoeiras!
— Oh! meu plácido berço! Oh Tenerife! —
Exclama o solitário alçando os olhos
Aos vastos céus azuis, — ilha querida,
Mimo do largo mar, cesta de flores
Esquecida na rota dos Fenícios!
De meu pio desterro inda te vejo,
Como sempre te vi nos belos sonhos
Da curta juventude! — As auras frescas
Brincam talvez agora nas videiras
Do rústico solar de meus maiores,
As ondas espreguiçam-se nas praias
Curvas como os alfanjes sarracenos;
O titã de granito ergue nos ares
A fronte audaz e ríspida, cingida
De um turbante de névoas sempiternas!
Nada mudou: nas penhascosas grutas
Pousam ainda os pássaros marinhos;
O possante albatroz estende as asas
Sobre o verde oceano; os líbios ventos
Trazem da terra firme as cantilenas
Dos sanguinários, rudes fetichistas!...
Mas de meus pais... só restam na jazida
Os carcomidos, alvacentos ossos!
Ali sumiu-se o nome de Anchieta!...
Calou-se o sábio. O orvalho da saudade
Pelas pálidas faces desusava.
Mas, um estrondo horríssono e profundo,
Como o estalar de transviada esfera
Nas regiões sombrias do infinito,
Retumbou nas extremas do Oriente!
O céu afogueou-se, o mar bramiu;
Cruzaram-se os relâmpagos, rasgando
A tela dos negrumes condensados
Sobre a face da terra: o anjo da morte
Sacudiu no Levante as asas negras!
Tomado de terror prostrou-se humilde
O sagrado pastor das soledades,
Invocando de Cristo o santo nome.
II
Sevo Alcácer-Quivir! Campo de opróbrio!
Campo das gemônias lusitanas!
Quão sinistro negrejas no horizonte
Do novo Ezequiel aos olhos fátuos!...
A noite cobre de tristeza e sombras
Os vastos ermos das brasílias terras,
Longe, longe, porém, resplandecente
Sobre o hemisfério oposto, o sol fulgura
Iluminando os areais medonhos
Da Núbia requeimada. — Horrenda historia
Traça convulso o gênio das batalhas
No brônzeo arquivo dos humanos feitos...
Lá desfraldam-se aos ventos do deserto
Os formosos pendões alvicerúleos,
Da Mauritânia horror! Fulgem as lanças
Senhoras do Ocidente e do Levante!
Ribombam os obuses vencedores
Dos filhos de Ismael, atordoando
As mesquitas do esposo de Kadija,
E afogando no fumo das bombardas
O brilho do crescente muçulmano!...
Sobre airoso corcel, alvo de neve,
Se arroja destemido o rei mancebo
No meio da peleja. Aos líbios tigres
Os leões portugueses se arremessam.
Os esquadrões, porém, dos circuncisos,
Pérfidos como os gênios fulminados
Das legendas hebreias, se distendem
De lado a lado em temerosa curva
Que procuram fechar, prendendo os bravos
Defensores da Cruz. — Soam os gritos
Que distinguem as crenças e as bandeiras.
Os cavalos relincham, devorando
O espaço que separa os combatentes:
A terra treme, as solidões acordam;
O delírio do sangue abrasa as frontes;
O demônio da vil carnificina
Tripudia entre corpos mutilados!
Quem será vencedor?... — Como a torrente
Que rola da montanha e se divide,
E, tornando a se unir, estreita os bosques
Nos líquidos anéis das turvas águas:
Ou, como o incêndio das columbas várzeas
Cresce, estende-se, ruge, abraça os campos,
E os rebanhos incautos cinge, e mata
Nas malhas infernais das labaredas,
Assim as hostes infiéis apertam
O exército Cristão! Hora solene!
Hora de desespero e de heroísmo!
Hora de morte ilustre ou vida inglória!...
Prodígios de bravura imortalizam
Os denodados terços portugueses!
Caem! O mundo beija-lhes os restos!
Hão de ressuscitar! Não tarda o dia!...
Mas a fatal sentença estava escrita!
O sol de Ourique se escondeu no Ocaso;
Um tufão de extermínio entrou rugindo
Nos régios alcaçares, e as ossadas
Dos sublimes heróis das eras priscas
Moveram-se nas urnas funerárias!
Uma sonora voz bradou sentida:
— Lísia!... chora teus filhos insepultos
Nas solidões das brenhas africanas!
Chora teu rei sem cetro e diadema,
Sem espada, sem cruz, e sem jazigo,
Lançado... aonde?... De seu fim nefário
Nem recebeste o estólido sarcasmo
Que sói usar o pérfido inimigo,
Quando nas mãos da infrene barbaria
Põe o destino o gládio da vitória!
.............................................................................
Mas a triste visão desaparece.
A graciosa aurora, a virgem jônia
De loiras tranças, de rosados dedos
Franqueia à luz as portas do Oriente.
Salve, etéreos clarões da madrugada!
Brilhantes arrebóis, aragens brandas,
Silfos travessos do deserto, salve!
III
Quem és tu, pensativo cavaleiro
Que do escuro corcel te apeias mudo
À soleira da ermida? O desalento
Altera-te as feições nobres e belas,
E um profundo pesar, não disfarçado,
Quebranta o brilho de teus olhos negros!
Quem és tu? De onde vens? Tristes noticias
Trago a vosso retiro, exímio padre. —
Diz o moço avistando o missionário.
— Bem vindo sejas, servidor de Cristo,
Responde o sábio mestre, que desgraças
Vens tu me anunciar? Fala, não temas,
Que tudo espero nesta quadra infausta.
— Caminho há quinze dias sem descanso,
Diz o pobre emissário, hei-vos buscado
Como o animal mordido da serpente
A fonte salvadora. O sangue, o luto,
Cobrem de Guanabara as alvas praias!
A voraz ambição da velha França
Infiltrou nas artérias dos selvagens
O veneno da raiva. — O surdo estrondo
Das clavinas de bronze se mistura
Ao silvo agudo das ervadas setas
No espaço afogueado. As feias hordas
Dos Tamoios cruéis, se precipitam
Dos montes e dos cerros escabrosos,
E as planícies dominam. Destemidos
Como leões resistem nossos bravos,
Mais terrível em número, contudo,
O inimigo fraqueia, que a vitória
Do soldado Cristão repousa ao lado.
Quando, porém, a lua vagarosa
Dourava os verdes, plácidos outeiros
Da linda Niterói, um brado horrendo
Correu lançando a confusão e o susto
Entre nossos valentes lidadores:
— É morto o chefe! — O gelo do desânimo
Os braços enfraquece, esfria os peitos,
Extingue o fogo ardente dos combates
Nos olhos dos guerreiros. — Os mais nobres
E sábios campeões deixam as armas,
E beijam soluçando as mãos geladas
Do ilustre moribundo!… — Oh! Deus eterno!
Exclama o comovido mensageiro,
Eu o vi, eu o vi... pálido e belo,
Transpassado de aguda, ervada flecha,
Sobre o arenoso chão! De espaço a espaço,
Vendo seus denodados companheiros
Vencidos pela dor, movia os lábios,
Procurava faltar... Baldado esforço!
Uma golfada de espumoso sangue
Do seio rebentava, estranho lume
Incendeia-lhe os olhos, e de novo
Caía extenuado!... À meia noite
Deixava de existir. — Fatalidade!
Murmura o missionário. — O que me dizes,
Piedoso guerreiro! Estácio é morto!
Estácio, o fundador do grande empório
Das riquezas do Sul! — No verde monte
Que mais se alonga no espumoso pego,
E primeiro descobre a vasta barra,
Nós abrimos do herói a sepultura;
Os servos do Senhor, trajando luto,
Cantaram junto ao corpo os hinos santos
Do livro das divinas epopeias.
Depois ao triste adeus da artilheria
Que os vales atroava, o depusemos
No funerário leito. — À madrugada,
Seguindo as instruções de vossos freires,
Parti a procurar-vos. Eis a história
Do lúgubre sucesso: eis o depósito
Que tenho de entregar-vos. — O mancebo
Tira do seio um grosso manuscrito,
Que ao ministro apresenta. — Cumpre agora
Que descanses um pouco e te alimentes,
Vamos. — E entraram na ermida um após outro.
IV
Como desfeita está! Como caminha
A filha do sertão, triste e abatida
Pela seva doença! Desbotaram
No gracioso rosto as belas rosas,
Emblemas da viçosa mocidade,
Acabou-se a frescura de seus lábios,
E a luz suave dos fagueiros olhos
Sumiu-se para sempre! — Chora, chora,
Desgraçada Naída! — O hiberneu vento
Da fronte juvenil sacode as flores!
Ermo de anelos, de ilusões vazio,
Bate teu coração, e as asas cerras,
Tímida rola das florestas virgens,
Deixando o mundo na estação dos risos!...
Do limiar da porta o sábio a enxerga,
E disfarçando com palavras meigas
A emoção que o domina, a mão lhe estende,
E a faz entrar no hospitaleiro alvergue.
V
Ao meio dia, reunida à sombra,
A caridosa grei, o missionário
Ergue a voz eloquente, e continua
Da redenção a história milagrosa.
— Sinto-me enfermo e fraco, as tristes novas
De uma luta cruel, o pensamento
Dos males e perigos que nos cercam,
A sinistra impressão, talvez, de um sonho,
Mas de um sonho fatal, minha alma oprimem.
Escutai-me, contudo, sede atentos.
VI
Sobranceiro aos manejos da calúnia,
Aos enredos da inveja, às ameaças
Dos desleais, protervos sacerdotes,
Na divina missão, Jesus prossegue,
Arrostando os bulcões da tempestade,
Que seus dias terrestres assoberbam.
Era o domingo consagrado à festa,
Com que celebra o povo Israelita
As árduas provações de seus maiores
Nas planícies do Egito. As verdes silvas,
As balsas florescentes dos outeiros
Se arriavam de pérolas e opalas
À luz do sol nascente; alegres bandos
De alvas cegonhas, de faisões travessos,
Brincavam pelas margens dos arroios,
Encantados do aroma e da frescura,
Que as serenas campinas inundavam.
Como as aves, contentes, como as flores,
Louças e donairosas, pelos vales
Corriam da Judeia as lindas filhas,
Cheia a imaginação de amores fáceis,
E, como sempre... o coração vazio.
Ora, naquele tempo, descansava
Rodeado dos seus o excelso Mestre,
Em saudoso retiro junto à fralda
Da montanha das velhas Oliveiras;
E como visse as buliçosas turbas
Que atravessavam lépidas os prados
Demandando a cidade — a dois amigos
Disse, apontando ao longe a aldeia humilde,
Entre viçosos pâmpanos oculta:
— Ide àquele lugar; vereis, entrando,
À vossa destra, presa uma jumenta,
E ao lado dela um tenro jumentinho,
Trazei-mos sem receio. Se, contudo,
Alguém vos perguntar quem vos envia,
Respondei — o Senhor: — no mesmo instante
Vos deixarão voltar. Logo partiram
Os sócios de Jesus a largos passos,
E o divino mandado executando,
Trouxeram sem trabalho e sem tardança
Os mansos animais. — Predito fora
Pelo antigo profeta este sucesso,
E as menores, mais leves circunstâncias,
— Pondera o escrupuloso missionário —
Ouvi a predição: — Direi à filha,
À filha de Sião, eis se aproxima
Sobre rude jumenta, vagarosa,
O vosso grande rei. — Porém, chegados
Os servos do Senhor, os grossos mantos
Ao dorso do animal prestes lançaram,
Onde sentou-se Cristo, e pensativo
Seguiu caminho da cidade eterna.
Vingava o sol na cúpula celeste
O meio de seu giro diuturno,
Quando a Jerusalém, não dos profetas,
Não de Davi, o bardo soberano,
De Salomão o sábio, mas a triste
Jerusalém dos Césares, — ao longe,
Apareceu na fímbria do horizonte,
Aos olhos do Senhor; ondas de povo
Corriam dos casais ao seu encontro,
Ondas de povo se agitavam ledas
Na pedregosa estrada que trilhava,
E seguiam cantando almos louvores.
VII
Glória! os hebreus clamavam, Glória! Glória.
Ao filho de Davi! Bendito seja
O que em nome de Deus vem das alturas!
E estendiam por terra os seus vestidos,
Quais régios servos pérsicos tapetes
Na passagem dos príncipes. — Hosana!
Gritavam as crianças e as donzelas
Desfolhando boninas odorosas,
Cobrindo o chão de verdejantes palmas.
Glória ao Senhor, ao Mestre! — Glória a Cristo I
E o séquito engrossava, os camponeses,
Romeiros e pastores, se ajuntavam
À roda de Jesus, os viandantes
Saudavam-no de longe. Dir-se-ia
A entrada triunfal de herói preclaro
Da pátria amada ao suspirado grêmio
Depois de longa ausência. — Glória! Glória!
Repetiam os ecos das montanhas.
Cedo em Jerusalém correu a nova
Da brilhante ovação, e os sacerdotes
Raivaram como as serpes peçonhentas,
Quando pressentem das imundas covas
O tropel das ovelhas. — Oh! bem vemos,
Os fariseus diziam, disfarçando
Os furores satânicos da inveja,
O vulgacho está cego! O Nazareno
Fascina as multidões. — Outros, audazes,
Dirigem-se ao Senhor e assim lhe falam:
— Mestre, fazei calar vossos amigos! —
— Se os fizesse calar, responde o Mestre,
Clamariam talvez as próprias pedras! —
Depois, volvendo os olhos compassivos
Para as colunas áridas, fronteiras,
Vendo, já perto, a célebre cidade
Com seus velhos eirados, com seus muros
Pelo roçar do tempo enegrecidos,
E os grossos bastiões, onde ociosos
Os soldados romanos palestravam,
Abaixou suspirando a bela fronte,
E disse estas palavras memoráveis:
— Jerusalém! Jerusalém! Se ao menos
Pudesses conhecer o que te salva,
E te assegura a paz! Mas, os teus olhos
Nada por ora enxergam no futuro!
Entretanto, há de vir um dia infausto,
Um dia de terror! Teus inimigos
Te apertarão num sitio pavoroso!
Por terra cairás, tu e teus filhos,
Tudo o que te pertence, e os porvindouros
Não acharão mais pedra sobre pedra
Sobre teu frio chão! Desconheceste
O tempo em que teu Deus te visitava! —
E as lágrimas sentidas enxugando,
Chegou Jesus às portas da cidade.
VIII
Quem se aproxima de Sião? Quem sobe,
Precedido de cânticos festivos,
Essas ladeiras íngremes? — Não vedes? —
É Jesus, o profeta, diz o povo,
— Olhai — que majestade no semblante!
Que nobreza no gesto, e ao mesmo tempo
Que doçura no olhar e no sorriso! —
E as crianças gritavam — Glória! Glória!
Ao filho de David! — Que!... murmuravam,
Na vaidade cruel mortificados
Padres e fariseus, — estes meninos
Repetem nescidades e mentiras!
Escutai o que dizem! — Bem escuto,
Responde o Salvador, — eles recordam
Os conceitos das antigas profecias.
Pois não lestes alhures: É dos lábios
Das tenras criancinhas que dimanam
Os perfeitos louvores? Por ventura
Dos santos livros não volveis as folhas? —
Cheios de confusão não replicaram,
Jesus passou além, buscando o templo.
IX
Eras de opróbrio, de ambições mesquinhas,
De vil degradação! A grande ideia
De um Deus Onipotente, Eterno e Justo
Perdia-se entre práticas profanas
E preconceitos vãos. — As velhas crenças,
As tradições heroicas do passado,
As lembranças dos santos patriarcas,
Tudo se corrompia e se alterava,
Mesclava-se por fim dos atros vícios
E dos usos pagãos dos estrangeiros.
Deixando as aras dos latinos deuses,
E os festins dos soldados crapulosos,
Sentavam-se os judeus no vasto templo
Expondo à venda joias e brocado,
Mágicos talismãs, rudes abraxas,
Amuletos grosseiros, e — miséria!
Apregoando pombos e outras aves,
Barganhando muares, e enganando
Do pobre povo a chã credulidade,
E filhos de Abraão se declaravam!
X
Junto das brancas, lúcidas colunas,
Cobertas de lavores primorosos,
Onde, segundo as crônicas antigas,
Adoniran sentava-se, o arquiteto
Do grandioso, esplêndido edifício,
Jesus parou, relanceando os olhos
Sobre o povo sacrílego, avarento,
E não mais dominando a justa cólera,
Salta, as caixas derruba, as mesas quebra,
Toma um rolo de cordas retorcidas,
Cai sobre os detestáveis mercadores
E os expele do templo.
— ímpios, falsários,
Sabei que escrito existe: a minha casa,
A casa da oração será chamada!
Não a mudeis em furna de bandidos,
Ou taberna de sórdidos negócios! —
Calou-se o Mestre, e como serenasse
A nobre exaltação, viu que chegava
Grande cópia de míseros enfermos
Que vinham-lhe pedir saúde e vida.
A todos, um por um, bondoso e meigo
Dirigiu-se Jesus: tirou a sombra
Que, deste escurecia os fundos olhos,
Deu aquele vigor, deu aquele outro
O movimento, a força, a atividade,
Que lhe roubara a lívida doença,
A todos a saúde, a paz a todos.
XI
Ora, Jerusalém na bela quadra
Das festas anuais, pomposas festas,
Célebres entre os povos levantinos:
Jerusalém, a tela descorada,
O esquecido jardim, o antigo paço
Das delicias do Cântico dos cânticos,
Tornava-se uma feira turbulenta,
Onde se apinhoavam peregrinos
E mercadores das mais longes terras.
Muitos gentios, que esse nome tinham
Os crentes de outra lei, ouvindo a fama
De tantas curas, de milagres tantos,
Aos amigos do Mestre suplicaram
Que os levassem a vê-lo. Satisfeitos,
Lhes disse o Salvador: — Não tarda o dia
Em que o filho do Homem, vos afirmo,
Será glorificado; o grão de trigo,
Que não morrer, caindo sobre o campo,
Sozinho ficará; mas ao contrário,
O vereis produzir propícios frutos
Se acaso perecer. Quem ama a vida,
Bem cedo a perdera; quem a despreza,
Mais feliz viverá na eternidade.
Quem segue minha lei venha comigo,
Seja meu companheiro de jornadas,
E se alguém me servir, meu Pai celeste
De glória o cercará!... Porém, minh'alma
Toda turbada está neste momento!
Que poderei dizer? Livra-me, Padre,
Das angústias que sinto, e glorifica,
Senhor, teu santo nome! — Então do espaço,
Onde não pairam nuvens, e flamejam
Braseiros imortais, partiu solene
Uma voz que dizia: — Entre os arcanjos
Eu o glorifiquei, mas glorifico
Segunda vez ainda! — O rude povo
Que se achava presente, amedrontado
Murmurou entre si: — o céu é claro,
Como brame o trovão? — Nos bem ouvimos,
Dizem os anciãos, crede, meus filhos,
Da tempestade os fúnebres rugidos
Não ecoam assim! Etéreo nume
Responde às tristes queixas do profeta!
— Não por mim, mas por vós, míseros cegos,
Essa voz levantou-se do infinito!
Continuou Jesus, — e, pois, agora
A terra está julgada! De entre os vivos
Vai ser expulso o príncipe do mundo!
— Nós sabemos, açode um publicano,
Que eternamente permanece o Cristo,
O que dizeis então? — Por pouco tempo
Inda a luz se conserva entre vós outros,
Aproveitai a luz, que não vos cerquem
As enganosas trevas! Vede, é tempo!
Crede na luz enquanto a luz não foge! —
Disse e afastou-se. Os fariseus rebeldes,
Os escribas, e os néscios publicanos,
Apesar de tão lúcidas verdades,
De tão altos prodígios, se calaram,
Duvidando do Filho de Deus vivo.
Assim devera ser, o grande gênio
Do sublime Isaías, predissera
Todas as circunstâncias deste caso,
Quando exclamava lacrimoso outrora:
— Quem prestou atenção e ouviu contrito
0 que dissemos nós? A quem no mundo
O braço do Senhor manifestou-se?...
Cobriu seus olhos de pesadas sombras
E os frios corações tornou de pedra,
Que não vissem seus olhos, nem batessem
No seio os duros corações, medrosos
Que eu lhes mostrasse a luz e desse a cura!
XII
Mas em conselho oculto, reunidos,
Tinham determinado os sacerdotes,
A morte de Jesus. Eles sabiam
Que desse povo estulto e leviano,
Nenhuma oposição, nenhum protesto
Se ergueria, sequer, contra a injustiça
Da nefária medida. — Longo trato,
Fundo conhecimento das tendências,
Das propensões, da índole malvada
Da sanguinária gente, asseguravam
Um êxito propicio ao plano horrendo
Dos verdugos hipócritas. — Infâmia!
As turbas, que nas grandes praças,
Saudavam de Davi o ilustre filho;
Que nos degraus do templo e nos alpendres
Das moradas campestres, recebiam
Daquele Deus da paz e da esperança
O consolo; a saúde, o pão e a vida;
Que traziam-lhe as tenras criancinhas,
E imploravam-lhe a benção de joelhos;
Que beijavam-lhe a medo a pobre túnica,
Pedindo a salvação, — ora, folgavam
Vendo estender-se à sombra do suplício
Sobre o divino Mestre!... Prescindindo
Que forjavam-se os ferros do martírio!
Que estava perto a morte, feia morte,
Morte nefanda e crua! — Os mesmos braços,
Que se estendiam súplices e humildes,
As mesmas mãos que abriam-se convulsas,
Pedindo a esmola, o pão quotidiano,
O pão da Caridade que alimenta
O pobre corpo e o espírito indeciso,
As mesmas mãos, ingratas e traidoras,
Iam erguer as pedras do caminho,
Lançá-las contra o manso Nazareno!
Iam manchar-se no divino sangue,
No sangue sacratíssimo do Justo!
Israel! Israel! que não fizeste!
XIII
Quem te deu o poder, a autoridade
De censurar a lei, — fazer milagres,
E reformar doutrinas? — Onde a norma
De teus atos achaste? — perguntaram
Depois os fariseus, padres e escribas
Ao filho de Maria. — Respondei-nos!
— Hipócritas! se tendes o direito
De vir interrogar-me, também quero
Saber o que pensais, — nada de ambages!
Era dos homens, ou de Deus provinha
O Batismo de João? — Embaraçados
Consigo discorreram: — se afirmamos
Que era do céu, acudirá, de certo;
— porque não crestes nele? — se ao contrário,
Dissermos que dos homens, todo o povo,
Que a memória respeita do Batista,
Se erguerá contra nós! O que faremos? —
E disseram depois de longa pausa:
— Grandes dificuldades hoje aventas!
Quem as pode solver? — Então calai-vos,
Responde o Salvador, por minha parte
Não vos direi também de onde dimana
A minha autoridade. — Dirigiu-se
Depois às multidões, que não perderam
Uma palavra, só, deste incidente:
— Plantou um lavrador extensa vinha,
Arrendou-a a diversos camponeses,
E depois se ausentou por largo tempo.
Num dia de verão, que repousavam
À sombra do arvoredo, chega um servo,
E em nome de seu amo pede os frutos
Da vinha que deixara: enraivecidos
Pulam os vinhateiros e maltratam
O desgraçado servo, que regressa
Molesto e ensanguentado; vem segundo,
Vem terceiro emissário, e a mesma sorte
Sofrem, e o mesmo fero espancamento.
— Cumpre-me agora, o lavrador pondera,
Uma vez que meus fâmulos repelem,
Mandar meu próprio filho, o filho amado,
Que os chame a seu dever. — Sem mais tardança
Envia o primogênito. De longe,
Avistando o mancebo, os vinhateiros
Reúnem-se apressados e resolvem:
— Não voltam mais os servos timoratos,
Vem agora o herdeiro, assassinemos
O importuno senhor... a vinha é nossa.
E lançaram-se à vítima inocente,
E a deitaram por terra inanimada!
Que restará fazer? Que providência
Dará o lavrador? — Virá terrível,
Matará sem piedade os vinhateiros,
E a outros mais fiéis e caridosos
A vinha entregará! — Deus não permita
Que suceda tão feia atrocidade! —
Dizem os fariseus, depois que o Mestre
Concluíra a parábola agourenta.
— Escrito está, — o Salvador prossegue:
A pedra, que os obreiros esqueceram,
Pedra angular será do grande templo;
Quem sobre ela cair, por muitos evos
Ficará quebrantado, e o desditoso,
Sobre quem despenhar-se, em mil pedaços
No pó do escuro chão será desfeito! —
Compreenderam bem os sacerdotes
E os seus torpes asseclas, o sentido
Destas palavras temerosas, viram
De quem o santo Mestre se ocupava!
O farpão da ironia entrou, bem fundo,
Nos ímpios corações, e exacerbando
O ódio que lá estava. Houve um momento
Em que pensaram na medida extrema,
Que em secreto conselho resolveram.
Convinha agora lançar mão de Cristo.
Conduzi-lo a prisão? — Grave imprudência
Seria o praticar. E por ventura
Consentiria o povo, o rude povo,
O povo turbulento que o saudava
Como um libertador? Que arrostaria,
Não talvez por amor, piedade ou zelo,
Mas por vingança, ou desabafo, as iras
De seus velhos tiranos e exatores?
Era mister cautela. Antes, por isso,
De arrebatar ao povo o seu profeta,
Cumpria procurar por mil maneiras,
Que dele se afastasse o próprio povo:
Foi dos pérfidos este o grande empenho.
Começa a obra de Satã. Farejam
Por toda a parte os espiões indignos
As pisadas do Mestre; urdem ciladas,
Acumulam embustes; — os doutores
E os escribas rodeiam-no, propondo
Perigosas questões, em cujos termos
A serpente traidora está latente,
Como entre as flores de um jardim formoso;
E ensinando a brandura e a caridade,
O Salvador caminha entre verdugos!
— Mestre, consulta um saduceu, conheço
Que és sábio, verdadeiro, pio e reto.
Que da virtude desbravais as trilhas
Sem calcular futuras consequências;
Dizei-me: — é justo que se pague a César
O tributo exigido? — Ora, pensava
O fariseu astuto, ei-lo vencido:
Se assevera que não, ao rei ofende;
Se assevera que sim, o povo irrita! —
O Salvador sorriu, vendo a malícia
Desta cruel proposta, — refalsada,
Traidora como a faca de dois gumes.
— Hipócrita! — exclamou, porque me tentas?
Deixa ver a moeda do tributo! —
Então mostrou-lhe o pérfido um dinheiro
Onde a efigie de César ressaltava.
Jesus leu a inscrição e erguendo os olhos,
Severo perguntou: — Quem representa
Esta imagem que vejo? — César, Mestre. —
— Pois bem, o que é de César, dai a César,
E a Deus o que é de Deus! — Esta resposta
Encheu de confusão quantos a ouviram;
Calou-se o fariseu. — Mas era o dia
Do jogo vil da astúcia e da maldade.
Chegou a vez dos saduceus, contrários
Ao da Ressurreição divino dogma.
— Mestre — um deles falou, nos santos livros
Deixou Moisés escrito; — A lei ordena:
Se algum varão morrer, logo a viúva
Ao seu segundo irmão deve ligar-se
Para dar sucessão ao falecido.
Eram, pois, três irmãos: morto o primeiro,
A viúva passou para o segundo;
Morto o segundo, ao último se uniu,
Este morreu também, e como os outros,
Herdeiros não deixou; por fim, mais tarde,
Segue a mulher a sorte dos maridos.
Quando a trombeta do medonho arcanjo
Ressoar pelos términos do mundo,
Chamando os mortos ao juízo eterno,
E abrirem-se os sepulcros, vomitando
A luz do dia os homens redivivos,
Qual d'esses três irmãos, esposos todos,
Todos senhores de um igual direito,
Será julgado o verdadeiro esposo? —
— Cegos! — não conheceis as Escrituras,
Nem refletis de Deus na Onipotência!
Exclama o Salvador. — Findas as provas
Da terrestre jornada, a lei se acaba,
Que rege a criação sujeita à morte.
O que provém do tempo o tempo guarda,
O que se dá no espaço o espaço encerra.
Aos olhos do Senhor, quebram-se os laços
Da união secular, — só prevalecem
Eternas leis, princípios imutáveis;
Nem existem maridos, nem mulheres,
Senão anjos benditos, engolfados
Na gloriosa luz do Paraíso! —
— A verdade manou de vossos lábios,
Como um profeta respondeste, Mestre! —
Os escribas disseram. Confundidos
Os fariseus rebeldes se afastaram.
XIV
Ao sol posto, chamando os companheiros,
Retirou-se Jesus para a Betânia,
Tranquila estância, plácido remanso,
Propício à reflexão; passou a noite
Nessa querida aldeia, povoada
De lembranças dulcíssimas da infância,
E ao romper da alva regressou, de novo,
Ao teatro das áridas contendas;
Era brilhante o céu, calmoso o dia,
Tristonha a solidão; — não muito longe,
Pendida à margem de sereno arroio,
Divisou o Senhor bela figueira,
A cem passos da estrada, e cujos galhos
Supôs cobertos de gostosos frutos;
Aproximou-se, pois. Fátua esperança!
Lustroso estava o tronco e as folhas verdes;
Mas nem sequer um figo. Mudo emblema
Das falazes grandezas deste mundo!
Imagem da estultícia aparatosa!
— Maldita sejas tu, árvore ingrata,
Que não vales o orvalho que te molha,
E o calor que te alenta! — disse Cristo.
Nunca mais o cansado viandante,
Ou a frágil criança encontrem frutos
Em teus galhos mirrados! — Quando à tarde
Os cabreiros voltavam da montanha
A frondosa figueira que deixaram
Tão forte à madrugada, estava seca,
Denegrida, sem folhas, e lascada
Como se o fogo abrasador do raio
A tivesse tocado. — Os camponeses,
Amigos de abusões e sortilégios,
Ao rol extenso dos sinistros contos
De seus longos serões acrescentaram
A lenda escura da fatal Figueira.
XV
Mas, em Jerusalém, de volta, Cristo
Viu-se outra vez cercado dos escribas,
E doutores da lei. Aniquilados
Pelas duras lições, pelos exemplos
Aspérrimos dos dias precedentes,
Os fariseus corridos se esquivavam
De mais o interrogar, que bem sabiam
Pronto a lhes responder, deixando ensejo
De seus rivais aos ódios e sarcasmos;
Os saduceus contentes exultaram;
Eram, pois, os senhores do terreno,
Onde digladiavam-se os embustes,
E o pendão da impostura flutuava.
Um dos seus campeões chegou-se ao Mestre,
E assim principiou: — Qual o primeiro
De nossa lei sagrado mandamento? —
— Adorarás teu Deus, Jesus responde,
Sobre todas as cousas, com pureza,
Com todo o coração, crença e humildade:
Eis o primeiro mandamento; o outro,
Grande como este, e deste deduzido,
Diz assim: — Amarás teu semelhante,
Teu igual, teu irmão, como a ti mesmo.
Estes dois mandamentos compreendem
Toda a lei de Moisés e dos profetas. —
Os saduceus calaram-se, temendo
Que deste ponto o Salvador passasse
Ao divino mistério, que negavam.
Porém Jesus, voltando a outro assunto,
Perguntou, dirigindo-se aos escribas:
— E quanto a vós, o que pensais de Cristo?
De quem o credes filho? — Nós julgamos
Que é filho de Davi, — lhe responderam.
— Como! O grande monarca, o rei piedoso,
O chama seu Senhor, e humilde exclama:
O Senhor glorioso e Onipotente
Falou a meu Senhor: — à minha destra
Senta-te, que farei de teus contrários
Estrados de teus pés!... — Cativo o povo
Da maviosa voz e das palavras
Claras, distintas, do divino Mestre,
Conservava-se mudo e respeitoso.
Não longe do lugar em que se achavam
Era o gazofilácio, o pio cofre,
Onde lançavam grandes e pequenos
As desiguais ofertas, liveladas
Pela santa intenção. Os opulentos
Faziam retinir áureas moedas,
Os indigentes o óbolo molhado
De viscoso suor, de amargo pranto:
Quando ninguém mais vinha, adiantou-se
Uma infeliz viúva a lentos passos,
E erguendo a magra mão, depôs na caixa
Duas moedas de valor mesquinho.
— Olhai, diz o Senhor aos assistentes,
Mais do que todos, abastados, ricos,
Foi generosa a mísera viúva!
Do muito que sobrava os outros deram,
Mas, ela da desgraça e da pobreza
Deu tudo quanto tinha, e que restava
Para enganar a fome de alguns dias! —
E prosseguiu depois de breve pausa:
— Oh! guardai-vos daqueles que preferem
A ostentação à cândida modéstia!
Guardai-vos dos escribas, que se cobrem
De pomposos vestidos e se orgulham
Das saudações do vulgo mentiroso!
Que procuram nas mesas dos banquetes
As melhores cadeiras, e disputam
O primeiro lugar nas sinagogas!
Que devoram as casas das viúvas
E simulam orar! Sobre eles pesa
Maior condenação, pena mais grave! —
E calou-se Jesus. — Muitos doutores,
Muitos juízes e anciãos do povo
Creram no Salvador, mas não ousaram
Reconhecê-lo em público, temendo
Serem das sinagogas despedidos.
Triste vaidade! Escrúpulo perverso!
XVI
Como crescesse o número de ouvintes,
E os fariseus e escribas se escondessem,
Jesus continuou: — Porém, vós outros
Não cobiceis o título de — mestres!
Tendes um Mestre só, irmãos sois todos!
Ninguém chameis de pai, um Pai só tendes,
Que vos julga dos céus! O que se humilha
Exaltado será, mas o soberbo
Ficará no lugar dos pobres servos!
Ai! de vós, fariseus e escribas falsos!
A terra toda percorreis e os mares
Para formar apenas um prosélito,
Se o conseguis formar, ei-lo mais digno
Do inferno que de vós! Míseros cegos
Que um mosquito afastais, e descuidosos
Engolis um camelo! — O que transborda
Solícitos limpais da taça de ouro,
Mas no fundo deixais as fezes negras,
E a imundice do vício. Eu vos comparo
A esses brancos túmulos, cobertos
De todo o luxo da vaidade humana,
Por fora emblemas e inscrições brilhantes,
E dentro a morte e carcomidos ossos!
Ai! de vós fariseus e escribas feros,
Que levantais monumentos aos profetas,
E ornais dos justos a mortal jazida!
Serpes traidoras, víboras danadas,
Arde por vós o fogo da Geena!
Eu vos envio sábios e videntes,
E vós os açoitais nas sinagogas,
Vós os pregais na cruz, para que volte
Sobre vossas cabeças ominosas
O sangue da inocência que vertestes;
Sim, todo o sangue, desde Abel o justo
Até o reto e nobre Zacarias
Que entre o divino altar e o santuário
Assassinastes, bárbaros algozes!...
Jerusalém! Jerusalém! trucidas
Os profetas que Deus abençoara,
E apedrejas seus justos enviados!
Oh! quantas vezes não tentei zeloso
Teus filhos reunir, qual sob as asas
Ave caseira a prole timorata!
Não o quiseste! sofrerá teu povo,
E ficarás deserta e envilecida! —
Assim dizendo retirou-se Cristo.
XVII
O átrio do templo, alegre, iluminado
Pelos raios do sol, naquelas horas
Recordava uma festa. Os operários
Descansando dos áridos trabalhos
Sobre os bancos de pedra conversavam;
Aqueciam-se os velhos friorentos
Ao suave calor do astro propício;
As ingênuas mulheres e as crianças
Que saltavam risonhas nas calçadas,
Vendo o divino Mestre aproximar-se,
Abriam-lhe caminho, proferindo
Jubilosos louvores: — Salve, Mestre,
Pai dos enfermos e dos pobres, salve! —
Cubra-te Deus de bênçãos incessantes,
Jesus de Nazaré, que participas
Das tristezas e mágoas de teu povo!
Toma nossa defesa e nos protege,
Enviado do Altíssimo! Os tiranos
Tremem de ouvir teus lúcidos discursos! —
Assim a gratidão e o amor falavam,
E este, não da lisonja, ameno incenso
Aprazia ao Senhor. Quando se expande
Sincero o coração, celeste gênio
Dá sublime eloquência aos desgraçados.
A fachada do templo, os grandes arcos,
O pórtico espaçoso, obras soberbas
De forte alvenaria, o enorme vulto
Desse prodígio de cimento e pedra,
De novas reflexões tornou-se o assunto.
— Que portentosa fábrica! — exclamaram
Os amigos de Cristo; vede, Mestre,
Quão formidáveis são estas muralhas!
Estes grossos portais, estas cornijas
Que parecem de bronze! O próprio templo
Não se atreve a manchar tantos primores!
— Que pensamentos vãos! — Jesus responde:
— Como virá sentar-se a eternidade
Sobre as obras dos homens? O futuro
Há de mostrar os erros do presente.
O furacão do estrago, a noite horrenda,
Passarão por ali. Friso por friso,
Pilastras, coruchéus, muros espessos,
Maravilhas das artes, das riquezas,
Cairão — para sempre. — Imundas serpes
Se arrastarão tardias sobre o solo,
Onde se eleva agora o santuário!
Então lhe perguntaram seus amigos:
Quando sucederão estas desgraças,
Estas calamidades assombrosas
De que falais, Senhor? Quais seus princípios,
E os sinais precursores! — Sede firmes,
Responde o Salvador com voz solene,
Não vos deixeis levar pela mentira
E aparências falazes, — nesse tempo
Muitos virão debaixo de meu nome
Dizendo: Eu sou Cristo! — Então o mundo
Será um campo imenso de batalha!
Armar-se-ão impérios, contra impérios,
E reinos contra reinos! Como os tigres,
Os povos rugirão se espedaçando!
Os rios secarão, e à luz sinistra
Do esbraseado céu, as torvas ondas
Descobrirão os fundos dos abismos,
Os vórtices de horrendos sorvedouros!...
Por toda a parte onde existir colinas,
Altas montanhas, escabrosos cerros,
Rebentarão vulcões! Gretado o solo,
Retalhado de fendas pavorosas,
Vomitará torrentes de betume,
Súlfur ardente, labaredas vivas!
As ossadas dos velhos megatérios,
Dos broncos, monstruosos mastodontes,
Rudes leviatãs, dragões enormes,
Como a espuma dos vinhos fermentados,
À flor da terra surgirão! Os mortos
Sacudirão as cinzas dos sepulcros,
E ao clangor da trombeta atroadora
Correrão tropeçando sobre escombros
Ao negro vale do juízo eterno,
Ao fundo Josafá! — Antes, contudo,
Destas cenas finais, sereis de rastros
Levados às tremendas sinagogas,
Das sinagogas às prisões sombrias,
Das prisões aos martírios inauditos!...
Não cogiteis respostas, nem defesas,
Que vos darei palavras e virtudes,
Fortes, irresistíveis! — Sede firmes,
E nada perdereis: na paciência
Tendes a salvação, tendes a glória.
Então, sobre uma nuvem radiante,
Vosso libertador vereis, que desce
Cheio de luz, poder e majestade!
Refleti no que digo, — passa o tempo,
Ha de passar o céu, passar a terra;
Porém, como as verdades infinitas,
Não passarão jamais os meus preceitos! —
Calou-se o Salvador, volveu tristonho
Um derradeiro olhar, olhar pressago,
Sobre as ondas de povo que o cercavam,
Que humildes escutavam seus discursos,
E que amanhã... Logo, porém, chamando
Os singelos amigos, retirou-se,
E ao monte caminhou das Oliveiras,
Onde, depois das prédicas diárias,
Soía descansar, longe das turbas. —
Proferindo estas últimas palavras,
Também ralou-se o narrador piedoso,
O profeta das turbas do deserto.
XVIII
Cumpria então, as instruções seguindo,
Que lhe trouxera o moço mensageiro,
Expor aos anciãos, contar aos chefes
Dos brasílios guerreiros, as desgraças,
Que a nova comunhão ameaçavam.
Reunir os mancebos, instiga-los
A deixar o remanso das florestas
E juntarem-se aos bravos lidadores,
Que o sagrado estandarte defendiam,
Nas planícies da extensa Guanabara.
Grande parte da noite em conferência
Entre os chefes, passou o ilustre padre;
Ao alvejar da aurora eram de acordo
Sobre o alvitre melhor, sobre as medidas
Que o tempo e as ocorrências reclamavam.
E voltava de novo o mensageiro
Às celebradas praias fluminenses.